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Os dias eram assim

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“Assim como a criança repete as palavras da mãe, e os mais jovens repetem as maneiras grosseiras dos mais velhos que os submetem, assim o alto-falante gigantesco da cultura industrial, berrando através da recreação comercializada e dos anúncios populares – que cada vez menos se distinguem uns dos outros – replicam infinitamente a superfície da realidade. Todos os engenhosos artifícios da indústria de diversão reproduzem continuamente cenas banais da vida, que são ilusórias, contudo, pois a exatidão técnica da reprodução mascara a falsificação do conteúdo.

Essa reprodução nada tem em comum com a grande arte realista, que retrata a realidade a fim de julgá-la. A moderna cultura de massas, embora sugando livremente cediços valores culturais, glorifica o mundo como ele é. Os filmes, o rádio, as biografias e os romances populares têm todos o mesmo refrão: esta é a nossa trilha, a rota do que é grande e do que pretende ser grande – esta é a realidade como ela é, como deve ser, e será.” (Panacéias em conflito, Horkheimer: 1976, p.69)

[…]

“Os produtos da indústria cultural podem ter a certeza de que até mesmo os distraídos vão consumi-los alertamente. Cada qual é um modelo da gigantesca maquinaria econômica que, desde o início, não dá folga a ninguém, tanto no trabalho, quanto no descanso, que tanto se assemelha ao trabalho. É possível depreender de qualquer filme sonoro, de qualquer emissão de rádio, o impacto que não se poderia atribuir a nenhum deles isoladamente, mas só a todos em conjunto na sociedade. Inevitavelmente, cada manifestação da indústria cultural reproduz as pessoas tais como as modelou a indústria em seu todo” (Adorno & Horkheimer: 2006, p. 105).

Tecnologia e dominação ideológica na Escola de Frankfurt

A Globo brande o título de sua série como uma corroboração. “Os dias eram assim”. Ou seria melhor “Os dias eram assim mesmo”? Não poderiam ter sido diferentes aqueles dias. O passado congelado e, tal como gravado na pedra, não pode ser mudado. Mas de sua pétrea perspectiva lança um anátema ao presente e aos futuro. Sem tocar no que poderia ter sido ou desejado mostra uma banalização lateral ao principal tema de uma ditadura: tornar a vida bem estreita, como um tapa olho das bestas, os antolhos, para ver o mundo só em uma direção, que interessa aos que querem fazer da sua dominação a única opção. E naturalizá-la. Impingida e fragilizante da vida que se quer como algo além da sobrevivência.

A verdade nua e crua: para reflexão num dia de greve geral

Nota:

Eduardo Marinho tem outro vídeo (Ver abaixo) onde é alcunhado de “filósofo da rua”. Na minha opinião é um “nietzschiano” de madeira boa. Creio que se aproxima bem do tipo “Übermensch” descrito por Nietzsche no seu Zaratustra. Com certeza não é o “último homem”. Não pelo seu apreço ao homem desprotegido ou pobre, representado na grande massa de homens explorados e inferiorizados, mas pelo apreço à força trágica desses indivíduos que superam as adversidades. Parece repetir, no subtexto, o adágio nietzschiano “Aquilo que não me mata, só me fortalece”.

Veja abaixo mais vídeos sobre o Eduardo Marinho.

Ver “eduardo marinho” no Youtube.

Em  Nietzsche: A morte de Deus, o nascimento do Superhomem para enfrentar o niilismo e polêmica com os nazistas há trechos que conceituam o Übermensch com características bem próximas do que propões o Eduardo Marinho para a sua própria vida:

  • O Übermensch experimenta a vida com maior intensidade e profundidade do que a humanidade comum
  • O Übermensch cria seus próprios valores, ao invés de apenas aceitar os ensinamentos morais dos outros.
  • O Übermensch “vive perigosamente” no sentido de que ele valoriza coisas como novidade, criatividade, rigor intelectual, honestidade consigo mesmo, e intensidade da experiência, ao invés de mero conforto; ele procura alegria, não contentamento.
  • O oposto do Übermensch é o “último homem”, termo de Nietzsche para o tipo de pessoa que não deseja nada além do conforto e satisfação.
  • O modelo para o  Übermensch é o herói aristocrático, o tipo de indivíduo com grande alma representados por figuras da mitologia grega. Mas a grandeza do Übermensch é espiritual; se ele é um guerreiro, é no reino do conhecimento, ideias, e as artes.
  • O Übermensch ama a vida e o mundo para o último grau: ele quer o eterno retorno de todas as coisas, incluindo a sua própria vida, e até mesmo a vida daqueles que ele despreza. Isto é, independentemente de a doutrina do eterno retorno ser realmente verdade, ele deseja que ela seja verdadeira.

Ainda no artigo citado acima é analisada a importância do conceito do Übermensch:

Quão importante é o Übermensch na filosofia de Nietzsche como um todo?

A ideia do “SuperHomem” Übermensch está intimamente associada com Nietzsche, e muitas vezes é considerada estando no centro de seu pensamento, juntamente com conceitos como o eterno retorno e a vontade de potência . Na verdade, porém, ele só aparece em um livro: Zaratustra . Dificilmente é mencionado em algum dos seus outros escritos publicados, e só ocorre ocasionalmente nas notas que foram finalmente publicadas por sua irmã como A Vontade de Poder.

Por que ele parece abandonar a ideia do seu Superhomem depois de Zaratustra? Uma explicação plausível é que a ideia de uma espécie de ser humano que é tão distante de nós como nós somos do macaco não pode realmente inspirar-nos, uma vez que realmente não pode ser imaginada. Consequentemente, nas obras que vêm depois de Zaratustra, Nietzsche se concentra em descrever o indivíduo de alma grande, o tipo de pessoa que é “nobre”.

O conceito do Übermensch em Nietzsche está ligado à idéia de um tipo que estaria apto para abraçar a revelação acachapante do “eterno retorno” e usar como ferramenta cotidiana o “amor fati”. Os nazistas, com ajuda da sua irmã, idealizaram o homem superior cujo modus operandi não podia se desviar da supressão e opressão de “raças inferiores”. Nietzsche abandonou a idéia de superioridade como diferença em favor da autonomia e do jardim acolhedor com uma convidativa porta de entrada. Talvez inspirado no “filósofo do jardim“. Jardim onde “Epicuro ignora o ideal cívico e o substitui por um ideal afetivo”.

174. MODA MORAL DE UMA SOCIEDADE MERCANTIL

Por trás desse principio da atual moda moral: “As ações morais são as ações de simpatia para com os outros”, vejo dominar o instinto social do temor que assume assim um disfarce intelectual: esse instinto põe como princípio superior, o mais importante e o mais próximo, que é necessário retirar da vida o caráter perigoso que possuía outrora e que cada um deve ajudar nisso com todas as suas forças. É por essa razão que unicamente as ações que visam à segurança coletiva e ao sentimento de segurança da sociedade podem receber o atributo de “bom”! — Quão poucos prazeres devem desde logo ter os homens para consigo mesmos, para que tal tirania do temor lhes prescreva a lei moral superior, para que se deixem assim intimar sem contestação para não tirar ou desviar o olhar de sua própria pessoa, mas ter olhos de lince para toda miséria, para todo sofrimento dos outros! Com nossa intenção, impelida até o extremo, de querer aparar todas as asperezas e todos os ângulos da vida, não estamos no caminho certo para reduzir a humanidade até transformá-la em areia? Em areia! Uma areia fina, tênue, granulosa, infinita! É este seu ideal, ó heróis dos sentimentos simpáticos? — Entretanto, resta saber se porventura se serve mais ao próximo correndo imediatamente e sem cessar em seu socorro e ajudando-o — o que só pode ser feito muito superficialmente, a menos que se se torne penhora tirânica — ou fazendo de si mesmo algo que o próximo vê com prazer, por exemplo, um belo jardim tranqüilo e fechado que possua altas muralhas contra as tempestades e a poeira das grandes estradas, mas também uma porta acolhedora.

Aurora, Nietzsche

Eduardo “Zaratustra” Marinho aparentemente não quer seguidores. Quer reflexão espalhada à granel nas mentes de todos. Suas falas são construídas na “observação” e na “absorção” de uma compreensão norteadora. Mas que cada um deve adquirir. Não receber dele. E para adquirir é preciso buscar a experiência e o perigo. E ultrapassar o perigo, incólume, com a arma da experiência.

A invenção do eterno retorno

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O maior dos pesos – E se um dia, ou uma noite, um demônio lhe aparecesse furtivamente em sua mais desolada solidão e dissesse: ‘Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspiro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terão de lhe suceder novamente, tudo na mesma sequência e ordem  – e assim também essa aranha e esse luar entre as árvores, e também esse instante e eu mesmo. A perene ampulheta do existir será sempre virada novamente – e você com ela, partícula de poeira!’.  – Você não se prostraria e rangeria os dentes e amaldiçoaria o demônio que assim falou? Ou você já experimentou um instante imenso, no qual lhe responderia: “Você é um deus e jamais ouvi coisa tão divina!”. Se esse pensamento tomasse conta de você, tal como você é, ele o transformaria e o esmagaria talvez; a questão em tudo e em cada coisa, “Você quer isso mais uma vez e por incontáveis vezes?‟, pesaria sobre os seus atos como o maior dos pesos! Ou o quanto você teria de estar bem consigo mesmo e com a vida, para não desejar nada além dessa última, eterna confirmação e chancela” – Friedrich Nietzsche, Gaia Ciência, 341

Razão Inadequada

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Stevenson, por volta de 1882, apontou que os leitores britânicos menosprezavam um pouco as peripécias e consideravam uma grande habilidade escrever um romance sem argumento, ou de argumento infinitesimal, atrofiado. José Ortega y Gasset — A desumanização da arte, 1925 — tenta justificar o menosprezo apontado por Stevenson e decreta, na página 96, ser “muito difícil que hoje se possa inventar uma aventura capaz de interessar nossa sensibilidade superior” e, na 97, que essa invenção “é praticamente impossível”. Em outras páginas, em quase todas as outras páginas, advoga pelo romance “psicológico” e opina que o prazer das aventuras é inexistente ou pueril. É esse, sem dúvida, o comum parecer de 1882, de 1925 e até de 1940. Alguns escritores (entre os quais tenho o prazer de incluir Adolfo Bioy Casares) entendem que é razoável discordar. Resumirei, aqui, os motivos dessa discordância.

O primeiro (cujo ar de paradoxo não quero ressaltar nem atenuar) é o intrínseco rigor do romance de peripécias. O romance típico, “psicológico”, tende a ser informe. Os russos e os discípulos dos russos provaram até o cansaço que ninguém é impossível: suicidas por felicidade, assassinos por benevolência, pessoas que se adoram até o ponto de se separarem para sempre, delatores por fervor ou por humildade… Essa plena liberdade acaba equivalendo à plena desordem. Por outro lado, o romance “psicológico” pretende ser também romance “realista”: prefere que esqueçamos seu cará ter de artifício verbal e faz de toda vã precisão (ou de toda lânguida vagueza) um novo toque de verossimilhança. Há páginas, há capítulos de Marcel Proust que são inaceitáveis como invenções: sem saber, resignamo-nos a eles como a tudo que de insípido e ocioso há no dia a dia. O romance de aventuras, ao contrário, não se apresenta como uma transcrição da realidade: é um objeto artificial que não comporta nenhuma parte injustificada. O temor de incorrer na mera variedade sucessiva de O asno de ouro, das sete viagens de Simbad ou de D. Quixote impõe-lhe um rigoroso argumento.

Aleguei um motivo de ordem intelectual; há outros de caráter empírico. Todos murmuram tristemente que nosso século é incapaz de tecer tramas interessantes; ninguém se atreve a verificar que, se alguma primazia tem este século sobre os anteriores, essa primazia é a das tramas. Stevenson é mais apaixonado, mais diverso, mais lúcido, talvez mais digno de nossa absoluta amizade que Chesterton; mas os argumentos que governa são inferiores. De Quincey, em noites de minucioso terror, penetrou no coração de labirintos feitos de labirintos, mas não plasmou seu timbre de unutterable and self-repeating infinities em fábulas comparáveis às da Kafka. Ortega y Gasset aponta com justiça que a “psicologia” de Balzac não nos satisfaz; a mesma observação vale para seus argumentos. Shakespeare, Cervantes apreciavam a antinômica ideia de uma moça que, sem prejuízo de sua beleza, consegue passar por homem; esse móvel não funciona entre nós… Considero-me livre de toda superstição de modernidade, de qualquer ilusão de que ontem difere intimamente de hoje ou diferirá de amanhã; mas penso que nenhuma outra época possui romances de tão admirável argumento como The Invisible Man, como The Turn of the Screw, como Der Prozess, como Le Voyageur sur la Terre, como este que logrou, em Buenos Aires, Adolfo Bioy Casares.

As ficções de índole policial — outro gênero típico deste século que não consegue inventar argumentos — relatam fatos misteriosos que um fato razoável depois justifica e ilustra; Adolfo Bioy Casares, nestas páginas, resolve com felicidade um problema talvez mais difícil. Desfia uma Odisseia de prodígios que não parecem admitir outra chave de leitura afora a alucinação ou o símbolo e decifra-os plenamente por meio de um único postulado fantástico, mas não sobrenatural. O temor de incorrer em prematuras ou parciais revelações me proíbe a análise do argumento e das muitas delicadas sabedorias da execução. Baste-me declarar que Bioy renova literariamente um conceito que Santo Agostinho e Orígenes refutaram, que Louis-Auguste Blanqui ponderou e que Dante Gabriel Rossetti disse com música memorável:

I have been here before,
But when or how I cannot tell:
I know the grass beyond the door,
The sweet keen smell,
The sighing sound, the lights around the shore…

Em espanhol, são infrequentes e até raríssimas as obras de imaginação racional. Os clássicos exerceram a alegoria, os exageros da sátira e, vez por outra, a mera incoerência verbal; de datas recentes não recordo nada afora algum conto de As forças estranhas e algum de Santiago Dabove: injustamente esquecido. A invenção de Morel (cujo título alude filialmente a outro inventor ilhéu, Moreau) traslada um gênero novo para nossas terras e nosso idioma.

Discuti com seu autor os pormenores de sua trama, que acabo de reler; não me parece impreciso ou hiperbólico qualificá-la de perfeita.

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Buenos Aires, 2 de novembro de 1940.

Ao ler pela primeira vez o livro “A invenção de Morel” me senti imerso numa atmosfera onírica.

Estou relendo agora. E a fascinação se manteve como da primeira vez.

No post sobre o filme de Resnais comento sobre o filme e o livro após a primeira leitura. Li recentemente no artigo O enigma Morel-Marienbad que o filme do Resnais pode ser uma continuação do livro e não uma adaptação direta do mesmo. Penso em rever o filme com esta nova ótica.

Procurando uma imagem para este post descobri o filme L’invenzione di Morel (1976) e o curta La invención de Morel (2006), ambos sobre o livro de Casares.

Leve spoil a seguir:

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Hated in the Nation

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A tecnologia e suas distópicas consequências já povoaram muitos contos terror de ficção científica. No post Os sonhos da razão técnica, influenciado por uma palestra de Jean-Pierre Dupuy, usei a imagem:

“A possibilidade de criação de microorganismos que não evoluiriam mais mas que, como uma mancha avassaladora, fosse substituindo a vida biológica por uma “vida artificial” estagnada, daria, no final, um “brilho metálico” à Terra.”

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Talvez inspirada na destruição por nanobots no filme “Eu, robô”, baseado em conto de Asimov, de um computador malévolo, surgiu a metáfora citada acima. Ao construirmos pequenos robots que agem em grupo, e podem ser em grande número, para que eles cumpram determinadas tarefas devem, quase que obrigatoriamente, ter algum comportamento autônomo. A inteligência “emergente” pode ser muito mais difícil de prever e controlar do que nos casos em que é centralizada.

Leve spoil abaixo. Continuar lendo

Nosedive

nosedive-208x300As vezes precisamos do fracasso para achar o nosso centro. O fracasso, sendo relativo, pode representar o sucesso em tomar as rédeas do nosso destino. Assim como Nietzsche dizia que nunca fora tão saudável quanto na doença poderíamos encarar o fracasso como uma cura. Uma outra face da moeda. Oposta àquela do nosso conformismo às coerções externas que nada tem a ver conosco.

O episódio “Nosedive” da série “Black Mirror” mostra claramente o que nós é oculto pela nossa imersão atual nas redes sociais e nos vários sistemas que tomam conta de nossa reputação das mais variadas formas. Numa hiperbólica escalada apoiada pela tecnologia mais invasiva e totalitária que já surgiu no planeta vivemos uma nova versão do “big brother” de Orwell. Uma versão “peer to peer”, de muitos para muitos e ao mesmo tempo centralizada numa ética da fama em vez da honra. Cada vez mais ˜famosos˜, e ainda anônimos, tornarmos-nos cada vez mais hamsters girando furiosamente nossa gaiola circular. Desonramos-nos pela fama agora ubíqua e acessível nas redes sociais e mediada pelo também ubíquo celular.

Charlie Brooker explicou o título da série ao The Guardian, dizendo que “se a tecnologia é uma droga – e parece mesmo ser uma – então quais são precisamente os efeitos colaterais? Este espaço – entre apreciação e desconforto – é onde Black Mirror, minha nova série de televisão, está localizada. O ‘espelho negro’ do título é um que você encontrará em todas as paredes, em todas as mesas, na palma de toda mão: a fria e brilhante tela de uma TV, um monitor ou um smartphone.”

Wikipedia

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Shopenhauer realça a diferença entre a ribalta e a honra:

Se as pessoas insistem que honra é mais cara que a própria vida, o que elas querem dizer é que a existência e o bem-estar são insignificantes se comparados com as opiniões dos outros. É claro que isto pode ser uma forma exagerada de exprimir a verdade prosaica de que a reputação – a opinião que os outros têm de nós – é indispensável se desejamos fazer algum progresso no mundo.

Nada na vida dá ao homem tanta coragem como a renovada convicção de que os outros o olham simpaticamente. Isso significa que todos se aliam para dar-lhe a ajuda e proteção que constituem um bastião infinitamente mais vigoroso contra as incertezas da vida do que qualquer outra coisa. Os fundamentos últimos da honra residem na convicção de que o caráter moral é inalterado: uma única má-ação implica no reconhecimento de que futuras ações do mesmo gênero, sob as mesmas circunstâncias, serão igualmente ruins. Fama é algo que deve ser conquistado; honra é apenas algo que não deve ser perdido. A ausência de fama é a obscuridade que é apenas uma negação, mas a quebra da honra é uma vergonha, que é algo concreto e positivo.

A honra concerne apenas àquelas qualidades que se espera encontrar em qualquer um em circunstâncias similares. A fama concerne apenas às qualidades que não se podem exigir em todos os homens. Qualquer um pode atribuir-se a honradez. A fama só pode ser atribuída por outros. Enquanto nossa honorabilidade se estende tão longe quanto o conhecimento que as pessoas têm de nós, a fama se antecipa correndo e faz-nos conhecidos entre gente que não nos conhece. Qualquer um pode considerar-se apto à honra, poucos porém podem considerar-se capacitados para a fama obtida somente diante de conquistas extraordinárias. Nenhuma diferença de classe, posição ou nascimento é tão grande quanto o abismo que separa os incontáveis milhões de criaturas que usam suas cabeças como instrumentos de seus estômagos e aqueles poucos e raros indivíduos que têm a coragem de dizer: “não!”

Comparados com os respectivos períodos de vida, os homens de grande intelecto assemelham-se a altos edifícios construídos num pequeno lote de terreno – o tamanho da construção não poder ser avaliado por ninguém que esteja no terreno. Por razões análogas, a grandeza dos gênios ou heróis não pode ser estimada enquanto vivem. Passado um século, o mundo reconhece os valores, mas é tarde demais.

Todo herói é um Sansão. O homem forte sucumbe à intriga e às artimanhas dos fracos e se no fim ele perde a paciência, esmaga os miúdos e se soterra. Ou então ele é como Gulliver em Liliput – um poderoso gigante dominado por um enxame de homens minúsculos.

É natural que grandes mentes – os verdadeiros mestres da humanidade menosprezem a companhia de grupos. Como o professor que não se inclina a participar da zoada dos alunos. A missão destas grandes almas é guiar seus semelhantes do mar de erros ao porto da verdade, tirá-los do abismo da vulgaridade para a luz do refinamento. Os seres de grande intelecto vivem no mundo sem contudo pertencer a ele. Desde cedo percebem uma diferença entre eles e o resto da humanidade, mas é só com o passar dos anos que compreendem suas posições: seu isolamento intelectual é uma necessidade criadora e sua vida reclusa uma imposição para salvá-la do desgaste.

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Shopenhauer compara a fama e a honra opinando que poucos podem obter a fama genuína com base em feitos extraordinários de valor para a humanidade. Nos confina, assim, à fama sem valor que conserva apenas a aura da verdadeira fama mas que, ainda assim, age como um lume que atrai e, ao mesmo tempo, queima nossas asas de mariposas.

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Outro episódio de Black Mirror começa onde este termina. Em Fifteen Million Merits quase todos estão confinados enquanto que em Nosedive há uma aparente liberdade exuberante com gosto de sabonete. A prisão real e a liberdade virtual são faces da mesma moeda que girando velozmente não nos permite distinguir  conscientemente uma imagem da nossa verdadeira indigência. Há somente uma crescente restrição da liberdade. Não há mais dentro e fora desta prisão. Só dentro. Segundo Foucault a mais cruel invenção recente foi a pena pela restrição da liberdade, antes apanágio exclusivo dos poderosos que prendiam seus inimigos nos calabouços privados nas profundezas das fortalezas. Hoje o Estado é o leviatã em que todos somos seus inimigos declarados ou latentes e, por isso, mantidos sobre estrito controle através de lianas invisíveis.

6jw6vl_dA série Black Mirror, um espelho distópico e negro como nosso futuro que já é presente com seus mecanismos sendo gradativamente engendrados, está se revelando um excelente meio de reflexão, como sugere a metáfora do espelho. Uma negra reflexão.  De um espelho negro como as profundezas abissais nos olhando de volta, como uma órbita escura num crânio vazio. Com um abissal esvaimento do sentido. A pergunta “Para quê estamos vivendo?” martelando insistentemente nos bastidores.

63 anos…

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Haja “hoje” para tanto “ontem”.

Paulo Leminski

No nosso aniversário, este contraditório acontecimento, merecemos parabéns por que? Nada fiz a não ser viver. Heróicos, todos atravessamos a vida qual num sonho. Esvai-se o sentido a cada ano que passa. Como se o sentido fosse dado pela quantidade de anos que ainda falta viver. Mas esta falta de sentido é mesmo um sentido mais autêntico se pudermos trocar as coerções externas e inexoráveis pelas nossa volúvel vontade interna. Nada traçado na pedra. Um voo mais sinuoso do que os das borboletas. Gostaria de buscar a leveza de um “flâneur”.

Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está a nossa vida, e mais ela é real e verdadeira. Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes. Então, o que escolher? O peso ou a leveza?

Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que faz com que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo ‘esboço’ não é a palavra certa porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro.

Kundera

in A insustentável leveza do ser

A retirada…

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Se me esqueceres, só uma coisa, esquece-me bem devagarinho.

Mario Quintana

Colecionei aqui textos relacionados a estar deste ontem em “retirement”, como dizem os anglófonos.

Nietzsche fala das três idades na vida: o camelo, o leão e a criança.

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Três transmutações vos cito do espírito: como o espírito se torna em camelo, e em leão o camelo, e em criança, por fim, o leão.

Muito de pesado há para o espírito, para o espírito forte, que suporta carga, em que reside o respeito: pelo pesado e pelo pesadíssimo reclama sua força.

O que é pesado? assim pergunta o espírito de carga, assim ele se ajoelha, igual ao camelo, e quer ser bem carregado.

O que é o pesadíssimo, ó heróis? assim pergunta o espírito de carga, para que eu o tome sobre mim e me alegre de minha força.

Não é isto: abaixar-se, para fazer mal a sua altivez? Deixar brilhar sua tolice, para zombar de sua sabedoria?

Ou é isto: apartar-nos de nossa causa, quando ela festeja sua vitória? Galgar altas montanhas, para tentar o tentador?

Ou é isto: nutrir-se de bolotas e grama do conhecimento e por amor à verdade sofrer fome na alma?

Ou é isto: estar doente e mandar embora os consoladores e fazer amizade com surdos, que nunca ouvem o que tu queres?

Ou é isto: entrar em água suja, se for a água da verdade, e não afastar de si frias rãs e sapos que queimam?

Ou é isto: amar aqueles que nos desprezam e estender a mão ao espectro quando ele nos quer fazer medo?

Todo esse pesadíssimo o espírito de carga toma sobre si: igual ao camelo, que carregado corre para o deserto, assim ele corre para seu deserto.

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Mas no mais solitário deserto ocorre a segunda transmutação: em leão se torna aqui o espírito, liberdade quer ele conquistar, e ser senhor de seu próprio deserto.

Seu último senhor ele procura aqui: quer tornar-se inimigo dele e de seu último deus, pela vitória quer lutar com o grande dragão.

Qual é o grande dragão, a que o espírito não quer mais chamar de senhor e deus? ”Tu-deves” se chama o grande dragão. Mas o espírito do leão diz “eu quero”.

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”Tu-deves” está em seu caminho, cintilante de ouro, um animal de escamas, e em cada escama resplandece em dourado: ‘Tu deves!”

Valores milenares resplandecem nessas escamas, e assim fala o mais poderoso de todos os dragões: “todo o valor das coisas – resplandece em mim”.

“Todo o valor já foi criado, e todo valor criado- sou eu. Em verdade, não deve haver mais nenhum ‘Eu quero’!” Assim fala o dragão.

Meu irmãos, para que é preciso o leão no espírito? Em que não basta o animal de carga, que renuncia e é respeitoso?

Criar novos valores – disso nem mesmo o leão ainda é capaz: mas criar liberdade para nova criação – disso é capaz a potência do leão.

Criar liberdade e um sagrado Não, mesmo diante do dever: para isso, meus irmãos, é preciso o leão.

Tomar para si o direito a novos valores – eis o mais terrível tomar, para um espírito de carga e respeitoso. Em verdade, para ele é uma rapina, e coisa de animal de rapina.

Como seu mais sagrado amava ele outrora o “Tu-deves”: agora tem de encontrar ilusão e arbítrio até mesmo no mais sagrado, para conquistar sua liberdade desse amor: é preciso o leão para essa rapina.

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Mas dizei, meus irmãos, de que ainda é capaz a criança, de que nem mesmo o leão foi capaz? Em que o leão rapidamente tem ainda de se tornar em criança? Inocência é a criança, e esquecimento, um começar de-novo, um jogo, uma roda rodando por si mesma, um primeiro movimento, um sagrado dizer-sim.

Sim, para o jogo do criar, meus irmãos, é preciso um sagrado dizer sim: sua vontade quer agora o espírito, seu mundo ganha para si o perdido do mundo.

Três transmutações vos citei do espírito: como o espírito se tomou em camelo, e em leão o camelo, e o leão, por fim, em criança.

Nietzsche

Não sei direito em qual fase estou entrando. Mas do camelo que se ajoelha e pede fardos cada vez mais pesados não quero saber mais.

Para descrever meus sentimentos também inventei uma alegoria:

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Era uma vez um pássaro que morava numa gaiola de ouro. Com o tempo descobriu que seu dono, Max, o tinha numa gaiola de ferro quando descascou a fina camada dourada.

Um dia Max morreu. Sua casa ladrões e espoliadores devastaram e, não interessados no pássaro, deixaram aberta a porta de ferro.

Diante da porta aberta o pássaro se intimidou. Mas a brisa tépida e o céu límpido o cativaram. Voou sobre as copas. Volteou explorando as cercanias com voluptuosidade. Nem percebeu um mancha escura que se avolumava no solo.

Garras aduncas o elevaram a altura das montanhas. Inebriado por este voo, muito além de suas parcas capacidades e fôlego, regozijava. Mesmo quando adunco bico o transformou em informe massa de penas e carne sangrenta não se achou fora da vida.

Sinto-me como um pássaro numa gaiola. A porta vai ser aberta. Será que sairei por ela? A liberdade pode ser tóxica para quem sempre viveu preso. Um pequeno pássaro sem experiência da liberdade pode não pressentir a sombra do gavião a tempo. Pode mesmo, sendo pequeno, se enredar mortalmente na teia de uma aranha. Mas nunca dantes teve a embriaguez de voar numa ampla atmosfera de liberdade, um céu azul, límpido e vibrante de energia solar. Pode valer muito a pena. E que a alma não seja pequena. E que o pequeno pássaro se metamorfoseie num gigante. Com a cabeça nas nuvens e os pés no chão. É o que desejo e espero…

Espero também entrar em Pasárgada como preconiza Bandeira:

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Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Bandeira

Mas o mestre mesmo em estabelecer as condições do retiro foi para mim Montaigne. A tendência ao desvario do excesso de tempo com o qual ainda se tem que aprender a lidar é descrita magistralmente por Montaigne:

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Retirei-me há tempos para as minhas terras, resolvido, na medida do possível, a não me preocupar com nada, a não ser o repouso, e viver na solidão os dias que me restam. Parecia-me que não podia dar maior satisfação a meu espírito senão a ociosidade, para que se concentrasse em si mesmo, à vontade, o que esperava pudesse ocorrer porquanto, com o tempo, adquiria mais peso e maturidade. Mas percebo que:

“Variam semper dant otia mentem”

”Vã ociosidade, o espírito se dispersa em mil pensamentos diversos” [Lucano]

, e ao contrário do que imaginava, caracolando como um cavalo em liberdade, cria ele cem vezes maiores preocupações do que quando tinha um alvo preciso fora de si mesmo. E engendra tantas quimeras e idéias estranhas, sem ordem nem propósito, que para perceber-lhe melhor a inépcia e o absurdo, as vou consignando por escrito, na esperança de, com o correr do tempo, lhe infundir vergonha.

Montaigne

E como o excesso de tempo também leva a estar mais tempo consigo mesmo na solidão esta é um ingrediente importante. Montaigne novamente é imbatível na sua percepção:

Sobre a solidão

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Deixemos de lado qualquer comparação, por demasiado longa, entre a vida solitária e a vida mundana; e quanto a esta bela frase que dissimula a ambição e a avareza: não nascemos para nossa própria satisfação e sim para a de todos, apelemos para os que estão na dança e que após cuidadoso exame de consciência nos respondam se os trabalhos, os encargos e os aborrecimentos da vida na coletividade são procurados e aceitos por outros motivos que não o proveito pessoal ambicionado. Os meios pouco confessáveis que empregamos em nosso século para avançar, bem demonstram o nenhum valor do objetivo fixado. Se para combater nossa tendência para a solidão a atribuírem à ambição, responderemos que é precisamente esta que nos inspira, pois quem mais do que a ambição foge da sociedade, e que deseja mais senão a inteira liberdade?

Praticar o bem ou o mal é possível em toda parte, entretanto se o que diz Bias é certo, ”que a maioria dos homens é também a pior”, ou o que se escreve no Eclesiastes, ”que sobre mil não há um que preste”, ou ainda o poeta,

“Rari quippe boni: numero vix sunt totidem quot Thebarum portae, vel divitis ostia Nili,”

”Raros são os bons, apenas se achariam tantos quantas as portas de Tebas ou as embocaduras do Nilo” [Juvenal]

, grande é o contágio do mal para quem vive na sociedade. É preciso imitar os viciados ou odiá-los, alternativas igualmente perigosas. Imitá-los porque são muitos; odiá-los porque são diversos. Por isso os negociantes que viajam por mar evitam que subam a seus navios pessoas dissolutas, blasfemadoras ou más, porquanto um tal aglomerado de gente só pode ter péssimas conseqüências. Por isso, também, dizia Bias àqueles em cuja companhia enfrentava violenta tempestade e que invocavam a proteção divina: ”Calai, que Deus não perceba que estais aqui comigo”. O exemplo de Albuquerque, vice-rei da Índia, é mais típico ainda. Correndo o risco de morrer em acidente marítimo, tomou uma criança pequena aos ombros, a fim de que, no perigo comum, sua inocência lhe servisse de garantia.

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Não é que o homem sábio não possa viver satisfeito onde quer que seja e isolar-se no meio dos cortesãos que entopem o palácio; mas se lhe for dado escolher, evitará até o simples espetáculo deles, dizem os filósofos. Se necessário resignar-se-á a ficar; se puder, escolherá outra situação. Não lhe parecerá suficiente libertar-se dos próprios vícios, se tiver ainda de lutar contra os dos outros. Charondas punia como maus os que comprovadamente andavam em más companhias. Não há ser mais sociável ou menos sociável do que o homem; é ele uma coisa pela sua própria natureza e outra em conseqüência de seus vícios. Antístenes não foi a meu ver judicioso quando, a alguém que lhe censurava as más companhias, respondeu: ”os médicos também vivem com os doentes”. Em verdade os médicos cuidam da saúde dos doentes, mas comprometem a sua, pelo contágio e a influência perniciosa da presença contínua da doença.

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O fim que visamos quando procuramos a solidão é, creio, viver mais à vontade e como nos agrada; mas nem sempre acertamos com o caminho. Amiúde imaginamos ter abandonado quaisquer ocupações e não fazemos senão mudar de atividade. O governo de uma família não causa menos aborrecimentos que o de um Estado. Ao que quer que se entregue, o espírito entrega-se por inteiro, e em sendo as ocupações domésticas menos importantes nem por isso são menos importunas. Mais ainda: podemos retirar-nos da Corte, renunciar aos negócios, não estaremos contudo ao abrigo dos principais tormentos da vida:

“Ratio et prudentia curas,

Non locus effusi late maris arbiter, aufert;”

”São a razão e a prudência, e não essas praias de onde se vê a imensidade do mar, que dissipam a tristeza” [Horácio].

A ambição, a avareza, a indecisão, o medo, a concupiscência não nos abandonam tão-somente porque mudamos de lugar:

“Et Post equitem sedet atra cura;”

”A preocupação monta na garupa e galopa com eles” [Horácio].

Acompanham-nos até nos claustros e nas escolas de filosofia. Não há desertos, cavernas nos rochedos, mortificações e jejuns que nos libertem:

“Haeret lateri lethalis arundo.”

”A seta mortal continua presa a seus flancos” [Virgílio].

Diziam a Sócrates de alguém que de nenhum defeito se corrigira durante a longa viagem que realizara: ”bem o creio”, retrucou o filósofo, ”ele se levara a si mesmo em sua companhia”.

“Quid terras alio calentes Sole mutamus? patriae quis exsul Se quoque fugit?”

”Por que procurar países iluminados por outros sóis? Bastaria então fugir da pátria para fugir de si mesmo?” [Horácio].

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Se preliminarmente não descarregamos a alma do peso que a oprime, mais se machucará com o movimento; assim o navio se estraga menos se a carga é bem distribuída. Mais mal do que bem faz-se ao doente em o mudando de lugar. Com o movimento, o mal acumula-se no fundo dele, como o conteúdo de um saco quando sacudido, e como a estaca afunda e se solidifica quanto mais a tentam abalar. Não basta pois deslocar-se, evitar a multidão; é preciso ainda afastar de nós as idéias que nos são comuns, a ela e a nós. É preciso que nos seqüestremos e tomemos posse de nós mesmos:

“Rupi jam vincula, dicas Nam luctata canis nodum arripit; attamen illi, Quum fugit, a collo trahitur pars longa catenae.”

”Quebrei os ferros, dizeis? Sim; o cão, depois de ter puxado a corrente e a ter partido, foge mas arrastando uma parte ao pescoço” [Pérsio].

Carregamos nossos ferros conosco, nossa liberdade não é completa. Volvemos o olhar para o que deixamos e que nos emprenha a imaginação:

“Nisi purgatum est pectus, quae praelia nobis

Atque pericula tunc ingratis insinuandum?

Quantae connscindunt hominem cupedinis acres

Sollicitum curae? quantique perinde timores?

Quidve superbia, spurcitia, ac petulantia, quantas

Efficiunt clades? quid luxus desidiesque?”

”Se a alma não é pura, quantos riscos corremos! Quantas lutas sem proveito contra nós mesmos! Quantas preocupações amargas, quantos temores, quantas inquietações roem o homem prisioneiro de paixões! Que devastações produzem em nosso espírito o orgulho, a luxúria, a cólera, o luxo, a moleza, a preguiça!” [Lucrécio].

“In culpa est animus, qui se non effugit unquam.”

”Nosso mal está dentro da alma e esta não pode fugir de si mesma” [Horácio].

É necessário, pois, extirpá-lo dela e então nos concentrarmos em nós mesmos. Nisso consiste a verdadeira solidão, a que podemos gozar na cidade e na Corte, mas que gozamos melhor no isolamento. Se projetamos viver sozinhos, longe de todos, façamos com que nossa satisfação só dependa de nós; destruamos tudo o que nos amarra aos outros, arranjemo-nos de maneira a viver efetivamente sós, e, nesta condição, sem mais preocupações.

Estílpon escapara do incêndio de sua cidade natal, mas perdera a mulher, os filhos e tudo o que possuía. Vendo-o sereno em tão sombria situação, perguntou-lhe Demétrio Poliorcetes se não tivera prejuízos. ”Ao que ele respondeu que, mercê de Deus, nada perdera de seu”. É o que exprimia de modo jocoso o filósofo Antístenes: ”O homem deve abastecer-se de provisões suscetíveis de flutuar, a fim de que possa, em caso de naufrágio, salvá-las a nado”. E, com efeito, o sábio nada perde em conservando a posse de si mesmo.

Quando a cidade de Nola foi saqueada pelos bárbaros, Paulino, bispo do lugar, perdeu todos os seus bens e foi feito prisioneiro. Nem por isso deixou de endereçar diariamente a Deus esta prece: ”Preservai-me, Senhor, de sentir esta desgraça, pois o que está em mim, bem o sabeis, não foi até agora atingido”. As riquezas que o faziam realmente rico, os bens que o faziam bom, continuavam intactos. Cumpre, pois, selecionar os tesouros que podem ser preservados de quaisquer danos e escondidos em lugar fora do alcance de qualquer um e que só nós mesmos podemos revelar. É preciso ter, se possível, mulher, filhos, fortuna e principalmente saúde, mas não se prender a isso a ponto de prejudicar nossa felicidade. É preciso ter como reserva um recanto pessoal, independente, em que sejamos livres em toda a acepção da palavra, que seja nosso principal retiro e onde estejamos absolutamente sozinhos. Aí nos entreteremos de nós com nós mesmos, e a essa conversa, que não versará nenhum outro assunto, ninguém será admitido. Aí nos abandonaremos a nossos pensamentos sérios ou divertidos, como se não tivéssemos mulher nem filhos, nem bens, nem casa, nem criadagem, de maneira que se um dia eles nos faltarem não nos custe demasiado a carência. Temos uma alma suscetível de se recolher, de se bastar em sua própria companhia, de atacar e defender-se, de dar e receber; não nos arreceemos, portanto, nesse diálogo com nós mesmos, de vegetar em uma aborrecida ociosidade.

“In solis sis tibi turba locis.”

”Na tua solidão, sê para ti mesmo o mundo” [Tibulo].

A virtude satisfaz-se com ser, sem necessidade de regras, palavras, conseqüências.

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Em nossas ocupações habituais não há uma entre mil que nos diga respeito. Este, que vês furioso e fora de si, escalar as ruínas do forte, em meio à fuzilaria; e o outro que, cadavérico, esfomeado, coberto de cicatrizes e decidido antes a morrer do que a deixar passar o inimigo, imaginas que agem por conta própria? Pois é por conta de fulano e beltrano, que nunca viram, fulano e beltrano que não se preocupam sequer com seus feitos e mergulham no ócio e nos prazeres enquanto eles se matam. Aquele que vês sair depois da meia-noite de seu gabinete de estudo, tomado de pituíta, olhos doentes, miseravelmente vestido, pensas que passou seu tempo a buscar nos livros o que lhe cumpre fazer para se aperfeiçoar no bem, para se satisfazer com a sorte e progredir em sabedoria? Nada disso! Morrerá na tarefa ou acabará revelando à posteridade o ritmo em que se escreveram os versos de Plauto ou a verdadeira ortografia de certa palavra latina. Quem não troca deliberadamente a saúde, o repouso, a vida, pela reputação e a glória, as mais inúteis e vãs, e falsas, das moedas correntes? Como se nossa própria morte já não nos inspirasse suficiente terror, interessamo-nos pela de nossas mulheres, filhos e servidores! Como se não tivéssemos bastantes aborrecimentos, acrescentamos aos nossos os dos nossos vizinhos e amigos!

“Vah! quemquamne hominem in animum instituere, aut Parare, quod sit carius, quam ipse est sibi?”
”Como pode um homem pretender amar mais a alguma coisa do que a si mesmo?” [Terêncio].

A solidão parece-me em particular indicada, e necessária, àqueles que consagraram à humanidade a mais bela parte de sua vida, a mais ativa e produtiva, como o fez Tales. Já vivemos bastante para os outros, vivamos para nós ao menos durante o pouco tempo que nos resta. Isolemo-nos, e na calma, rememoremos nossos pensamentos e nossas intenções. Não é nada fácil um retiro consciencioso; isso nos preocupará suficientemente para que não procuremos atrelar-nos a outros empreendimentos. Desde que Deus nos dá lazeres a fim de nos prepararmos para deixar este mundo, mãos à obra, arrumemos nossas bagagens. Com antecedência digamos adeus a todos; libertemo-nos desses compromissos que nos amarram a outrem e nos distraem de nós mesmos.

É preciso romper com quaisquer obrigações imperativas. Talvez ainda gostemos disto ou daquilo, mas só a nós mesmos poderemos desposar. Em outras palavras, o que está fora de nós pode não nos ser indiferente, mas não a ponto de se colar a nós de modo que não se arranque sem nos esfolar e sem levar alguma parcela de nós. A coisa mais importante do mundo é saber pertencermos-nos.

Já é tempo de nos retirarmos da sociedade, porquanto nada mais lhe podemos dar e quem não está em condições de emprestar não deve pedir emprestado. Se nos faltam forças, recuemos e nos recolhamos. Quem puder então emprestar a si próprio os serviços que de costume se esperam da amizade e da sociedade, preste-os. Mas nessa queda que o torna inútil, importuno e pesado a outrem, evite tornar-se inútil, importuno e pesado a si próprio. Que se elogie e se trate, mas se domine; que respeite e tema sua razão e sua consciência para que não dê, sem se envergonhar, um passo em falso diante delas:

“Rarum est enim, ut satis se quisque vereatur.”

”É raro, com efeito, que alguém saiba respeitar-se suficientemente” [Quintiliano].

Diz Sócrates que os jovens devem instruir-se; os homens feitos procurar agir acertadamente; os velhos abandonar toda ocupação civil ou militar e viver para sua idéia, sem obrigações precisas. Há temperamentos mais ou menos predispostos a se conformarem com tais princípios. Os tímidos, os fracos, cujos sentimentos e vontade não se dobram (e sou desses tanto por tendência natural como pelo raciocínio) aceitam-nos mais facilmente do que aqueles cuja atividade e necessidade de ação levam a se meter em tudo, a se apaixonar por tudo, aqueles que se oferecem, se apresentam e se dão em quaisquer circunstâncias.

É preciso valermos-nos das vantagens que porventura encontramos em torno de nós, mas na medida em que nos convêm e sem fazer delas um alicerce essencial. Não o seriam, pois a razão e a natureza não o aprovam. Por que, desobedecendo às suas leis, nos colocaríamos, no que respeita à nossa comodidade, sob a dependência de outrem Antecipar-se aos acidentes que pode provocar a má sorte, não é coisa de se fazer. Privar-se voluntariamente das satisfações ao nosso alcance, como o fazem alguns por devoção e certos filósofos por convicção; dispensar criados; dormir ao relento; vazar os próprios olhos; deitar fora riquezas; procurar a dor, como o fazem muitos na. esperança de que os sofrimentos em vida lhe acarretem a eterna beatitude no outro mundo; ou como fazem outros que pensam, em descendo ao degrau mais baixo da sociedade, garantir-se contra queda maior, são coisas que resultam de exagerada virtude. Que as naturezas particularmente severas e resolutas assim se defendam contra os vendavais deste mundo é coisa que as honra e vale como exemplo:

“Tuta et parvula laudo,

Quum res deficiunt, satis inter vilia fortis

Verum, ubi quid melius contingit et unctius, idem

Hos sapere et solos aio bene vivere, quorum

Conspicitur nitidis fundata pecunia villis.”

”Quanto a mim, se não posso ter muito, contento-me com pouco e louvo a possível mediocridade; se minha fortuna melhora, proclamo que não há sábios e homens felizes senão entre aqueles cuja renda provém de boas terras” [Horácio].

Creio que muito se pode fazer sem ir tão longe. Basta-me a mim, quando a sorte me sorri, preparar-me para suas infidelidades, e representar-me, enquanto tenho o espírito livre, o mal que me pode ocorrer; assim em plena paz nos entregamos às justas e aos torneios, a fim de nos exercitarmos para a guerra. Não considero o filósofo Agesilau menos digno, só porque usava baixela de ouro e prata, de acordo com sua fortuna; estimo-o mais por tê-la usado com moderação e liberalidade do que se dela se houvesse desfeito.

Procuro verificar até onde podem ir as necessidades a que estamos expostos. Quando  um pobre mendigar à minha porta, tento fazer com que meu pensamento se amolde ao seu. E passando dele a outros em idênticas condições, sou impelido a pensar na morte, na pobreza, na perda de consideração, na doença, que podem ocasionalmente acontecer-me. A apreensão que experimento atenua-se à idéia da paciência com que outros, em piores situações, acatam suas desventuras, pois não posso acreditar que a fraqueza de espírito seja, em semelhante ocorrência, mais eficiente que a firmeza de ânimo, ou que a razão não possa conduzir aos mesmos resultados que o hábito. Sabendo quanto essas comodidades da vida, tão supérfluas, são frágeis, ao gozá-las não deixo de pedir a Deus a mercê de fazer com que me sinta satisfeito comigo mesmo e com o que possuo. Vejo pessoas ainda jovens e em perfeita saúde ter sempre em casa quantidade de pílulas para o caso de sobrevir um resfriado, o qual tanto menos receiam quanto imaginam ter o remédio à mão. É preciso agir de maneira idêntica; e se nos sentimos expostos a alguma doença séria devemos prover-nos de drogas que acalmem e adormeçam o órgão ameaçado.

A ocupação que cumpre escolher quem procura a solidão, não deverá ser nem cansativa nem aborrecida, pois de outro modo não valeria a pena isolar-se no intuito de encontrar o repouso. Depende ela da predileção natural de cada um. A minha tendência não me induz a valorizar minhas propriedades; os que apreciam uma tal atividade a ela se entreguem pois, mas com moderação: ”que busquem colocar-se acima das coisas, em vez de se sujeitar a elas” [Horácio], sem o que a ocupação se transformará em servidão, como diz Salústio.

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Entre as ocupações que comporta a exploração de uma propriedade, algumas há que eu compreendo e desculpo. Cuidar do jardim, por exemplo, o que, segundo Xenofonte, fazia Ciro. E é possível encontrar um meio-termo entre o trabalho grosseiro, pesado, exigente de atenção que se impõe a quem se dedica por inteiro a ele e a displicência profunda, excessiva dos que deixam tudo ao abandono:

“Democriti pecus edit agellos

Cultaque, dum peregre est animus sine corpore velox.”

”O gado dos vizinhos vinha comer as colheitas de Demócrito enquanto, liberto do corpo, seu espírito viajava pelo espaço” [Horácio].

Ouçamos o conselho de Plínio, o Jovem, a seu amigo Canínio Rufo a respeito da vida solitária: ”No retiro absoluto que criaste, e onde tens a possibilidade de viver como entendes, aconselho-te a abandonares a teus servidores as tarefas penosas e humilhantes, e te entregares ao estudo das letras, a fim de chegares a produzir alguma coisa pessoal”. Plínio quer dizer com isso que aplicasse seus lazeres em criar um nome. É o que pensava Cícero, que dizia querer empregar a solidão e o repouso que lhe deixariam os negócios públicos em conquistar com seus escritos uma glória imortal:

“Usque adeone

Scire tuum, nihil est, nisi to scire hoc, sciat alter?”

”Teu saber nada valerá se não souberem que tens saber” [Pérsio].

Seria normal, a meu ver, que olhasse para fora do mundo quem dele quer retirar-se. Plínio e Cícero só o fazem entretanto por metade; tudo dispõem para o momento em que se hão de retirar, mas por uma ridícula contradição, embora separados do mundo, deste é que pretendem tirar sua satisfação.

Os que por devoção procuram a solidão, e se animam na certeza de outra vida acenada pelas promessas divinas, são mais coerentes. Aspiram a Deus, infinitamente bom e poderoso, e sua alma, livre, encontra à saciedade a satisfação dos desejos que concebe no retiro. Aflições e dores são-lhes vantajosas, porquanto constituem créditos a mais para um dia possuírem a saúde e a felicidade eternas. A morte se lhes afigura desejável porque os introduzirá na perfeição. O rigor das regras que se impõem é atenuado desde o início pelo hábito, e os apetites da carne, repelidos sem cessar, adormecem afinal, pois nada os entretém melhor do que o uso e os exercícios. Essa outra vida feliz e imortal que se lhes promete, merece, sozinha, que renunciem sem restrições às comodidades e doçuras da nossa. Quem pode abrasar a alma com a chama dessa fé que nada abala e dessa esperança que engendra uma convicção real e constante, leva na solidão uma existência cheia de volúpias e de delícias, que deixa muito distantes todas as satisfações outorgadas por qualquer outro gênero de vida.

Nem o objetivo que aponta Plínio, nem o meio que propõe satisfazem portanto. Vamos assim de mal a pior. Dedicar-se às letras é trabalho tão penoso como outro qualquer e igualmente perigoso para a saúde, o que é o ponto essencial a ser considerado. E não nos devemos deixar encantar pelo prazer que tiramos dele, pois é sempre o prazer excessivo, que o homem aufere da satisfação do que mais aprecia, que o perde, seja ele avarento, voluptuoso ou ambicioso. Os sábios advertem-nos assaz contra a traição de nossos apetites; ensinam-nos a discernir, entre os prazeres que se nos oferecem, os verdadeiros e não suscetíveis de amargor dos que não são sem mistura e dos quais cumpre esperar mais fadiga do que satisfação. A maior parte dos prazeres, dizem, acaricia-nos e nos abraça para nos estrangular, como faziam os bandidos a que os egípcios chamavam filistas. Se a dor de cabeça da embriaguez ocorresse antes e não depois, evitaríamos beber demais; pois a volúpia age como a embriaguez: para melhor nos enganar vai à frente, escondendo-nos as conseqüências que acarreta. As letras são um agradável passatempo, mas se nos devemos absorver nelas a ponto de perdermos a alegria e a saúde, o que em suma nos é mais precioso, renunciemos. Sou de opinião que as vantagens que elas nos oferecem não compensam tais prejuízos. Os homens enfraquecidos por alguma enfermidade prolongada acabam por se entregar ao médico e se submetem a determinadas regras de vida a que não devem desobedecer; ora, quem, por desgosto ou aborrecimento, se retira da vida na sociedade deve guiar-se pelas regras da razão, e ordenar a nova existência com prudência e sensatez.

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Deverá renunciar a qualquer trabalho, como quer que se apresente, e também de um modo geral evitar as paixões que perturbam a tranqüilidade do corpo e do espírito, e ”escolher o caminho mais adequado a seu temperamento” [Propércio].

Que se dedique ao governo da casa, ao estudo, à caça ou a outro exercício se nisso se compraz, mas que não vá além do prazer porque então começa a fadiga. É preciso não inventar tarefas nem ocupações senão dentro dos limites em que se impõem para nos manter em forma e preservar dos incômodos que acarreta o exagero contrário, a ociosidade que amolece e embota. Há ciências estéreis e árduas que em sua maioria interessam principalmente a sociedade. Que as estudem os que estão a serviço desta. Quanto a mim, só aprecio os livros agradáveis e fáceis, que me distraem, cuja leitura é agradável, ou então os que me consolam e me fornecem regras para orientar a vida e preparar-me para a morte,

“Tacitum sylvas inter reptare salubres,

Curantem, quidquid dignum sapienti bonoque est.”

”Passeando em silêncio pelos bosques e ocupando-me de tudo o que é digno de um homem bem ordenado e virtuoso” [Horácio].

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As pessoas mais sábias do que eu, de alma mais forte e elevada, podem criar para si um repouso inteiramente espiritual. Eu, que a tenho como todo mundo, preciso que as comodidades do corpo me ajudem. E, tendo chegado à idade de perder as que mais me apeteciam, procuro as que me permite ainda esta época da vida, e arranjo-me para as aproveitar. É preciso, por todos os meios possíveis, inclusive unhas e dentes se necessário, que conservemos o gozo das satisfações da vida que os anos nos arrancam aos poucos, umas após outras, das mãos:

“Carpamus dulcia; nostrum est,

Quod vivis; cinis, et manes, et fabula fies.”

”Gozemos; somente os dias que damos ao prazer são nossos; brevemente não serás mais que cinza, sombra, fábula” [Pérsio].

Plínio e Cícero sugerem-nos como objetivo a glória. Não me interessa nem de longe. A disposição de espírito mais contrária à vida solitária está na ambição. Glória e repouso são incompatíveis entre si. Plínio e Cícero somente livraram o corpo da multidão; mais do que nunca a ela se prenderam pelo espírito e a intenção:

“Tun’, vetule, auriculis alienis colligis escas?”

”Velho pândego, então só trabalhas para divertir o povo?” [Pérsio]

; recuaram para melhor saltar e mediante violento impulso caíram em cheio no rebanho.

Quereis ver a que ponto estão errados? Comparemos sua opinião com as de Epicuro e Sêneca, filósofos pertencentes a escolas diversas e escrevendo um a Idomeneu e outro a Lucílio, seus amigos, a fim de induzi-los a abandonarem a vida pública, com suas grandezas, e a se retirarem: ”Vivestes até agora – dizem eles – nadando e flutuando pelos mares; voltai ao porto para morrerdes. Passastes a vida em plena luz, vivei à sombra o tempo que vos resta. Não vos libertaríeis de vossas ocupações se ao mesmo tempo não renunciásseis aos benefícios que vos outorgam; eis por que é preciso que abandoneis qualquer idéia de glória e renome. Seria prejudicial para vosso repouso que a irradiação de vossos feitos do passado vos acompanhasse em vosso refúgio, pondo vos demasiado em evidência. Com os outros prazeres renunciai ao que emana do aplauso dos homens. Quanto a vosso saber e a vossas capacidades, não vos preocupeis; não estarão perdidos se vós mesmos valerdes mais. Lembrai-vos daquele sujeito a quem perguntavam por que se esforçava tanto por adquirir um saber de que poucas pessoas teriam conhecimento; respondeu ele: ‘Contento-me com poucos; contento me com um; contento-me com nenhum.’ Estava certo. Vós e mais um já vos bastareis neste teatro da vida, em vos servindo mutuamente de público; e se estais só, sede a um tempo ator e espectador. Que o público seja para vós uma só pessoa e que uma só pessoa tenha a importância de um grande público. É covarde ambição querer auferir glória e renome da ociosidade e da solidão; fazei como os animais que apagam suas pegadas à entrada de seu covil. Não vos deveis esforçar para que o mundo fale de vós; só vos deveis preocupar com o que dizeis a vós mesmos. Recolheivos em vós, mas antes preparai-vos para vos receber. Pois seria loucura confiardes em vós se não sabeis governar-vos. Pode-se errar na vida solitária como quando se vive na sociedade. Enquanto não puderdes mostrar uma atitude irrepreensível, enquanto não inspirardes a vós mesmos respeito e pudor,

“Obversentur species honestae animo.”

“Oferecei a vosso espírito nobres imagens” [Cícero]

; tende sempre presentes à imaginação Catão, Fócion, Aristides, diante dos quais os próprios loucos esconderiam seus erros; e fazei-vos juízes de vossas intenções. Se estas não forem o que deveriam ser, a deferência que por eles tendes vos indicará o caminho certo. Eles vos ajudarão a vos bastardes, a nada pedirdes senão a vós mesmos, a fazerdes com que vosso espírito se atenha às meditações em que possa comprazer-se. Assim compreendereis quais os verdadeiros bens, de que gozamos na medida em que os vamos entendendo, e assim sereis felizes, sem desejar que vossa vida se prolongue e vosso nome se torne famoso”.

Eis um conselho de verdadeira e natural filosofia, e não de uma filosofia de ostentação e verborragia como a de Plínio e Cícero.

Montaigne é um gentleman (ou gentilhomen) a ponto de nos emocionar. Vale a pena lê-lo. Elogiado por Nietzsche, que não elogiava ninguém, que numa frase, que é uma magnífica apologia, escreveu “O fato de esse homem ter escrito realmente aumentou a alegria de viver nesta terra… Se me fosse dada a tarefa, eu poderia me esforçar para ficar à vontade no mundo como ele“.