Arquivo da categoria: Textos

Poliglotas…

revistauniversomaconico_a-torre-de-babel-e-os-primeiros-macons-1200x520

  1. A terra inteira tinha uma só língua e usava as mesmas palavras.
  2. Ao migrarem do oriente, os homens acharam uma planície na terra de Senaar, e ali se estabeleceram.
  3. Disseram uns aos outros:”Vamos fazer tijolos e cozê-los ao fogo”. Utilizaram tijolos como pedras e betume como argamassa.
  4. E disseram:”Vamos construir para nós uma cidade e uma torre que chegue até o céu. Assim faremos nome. Do contrário seremos dispersos por toda a superfície da terra”.
  5. Então o Senhor desceu para ver a cidade e a torre que os homens estavam construindo.
  6. E o Senhor disse: “Eles formam um só povo e falam uma só língua. Isto é apenas o começo de seus empreendimentos. Agora, nada os impedirá de fazer o que se propuserem.
  7. Vamos descer ali e confundir a língua deles, de modo que não se entendam uns aos outros.
  8. E o senhor os dispersou daquele lugar por toda a superfície da terra, e eles pararam de construir a cidade.
  9. Por isso a cidade recebeu o nome de Babel, Confusão, por que foi lá que o Senhor confundiu a linguagem de todo o mundo, e de lá dispersou seres humanos toda a terra.

Wikipedia

O tema do aprendizado de outras línguas é muito atraente para mim. Certa vez passei um mês em Albany, CA, na village dos estudantes com minha filha e circulava o máximo que podia de bicicleta nas imediações, em Berkeley e São Francisco.

Fui ao parque Golden Gate andar de Segway e fiz algumas incursões na Cheese Cake Factory (passei a adorar os cheese cakes de lá), na Macy’s, e na Ghiraldelli atrás de um maravilhoso sorvete com chocolate, além dos chocolates. Cheguei a ir de bicicleta até Sausalito atravessando a ponte Golden Gate.

E em todas estes bordejos procurei não me importar com o meu nível incipiente no inglês. Lembrei que os anglófonos se viram bem no Brasil porque adoramos facilitar a comunicação para eles. Pensava que nosso complexo de inferioridade é que nos levava a facilitar para eles devido a uma subserviência instintiva. Preconceitos sempre são insidiosos.

Podemos, é claro, encontrar pessoas intolerantes com aqueles outros que não falam bem o seu idioma e se sentem ofendidas ou impacientes com isso. Afinal, dentro de cada país, somos punidos no sistema educacional quando não conseguimos bom desempenho linguistico. Levamos isto as vezes para o nosso contato com os falantes nativos de outras línguas.

O que eu ouvia bastante quando vinha com o meu “sorry my English” é que “the important is to communicate”. Esta postura de se comunicar não se importando com a “lisura” no idioma adotei instintivamente pensando que se houvesse alguma má vontade do interlocutor eu passaria para o seguinte. Como estava na California esperava mais tolerância, imaginava eu, do que em alguns outros lugares mais xenófobos por qualquer motivo. As pessoa adoram que você tente falar a língua delas. Parece uma homenagem. Por mais canhestra que seja a tentativa.

Se a babel mítica não tivesse se estabelecido como realidade, se todos falassem a mesma língua, talvez fosse pior. A barreira da língua é uma rampa em que é melhor subir juntos para descortinar, do alto, uma paisagem melhor de compreensão da diferenças. E isto, talvez, torne desimportante outros fatores e passe a exercer um papel pacificador da nossa “ojeriza ao estranho”.

.Ao receber um vídeo sobre o uso do “to e do “for” do Mairo Vergara comecei a “divagar“ (e não navegar) pela Web e vi que vários conselheiros sobre o assunto falam de desobstruir o aprendizado dos vários preconceitos que atrapalham muito. O próprio Vergara fala disso e valoriza observar os métodos variados usado pelos poliglotas. No Ted Talk do Benny Lewis ele também bate nesta tecla.

 

 

 

Os dias eram assim

17-de-dezembro-latuff-midia-ditadura-militar-foto-5

“Assim como a criança repete as palavras da mãe, e os mais jovens repetem as maneiras grosseiras dos mais velhos que os submetem, assim o alto-falante gigantesco da cultura industrial, berrando através da recreação comercializada e dos anúncios populares – que cada vez menos se distinguem uns dos outros – replicam infinitamente a superfície da realidade. Todos os engenhosos artifícios da indústria de diversão reproduzem continuamente cenas banais da vida, que são ilusórias, contudo, pois a exatidão técnica da reprodução mascara a falsificação do conteúdo.

Essa reprodução nada tem em comum com a grande arte realista, que retrata a realidade a fim de julgá-la. A moderna cultura de massas, embora sugando livremente cediços valores culturais, glorifica o mundo como ele é. Os filmes, o rádio, as biografias e os romances populares têm todos o mesmo refrão: esta é a nossa trilha, a rota do que é grande e do que pretende ser grande – esta é a realidade como ela é, como deve ser, e será.” (Panacéias em conflito, Horkheimer: 1976, p.69)

[…]

“Os produtos da indústria cultural podem ter a certeza de que até mesmo os distraídos vão consumi-los alertamente. Cada qual é um modelo da gigantesca maquinaria econômica que, desde o início, não dá folga a ninguém, tanto no trabalho, quanto no descanso, que tanto se assemelha ao trabalho. É possível depreender de qualquer filme sonoro, de qualquer emissão de rádio, o impacto que não se poderia atribuir a nenhum deles isoladamente, mas só a todos em conjunto na sociedade. Inevitavelmente, cada manifestação da indústria cultural reproduz as pessoas tais como as modelou a indústria em seu todo” (Adorno & Horkheimer: 2006, p. 105).

Tecnologia e dominação ideológica na Escola de Frankfurt

A Globo brande o título de sua série como uma corroboração. “Os dias eram assim”. Ou seria melhor “Os dias eram assim mesmo”? Não poderiam ter sido diferentes aqueles dias. O passado congelado e, tal como gravado na pedra, não pode ser mudado. Mas de sua pétrea perspectiva lança um anátema ao presente e aos futuro. Sem tocar no que poderia ter sido ou desejado mostra uma banalização lateral ao principal tema de uma ditadura: tornar a vida bem estreita, como um tapa olho das bestas, os antolhos, para ver o mundo só em uma direção, que interessa aos que querem fazer da sua dominação a única opção. E naturalizá-la. Impingida e fragilizante da vida que se quer como algo além da sobrevivência.

A verdade nua e crua: para reflexão num dia de greve geral

Nota:

Eduardo Marinho tem outro vídeo (Ver abaixo) onde é alcunhado de “filósofo da rua”. Na minha opinião é um “nietzschiano” de madeira boa. Creio que se aproxima bem do tipo “Übermensch” descrito por Nietzsche no seu Zaratustra. Com certeza não é o “último homem”. Não pelo seu apreço ao homem desprotegido ou pobre, representado na grande massa de homens explorados e inferiorizados, mas pelo apreço à força trágica desses indivíduos que superam as adversidades. Parece repetir, no subtexto, o adágio nietzschiano “Aquilo que não me mata, só me fortalece”.

Veja abaixo mais vídeos sobre o Eduardo Marinho.

Ver “eduardo marinho” no Youtube.

Em  Nietzsche: A morte de Deus, o nascimento do Superhomem para enfrentar o niilismo e polêmica com os nazistas há trechos que conceituam o Übermensch com características bem próximas do que propões o Eduardo Marinho para a sua própria vida:

  • O Übermensch experimenta a vida com maior intensidade e profundidade do que a humanidade comum
  • O Übermensch cria seus próprios valores, ao invés de apenas aceitar os ensinamentos morais dos outros.
  • O Übermensch “vive perigosamente” no sentido de que ele valoriza coisas como novidade, criatividade, rigor intelectual, honestidade consigo mesmo, e intensidade da experiência, ao invés de mero conforto; ele procura alegria, não contentamento.
  • O oposto do Übermensch é o “último homem”, termo de Nietzsche para o tipo de pessoa que não deseja nada além do conforto e satisfação.
  • O modelo para o  Übermensch é o herói aristocrático, o tipo de indivíduo com grande alma representados por figuras da mitologia grega. Mas a grandeza do Übermensch é espiritual; se ele é um guerreiro, é no reino do conhecimento, ideias, e as artes.
  • O Übermensch ama a vida e o mundo para o último grau: ele quer o eterno retorno de todas as coisas, incluindo a sua própria vida, e até mesmo a vida daqueles que ele despreza. Isto é, independentemente de a doutrina do eterno retorno ser realmente verdade, ele deseja que ela seja verdadeira.

Ainda no artigo citado acima é analisada a importância do conceito do Übermensch:

Quão importante é o Übermensch na filosofia de Nietzsche como um todo?

A ideia do “SuperHomem” Übermensch está intimamente associada com Nietzsche, e muitas vezes é considerada estando no centro de seu pensamento, juntamente com conceitos como o eterno retorno e a vontade de potência . Na verdade, porém, ele só aparece em um livro: Zaratustra . Dificilmente é mencionado em algum dos seus outros escritos publicados, e só ocorre ocasionalmente nas notas que foram finalmente publicadas por sua irmã como A Vontade de Poder.

Por que ele parece abandonar a ideia do seu Superhomem depois de Zaratustra? Uma explicação plausível é que a ideia de uma espécie de ser humano que é tão distante de nós como nós somos do macaco não pode realmente inspirar-nos, uma vez que realmente não pode ser imaginada. Consequentemente, nas obras que vêm depois de Zaratustra, Nietzsche se concentra em descrever o indivíduo de alma grande, o tipo de pessoa que é “nobre”.

O conceito do Übermensch em Nietzsche está ligado à idéia de um tipo que estaria apto para abraçar a revelação acachapante do “eterno retorno” e usar como ferramenta cotidiana o “amor fati”. Os nazistas, com ajuda da sua irmã, idealizaram o homem superior cujo modus operandi não podia se desviar da supressão e opressão de “raças inferiores”. Nietzsche abandonou a idéia de superioridade como diferença em favor da autonomia e do jardim acolhedor com uma convidativa porta de entrada. Talvez inspirado no “filósofo do jardim“. Jardim onde “Epicuro ignora o ideal cívico e o substitui por um ideal afetivo”.

174. MODA MORAL DE UMA SOCIEDADE MERCANTIL

Por trás desse principio da atual moda moral: “As ações morais são as ações de simpatia para com os outros”, vejo dominar o instinto social do temor que assume assim um disfarce intelectual: esse instinto põe como princípio superior, o mais importante e o mais próximo, que é necessário retirar da vida o caráter perigoso que possuía outrora e que cada um deve ajudar nisso com todas as suas forças. É por essa razão que unicamente as ações que visam à segurança coletiva e ao sentimento de segurança da sociedade podem receber o atributo de “bom”! — Quão poucos prazeres devem desde logo ter os homens para consigo mesmos, para que tal tirania do temor lhes prescreva a lei moral superior, para que se deixem assim intimar sem contestação para não tirar ou desviar o olhar de sua própria pessoa, mas ter olhos de lince para toda miséria, para todo sofrimento dos outros! Com nossa intenção, impelida até o extremo, de querer aparar todas as asperezas e todos os ângulos da vida, não estamos no caminho certo para reduzir a humanidade até transformá-la em areia? Em areia! Uma areia fina, tênue, granulosa, infinita! É este seu ideal, ó heróis dos sentimentos simpáticos? — Entretanto, resta saber se porventura se serve mais ao próximo correndo imediatamente e sem cessar em seu socorro e ajudando-o — o que só pode ser feito muito superficialmente, a menos que se se torne penhora tirânica — ou fazendo de si mesmo algo que o próximo vê com prazer, por exemplo, um belo jardim tranqüilo e fechado que possua altas muralhas contra as tempestades e a poeira das grandes estradas, mas também uma porta acolhedora.

Aurora, Nietzsche

Eduardo “Zaratustra” Marinho aparentemente não quer seguidores. Quer reflexão espalhada à granel nas mentes de todos. Suas falas são construídas na “observação” e na “absorção” de uma compreensão norteadora. Mas que cada um deve adquirir. Não receber dele. E para adquirir é preciso buscar a experiência e o perigo. E ultrapassar o perigo, incólume, com a arma da experiência.

A invenção do eterno retorno

10174213

O maior dos pesos – E se um dia, ou uma noite, um demônio lhe aparecesse furtivamente em sua mais desolada solidão e dissesse: ‘Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspiro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terão de lhe suceder novamente, tudo na mesma sequência e ordem  – e assim também essa aranha e esse luar entre as árvores, e também esse instante e eu mesmo. A perene ampulheta do existir será sempre virada novamente – e você com ela, partícula de poeira!’.  – Você não se prostraria e rangeria os dentes e amaldiçoaria o demônio que assim falou? Ou você já experimentou um instante imenso, no qual lhe responderia: “Você é um deus e jamais ouvi coisa tão divina!”. Se esse pensamento tomasse conta de você, tal como você é, ele o transformaria e o esmagaria talvez; a questão em tudo e em cada coisa, “Você quer isso mais uma vez e por incontáveis vezes?‟, pesaria sobre os seus atos como o maior dos pesos! Ou o quanto você teria de estar bem consigo mesmo e com a vida, para não desejar nada além dessa última, eterna confirmação e chancela” – Friedrich Nietzsche, Gaia Ciência, 341

Razão Inadequada

ouroboros

Stevenson, por volta de 1882, apontou que os leitores britânicos menosprezavam um pouco as peripécias e consideravam uma grande habilidade escrever um romance sem argumento, ou de argumento infinitesimal, atrofiado. José Ortega y Gasset — A desumanização da arte, 1925 — tenta justificar o menosprezo apontado por Stevenson e decreta, na página 96, ser “muito difícil que hoje se possa inventar uma aventura capaz de interessar nossa sensibilidade superior” e, na 97, que essa invenção “é praticamente impossível”. Em outras páginas, em quase todas as outras páginas, advoga pelo romance “psicológico” e opina que o prazer das aventuras é inexistente ou pueril. É esse, sem dúvida, o comum parecer de 1882, de 1925 e até de 1940. Alguns escritores (entre os quais tenho o prazer de incluir Adolfo Bioy Casares) entendem que é razoável discordar. Resumirei, aqui, os motivos dessa discordância.

O primeiro (cujo ar de paradoxo não quero ressaltar nem atenuar) é o intrínseco rigor do romance de peripécias. O romance típico, “psicológico”, tende a ser informe. Os russos e os discípulos dos russos provaram até o cansaço que ninguém é impossível: suicidas por felicidade, assassinos por benevolência, pessoas que se adoram até o ponto de se separarem para sempre, delatores por fervor ou por humildade… Essa plena liberdade acaba equivalendo à plena desordem. Por outro lado, o romance “psicológico” pretende ser também romance “realista”: prefere que esqueçamos seu cará ter de artifício verbal e faz de toda vã precisão (ou de toda lânguida vagueza) um novo toque de verossimilhança. Há páginas, há capítulos de Marcel Proust que são inaceitáveis como invenções: sem saber, resignamo-nos a eles como a tudo que de insípido e ocioso há no dia a dia. O romance de aventuras, ao contrário, não se apresenta como uma transcrição da realidade: é um objeto artificial que não comporta nenhuma parte injustificada. O temor de incorrer na mera variedade sucessiva de O asno de ouro, das sete viagens de Simbad ou de D. Quixote impõe-lhe um rigoroso argumento.

Aleguei um motivo de ordem intelectual; há outros de caráter empírico. Todos murmuram tristemente que nosso século é incapaz de tecer tramas interessantes; ninguém se atreve a verificar que, se alguma primazia tem este século sobre os anteriores, essa primazia é a das tramas. Stevenson é mais apaixonado, mais diverso, mais lúcido, talvez mais digno de nossa absoluta amizade que Chesterton; mas os argumentos que governa são inferiores. De Quincey, em noites de minucioso terror, penetrou no coração de labirintos feitos de labirintos, mas não plasmou seu timbre de unutterable and self-repeating infinities em fábulas comparáveis às da Kafka. Ortega y Gasset aponta com justiça que a “psicologia” de Balzac não nos satisfaz; a mesma observação vale para seus argumentos. Shakespeare, Cervantes apreciavam a antinômica ideia de uma moça que, sem prejuízo de sua beleza, consegue passar por homem; esse móvel não funciona entre nós… Considero-me livre de toda superstição de modernidade, de qualquer ilusão de que ontem difere intimamente de hoje ou diferirá de amanhã; mas penso que nenhuma outra época possui romances de tão admirável argumento como The Invisible Man, como The Turn of the Screw, como Der Prozess, como Le Voyageur sur la Terre, como este que logrou, em Buenos Aires, Adolfo Bioy Casares.

As ficções de índole policial — outro gênero típico deste século que não consegue inventar argumentos — relatam fatos misteriosos que um fato razoável depois justifica e ilustra; Adolfo Bioy Casares, nestas páginas, resolve com felicidade um problema talvez mais difícil. Desfia uma Odisseia de prodígios que não parecem admitir outra chave de leitura afora a alucinação ou o símbolo e decifra-os plenamente por meio de um único postulado fantástico, mas não sobrenatural. O temor de incorrer em prematuras ou parciais revelações me proíbe a análise do argumento e das muitas delicadas sabedorias da execução. Baste-me declarar que Bioy renova literariamente um conceito que Santo Agostinho e Orígenes refutaram, que Louis-Auguste Blanqui ponderou e que Dante Gabriel Rossetti disse com música memorável:

I have been here before,
But when or how I cannot tell:
I know the grass beyond the door,
The sweet keen smell,
The sighing sound, the lights around the shore…

Em espanhol, são infrequentes e até raríssimas as obras de imaginação racional. Os clássicos exerceram a alegoria, os exageros da sátira e, vez por outra, a mera incoerência verbal; de datas recentes não recordo nada afora algum conto de As forças estranhas e algum de Santiago Dabove: injustamente esquecido. A invenção de Morel (cujo título alude filialmente a outro inventor ilhéu, Moreau) traslada um gênero novo para nossas terras e nosso idioma.

Discuti com seu autor os pormenores de sua trama, que acabo de reler; não me parece impreciso ou hiperbólico qualificá-la de perfeita.

jorge luis borges
Buenos Aires, 2 de novembro de 1940.

Ao ler pela primeira vez o livro “A invenção de Morel” me senti imerso numa atmosfera onírica.

Estou relendo agora. E a fascinação se manteve como da primeira vez.

No post sobre o filme de Resnais comento sobre o filme e o livro após a primeira leitura. Li recentemente no artigo O enigma Morel-Marienbad que o filme do Resnais pode ser uma continuação do livro e não uma adaptação direta do mesmo. Penso em rever o filme com esta nova ótica.

Procurando uma imagem para este post descobri o filme L’invenzione di Morel (1976) e o curta La invención de Morel (2006), ambos sobre o livro de Casares.

Leve spoil a seguir:

Continuar lendo

Hated in the Nation

blackmirror-bee

A tecnologia e suas distópicas consequências já povoaram muitos contos terror de ficção científica. No post Os sonhos da razão técnica, influenciado por uma palestra de Jean-Pierre Dupuy, usei a imagem:

“A possibilidade de criação de microorganismos que não evoluiriam mais mas que, como uma mancha avassaladora, fosse substituindo a vida biológica por uma “vida artificial” estagnada, daria, no final, um “brilho metálico” à Terra.”

nanobots-647x270

Talvez inspirada na destruição por nanobots no filme “Eu, robô”, baseado em conto de Asimov, de um computador malévolo, surgiu a metáfora citada acima. Ao construirmos pequenos robots que agem em grupo, e podem ser em grande número, para que eles cumpram determinadas tarefas devem, quase que obrigatoriamente, ter algum comportamento autônomo. A inteligência “emergente” pode ser muito mais difícil de prever e controlar do que nos casos em que é centralizada.

Leve spoil abaixo. Continuar lendo

Nosedive

nosedive-208x300As vezes precisamos do fracasso para achar o nosso centro. O fracasso, sendo relativo, pode representar o sucesso em tomar as rédeas do nosso destino. Assim como Nietzsche dizia que nunca fora tão saudável quanto na doença poderíamos encarar o fracasso como uma cura. Uma outra face da moeda. Oposta àquela do nosso conformismo às coerções externas que nada tem a ver conosco.

O episódio “Nosedive” da série “Black Mirror” mostra claramente o que nós é oculto pela nossa imersão atual nas redes sociais e nos vários sistemas que tomam conta de nossa reputação das mais variadas formas. Numa hiperbólica escalada apoiada pela tecnologia mais invasiva e totalitária que já surgiu no planeta vivemos uma nova versão do “big brother” de Orwell. Uma versão “peer to peer”, de muitos para muitos e ao mesmo tempo centralizada numa ética da fama em vez da honra. Cada vez mais ˜famosos˜, e ainda anônimos, tornarmos-nos cada vez mais hamsters girando furiosamente nossa gaiola circular. Desonramos-nos pela fama agora ubíqua e acessível nas redes sociais e mediada pelo também ubíquo celular.

Charlie Brooker explicou o título da série ao The Guardian, dizendo que “se a tecnologia é uma droga – e parece mesmo ser uma – então quais são precisamente os efeitos colaterais? Este espaço – entre apreciação e desconforto – é onde Black Mirror, minha nova série de televisão, está localizada. O ‘espelho negro’ do título é um que você encontrará em todas as paredes, em todas as mesas, na palma de toda mão: a fria e brilhante tela de uma TV, um monitor ou um smartphone.”

Wikipedia

black-mirror-nosedive_unume6

nosedive

Shopenhauer realça a diferença entre a ribalta e a honra:

Se as pessoas insistem que honra é mais cara que a própria vida, o que elas querem dizer é que a existência e o bem-estar são insignificantes se comparados com as opiniões dos outros. É claro que isto pode ser uma forma exagerada de exprimir a verdade prosaica de que a reputação – a opinião que os outros têm de nós – é indispensável se desejamos fazer algum progresso no mundo.

Nada na vida dá ao homem tanta coragem como a renovada convicção de que os outros o olham simpaticamente. Isso significa que todos se aliam para dar-lhe a ajuda e proteção que constituem um bastião infinitamente mais vigoroso contra as incertezas da vida do que qualquer outra coisa. Os fundamentos últimos da honra residem na convicção de que o caráter moral é inalterado: uma única má-ação implica no reconhecimento de que futuras ações do mesmo gênero, sob as mesmas circunstâncias, serão igualmente ruins. Fama é algo que deve ser conquistado; honra é apenas algo que não deve ser perdido. A ausência de fama é a obscuridade que é apenas uma negação, mas a quebra da honra é uma vergonha, que é algo concreto e positivo.

A honra concerne apenas àquelas qualidades que se espera encontrar em qualquer um em circunstâncias similares. A fama concerne apenas às qualidades que não se podem exigir em todos os homens. Qualquer um pode atribuir-se a honradez. A fama só pode ser atribuída por outros. Enquanto nossa honorabilidade se estende tão longe quanto o conhecimento que as pessoas têm de nós, a fama se antecipa correndo e faz-nos conhecidos entre gente que não nos conhece. Qualquer um pode considerar-se apto à honra, poucos porém podem considerar-se capacitados para a fama obtida somente diante de conquistas extraordinárias. Nenhuma diferença de classe, posição ou nascimento é tão grande quanto o abismo que separa os incontáveis milhões de criaturas que usam suas cabeças como instrumentos de seus estômagos e aqueles poucos e raros indivíduos que têm a coragem de dizer: “não!”

Comparados com os respectivos períodos de vida, os homens de grande intelecto assemelham-se a altos edifícios construídos num pequeno lote de terreno – o tamanho da construção não poder ser avaliado por ninguém que esteja no terreno. Por razões análogas, a grandeza dos gênios ou heróis não pode ser estimada enquanto vivem. Passado um século, o mundo reconhece os valores, mas é tarde demais.

Todo herói é um Sansão. O homem forte sucumbe à intriga e às artimanhas dos fracos e se no fim ele perde a paciência, esmaga os miúdos e se soterra. Ou então ele é como Gulliver em Liliput – um poderoso gigante dominado por um enxame de homens minúsculos.

É natural que grandes mentes – os verdadeiros mestres da humanidade menosprezem a companhia de grupos. Como o professor que não se inclina a participar da zoada dos alunos. A missão destas grandes almas é guiar seus semelhantes do mar de erros ao porto da verdade, tirá-los do abismo da vulgaridade para a luz do refinamento. Os seres de grande intelecto vivem no mundo sem contudo pertencer a ele. Desde cedo percebem uma diferença entre eles e o resto da humanidade, mas é só com o passar dos anos que compreendem suas posições: seu isolamento intelectual é uma necessidade criadora e sua vida reclusa uma imposição para salvá-la do desgaste.

Shopenhauer

Shopenhauer compara a fama e a honra opinando que poucos podem obter a fama genuína com base em feitos extraordinários de valor para a humanidade. Nos confina, assim, à fama sem valor que conserva apenas a aura da verdadeira fama mas que, ainda assim, age como um lume que atrai e, ao mesmo tempo, queima nossas asas de mariposas.

blackmirror1x02_1297

Outro episódio de Black Mirror começa onde este termina. Em Fifteen Million Merits quase todos estão confinados enquanto que em Nosedive há uma aparente liberdade exuberante com gosto de sabonete. A prisão real e a liberdade virtual são faces da mesma moeda que girando velozmente não nos permite distinguir  conscientemente uma imagem da nossa verdadeira indigência. Há somente uma crescente restrição da liberdade. Não há mais dentro e fora desta prisão. Só dentro. Segundo Foucault a mais cruel invenção recente foi a pena pela restrição da liberdade, antes apanágio exclusivo dos poderosos que prendiam seus inimigos nos calabouços privados nas profundezas das fortalezas. Hoje o Estado é o leviatã em que todos somos seus inimigos declarados ou latentes e, por isso, mantidos sobre estrito controle através de lianas invisíveis.

6jw6vl_dA série Black Mirror, um espelho distópico e negro como nosso futuro que já é presente com seus mecanismos sendo gradativamente engendrados, está se revelando um excelente meio de reflexão, como sugere a metáfora do espelho. Uma negra reflexão.  De um espelho negro como as profundezas abissais nos olhando de volta, como uma órbita escura num crânio vazio. Com um abissal esvaimento do sentido. A pergunta “Para quê estamos vivendo?” martelando insistentemente nos bastidores.

63 anos…

fa0794a658d8f1dbef84b1be5c28a9ce

Haja “hoje” para tanto “ontem”.

Paulo Leminski

No nosso aniversário, este contraditório acontecimento, merecemos parabéns por que? Nada fiz a não ser viver. Heróicos, todos atravessamos a vida qual num sonho. Esvai-se o sentido a cada ano que passa. Como se o sentido fosse dado pela quantidade de anos que ainda falta viver. Mas esta falta de sentido é mesmo um sentido mais autêntico se pudermos trocar as coerções externas e inexoráveis pelas nossa volúvel vontade interna. Nada traçado na pedra. Um voo mais sinuoso do que os das borboletas. Gostaria de buscar a leveza de um “flâneur”.

Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está a nossa vida, e mais ela é real e verdadeira. Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes. Então, o que escolher? O peso ou a leveza?

Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que faz com que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo ‘esboço’ não é a palavra certa porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro.

Kundera

in A insustentável leveza do ser