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O guia do ciclista politicamente incorreto

sempe_pg_3riderswithshadows— O que houve com você? Por que resolveu escrever este guia?

— Foram ideias incorretas que me ocorreram durante uma queda.

— Uma queda? De bicicleta? Como deu tempo para pensar em tanta coisa numa queda?

— Assim como quando Eva deu a maçã para Adão estava tudo já na mente do Deus Único Onipotente e Onisciente. Assim como quando Einstein caiu da escada a equivalência das acelerações ficou clara num lapso e consolidou sua teoria da relatividade geral. Mas já estava tudo lá.

— O Guia já estava com você? E o utilizava?

— Sim. Intuitivamente. Instintivamente. Paranoicamente.

sempe_pg_balance2— E por que?

— Bem…começou bem antes da queda. Fui imprensado por um carro numa valeta na beira da pista e desgovernei-me. Caí atabalhoadamente atrás do carro que ou não me notou ou caiu fora de propósito. Ainda vi o branco de da sua tinta se afastando como um velejador solitário caído no mar vê seu veleiro se afastar cruelmente.

— O Guia traduz um ressentimento…

— Sim. Mas somente no início. Na verdade é um manual de guerrilha. Onde os ciclistas desistem, ou pelo menos o nosso ciclista politicamente incorreto, da guerra com os carros, de antemão perdida, e partem para uma atitude defensiva feita de atos, de pura ação, num flash mob coletivo e mudo, num incômodo ostensivo aos carros, os donos das ruas e da cidade.

— São mesmo. As cidades são construídas para eles e em torno deles. Se os carros fossem como as limos de Holy Motors falariam: “Somos os donos do pedaço!”.

sempeboy— Pois é. Mas como em Einstein minha teoria de relatividade geral da circulação das bicicletas, O Guia do Ciclista Politicamente Incorreto, surgiu bem antes na minha mente.

— Quando?

— Quando vi um conselho para que se andasse no acostamento na contramão das estradas. A pé ou de bicicleta.

— Foi o fiat lux

— Foi. O conselho se justificava de várias formas. A visão dos carros vindo de frente permitiria, na maioria dos casos, uma ação evasiva eficiente. Não teria também que virar o pescoço toda hora para ver se estava seguro. O monitoramento de frente seria constante.

— O único flanco seriam os carros ultrapassando…

— É verdade. Esta situação é similar a que ocorria ao andar pelo acostamento a favor do fluxo (menos na Inglaterra). Mas o ganho de se andar no acostamento contrário ao fluxo tinha vantagens superiores às desvantagens.

sempe1962-4— Mas nas ruas urbanas não há acostamento. Só sarjetas mal projetadas, mal construídas e mal conservadas.

— Isto é um empecilho. Uma desvantagem que leva à circulação em baixa velocidade, também para proteger os pedestres que, ao atravessar a rua, não costumam olhar para os dois lado e muito menos contar com uma bicicleta vindo pela contramão. Uma desvantagem compensada pelo extremo prazer que é andar de bicicleta. Eu fecho com Byrne quando ele diz:

Não ando de bicicleta para todo lugar por ser ecológico ou digno de nota. Faço principalmente pelo senso de liberdade e êxtase.

David Byrne

Vale a pena.

— Uma regra legal em algum lugar diz que os carros devem manter distância das bicicletas. E também para que tenham espelhinhos retrovisores, luzes de sinalização, capacetes no cocoruto dos ciclistas etc. Que andem na mesma mão dos carros também.

— Que não mais podem sentir a brisa refrescante num dia quente de verão. Por causa do capacete. Como se tudo isto fosse eficaz. Na verdade são pretextos para desconsiderar os direitos daqueles que estiverem irregulares.

— São para a proteção.

— Qualquer ciclista que as cumpra a risca e não siga o meu guia é candidato a mártir. Pelo menos nos lugares que vivi em meu país. No exterior também há uma guerra mas medidas de proteção melhores também, em alguns lugares. Por exemplo, já andei na frente de um ônibus numa faixa compartilhada, marcada no chão, sem que tivesse que me apressar em demasia. É claro que andei rápido, favorecendo o ônibus e a mim mesmo por chegar mais depressa ao meu destino. E com segurança.

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— Mas existem leis…

— Feitas por legisladores que estão lá pensando em seu carrões enquanto mentalmente reproduzem normas afeitas ao carros e inaplicáveis às bicicletas. Enquanto isto não tocam na arquitetura urbanística das cidades.

— E o Guia não poderia se tido como uma apologia da transgressão?

— No meu guia é mostrado claramente que a transgressão é conceitual e literária. Não aconselhamos a fazer isto em casa, quer dizer, nas ruas. Como pedimos às crianças que não imitem o Superman e saiam voando pela janela. O problema é que, diferentemente do voo sem asas do super homem, a estratégia do guia é vencedora. É de guerrilha. Não para derrotar os carros. Mas para apontar que há novos modos de convívio com eles, antes que desapareça o uso deles na forma atual. Antes que a arquitetura das cidades se tornem melhores para as bicicletas. Pois para os carros já seria boa se eles não fossem tantos.

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— Mas fale do que há no Guia.

— O guia é muito simples. Os princípios são poucos. Como num decálogo mosaico. Mas cobrem a maioria das necessidades.

— Pode enumerá-los?

— Vou também justificá-los…

moses-with-the-ten-commandments-on-two-tablets-tom-toroO primeiro mandamento é “Não andarás na mão ou o cuspirei da minha boca. Se fores morno e andares na mão o massacrarei transformando em metal retorcido a sua magrela e em carne imprestável o seu corpo.”

— Como se justifica?

— Um mandamento é um mandamento. Alguém já viu Moisés se justificando?

— Você é o Moisés das bicicletas?

0984c14751b6280555859559694a8efc-cute-hedgehog-penny-black-stamps— Sou mas me justifico. Houve um estudo que mostrou que os carros se aproximam mais de quem está de capacete numa bicicleta do que dos ciclistas que não o usam (Veja em português). Tentou-se um explicação que restaurasse a racionalidade deste fato esdrúxulo. Não seria humano pensar que os motoristas queiram penalizar os que usam capacete levando mais perigo aos mesmos. Optou-se por imaginar que os motorista consideravam os que estavam sem capacete mais “maluquinhos” e com comportamento mais caótico. O que os levava a afastar-se mais. O mesmo se dá com o ciclista na contramão. Observamos em nossa experiência que os motoristas dedicam mais atenção e cuidado com os ciclistas na contramão. São mais visíveis. Enquanto que os que vão na mão parecem vestir um manto da invisibilidade e serem vistos mais como um estorvo. Parece que contato visual frente a frente faz os motoristas respeitarem mais o ciclista. Ou porque o estão encarando ou por parecerem malucos.

— Muito interessante…

— O segundo mandamento nas vias é “Não cruzarás como os carros mas como os pedestres pegando carona nos seus privilégios já conquistados: Zebras e semáforos com acionamento por botão, onde houver.”

— E a pena?

— Sempre a mesma citada no primeiro mandamento.

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— E o terceiro?

— Uma variante do segundo. “Onde não houver o botão do semáforo desça da bicicleta e misture-se com os pedestres para obter mais proteção. Se não houver pedestres muito cuidado para não fazer parte de um strike do boliche dos carros mesmo quando estiver atravessando na faixa.”

— Puxa!

crossing— O quarto é uma tática para cruzamento de vias onde não há faixas mantendo-se na contramão: “Manterá-se na contramão ao cruzar a via mantendo, desta forma, no visual frontal os carros que vem da frente e depois, os carros que vem na via da esquerda onde você faz uma pequena entrada antes de cruzar a via afastado da complicação do cruzamento com várias direções a serem controladas. A única exceção à visualização de frente ocorrerá quando tiver que olhar sobre os ombros para ver os carros que vem da direita do cruzamento e que ficarão atrás quando fizer a pequena entrada.”

— Mas isto tornará cada cruzamento um processo lento.

— Sim. Mas lembra da guerrilha? O tanques em suas lagartas andam rápido mas os guerrilheiros a pé são mais ágeis e penetram em espaços mais confinados. Andar rápido de bicicleta numa arquitetura desfavorável da cidade é flertar com o diabo. Nem sempre o melhor caminho é a linha reta. Aqui menos não é mais. Caminhos mais longos são muitas vezes mais prazerosos e favoráveis ao serendipity. Às vezes o maior caminho é melhor desde que seguro. E a paisagem pode ser melhor. Evite ruas com muito trânsito e horários de rush. Neste momento os motoristas estão ansiosos para chegar no trabalho e vêm as bicicletas como um estorvo pilotado por “vagabundos” que não tem que chegar na hora para atender ao patrão ou aos próprios negócios. Embora mais gente queira ir para o trabalho de bicicleta. Escolha ruas alternativas onde não haja muitos carros em circulação. Principalmente nos horários de rush quando os motoristas apressados e estressados tendem a não prestar muita atenção em você, um completo empecilho.

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— E o quinto mandamento?

— Este é mais geral: “Fuja das vias e do confronto direto com o inimigo, os carros.”

— Como é uma guerrilha onde fica o confronto indireto?

— Por incrível que pareça são os pedestres que, compartilhando as calçadas com as bicicletas, se tornam a consciência pública antagônica aos carros, também seus inimigos. São tolerantes com as bicicletas nas calçadas se não há ciclovia. Experimentei este sentimento várias vezes quando pedestres nas calçadas pedem desculpa por estar fazendo que você espere pelo espaço para circular ao lado deles. Mas uma regra de ouro é que na calçada o pedestre é o rei. Nada de ameaçá-lo com movimentos caóticos e zigue-zags. Andar devagar é o melhor quando houver risco de colisão. Parar e esperar a decisão do pedestre sobre o compartilhamento do espaço. Raras vezes o pedestre me mandou ir para a rua. O confronto direto com os pedestres na verdade gera aliados contra a selvageria dos carros. Muitos pedestres também são ciclistas ou desejam se tornar.

Realmente, o tráfego desenvolveu-se no sentido de uma espécie de Moloch, que, ano sim, ano não, devora uma soma de vítimas que só se podem comparar às da guerra. Estas vítimas caem numa zona moralmente neutra; o modo em que são percebidos é de natureza estatística ; «Como é possível que, num tempo em que se luta em torno da cabeça de um assassino com a oferta completa de mundividências contrapostas, quase não esteja presente uma diferença de tomada de posição em relação às incontáveis vítimas da técnica, e particularmente da técnica do tráfego? Que tal não tenha sido o caso desde sempre, isso pode-se ver facilmente a partir da versão das primeiras leis do caminho-de-ferro, em que claramente se expressa o esforço para tornar responsável o caminho-de-ferro por qualquer dano que se dê puramente pelo facto da sua presença. Hoje, pelo contrário, impôs-se a concepção de que o peão não apenas se tem de adequar ao tráfego, mas também de que ele é imputável pelas infracções contra a disciplina do tráfego.

Notas:

  1. Boa parte das ilustrações neste post são do Sempé.
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Feyerabend e a depressão

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A depressão é tida como o “mal do século”. Não sabemos de qual. Feyerabend, que por causa de sua atitude como cientista, expressa no diálogo intitulado “For and Against method”, com Lakatos, sofria de depressão bem o diz sobre como ela gruda na sua pele como uma sarna e invade seu interior como um alien de filme de terror de ficção científica:

“A depressão esteve comigo durante um ano; como um animal, distintamente, uma coisa que se podia encontrar no espaço. Eu poderia levantar, abrir meus olhos, escutar — Ela está aqui ou não? Nem sinal. Talvez esteja dormindo. Talvez ela me deixe em paz hoje. Cuidadosamente, muito cuidadosamente, eu saio da cama. Tudo está em silêncio. Eu vou até a cozinha, começo a preparar o café. Nenhum barulho. TV –Bom dia América-, David Qual-é-seu-nome. Eu como e vejo os convidados. Lentamente a comida preenche meu estômago e me dá força. Agora uma rápida ida ao banheiro e saio para minha caminhada matinal – e lá está ela, minha fiel companheira, a depressão: “Achou que poderia sair sem mim?”.

Wikipedia

 

Terra plana brasilis

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O Brasil também se tornou plano num planeta cada vez mais chato.

Chato na terraplanagem das ideias. Sem relevos e aplainado pela lâmina afiada dos preconceitos e burrice extrema. O subhomem, o moderno, o “homem de bem” vocifera incessantemente seu credo moral do fundo do seu nilismo que nunca pode ultrapassar a linha. Numa convolução infinita retrai-se em suas entranhas de onde projeta sua bílis, excremento e sangue ruim.

Não há luz no fim do túnel. Não há nem mesmo túnel para lugar algum. Submergimos cada vez mais numa anomia extremada.

Invertendo Nietzsche subvaloramos cada vez mais. A vida somente como sobrevivência é auto-imposta pelo animal triste que se tornou o homem. Um rebanho que nenhuma ave de rapina pode mais melhorar…

Poliglotas…

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  1. A terra inteira tinha uma só língua e usava as mesmas palavras.
  2. Ao migrarem do oriente, os homens acharam uma planície na terra de Senaar, e ali se estabeleceram.
  3. Disseram uns aos outros:”Vamos fazer tijolos e cozê-los ao fogo”. Utilizaram tijolos como pedras e betume como argamassa.
  4. E disseram:”Vamos construir para nós uma cidade e uma torre que chegue até o céu. Assim faremos nome. Do contrário seremos dispersos por toda a superfície da terra”.
  5. Então o Senhor desceu para ver a cidade e a torre que os homens estavam construindo.
  6. E o Senhor disse: “Eles formam um só povo e falam uma só língua. Isto é apenas o começo de seus empreendimentos. Agora, nada os impedirá de fazer o que se propuserem.
  7. Vamos descer ali e confundir a língua deles, de modo que não se entendam uns aos outros.
  8. E o senhor os dispersou daquele lugar por toda a superfície da terra, e eles pararam de construir a cidade.
  9. Por isso a cidade recebeu o nome de Babel, Confusão, por que foi lá que o Senhor confundiu a linguagem de todo o mundo, e de lá dispersou seres humanos toda a terra.

Wikipedia

O tema do aprendizado de outras línguas é muito atraente para mim. Certa vez passei um mês em Albany, CA, na village dos estudantes com minha filha e circulava o máximo que podia de bicicleta nas imediações, em Berkeley e São Francisco.

Fui ao parque Golden Gate andar de Segway e fiz algumas incursões na Cheese Cake Factory (passei a adorar os cheese cakes de lá), na Macy’s, e na Ghiraldelli atrás de um maravilhoso sorvete com chocolate, além dos chocolates. Cheguei a ir de bicicleta até Sausalito atravessando a ponte Golden Gate.

E em todas estes bordejos procurei não me importar com o meu nível incipiente no inglês. Lembrei que os anglófonos se viram bem no Brasil porque adoramos facilitar a comunicação para eles. Pensava que nosso complexo de inferioridade é que nos levava a facilitar para eles devido a uma subserviência instintiva. Preconceitos sempre são insidiosos.

Podemos, é claro, encontrar pessoas intolerantes com aqueles outros que não falam bem o seu idioma e se sentem ofendidas ou impacientes com isso. Afinal, dentro de cada país, somos punidos no sistema educacional quando não conseguimos bom desempenho linguistico. Levamos isto as vezes para o nosso contato com os falantes nativos de outras línguas.

O que eu ouvia bastante quando vinha com o meu “sorry my English” é que “the important is to communicate”. Esta postura de se comunicar não se importando com a “lisura” no idioma adotei instintivamente pensando que se houvesse alguma má vontade do interlocutor eu passaria para o seguinte. Como estava na California esperava mais tolerância, imaginava eu, do que em alguns outros lugares mais xenófobos por qualquer motivo. As pessoa adoram que você tente falar a língua delas. Parece uma homenagem. Por mais canhestra que seja a tentativa.

Se a babel mítica não tivesse se estabelecido como realidade, se todos falassem a mesma língua, talvez fosse pior. A barreira da língua é uma rampa em que é melhor subir juntos para descortinar, do alto, uma paisagem melhor de compreensão da diferenças. E isto, talvez, torne desimportante outros fatores e passe a exercer um papel pacificador da nossa “ojeriza ao estranho”.

.Ao receber um vídeo sobre o uso do “to e do “for” do Mairo Vergara comecei a “divagar“ (e não navegar) pela Web e vi que vários conselheiros sobre o assunto falam de desobstruir o aprendizado dos vários preconceitos que atrapalham muito. O próprio Vergara fala disso e valoriza observar os métodos variados usado pelos poliglotas. No Ted Talk do Benny Lewis ele também bate nesta tecla.

 

 

 

Os dias eram assim

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“Assim como a criança repete as palavras da mãe, e os mais jovens repetem as maneiras grosseiras dos mais velhos que os submetem, assim o alto-falante gigantesco da cultura industrial, berrando através da recreação comercializada e dos anúncios populares – que cada vez menos se distinguem uns dos outros – replicam infinitamente a superfície da realidade. Todos os engenhosos artifícios da indústria de diversão reproduzem continuamente cenas banais da vida, que são ilusórias, contudo, pois a exatidão técnica da reprodução mascara a falsificação do conteúdo.

Essa reprodução nada tem em comum com a grande arte realista, que retrata a realidade a fim de julgá-la. A moderna cultura de massas, embora sugando livremente cediços valores culturais, glorifica o mundo como ele é. Os filmes, o rádio, as biografias e os romances populares têm todos o mesmo refrão: esta é a nossa trilha, a rota do que é grande e do que pretende ser grande – esta é a realidade como ela é, como deve ser, e será.” (Panacéias em conflito, Horkheimer: 1976, p.69)

[…]

“Os produtos da indústria cultural podem ter a certeza de que até mesmo os distraídos vão consumi-los alertamente. Cada qual é um modelo da gigantesca maquinaria econômica que, desde o início, não dá folga a ninguém, tanto no trabalho, quanto no descanso, que tanto se assemelha ao trabalho. É possível depreender de qualquer filme sonoro, de qualquer emissão de rádio, o impacto que não se poderia atribuir a nenhum deles isoladamente, mas só a todos em conjunto na sociedade. Inevitavelmente, cada manifestação da indústria cultural reproduz as pessoas tais como as modelou a indústria em seu todo” (Adorno & Horkheimer: 2006, p. 105).

Tecnologia e dominação ideológica na Escola de Frankfurt

A Globo brande o título de sua série como uma corroboração. “Os dias eram assim”. Ou seria melhor “Os dias eram assim mesmo”? Não poderiam ter sido diferentes aqueles dias. O passado congelado e, tal como gravado na pedra, não pode ser mudado. Mas de sua pétrea perspectiva lança um anátema ao presente e aos futuro. Sem tocar no que poderia ter sido ou desejado mostra uma banalização lateral ao principal tema de uma ditadura: tornar a vida bem estreita, como um tapa olho das bestas, os antolhos, para ver o mundo só em uma direção, que interessa aos que querem fazer da sua dominação a única opção. E naturalizá-la. Impingida e fragilizante da vida que se quer como algo além da sobrevivência.

A verdade nua e crua: para reflexão num dia de greve geral

Nota:

Eduardo Marinho tem outro vídeo (Ver abaixo) onde é alcunhado de “filósofo da rua”. Na minha opinião é um “nietzschiano” de madeira boa. Creio que se aproxima bem do tipo “Übermensch” descrito por Nietzsche no seu Zaratustra. Com certeza não é o “último homem”. Não pelo seu apreço ao homem desprotegido ou pobre, representado na grande massa de homens explorados e inferiorizados, mas pelo apreço à força trágica desses indivíduos que superam as adversidades. Parece repetir, no subtexto, o adágio nietzschiano “Aquilo que não me mata, só me fortalece”.

Veja abaixo mais vídeos sobre o Eduardo Marinho.

Ver “eduardo marinho” no Youtube.

Em  Nietzsche: A morte de Deus, o nascimento do Superhomem para enfrentar o niilismo e polêmica com os nazistas há trechos que conceituam o Übermensch com características bem próximas do que propões o Eduardo Marinho para a sua própria vida:

  • O Übermensch experimenta a vida com maior intensidade e profundidade do que a humanidade comum
  • O Übermensch cria seus próprios valores, ao invés de apenas aceitar os ensinamentos morais dos outros.
  • O Übermensch “vive perigosamente” no sentido de que ele valoriza coisas como novidade, criatividade, rigor intelectual, honestidade consigo mesmo, e intensidade da experiência, ao invés de mero conforto; ele procura alegria, não contentamento.
  • O oposto do Übermensch é o “último homem”, termo de Nietzsche para o tipo de pessoa que não deseja nada além do conforto e satisfação.
  • O modelo para o  Übermensch é o herói aristocrático, o tipo de indivíduo com grande alma representados por figuras da mitologia grega. Mas a grandeza do Übermensch é espiritual; se ele é um guerreiro, é no reino do conhecimento, ideias, e as artes.
  • O Übermensch ama a vida e o mundo para o último grau: ele quer o eterno retorno de todas as coisas, incluindo a sua própria vida, e até mesmo a vida daqueles que ele despreza. Isto é, independentemente de a doutrina do eterno retorno ser realmente verdade, ele deseja que ela seja verdadeira.

Ainda no artigo citado acima é analisada a importância do conceito do Übermensch:

Quão importante é o Übermensch na filosofia de Nietzsche como um todo?

A ideia do “SuperHomem” Übermensch está intimamente associada com Nietzsche, e muitas vezes é considerada estando no centro de seu pensamento, juntamente com conceitos como o eterno retorno e a vontade de potência . Na verdade, porém, ele só aparece em um livro: Zaratustra . Dificilmente é mencionado em algum dos seus outros escritos publicados, e só ocorre ocasionalmente nas notas que foram finalmente publicadas por sua irmã como A Vontade de Poder.

Por que ele parece abandonar a ideia do seu Superhomem depois de Zaratustra? Uma explicação plausível é que a ideia de uma espécie de ser humano que é tão distante de nós como nós somos do macaco não pode realmente inspirar-nos, uma vez que realmente não pode ser imaginada. Consequentemente, nas obras que vêm depois de Zaratustra, Nietzsche se concentra em descrever o indivíduo de alma grande, o tipo de pessoa que é “nobre”.

O conceito do Übermensch em Nietzsche está ligado à idéia de um tipo que estaria apto para abraçar a revelação acachapante do “eterno retorno” e usar como ferramenta cotidiana o “amor fati”. Os nazistas, com ajuda da sua irmã, idealizaram o homem superior cujo modus operandi não podia se desviar da supressão e opressão de “raças inferiores”. Nietzsche abandonou a idéia de superioridade como diferença em favor da autonomia e do jardim acolhedor com uma convidativa porta de entrada. Talvez inspirado no “filósofo do jardim“. Jardim onde “Epicuro ignora o ideal cívico e o substitui por um ideal afetivo”.

174. MODA MORAL DE UMA SOCIEDADE MERCANTIL

Por trás desse principio da atual moda moral: “As ações morais são as ações de simpatia para com os outros”, vejo dominar o instinto social do temor que assume assim um disfarce intelectual: esse instinto põe como princípio superior, o mais importante e o mais próximo, que é necessário retirar da vida o caráter perigoso que possuía outrora e que cada um deve ajudar nisso com todas as suas forças. É por essa razão que unicamente as ações que visam à segurança coletiva e ao sentimento de segurança da sociedade podem receber o atributo de “bom”! — Quão poucos prazeres devem desde logo ter os homens para consigo mesmos, para que tal tirania do temor lhes prescreva a lei moral superior, para que se deixem assim intimar sem contestação para não tirar ou desviar o olhar de sua própria pessoa, mas ter olhos de lince para toda miséria, para todo sofrimento dos outros! Com nossa intenção, impelida até o extremo, de querer aparar todas as asperezas e todos os ângulos da vida, não estamos no caminho certo para reduzir a humanidade até transformá-la em areia? Em areia! Uma areia fina, tênue, granulosa, infinita! É este seu ideal, ó heróis dos sentimentos simpáticos? — Entretanto, resta saber se porventura se serve mais ao próximo correndo imediatamente e sem cessar em seu socorro e ajudando-o — o que só pode ser feito muito superficialmente, a menos que se se torne penhora tirânica — ou fazendo de si mesmo algo que o próximo vê com prazer, por exemplo, um belo jardim tranqüilo e fechado que possua altas muralhas contra as tempestades e a poeira das grandes estradas, mas também uma porta acolhedora.

Aurora, Nietzsche

Eduardo “Zaratustra” Marinho aparentemente não quer seguidores. Quer reflexão espalhada à granel nas mentes de todos. Suas falas são construídas na “observação” e na “absorção” de uma compreensão norteadora. Mas que cada um deve adquirir. Não receber dele. E para adquirir é preciso buscar a experiência e o perigo. E ultrapassar o perigo, incólume, com a arma da experiência.

A invenção do eterno retorno

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O maior dos pesos – E se um dia, ou uma noite, um demônio lhe aparecesse furtivamente em sua mais desolada solidão e dissesse: ‘Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspiro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terão de lhe suceder novamente, tudo na mesma sequência e ordem  – e assim também essa aranha e esse luar entre as árvores, e também esse instante e eu mesmo. A perene ampulheta do existir será sempre virada novamente – e você com ela, partícula de poeira!’.  – Você não se prostraria e rangeria os dentes e amaldiçoaria o demônio que assim falou? Ou você já experimentou um instante imenso, no qual lhe responderia: “Você é um deus e jamais ouvi coisa tão divina!”. Se esse pensamento tomasse conta de você, tal como você é, ele o transformaria e o esmagaria talvez; a questão em tudo e em cada coisa, “Você quer isso mais uma vez e por incontáveis vezes?‟, pesaria sobre os seus atos como o maior dos pesos! Ou o quanto você teria de estar bem consigo mesmo e com a vida, para não desejar nada além dessa última, eterna confirmação e chancela” – Friedrich Nietzsche, Gaia Ciência, 341

Razão Inadequada

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Stevenson, por volta de 1882, apontou que os leitores britânicos menosprezavam um pouco as peripécias e consideravam uma grande habilidade escrever um romance sem argumento, ou de argumento infinitesimal, atrofiado. José Ortega y Gasset — A desumanização da arte, 1925 — tenta justificar o menosprezo apontado por Stevenson e decreta, na página 96, ser “muito difícil que hoje se possa inventar uma aventura capaz de interessar nossa sensibilidade superior” e, na 97, que essa invenção “é praticamente impossível”. Em outras páginas, em quase todas as outras páginas, advoga pelo romance “psicológico” e opina que o prazer das aventuras é inexistente ou pueril. É esse, sem dúvida, o comum parecer de 1882, de 1925 e até de 1940. Alguns escritores (entre os quais tenho o prazer de incluir Adolfo Bioy Casares) entendem que é razoável discordar. Resumirei, aqui, os motivos dessa discordância.

O primeiro (cujo ar de paradoxo não quero ressaltar nem atenuar) é o intrínseco rigor do romance de peripécias. O romance típico, “psicológico”, tende a ser informe. Os russos e os discípulos dos russos provaram até o cansaço que ninguém é impossível: suicidas por felicidade, assassinos por benevolência, pessoas que se adoram até o ponto de se separarem para sempre, delatores por fervor ou por humildade… Essa plena liberdade acaba equivalendo à plena desordem. Por outro lado, o romance “psicológico” pretende ser também romance “realista”: prefere que esqueçamos seu cará ter de artifício verbal e faz de toda vã precisão (ou de toda lânguida vagueza) um novo toque de verossimilhança. Há páginas, há capítulos de Marcel Proust que são inaceitáveis como invenções: sem saber, resignamo-nos a eles como a tudo que de insípido e ocioso há no dia a dia. O romance de aventuras, ao contrário, não se apresenta como uma transcrição da realidade: é um objeto artificial que não comporta nenhuma parte injustificada. O temor de incorrer na mera variedade sucessiva de O asno de ouro, das sete viagens de Simbad ou de D. Quixote impõe-lhe um rigoroso argumento.

Aleguei um motivo de ordem intelectual; há outros de caráter empírico. Todos murmuram tristemente que nosso século é incapaz de tecer tramas interessantes; ninguém se atreve a verificar que, se alguma primazia tem este século sobre os anteriores, essa primazia é a das tramas. Stevenson é mais apaixonado, mais diverso, mais lúcido, talvez mais digno de nossa absoluta amizade que Chesterton; mas os argumentos que governa são inferiores. De Quincey, em noites de minucioso terror, penetrou no coração de labirintos feitos de labirintos, mas não plasmou seu timbre de unutterable and self-repeating infinities em fábulas comparáveis às da Kafka. Ortega y Gasset aponta com justiça que a “psicologia” de Balzac não nos satisfaz; a mesma observação vale para seus argumentos. Shakespeare, Cervantes apreciavam a antinômica ideia de uma moça que, sem prejuízo de sua beleza, consegue passar por homem; esse móvel não funciona entre nós… Considero-me livre de toda superstição de modernidade, de qualquer ilusão de que ontem difere intimamente de hoje ou diferirá de amanhã; mas penso que nenhuma outra época possui romances de tão admirável argumento como The Invisible Man, como The Turn of the Screw, como Der Prozess, como Le Voyageur sur la Terre, como este que logrou, em Buenos Aires, Adolfo Bioy Casares.

As ficções de índole policial — outro gênero típico deste século que não consegue inventar argumentos — relatam fatos misteriosos que um fato razoável depois justifica e ilustra; Adolfo Bioy Casares, nestas páginas, resolve com felicidade um problema talvez mais difícil. Desfia uma Odisseia de prodígios que não parecem admitir outra chave de leitura afora a alucinação ou o símbolo e decifra-os plenamente por meio de um único postulado fantástico, mas não sobrenatural. O temor de incorrer em prematuras ou parciais revelações me proíbe a análise do argumento e das muitas delicadas sabedorias da execução. Baste-me declarar que Bioy renova literariamente um conceito que Santo Agostinho e Orígenes refutaram, que Louis-Auguste Blanqui ponderou e que Dante Gabriel Rossetti disse com música memorável:

I have been here before,
But when or how I cannot tell:
I know the grass beyond the door,
The sweet keen smell,
The sighing sound, the lights around the shore…

Em espanhol, são infrequentes e até raríssimas as obras de imaginação racional. Os clássicos exerceram a alegoria, os exageros da sátira e, vez por outra, a mera incoerência verbal; de datas recentes não recordo nada afora algum conto de As forças estranhas e algum de Santiago Dabove: injustamente esquecido. A invenção de Morel (cujo título alude filialmente a outro inventor ilhéu, Moreau) traslada um gênero novo para nossas terras e nosso idioma.

Discuti com seu autor os pormenores de sua trama, que acabo de reler; não me parece impreciso ou hiperbólico qualificá-la de perfeita.

jorge luis borges
Buenos Aires, 2 de novembro de 1940.

Ao ler pela primeira vez o livro “A invenção de Morel” me senti imerso numa atmosfera onírica.

Estou relendo agora. E a fascinação se manteve como da primeira vez.

No post sobre o filme de Resnais comento sobre o filme e o livro após a primeira leitura. Li recentemente no artigo O enigma Morel-Marienbad que o filme do Resnais pode ser uma continuação do livro e não uma adaptação direta do mesmo. Penso em rever o filme com esta nova ótica.

Procurando uma imagem para este post descobri o filme L’invenzione di Morel (1976) e o curta La invención de Morel (2006), ambos sobre o livro de Casares.

Leve spoil a seguir:

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