Arquivo do mês: junho 2006

Eleições e democracia

Porque não gosto de eleições é um texto interessante para ser relido nestes tempos de politicagem furiosa. Nele fica claro o engôdo de confundir o direito de votar com democracia, com o direito de participar dos destinos e decisões. A democracia representativa, inescapável por razões logísticas, já que não é possível a democracia direta das comunas e cantões suiços, é solo fértil para as intermediações inescrupulosas.

Primeiro o “eleitor” é comprado de forma direta e indiretamente. Quando é pobre recebe telhas para concluir o seu barraco. Quando é empregado no governo vota naquele que não vai abalar o seu “status quo” empregatício. Quando é um pequeno empresário ou autônomo vota naquele que promete melhorar os seus lucros com isenção ou redução de impostos. Num nível aparentemente mais elevado os rumos da política econômica interessam àqueles que tem mais capital, os grandes empresários, que agem e influenciam de forma estratégica. Estes são os verdadeiros eleitores e, em vez de se venderem, compram os políticos com financiamento de campanhas cujo dinheiro vai para os desvios e bolsos dos corruptos e, principalmente, para a compra dos votos e consciência dos “eleitores”.

E, podem perguntar, existe uma forma melhor? E invariavelmente saca-se o pragmatismo barato de que outras alternativas seriam piores. Ninguém nega que a idéia de democracia é inestimável. O problema é que a palavra está desgastada o que é atestado pelos adjetivos que necessariamente a tem acompanhado à esquerda e à direita. Democracia “verdadeira”, democracia direta, democracia indireta ou representativa, democracia popular (uma redundância?), democracia burguesa, etc. A falta de controle e a dificultação dos mecanismos de participação tornam uma falácia um governo, dito democrático, mas que é uma farsesca autocracia.

Mesmo quando a “esquerda”, com suas propostas historicamente alinhadas com uma democracia mais participativa e não outorgada pelo poder econômico, só é guindada ao poder quando faz várias concessões e tais que suas ações mais autênticas e coerentes com seus princípios viram pó diante da avalanche de medidas e princípios vindos de inspiração contrária a tudo que ela sempre foi. Na época de conquistar o poder abdica do conteúdo em favor da embalagem marqueteira. Com isso espera-se que “as boas intenções”, embora soterradas pelos discursos eleitoreiros e de fachada, sobrevivam depois. Mas o postulado anti-metafísico, de que aparência e essência deviam ter o mesmo nome e status faz, sim, sobreviver o paradoxo.

José Saramago, no artigo O que é, afinal, a democracia?, discorre de forma clara sobre o assunto quando escreve:

“O direito de voto, por exemplo, expressão de uma vontade política, também é um ato de renúncia a essa mesma vontade, pois o eleitor a delega a um candidato. O ato de votar, pelo menos para uma parcela da população, é uma forma de renúncia temporária à ação política pessoal, discretamente adiada até as eleições seguintes, quando os mecanismos de delegação de poder voltarão ao ponto de partida para tudo recomeçar de novo.”

Em A justiça, a democracia e os sinos ele escreve:

“E contudo, por uma espécie de automatismo verbal e mental que não nos deixa ver a nudez crua dos factos, continuamos a falar de democracia como se se tratasse de algo vivo e actuante, quando dela pouco mais nos resta que um conjunto de formas ritualizadas, os inócuos passes e os gestos de uma espécie de missa laica”

Curso de Rails no IRC

Juca está ministrando um curso de Rails no IRC. Estou acompanhando os logs e o chat quando posso.

O Castelo Animado

Consegui um DVD do filme em uma locadora. Vou aproveitar o feriado de hoje para assistí-lo.

Miyazaki Hayao

Mais um lançamento de filme do diretor Miyazaki Hayao parece estar chegando ao Brasil. O diretor do excelente ‘A Viagem de Chihiro‘ fez um filme em 2004 cujo título em português é ‘O Castelo Animado‘. A crítica considerou que o diretor se superou neste último filme. Estou doido para ver. Ouvi falar também que ‘Princesa Mononoke‘ é ótimo.

O vírus da mente

O vírus

O vírus da mente é um texto de Richard Dawkins que encontrei em ‘O capelão do Diabo’ e que me impressionou bem porque aponta em uma direção explicativa interessante para uma indagação que há algum tempo me persegue. Por que contra todo o bom senso as idéias mágicas a respeito da realidade triunfam ou estão sempre voltando a consumir as energias num combate aparentemente sem sentido? Uma tentação ou desfalecimento do racional leva a pensar que há necessidade de conceder o benefício da dúvida a tais idéias já que se elas aparecem e são reforçadas algo deve haver alí. Lendo o texto citado a resposta começa a se esboçar a respeito do processo, pelo menos: na verdade há um esforço contínuo, uma azáfama permanente e persistente daqueles que tem interesses a zelar baseados em um mundo mágico. As idéias replicantes. Os memes. Elas são implantadas desde cedo. Como um vírus.

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Ainda sobre a amizade

AMIZADE ESTELAR

279. Amizade estelar – Nós éramos amigos e nos tornámos estranhos um para o outro. Mas está bem que seja assim, e não vamos nos ocultar e obscurecer isto, como se fosse motivo de vergonha. Somos dois barcos que possuem, cada qual, seu objetivo e seu caminho; podemos nos cruzar e celebrar juntos uma festa, como já fizemos e os bons navios ficaram placidamente no mesmo porto e sob o mesmo sol, parecendo haver chegado o seu destino e ter um só destino. Mas então a toda poderosa força de nossa missão nos afastou novamente, em direção a mares e quadrantes diversos e talvez nunca mais nos vejamos de novo ou talvez nos vejamos, sim, mas sem nos reconhecermos: os diferentes mares e sóis nos modificaram! Que tenhamos de nos tornar estranhos um para o outro é lei acima de nós: justamente por isso devemos nos tornar também mais veneráveis um para o outro! Justamente por isso deve-se tornar mais sagrado o pensamento de nossa antiga amizade! Existe provavelmente uma enorme curva invisível, uma órbita estelar em que nossas tão diversas trilhas e metas estejam incluídas como pequenos trajetos elevemo-nos a esse pensamento! Mas nossa vida é muito breve e nossa vista muito fraca, para podermos ser mais que amigos no sentido dessa elevada possibilidade.- E assim vamos crer em nossa amizade estelar, ainda que tenhamos que ser inimigos na Terra.

Nietzsche – A Gaia Ciência – LIVRO IV

Amizade

“Vosso amigo, é a satisfação de vossas necessidades.
Ele é o campo que semeias com carinho e ceifais com agradecimento.
E vossa mesa e vossa lareira.
Pois ides a ele com vossa fome e o procurais em busca da paz.

Quando vosso amigo manifesta seu pensamento, não temeis o “não” de vossa própria opinião, nem prendeis o sim.

E quando ele se cala, vosso coração continua a ouvir o seu coração,
Porque na amizade, todos os desejos, ideais, esperanças, nascem e são partilhados sem palavras, numa alegria silenciosa.

Quando vos separeis de vosso amigo, não vos aflijais
Pois o que vós ameis nele pode tornar-se mais claro na sua ausência,
Como para o alpinista a montanha aparece mais clara, vista da planície.

E que não haja outra finalidade na amizade a não ser o amadurecimento do espírito,
pois o amor que procura outra coisa a não ser a revelação de seu próprio mistério não é o amor, mas uma rede armada, e somente o inaproveitável é nela apanhado.

E que o melhor de vós próprio seja para o vosso amigo.

Se ele deve conhecer o fluxo de vossa maré, que conheça também o seu refluxo
pois que achais seja vosso amigo
para que o procureis somente a fim de matar o tempo?

Procurai-o sempre com horas para viver.
Pois o papel do amigo é o de encher vossa necessidade, e não vosso vazio.

E na doçura da amizade,
que haja risos e o partilhar dos prazeres.

Pois no orvalho de pequenas coisas,
o coração encontra sua manhã e se sente refrescado.”

(Khalil Gibran)