Arquivo do mês: março 2017

Bacon

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Neal Barnard MD, chefe do Comitê de Médicos para uma Medicina (“IR”) Responsável (Physicians Committee for Responsible Medicine), tentou reunir um exército de veganos para protestar contra um Festival de Bacon em Iowa nessa última primavera, mas conseguiu recrutar apenas seis voluntários.

Por que tão poucos? Provavelmente pelo medo do bacon!

Não o medo de morrer por consumir Bacon, que seria aquilo que o Dr. Barnard esperava demonstrar para abastecer a retórica anti-carne com cartazes de caveiras e ossos cruzados, mas o temor vegano de sucumbir à própria tentação ao bacon! O cheiro e o gosto do Bacon são tão sedutores que muitos vegetarianos o temem como “o portão de entrada para comer carne.”

Mas e os riscos para a saúde? E acima de tudo os problemas da gordura, do colesterol e do sódio? E o que dizer dos nitritos?

No final das contas não são apenas os veganos que nos advertem contra o bacon. Recentemente, a Escola de Saúde Pública de Harvard anunciou com grande alarde que apenas uma pequena porção diária de carne vermelha poderia aumentar nossa probabilidade de morte em 13 por cento, enquanto que um pouco de bacon, cachorro-quente, salsicha ou outros produtos processados de carnes vermelhas, em uso diário, nos matariam 20 por cento mais rápido.

Na verdade, o estudo foi uma pseudo-ciência, na melhor das hipóteses – um estudo observacional usando questionários notoriamente falíveis sobre hábitos alimentares, com pesquisadores que tiram conclusões indevidas em base de meras associações. Muito barulho por nada, em outras palavras. Um olhar cuidadoso sobre os dados sugerem um risco 0,2 vezes maior, no máximo. E isso acontece para pessoas que comem carne de supermercado de fazendas industriais e que também fumam, não fazem exercícios e comem sua carne vermelha no meio de pão branco e outros farináceos.

Ciência Low Carb

Ver também:

As 11 maiores mentiras da nutrição

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Este artigo é uma tradução livre de “Top 11 Biggest Lies of Mainstream Nutrition” publicado no site Authority Nutrition, escrito por Dr. Kris Gunnars.

Para saber sobre outros mitos da nutrição, CLIQUE AQUI.

Há muita desinformação circulando a nutrição na mídia. Eu listei os piores exemplos neste artigo, mas infelizmente esta é apenas a ponta do iceberg.Aqui estão as 11 maiores mentiras, mitos e conceitos errados da nutrição.1

1. Ovos não são saudáveis

Existe uma coisa em que a mídia tem muito sucesso em fazer.. e isso é demonizar alimentos incrivelmente saudáveis.

O pior exemplo disso são os ovos, que contém uma grande quantidade de colesterol e por isso foram considerados culpados por aumentar o risco de doenças cardíacas.

Mas recentemente tem sido provado que o colesterol na dieta realmente não aumenta o colesterol sanguíneo. Na verdade, os ovos principalmente aumentam o “bom” colesterol e NÃO estão associados ao aumento do risco de doenças cardíacas. (1,2)

O ovo é um dos alimentos mais nutritivos do planeta. Ele é rico em vários tipos de nutrientes bem como antioxidantes que protegem os olhos. (3)

Para finalizar, apesar de serem um alimento “rico em gordura” , consumir ovos no café da manhã  é comprovadamente uma causa para a perda de peso comparado ao consumo de pães no café da manhã. (4,5)

Em resumo: os ovos não causam doenças cardíacas e estão entre os alimentos mais ricos em nutrientes no planeta. Ovos no café da manhã podem te ajudar a perder peso.

2. Gordura saturada é ruim para você

2Há algumas décadas foi decidido que a epidemia de doenças cardíacas foram causadas pelo alto consumo de gordura, principalmente gordura saturada.

Isto foi baseado em estudos altamente duvidosos e em decisões políticas que agora foram comprovadamente erradas.

Um sólido artigo publicado em 2010 examinou 21 estudos epidemiológicos com um total de 347.747 sujeitos. Os resultados: absolutamente nenhuma associação entre gordura saturada e doenças cardíacas. (6)

A ideia de que a gordura saturada aumenta o risco de doenças cardíacas foi uma teoria não comprovada que de alguma maneira, virou a sabedoria popular. (7)

Consumir gordura saturada aumenta a quantidade de colesterol HDL  (o “bom”) no sangue e modifica o LDL de pequenas partículas, muito densas (muito ruim) para partículas maiores , que são benignas. (8,9)

Carne, óleo de coco, queijo, manteiga… absolutamente não há nenhuma razão para ter medo destes alimentos.

Em resumo:  novos estudos tem provado que a gordura saturada  não causa doenças cardíacas. Alimentos naturais que são ricos em gordura saturada são bons para você.

3. Todo mundo deveria consumir grãos

A ideia de que os humanos deveriam basear suas dietas em grãos nunca fez sentido para mim.3

A revolução da agricultura aconteceu muito recentemente na história evolucionária humana e nossos genes não mudaram tanto.

Os grãos são muito baixos em nutrientes, se comparados a outros alimentos de verdade como os vegetais. Eles também são ricos em uma substância chamada ácido fítico que bloqueia os minerais essenciais no intestino e previne a sua absorção. (10)

O grão mais comum na dieta ocidental é, de longe, o trigo… e o trigo pode causar uma lista de problemas de saúde, dos menores aos mais sérios.

O trigo moderno contém uma grande quantidade de uma proteína chamada glúten, mas há evidencias que uma porção significativa da população possa ser sensível ao glúten. (11,12, 13)

Consumir glúten pode danificar a parede intestinal, causar dor, inchaço, inconsistência nas fezes e cansaço. (14, 15) O consumo de glúten também tem sido associado a esquizofrenia e ataxia cerebelosa, ambos distúrbios sérios no cérebro. (16, 17)

Em resumo: grãos são relativamente pobres em nutrientes se comparados a outros alimentos reais como vegetais. Os grãos com glúten em particular podem levar a uma variedade de problemas de saúde.

4. Consumir muita proteína é ruim para seus rins e ossos

4Uma dieta rica em proteína tem sido culpada por causar osteoporose e doenças nos rins.

É verdade que consumir proteína aumenta a excreção de cálcio dos ossos em curto prazo, mas estudos de longo prazo mostram que o efeito é oposto.

Em longo termo, a proteína tem uma associação forte com o aumento da saúde dos ossos e um menor risco de fraturas. (18, 19)

Adicionalmente, os estudos não mostram nenhuma associação entre altas quantidades de proteína e doenças nos rins em pessoas saudáveis. (20, 21)

Na verdade, dois dos maiores riscos para a falha nos rins são diabetes e pressão alta. Consumir uma dieta rica em proteína melhora os dois.  (22, 23)

Uma dieta rica em proteína deve ser considerada protetora contra osteoporose e falha dos rins.

Em resumo: consumir uma dieta rica em proteína está associado a melhor saúde dos ossos e menor risco de fraturas. Uma dieta alta em proteína também diminui a pressão sanguínea e melhora os sintomas da diabetes, que deveria diminuir os riscos de falha nos rins.

5. Alimentos com pouca gordura (low fat) são bons para você

5Você sabe o gosto dos alimentos normais quando toda a gordura é retirada deles?

Bem, tem gosto de papelão. Ninguém iria querer comê-los.

Os fabricantes de alimentos sabem disso e por isso, adicionam outras coisas para compensar a falta de gordura.

Geralmente são adoçantes… açúcar, xarope de milho rico em frutose ou adoçantes artificiais como aspartame.

Nós já trataremos do açúcar, mas eu gostaria de comentar que mesmo os adoçantes artificiais não tendo calorias, as evidências NÃO sugerem que eles são melhores para você do que o açúcar.

Na verdade, muitos estudos observacionais demonstram uma associação, consistente, altamente significante com diversas doenças como obesidade, síndrome metabólica, diabetes, doenças cardíacas, parto prematuro e depressão. (24, 25, 26)

Nestes produtos com pouca gordura, as gorduras naturais saudáveis estão sendo substituídas por substâncias que são extremamente nocivas.

Em resumo: alimentos com pouca gordura são normalmente produtos altamente processados cheios de açúcar, xarope de milho ou adoçantes artificiais. Eles são extremamente nocivos.

6. Você deveria consumir várias pequenas refeições ao longo do dia

A ideia que você deveria consumir várias pequenas refeições ao longo do dia com o objetivo de “manter o metabolismo alto” é um mito persistente que não faz nenhum sentido.6

É verdade que comer aumenta o metabolismo levemente, enquanto você está digerindo a refeição, mas é a quantidade total de comida que determina a energia usada, NÃO o número de refeições.

Isto realmente já foi testado e refutado diversas vezes. Estudos controlados onde um grupo consome diversas pequenas refeições e o outro consome a mesma quantidade de comida em menos refeições mostram que literalmente não há a menor diferença entre os dois.  (27, 28)

De fato, um estudo com homens obesos revelou que consumir 6 refeições por dia leva a menos sensação de saciedade, comparado a 3 refeições. (29)

Não somente comer tão frequentemente é praticamente inútil para a maioria das pessoas, pode ainda ser prejudicial.

Não é natural para o corpo humano estar constantemente alimentado. Na natureza, nós estávamos acostumados a fazer jejum de tempos em tempos e não comíamos com tanta frequência como comemos hoje.

Quando nós não comemos por um tempo, um processo celular chamado de autofagia limpa os produtos nocivos das nossas células. (30) Fazer jejum ou não comer de tempos em tempos é bom para você.

Diversos estudos observacionais mostram um aumento drástico no risco de câncer de cólon (4ª maior causa de mortes por câncer), com números tão altos como 90% de aumento naqueles que consumiam quatro refeições por dia, comparados com os que consumiam duas. (31, 32, 33)

Em resumo: não há evidências de que consumir muitas pequenas refeições ao longo do dia é melhor do que poucas refeições maiores. Não comer de tempos em tempos é bom para você. Aumentar a frequência das refeições está associado ao câncer de cólon.

7. Carboidratos deveriam ser sua maior fonte de calorias

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A visão geral é que todo mundo deveria consumir uma dieta baixa em gorduras, com os carboidratos sendo de 50-60% das calorias.

Este tipo de dieta contém muitos grãos e açúcares, com quantidades bem pequenas de alimentos com gordura como carne e ovos.

Este tipo de dieta pode funcionar bem para algumas pessoas, especialmente para aqueles que são naturalmente magros.

Mas para aqueles que são obesos, tem síndrome metabólica ou diabetes, esta quantidade de carboidratos é muito perigosa.

Isso tem sido estudado extensamente. Uma dieta baixa em gorduras e rica em carboidratos tem sido comparada a uma dieta baixa e carboidratos, rica em gordura em vários estudos controlados e randomizados.

Os resultados estão consistentemente em favor de uma dieta baixa em carboidratos e rica em gorduras. (34, 35, 36)

Em resumo: uma dieta baixa em gordura, rica em carboidratos é uma falha miserável e tem sido provada repetidamente como muito inferior a uma dieta baixa em carboidratos, rica em gorduras.

8. Óleos vegetais e de sementes ricos em ômega 6 são bons para você

Gorduras poliinsaturadas são consideradas saudáveis porque alguns estudos mostram que eles diminuem o seu risco de doenças cardíacas.8

Mas há diversos tipos de gorduras poliinsaturadas e elas não são todas iguais.

Mais importante do que isso, nós temos ácidos graxos omega 3 e omega 6.

Omega 3 é anti-inflamatório e diminui o risco de muitas doenças relacionadas a inflamação.  (37) Os seres humanos na verdade precisam obter ômega 6 e ômega 3 em determinadas proporções. Se a proporção é muito maior em favor do ômega 6, pode causar problemas. (38)

De longe, a maior fonte de ômega 6 na dieta moderna são óleos vegetais e de sementes processados como óleo de soja, milho e óleo de girassol.

Ao longo da evolução, os humanos nunca tiveram acesso a tanta abundancia de gorduras ômega 6. Ela não é natural para o corpo humano.

As pesquisas que olham especificamente para o ácidos graxos ômega 6 ao invés de gorduras poliinsaturadas em geral mostram que eles na verdade aumentam o risco de doenças cardíacas. (39, 40)

Consuma seu ômega 3 e considere suplementar com óleo de peixe, mas evite os óleos industriais de vegetais e sementes.

Em resumo: os humanos precisam obter ômega 6 e ômega 3 em uma certa proporção. Excesso de ômega 6 de óleos industriais aumentam o seu risco de desenvolver doenças.

9. Dietas low carb são perigosas

9Eu pessoalmente acredito que as dietas low carb são uma cura em potencial para muitos dos problemas de saúde mais comuns nas nações ocidentais.

A dieta low fat divulgada ao redor do mundo é inútil contra muitas destas doenças. Ela simplesmente não funciona.

No entanto, dietas low carb (demonizadas por nutricionistas e a mídia) tem repetidamente se mostrado levar a resultados muito melhores.

Cada estudo randomizado e controlado sobre as dietas low carb mostram que:

  1. Reduzem a gordura corporal mais do que dietas baixas em gordura com restrição calórica, mesmo quando os sujeitos na dieta baixa em carboidratos podem comer à vontade. (41, 42)
  2. Diminuem a pressão sanguínea significantemente. (43, 44)
  3. Diminuem o açúcar no sangue e melhoram os sintomas da diabetes muito mais do que nas dietas baixas em gorduras.  (45, 46, 47, 48)
  4. Aumentam o colesterol (bom) HDL muito mais. (49, 50)
  5. Diminuem o triglicérides muito mas do que as dietas low-fat. (51, 52, 53)
  6. Mudam o padrão do colesterol LDL (ruim) de partículas pequenas e densas (muito ruins) para partículas maiores, que são benignas. (54,55)
  7. As dietas low carb também são mais fáceis de serem mantidas, provavelmente porque elas não necessitam da restrição calórica e não fazem as pessoas sentirem fome. Mais pessoas nos grupos low carb conseguem ir até o fim dos estudos.  (56, 57)

Muitos dos profissionais de saúde que deveriam ter em mente a nossa melhor saúde tem audácia de dizer que estas dietas são perigosas, e continuam a empurrar seu dogma low fat cheio de falhas, que está machucando mais pessoas do que ajudando.

Em resumo: as dietas low carb são as mais saudáveis, mais fáceis e mais efetivas para a perda de peso e reversão da síndrome metabólica. É um fato científico.

10. Açúcar não é saudável porque contém calorias “vazias”

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É comumente acreditado que o açúcar não faz bem a você porque contém calorias vazias.

É verdade, o açúcar tem muitas calorias sem nenhum nutriente essencial. Mas isto é apenas a ponta do iceberg.

O açúcar, primeiramente por causa do seu alto conteúdo de frutose, afeta o metabolismo de uma maneira que gera um rápido ganho de peso e desenvolvimento de doença metabólica.

A frutose é metabolizada pelo fígado e transformada em gordura, que é secretada no sangue como partículas de VLDL. Isso leva ao aumento do triglicérides e colesterol. (58, 59)

Isto também causa a resistência aos hormônios insulina e leptina, que é um degrau para a obesidade, síndrome metabólica e diabetes. (60, 61)

Isso é só pra citar alguns dos problemas. O açúcar causa uma resposta bioquímica nos humanos para que comam mais e engordem. É provavelmente o pior ingrediente da dieta ocidental moderna.

Em resumo: os efeitos nocivos do açúcar vão além das calorias vazias. O açúcar da vazão ao estrago no nosso metabolismo e gera aumento de peso e diversas doenças.

11. Alimentos ricos em gordura fazem você engordar

11Parece meio intuitivo que consumir gordura faça você engordar.

Esta coisa que está se juntando debaixo da nossa pele e nos fazendo parecer macios e fofos é a gordura. Então… comer gordura deveria dar aos nossos corpos mais dela.

Mas não é tão simples assim. Apesar de ter mais calorias por grama do que os carboidratos ou proteína, dietas ricas em gorduras não fazem as pessoas engordarem.

Como qualquer outra coisa, isto depende do contexto. Uma dieta que é rica em gorduras E rica em carboidratos faz você engordar, mas NÃO por causa da gordura. (62, 63, 64)

Na verdade, dietas que são ricas em gorduras (e baixas em carboidratos) causam maior perda de gordura do que dietas que são baixas em gordura.

12. Mais alguma coisa?

Esta é apenas a ponta do iceberg.

Sinta-se à vontade para adicionar mais pontos nos comentários!

Para saber sobre outros mitos da nutrição, CLIQUE AQUI.

Primal Brasil

O mito dos nitritos e nitratos!

Chris Kresser, autor do livro “Your personal Paleo code” fez uma postagem realmente interessante sobre Nitrato e Nitrito, aqueles sais que algumas pessoas dizem que vamos morrer ao comer.

Eu vou traduzir o post do Chris, e interferir um pouco principalmente com o post da Junk food Science, para um melhor entendimento e maior abrangência. Boa leitura.

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Além de ter o rótulo de “entupidor de artéria através da gordura saturada” e dos “altos níveis de sódio“, o bacon tem sido considerado um alimento não saudável devido ao uso de nitratos (NO3) e nitritos (NO2) no processo de cura. Muitos médicos convencionais e bem-intencionados, amigos e parentes, vão dizer que você está pedindo, basicamente, por um ataque cardíaco ou câncer, ao ingerir essa comida, chamada carinhosamente por alguns entusiastas do estilo de vida Paleo como “bala (doce) de carne”.

A crença de que os nitratos e nitritos podem causar sérios problemas de saúde foi enraizada na consciência popular e da mídia. Assista este vídeo (blog: no mínimo engraçado) para ver Steven Colbert explicar como a falta de bacon irá prolongar nossas vidas, graças à redução dos nitratos em nossas dietas.

Na verdade, o estudo que originalmente ligava os nitratos com o risco de câncer e que causou um grande susto no primeiro momento, tem sido desacreditado depois de ser submetido a uma revisão por pares. Houve grandes revisões da literatura científica que não encontraram ligação entre nitratos ou nitritos com cânceres humanos, ou mesmo evidências que sugerem que eles podem ser cancerígenos. Além disso, pesquisas recentes sugerem que os nitratos e nitritos podem não só ser inofensivos, como podem ser benéficos, especialmente para a imunidade e saúde do coração. Confuso ainda? Vamos explorar esta questão.

Talvez você se surpreenda ao saber que a grande maioria da exposição ao nitrato/nitrito não vem da comida, mas a partir de fontes endógenas, ou seja, dentro do nosso corpo. (1) Na verdade, os nitritos são produzidos por seu próprio corpo em maior quantidade do que pode ser obtido a partir de alimentos e os nitritos oriundos da saliva representam 70% a 97% da nossa exposição total ao nitrito. Em outras palavras, a sua saliva contém muito mais nitrito do que qualquer coisa que poderiam comer.

1362814231Quando se trata de alimentos, os vegetais são a principal fonte de nitritos. Em média, cerca de 93% dos nitritos que recebemos dos alimentos vêm de legumes (Tradutor: Existe um relatório da EFSA – European Food Safety Authority – que mostra isso).

Talvez você fique chocado ao saber que uma porção de rúcula, duas porções de alface manteiga, e quatro porções de aipo ou beterraba, todos têm mais nitrito do que 467 cachorros-quentes (2). E a sua própria saliva tem mais nitritos do que todos eles! 

Portanto, antes de eliminar carnes curadas de sua dieta, você pode querer abordar a sua ingestão de aipo ou rúcula. E tente não engolir sua saliva com tanta freqüência (rsrsrs).

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A principal fonte de nitritos em nossas dietas são os vegetais, e em menor grau a água e outros alimentos. Nitratos ocorrem naturalmente em plantas e vegetais, como resultado de o ciclo de azoto em que o azoto é fixado por bactérias. Os estudos dietéticos em todo o mundo têm encontrado que 70% (no Reino Unido) e que 97% (Nova Zelândia) do consumo humano de nitratos e nitritos vem de vegetais sozinho, independentemente de orgânicos ou cultivados convencionalmente. Em média, cerca de 93% dos nitritos que recebemos a cada dia vem dos nitratos nos vegetais.

Rúcula 4.677 ppm
Manjericão 2.292 ppm
Alface Manteiga 2.026 ppm
Beterraba 1.279 ppm
Aipo 1.103 ppm
Espinafre 1.066 ppm
Abóbora    874 ppm
Cachorro quente padrão      10 ppm

Não há razão para temer nitratos/nitritos em sua comida ou saliva. Evidências recentes sugerem que os nitritos são benéficos para a função imune e cardiovascular, pois eles estão sendo estudados como um potencial tratamento para a hipertensão, ataques cardíacos, falciforme e distúrbios circulatórios. Mesmo se nitritos forem prejudiciais, carnes curadas não são uma fonte significativa, como o USDA só permite 120 partes por milhão (ppm) em cachorros-quentes e bacon. Além disso, durante o processo de cura, a maior parte do nitrito forma o óxido nítrico, que se liga ao ferro e dá aos cachorros quentes e bacon sua cor rosa característica. Depois disso, a quantidade de nitrito restante é de apenas cerca de 10 partes por milhão (ppm).

562971_summer_grillingE se você acha que pode evitar nitratos e nitritos, comendo os chamados hot dogs e bacons “livre de nitrito e de nitrato”, não se deixe enganar. Esses produtos usam fontes “naturais” da mesma substância química, como aipo e suco de beterraba e sal marinho, e não são mais livre nitratos e nitritos do que carnes curadas padrão. Na verdade, eles podem até conter mais nitratos e nitritos quando curado usando conservantes “naturais”.

É importante entender que nem nitrato e nem nitrito podem acumular-se no corpo. o nitrato ingerido é convertido em nitrito, quando entra em contato com a saliva, 25% é convertida em nitrito salivar e o resto é excretada na urina menos de 5 horas após a ingestão. (3) Qualquer nitrato que for absorvido tem uma meia-vida muito curta, desaparecendo do nosso sangue em menos de cinco minutos. (4) Alguns nitritos no nosso estômago reagem com os conteúdos gástricos, formando o óxido nítrico, que pode ter vários efeitos benéficos.(56).

Em geral, a maior parte da ciência sugere que os nitratos e nitritos não são problemáticos e podem até mesmo ser benéfico para a saúde. Revisões críticas considerando que a evidência inicial sugere que nitratos/nitritos são carcinogênicos revela que, na ausência de co-administração de um precursor de nitrosaminas carcinogênicas, não há nenhuma evidência para a carcinogênese (7). Estudos prospectivos recentemente publicados mostram que não há associação entre o consumo estimado de nitrito e nitrato na dieta e com o câncer de estômago (8). Foi demonstrado que o óxido nítrico, formado por nitrito, possui propriedades vasodilatadoras e pode modular a função das plaquetas no corpo humano, melhorar a pressão arterial e reduzir o risco de ataque cardíaco. (91011), os nitratos podem também ajudar a estimular o sistema imunitário e proteger contra bactérias patogênicas (121314). 

Médicos do Karolinska Institutet, por exemplo, está olhando para o papel de nitritos para pacientes de terapia intensiva entubados (que não engulem sua saliva) na prevenção da lesão de isquemia-reperfusão, úlceras gástricas e vasoespasmo cerebral após hemorragia subaracnoídea, e em pulmonar hipertensão neonatal. A tese do Dr. Håkan Björne, em 2005 descreve isso em detalhes.

“A percepção pública é que o nitrito/nitrato são cancerígenos, mas eles não são”, disse Dr. Nathan Bryanm, do Instituto de Medicina Molecular da Universidade do Texas, em Houston. “Muitos estudos implicando nitrito e nitrato no câncer são baseadas em dados epidemiológicos muito fracos. Se nitrito e nitrato forem prejudiciais para nós, então não seria aconselhável comer vegetais de folhas verdes ou engolir a nossa própria saliva, que é enriquecido em nitrato.”

—————-> Um pouco de História

beetonPreservação de carnes utilizando vários sais tem sido praticada há milhares de anos, desde o período homérico, 850 a.c., o sal funciona para matar bactérias aeróbicas, como a salmonela. Desde a Idade Média, o salitre (nitrato de potássio) foi usado na cura de carnes, e isso acrescentou tanto para o sabor distinto como para preservação da cor da carne, além de também bloquear o crescimento de botulismo e evitar a deterioração e ranço. Os primeiros livros de receitas impressas a partir do início dos anos 1700 mostram o uso em quantidades surpreendentes, até 50 vezes os níveis de nitratos e nitritos em receitas mais modernos.

Por volta da virada do século passado, os químicos perceberam que o ingrediente ativo do salitre era o nitrito e que utilizando o nitrito de sódio ativado, em pequenas quantidades, se podia substituir o salitre. Isso também reduziu consideravelmente a salinidade das carnes curadas, que tinham de ser embebidas em água para serem palatáveis. Desde 1925, quando o nitrito de sódio foi mostrado como seguro para o ser humano, ele foi aprovado para o uso em embutidos nos Estados Unidos, e não há casos de botulismo associados com carnes curadas comercialmente desde então.

Desde 1974, o uso de nitrato de potássio e nitrato de sódio tem sido barrado pelo USDA em carnes curadas comercialmente como salsichas e bacon, e apenas quantidades escassas de nitrito de sódio são permitidas desde 1978, em meros 120 partes por milhão.

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Então, o que nós fazemos com isso? Não há nenhuma razão para temer nitratos e nitritos em alimentos. Não há razão para comprar livre de nitrato, toucinho. Não há razão para evitar estritamente carnes curadas, particularmente aqueles a partir de fontes de alta qualidade (embora possa fazer sentido para limitar o consumo deles por outras razões). Na verdade, por causa de preocupações sobre triquinose de porco, faz muito mais sentido na minha opinião (opinão do Chris) comprar toucinho curado e outros produtos de carne de porco.

Blog Dia a Dia Low Carb

Ingratitude

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A ingratidão é mesmo uma coisa execrável mas não tem grande poder explicativo pois rapidamente é naturalizada em “o homem é um animal ingrato” e coisas do gênero. É mais uma constatação de que o resultado de uma ação visando o bem comum, por exemplo, não foi bem compreendida ou, se o foi, não se compreendeu quem são os benfeitores, ou então houve uma desconfiança generalizada sobre se houve benefício ou benfeitores de verdade. Se acreditou que o benefício e/ou os benfeitores foram falsos. Neste último caso o rótulo da ingratitude é fruto da diferença de paralaxe. Esta é uma visão desesperada em voga quando pessoas que se consideram líderes autênticos supostamente visando o bem comum opinam que o povo é ingrato. O povo é grato num nível absurdo que o faz dar a sua palavra que vai votar naquele candidato que deu os tijolos para terminar sua casa, e cumpre. Ingrato não! Talvez ignaro. O magnífico texto de Ulysses Ferraz, ligado à questão do “lugar da fala”, aprofunda a questão:

Afinal, pode o subalterno falar?

Fotografia de Flávio de Barros – Canudos em 1897

OS GRUPOS SOCIAIS SUBALTERNOS

Em Cadernos do Cárcere (Caderno 25), Antonio Gramsci aborda a questão dos grupos subalternos a partir de documentações históricas que descrevem o desenvolvimento de grupos sociais populares, desde os escravos da Roma Antiga, passando pelas Comunas na Idade Média, até as revoltas das massas rurais, como o movimento lazzarettista, em fins do século XIX na Itália. Em comum à documentação histórica tradicional, Gramsci chama atenção para o fato de esses movimentos populares serem retratados sempre como patológicos e anômalos, decorrentes de disfunções sociais localizadas, desconectadas de um contexto maior de opressão e dominação e, portanto, resultado de meros fatos isolados sem nenhuma conotação política relevante.

Para Gramsci, há uma tendência a retratar a emergência de um acontecimento coletivo de origem popular sem indagar acerca de suas causas a partir de “seu ser coletivo”, mas concentrando-se apenas nas características individuais e psicológicas de seus líderes. Em uma passagem notável, Gramsci afirma: “para uma elite social, os elementos dos grupos subalternos têm sempre algo de bárbaro ou patológico”. Como exemplo desse tipo de tratamento, Gramsci analisa os relatos sobre a vida de Davide Lazzaretti, líder de um movimento popular fuzilado pelas forças governistas da época. Os relatos sobre o movimento lazzarettista e seu protagonista carecem de profundidade e recaem invariavelmente em explicações, nas palavras de Gramsci, “restritivas, individuais, folclóricas, patológicas, etc.”. Algo semelhante ao ocorrido no Brasil, em Canudos, denunciado pela genialidade da crônica de Euclides da Cunha em Os sertões.

Em resposta a essa abordagem superficial, elitizada e distanciada dos fenômenos sociais, Gramsci vai chamar a atenção para a necessidade de o historiador estabelecer critérios metodológicos específicos para tratar das classes subalternas, uma vez que “a história dos grupos sociais subalternos é necessariamente desagregada e episódica” (GRAMSCI, 2015, p. 135). As classes subalternas, “por definição, não são unificadas e não podem se unificar enquanto não puderem se tornar Estado” (Idem, p. 139). Assim, os grupos subalternos poderiam ser definidos como massas dominadas que não possuem atributos de classe, uma vez que não possuem meios para intervir como um ator político em face das forças socioeconômicas existentes.

PODE O SUBALTERNO FALAR?

Referência no campo dos estudos subalternos da tradição pós-colonial, ainda que contenha elementos de uma postura crítica a essa mesma tradição, o texto de Spivak denominado “Pode o subalterno falar” (1988) é um poderoso ensaio acerca da problemática da representação (no sentido de um “falar por”) no contexto dos grupos subalternos, a partir das formulações originais de Antonio Gramsci. Como ponto de partida, Spivak tece uma rigorosa crítica a intelectuais, mais precisamente a Deleuze e Foucault, que defendem a ideia de que é preciso deixar os subalternos falarem por si.
Na conversa entre Michel Foucault e Gilles Deleuze, sob o título de Os intelectuais no poder, reproduzida no livro Microfísica do poder, há um trecho da fala de Foucault, que resume bem a posição de ambos no tocante a essa questão: “o que os intelectuais descobriram recentemente é que as massas não necessitam deles para saber; elas sabem perfeitamente, claramente, muito melhor do que eles; e elas o dizem muito bem”. (FOUCAULT, p.131)

Spivak questiona a possibilidade da existência de um discurso subalterno, elaborado a partir dos próprios grupos subalternos, que possa representar genuinamente seus interesses, sem influência de ideologias dominantes. Quando acadêmicos ocidentais, como Deleuze e Foucault, argumentam em favor da eliminação de todos os possíveis intermediários que possam representar os grupos subalternos, para que tais grupos falem por eles mesmos, há uma crença equivocada, segundo Spivak, de que uma verdade autêntica, baseada tão somente na experiência efetiva de tais grupos, possa emergir sem as distorções da representação. A despeito das melhores intenções de seus autores, tal asserção acaba por subscrever um empirismo positivista, que é o princípio sobre o qual repousa o neocolonialismo capitalista avançado.

Outra questão relevante é que Deleuze e Foucault, em suas considerações, não levam as diferenças geopolíticas e a divisão internacional do trabalho no contexto de uma economia global e cada vez mais desregulamentada. A ideia de um sujeito fragmentado e desejante, capaz de fazer suas escolhas a partir de investimentos do desejo, mascara o fato de vivermos em um mundo profundamente marcado pela presença de uma ideologia de mercado, cujo núcleo duro se harmoniza perfeitamente à existência de um sujeito “autônomo”, “livre” e movido unicamente por seus desejos que, no limite, são desejos de consumo. Num certo sentido, ao afirmar que “nunca desejamos o que vai contra nossos interesses, porque o interesse sempre seque e se encontra onde o desejo está localizado”, Deleuze acaba por legitimar as teorias econômicas individualistas.

Para Spivak, a questão que escapa a Deleuze e a Foucault, é que a experiência é igualmente construída por meio de representações. Em outras palavras, a questão central não é simplesmente negar a possibilidade de representação, pois em vez de eliminar os problemas a ela associados, apenas os tornará mais difíceis de identificar.  Uma vez que o poder está presente em toda parte, até mesmo na linguagem, a ideia de um discurso subalterno autêntico e livre de influências dominantes é praticamente impossível de se conceber. Portanto, a tarefa de interpretação ainda é necessária, apesar dos limites a ela inerentes.  Nas palavras da própria Spivak, “a representação não definhou.”.

Ao longo de seu ensaio, Spivak vai fazer uma reflexão sobre a história das mulheres indianas e o ritual de imolação das viúvas. O problema é apresentado sobre o enfoque do sujeito subalterno feminino, que para ela está “ainda mais profundamente na obscuridade”. Spivak, ao trazer a história das viúvas que eram obrigadas a se autoimolar quando da morte de seus maridos, aponta para o fato de a mulher ser ainda mais frágil em um contexto cultural de forte dominação masculina. Em suas palavras, “o subalterno como um sujeito feminino não pode ser lido nem ouvido”.

Spivak conclui seu ensaio afirmando que o subalterno não pode falar. Contudo, isso não significa que deve se fazer ouvir mediante o discurso hegemônico e dominante. Se Foucault e Deleuze erram ao entender que o subalterno deve ser ouvido a partir de sua própria voz, como se não houvesse nenhum componente ideológico em sua fala, tampouco Spivak parece acreditar que o subalterno deve se deixar falar por um representante, alguém supostamente legítimo para reivindicar seus interesses. Spivak dá a entender que o dever do intelectual pós-colonial seria, em vez de falar por ele, o de trabalhar para eliminar a situação de subalternidade, para que subalternos deixem de sê-los e possam se organizar e se articular para que ganhem voz própria e, assim, finalmente possam ser ouvidos.

CONCLUSÃO

Nas palavras de Tim Maia, o Brasil é o único país em que pobre é de direita. A frase é emblemática. Mas não se trata de uma particularidade do brasileiro. Desfavorecidos defenderem o conjunto de valores que beneficiam os mais privilegiados, social e economicamente, não é exceção. E sim a regra. Aqui ou em qualquer lugar do mundo. Sobretudo no caso dos grupos subalternos, como aponta Spivak, em seu livro Pode o subalterno falar.

Assim, o dominado defender a ideologia do dominante não deveria causar espanto pois é exatamente para isso que as ideologias servem: dominar sem se deixar revelar. A dominação, para ser eficaz, pressupõe falsificação. Dissimulação. Prestidigitação. É algo sutil, porém brutal e violento, que emerge sem alarde, nos espaços mais insuspeitos. Supostamente inofensivos e neutros. Naquele programa de TV favorito. No jornal de domingo. No refeitório da firma. Num jogo de futebol. No cinema. A dominação ideológica vive alojada nas entranhas dos espaços públicos e privados.

Como afirma o economista Ha-Joon Chang, “uma vez que os pobres estão convencidos de que a pobreza é culpa deles, que quem ganha muito dinheiro deve merecer, e que eles também poderiam se enriquecer se tentassem o bastante, a vida fica mais fácil para os ricos. Os pobres, muitas vezes agindo contra seus próprios interesses, começam a exigir menos impostos redistributivos, menos gastos sociais, menos regulamentações sobre as empresas e menos direitos para os trabalhadores. As preferências individuais – e não apenas dos consumidores, mas também dos contribuintes, operários e eleitores – podem ser manipuladas deliberadamente, e muitas vezes o são. Os indivíduos não são entidades soberanas, tal como retratados nas teorias econômicas individualistas”.

Se os dominados fossem capazes de detectar o estratagema, ganhar voz e, consequentemente, defender de maneira organizada seus próprios interesses, provavelmente não estariam sujeitos à dominação que os aniquila silenciosamente. Ou, no mínimo, mitigariam os efeitos dela, até ganharem forças suficiente para combatê-la sistematicamente e, pouco a pouco, eliminá-la. Logo, a existência mesma do dominado, em sua forma mais brutal e alienada, depende da estrutura de dominação à qual ele está sujeito. O dominado se conformar com a dominação e, no limite, legitimá-la, é a prova viva da eficácia da ideologia dominante. Contribuir para romper com esse círculo vicioso de dominação é um imperativo moral relevante de nosso tempo.

Como afirma Spivak, ao final de seu ensaio, “A mulher intelectual como uma intelectual tem uma tarefa circunscrita que ela não deve rejeitar como um floreio”. Em vez de falar pelo subalterno, desvelar as ideologias dominantes e trabalhar para que o subalterno deixe de ser subalterno e organize seus espaços de reivindicações e, portanto, de fala. Nenhum intelectual tem o direito de se eximir de tal tarefa. Ainda que não haja nenhuma garantia de resultado, é uma luta que vale por si. [Negritos meus]

Bibliografia:
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2015.
GRAMSCI, Antônio. Cadernos do cárcere. Volume 5. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.
CHANG, Há-Joon. Economia: modo de usar. São Paulo: Portfolio-Penguin. 2014.
SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2014.

Consultas na Internet: Stanford Encyclopedia of Philosophy (http://plato.stanford.edu/index.html)

Blog do Ulysses Ferraz
Ver também:

Dormindo com o inimigo?

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A polêmica despertada por Karnal ao publicar foto dele com Moro provocou uma enxurrada de críticas que revelam muito sobre nossa inflada expectativa de encontrar alguém que nos represente. As vivandeiras de uma espécie de “somos todos Karnal” se decepcionaram fortemente e esta decepção fala mais delas mesmas do que de Karnal. E revelam também um desconhecimento do que representa o Karnal, o que já foi declarado por ele mesmo. Logo no começo do vídeo abaixo Karnal se diz de centro. Não se diz de esquerda. Nem de direita. De cima do muro do “centro” estica as pernas e braços para o pensamento “liberal”, de um lado, e a “desconfiança anarquista diante do estado”, de outro, declara ele. Direita e esquerda são rótulos antigos para dois estados de espírito em política desde a Revolução Francesa. E tem significados nebulosos quando se pensa nos Democratas e Republicanos, no caso dos EEUU, supostamente sinônimos de liberal e conservador. Mas liberal nas nossas plagas não é a mesma coisa (“nada mais parecido com um conservador que um liberal no poder”, na época do império). Este é o defeito básico dos rótulos que por si só não têm grande poder explicativo e dependem bastante da paralaxe e de um contexto histórico, como também o diz Karnal.

No espectro da polêmica em curso o texto do Tadeu foi o mais lúcido e permite que “não percamos o Karnal”, como alguns desesperados já querem. Não vale a pena perdê-lo apesar das críticas ao seu apelo midiático como palestrante e ao conteúdo defeituoso de suas palestras segundo Ghiraldelli. Karnal tem se posicionado até agora de forma tão agradável às esquerdas que criou a ilusão de que pertencia às suas hostes.

O quanto tem de fascismo em obrigar o Karnal a fazer isto ou aquilo em razão de sua atitude? Barthes representa bem, no seu texto introdutório da “Aula”, o que é o fascismo de forma muito mais profunda do que a que nossa vã consciência está acostumada:

Uma outra alegria me vem hoje, mais grave porque mais responsável: a de entrar num lugar que pode ser dito rigorosamente: fora do poder. Pois se me é permitido interpretar, por minha vez, o Colégio, direi que, na ordem das instituições, ele é como uma das últimas astúcias da História; a honra é geralmente uma sobra do poder; aqui, ela é sua subtração, sua parte intocada: o professor não tem aqui outra atividade senão a de pesquisar e de falar — eu diria prazerosamente de sonhar alto sua [pág. 09] pesquisa — não de julgar, de escolher, de promover, de sujeitar-se a um saber dirigido: privilégio enorme, quase injusto, num momento em que o ensino das letras está dilacerado até o cansaço, entre as pressões da demanda tecnocrática e o desejo revolucionário de seus estudantes. Sem dúvida ensinar, falar simplesmente, fora de toda sanção institucional, não constitui uma atividade que seja, por direito, pura de qualquer poder: o poder (a libido dominandi) aí está, emboscado em todo e qualquer discurso, mesmo quando este parte de um lugar fora do poder. Assim, quanto mais livre for esse ensino, tanto mais será necessário indagar-se sob que condições e segundo que operações o discurso pode despojar-se de todo desejo de agarrar. Esta interrogação constitui, a meu ver, o projeto profundo do ensino que hoje se inaugura.

É, com efeito, de poder que se tratará aqui, indireta mas obstinadamente. A “inocência” moderna fala do poder como se ele fosse um: de um lado, aqueles que o têm, de outro, os que não o têm; acreditamos que o poder fosse um objeto exemplarmente político; [pág. 10] acreditamos agora que é também um objeto ideológico, que ele se insinua nos lugares onde não o ouvíamos de início, nas instituições, nos ensinos, mas, em suma, que ele é sempre uno. E no entanto, se o poder fosse plural, como os demônios? “Meu nome é Legião”, poderia ele dizer: por toda parte, de todos os lados, chefes, aparelhos, maciços ou minúsculos, grupos de opressão ou de pressão: por toda parte, vozes “autorizadas”, que se autorizam a fazer ouvir o discurso de todo poder: o discurso da arrogância. Adivinhamos então que o poder está presente nos mais finos mecanismos do intercâmbio social: não somente no Estado, nas classes, nos grupos, mas ainda nas modas, nas opiniões correntes, nos espetáculos, nos jogos, nos esportes, nas informações, nas relações familiares e privadas, e até mesmo nos impulsos liberadores que tentam contestá-lo: chamo discurso de poder todo discurso que engendra o erro e, por conseguinte, a culpabilidade daquele que o recebe. Alguns esperam de nós, intelectuais, que nos agitemos a todo momento contra o Poder; mas nossa verdadeira guerra está alhures: ela é contra os poderes, e não é um combate [pág. 11] fácil: pois, plural no espaço social, o poder é, simetricamente, perpétuo no tempo histórico: expulso, extenuado aqui, ele reaparece ali; nunca perece; façam uma revolução para destruí-lo, ele vai imediatamente reviver, re-germinar no novo estado de coisas. A razão dessa resistência e dessa ubiqüidade é que o poder é o parasita de um organismo transsocial ligado à história inteira do homem, e não somente à sua história política, histórica. Esse objeto em que se inscreve o poder, desde toda eternidade humana, é: a linguagem — ou, para ser mais preciso, sua expressão obrigatória: a língua.

A linguagem é uma legislação, a língua é seu código. Não vemos o poder que reside na língua, porque esquecemos que toda língua é uma classificação, e que toda classificação é opressiva: ordo quer dizer, ao mesmo tempo, repartição e cominação. Jákobson mostrou que um idioma se define menos pelo que ele permite dizer, do que por aquilo que ele obriga a dizer. Em nossa língua francesa (e esses são exemplos grosseiros), vejo-me adstrito a colocar-me primeiramente como sujeito, antes de enunciar a ação que, desde então, será [pág. 12] apenas meu atributo: o que faço não é mais do que a conseqüência e a consecução do que sou; da mesma maneira, sou obrigado a escolher sempre entre o masculino e o feminino, o neutro e o complexo me são proibidos; do mesmo modo, ainda, sou obrigado a marcar minha relação com o outro recorrendo quer ao tu, quer ao vous; o suspense afetivo ou social me é recusado. Assim, por sua própria estrutura, a língua implica uma relação fatal de alienação. Falar, e com maior razão discorrer, não é comunicar, como se repete com demasiada freqüência, é sujeitar: toda língua é uma reição generalizada.

Vou citar um dito de Renan “O francês, Senhoras e Senhores, dizia ele, numa conferência, nunca será a língua do absurdo; também nunca será uma língua reacionária. Não posso imaginar uma reação séria tendo por órgão o francês.” Pois bem, à sua maneira, Renan era perspicaz; ele adivinhava que a língua não se esgota na mensagem que engendra; que ela pode sobreviver a essa mensagem e nela fazer ouvir, numa ressonância muitas vezes terrível, outra coisa para além do que é dito, superimprimindo à voz consciente, razoável [pág. 13] do sujeito, a voz dominadora, teimosa, implacável da estrutura, isto é, da espécie enquanto falante; o erro de Renan era histórico, não estrutural; ele acreditava que a língua francesa, formada, pensava ele, pela razão, obrigava à expressão de uma razão política que, em seu espírito, só podia ser democrática. Mas a língua, como desempenho de toda linguagem, não é nem reacionária, nem progressista; ela é simplesmente: fascista; pois o fascismo não é impedir de dizer, é obrigar a dizer.

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