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Olhos dirigidos ao paraíso gelado

389518-r_640_600-b_1_d6d6d6-f_jpg-q_x-xxyxxO filme Kfraftidioten (2014) não pode ser resenhado por incultos. Pois no máximo eles dirão que se trata de um “gênero Tarantino”. Tem lances de humor e sangue que de fato seguem o estilo de Tarantino, mas a película norueguesa e sueca, do diretor Hans Petter Moland, traduzida por “O cidadão do ano” (procure traduzir você mesmo “Kfraftidioten”), é uma peça original e uma boa crítica do presente. Uma ficção mais próxima do chão (!), digamos assim.  

Escrevi esses dias que nos Estados Unidos de hoje há um candidato socialista que fustiga Hilary Clinton (artigo aqui). Ele diz que gostaria de ver os Estados Unidos antes como uma social-democracia nórdica que como um centro do liberalismo avançado socialmente. Ao mesmo tempo, uma das melhores séries de gansters do momento, produzida em associação americana e norueguesa, é a Lilyhammer (de Eilif SkodvinAnne Bjørnstad, 2012), que diz respeito à Noruega atual (com um fantástico capítulo no Brasil). Nos dois casos, do filme Kfraftidioten e da série, o que observamos? Que há americanos olhando para os países ricos do Atlântico Norte, e que o candidato Bernie Sanders, que fustiga Hilary, não fala algo que não está no ar.

Entre políticos, intelectuais e diretores de cinema, há os que estão mostrando que os Estados Unidos já deveriam estar naquela situação nórdica, civilizados e sem pobres, outros estão apontando para o fato de que, naquela paraíso, alguns problemas permanecem, e até estão sendo importados da América, Europa e até do Brasil. O paraíso social-democrata não é o de Adão. Bom sinal: o paraíso, ainda que desejável, está sendo visto com senso crítico e humor. É um sinal de que podemos sonhar e ao mesmo tempo sem sermos ingênuos?

O que existe nas democracias ricas nórdicas é o Welfare State efetivamente alcançado, e como algo diferente de outros que, até bem pouco tempo, pareciam poder funcionar fora do gelo, como o da França, Itália, Inglaterra ou até mesmo o do esboço americano. É mais estável que outros. Funciona segundo uma social democracia que absorveu padrões do “politicamente correto” sem que este tenha se deteriorado na versão criticada até por tolos (ou melhor, criticada mais por tolos) no Brasil, uma vez que não serve para garantir só os que estão livres, mas também os que vão presos. Todavia, em meio ao paraíso, como a série e o filme citados mostram, alguns problemas do mundo moderno permanecem vivos: frustrações típicas do nosso tempo envolvido em burocracias aparentemente sem rosto, crimes não puníveis, homossexualismo reprimido, solidão da mulher, maridos isolados, famílias passivas, pequenos e grandes Al Capones soltos dividindo territórios, drogas em uso assustadoramente alto e segundo um comércio que se autoprotege de modo sofisticado.

A série e o filme mostram que a social-democracia pode mesmo realizar o que prometeu, mas que se tenha na cabeça que um regime político, de esquematização do estado, não tem poder para fazer da terra dos homens uma terra de bondade, sem problemas. Não estou usando aqui do cliché “o mundo dos mortais é sempre o mesmo”. Nada disso. Estou dizendo que os problemas postos pela modernidade se mostram presentes no Estado de Bem Estar Social que funciona. O que vale dizer que talvez a filosofia política tenha menos a dizer agora, mas a filosofia de um modo geral não disse tudo.

images-31Tanto a série quanto o filme mostram que o gangsterismo dos anos trinta, imortalizado pelo cinema americano, não é uma ficção reposta desterritorializada nesse novo cinema atual, mas que ele efetivamente existe, na realidade, e isso porque há situações que perderam suas raízes e, afastadas de seus rituais, atingiram a condição separada, alienada, que torna tudo perigoso. A droga e os seus problemas derivados tem a ver com isso. Não há mais ritual para a droga, nem religioso e nem hippie, nem místico e nem “produtivo”. A droga aparece em uma situação moderna típica do que deve ocorrer com aquilo que Hannah Arendt chamou de elemento de consumo, não elemento de uso. É a droga pela droga para quem a consome. Para quem a trafica, é a droga pelo dinheiro. Mas isso em uma situação em que ambos já são equivalentes universais do mercado. Desse modo, tanto faz o dinheiro pelo dinheiro ou a droga pela droga. Ninguém mais sabe o se faz com o que se tem.

Claro, na sociedade em que, como Debord disse, o ser e o ter não precisam mais se oporem, porque tudo é da ordem do aparecer e parecer, pode-se ter dinheiro para aparecer e ter a droga para aparecer de modo melhor, isto é, feliz. A felicidade, ou melhor, sua aparência, se tornou uma obrigação. Mas a questão é que esse é o consumo que consome o consumidor. Não existe usuário de droga. Ninguém usa a droga, nem a droga usa alguém. A droga e o mundo produzido por ela consomem suas vítimas e heróis.

Mas, não é a droga o problema moderno. Ele é pedaço pequeno dele. O problema moderno que essas películas das séries de TV-internet e cinema mostram, que está vigente na social democracia rica, é que os ritos todos perderam o sentido no mundo, e que no território gelado isso se mostra de maneira muito mais escancarada. O homem moderno não tem expediente, não tem procedimentos que se devam obedecer por mais de um mês. Tratados podem ser desfeitos, ordens podem ser cumpridas ou não, palavras empenhadas não valem e ao mesmo tempo valem um assassinato ou vários. Há uma extrema passividade no interior de um frenesi para se manter a passividade. O gangsterismo dos filmes mostra bem o funcionamento do entretenimento moderno, o celular cheio de joguinhos e ligado ao Facebook e ao WhatsApp e coisas do gênero, onde todos simulam estar na adrenalina máxima; é um globo da morte em alta velocidade, mas como todo globo da morte, tendo as motos girando no mesmo círculo. No mundo da novidade, nada é realmente novo.

Há certo tédio gelado no mundo gelado de tipo norueguês, uma cena alegórica para o resto do mundo, como se a mensagem fosse a seguinte: o paraíso, aguardem os que acham que vão chegar nele, é frio.

Paulo Ghiraldelli

Como e por que os mórmons estão catalogando todos os registros civis do Brasil

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As pessoas conhecem os mórmons como aqueles jovens que vagam o mundo, de camisas engomadas para dentro das calças pretas, batendo de porta em porta para converter os fiéis à palavra de Joseph Smith. Há, porém, uma face menos conhecida e mais impressionante da fé professada pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias: a obsessão por catalogar todo e qualquer documento que comprove a passagem de uma alma pela Terra.

http://motherboard.vice.com/pt_br/read/a-grande-arvore-genealogica-mormon

A colonização britânica na perspectiva de um comediante sul-africano

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Vi este vídeo no blog Esquerda Caviar.

É mesmo imperdível.

Dá uma boa perspectiva em paralaxe do fenômeno da colonização do ponto de vista dos colonizados, mas com uma cavalar dose de humor. E dá no que pensar. Muito bom!

A colonização reversa da metrópole é barrada pelos mesmos argumentos racistas que chancelou a colonização da periferia. A xenofobia contra os imigrantes insuflada pela direita grassa pelo mundo.

Recentemente, lendo Diários de Bicicleta, de David Byrne, topei com um texto que toca exatamente na questão alvo do humor de Noah. A frase “Beleza, vamos esquecer tudo o que aconteceu e vamos jogar uns jogos juntos.” é emblema do que realmente acontece quando a injustiça passada começa a perder significado para ambos os lados e se dissolve nas brumas dos tempos.

Qual é o limite da justiça?

As pessoas que tiveram suas vidas arruinadas pela Stasi, ou qualquer outra agência semelhante de outros governos, deveriam ter direito a reparações financeiras? Elas ou seus herdeiros deveriam receber seus imóveis de volta? Seria possível ao menos criar uma comissão de verdade e reconciliação, como aconteceu na África do Sul para fazer uma faxina e permitir que o país e seus cidadãos sigam em frente? (Na versão sul-africana, não eram previstas punições ou reparações, apenas se a verdade fosse exposta por completo.)

Nos últimos anos, a população do Zimbábue, a antiga Rodésia, vem tentando reclamar a posse das fazendas que foram tomadas de seus ancestrais muitas décadas atrás pelos colonos brancos. Algumas famílias brancas já vivem há três gerações ou mais nessas terras e, naturalmente, enxergam essas fazendas como algo que é delas por direito e também tratam esse lugar como sua terra natal agora. Os brancos concordam — até onde sabemos — que o país não deve e não pode mais ser governado por estrangeiros, ou nem mesmo pela pequena minoria branca, mas enxergam essas casas e fazendas como propriedade deles. Eles criaram seus filhos, construíram toda a infraestrutura local e aprimoraram os campos. Mas isso não se resume às fazendas. Até certo ponto, eles construíram as estruturas que permitiram o funcionamento do país como um todo. Mas como a maré política mudou recentemente e os brancos não são mais os chefes políticos, hoje o direito dessas pessoas a manterem 80% das terras aráveis só porque seus ancestrais as roubaram anos atrás nos parece um argumento menos viável e que dificilmente continuará a se sustentar. O presidente Mugabe, que foi eleito mostrando promessas de que um país africano autorregulado abundante em recursos e com sistemas em bom funcionamento poderia avançar, infelizmente acabou se tornando mais um déspota corrupto e violento, desesperado para se manter no poder a qualquer custo. Os descendentes dos habitantes originais da era pré-colonial e os representantes autonomeados de Mugabe, gananciosos e oportunistas, começaram a retomar as fazendas por meio da força.

Isso é justo? Não exatamente, mas a expropriação dessas terras anos atrás pelos brancos também não foi. Alguém poderia dizer que a justiça apenas chegou atrasada. Se eu posso roubar suas posses e terras e você não tem como se defender, mesmo que por várias gerações, elas podem se tornar legal e moralmente minhas em algum momento? Com o tempo, o direito a essas propriedades seria transferido para mim? Em quanto tempo? Dez anos? Cem? Mil?

É mais provável que qualquer tentativa de se chegar à justiça agora seja bastante distorcida. Talvez a justiça absoluta, como qualquer tipo de coisa absoluta, dificilmente exista a não ser na matemática. No Zimbábue, os brancos serão expulsos, algumas terras produtivas infelizmente ficarão abandonadas e muitas fazendas expropriadas poderão ser subutilizadas pelos seus novos proprietários por não terem o costume de administrar esse tipo de recurso. Com certeza haverá casos de expropriações inescrupulosas de terras e disputas entre os novos proprietários. Mas talvez, depois de algum tempo, se as coisas não fugirem totalmente de controle, uma espécie de equilíbrio poderá ser alcançado. Algumas pessoas podem argumentar que nenhum branco deveria estar nesse país, e isso pode até ser verdade. Mas com um pouco de compaixão e clemência, talvez alguns dos descendentes dos ladrões originais possam conseguir manter seus lares e até um pouco de honra e respeito. Quase todos nós, de qualquer raça, temos algum motivo de vergonha em nossa história. Pode ser algo recente, ainda vivo em nossa memória, um lembrete constante. Mas pode ser algo que aconteceu há muitas gerações, algum evento pelo qual nós não sentimos nenhuma ligação ou culpa, mas as coisas podem mudar, trazendo o que estava esquecido e enterrado de volta à tona.

Acredito que atualmente é cada vez mais difícil que alguém, em qualquer parte do mundo, possa dizer algo como, “Eu deveria estar aqui e você não”. As migrações humanas nunca terminaram, elas são infinitas, e a miscigenação é um processo complicado, mas que pode ser muito proveitoso — uma fonte de inovação e criatividade.

Será que algum dia veremos uma sangrenta disputa por aquelas lindas casas modernistas dos anos 50 no distrito de Vedado em Havana? Israel, Palestina, Dakota do Sul, Tibet — todos esses lugares passaram por apropriações indevidas de terras por um grupo ou por outro. O roubo de terras ou posses profetiza inevitavelmente um roubo de reciprocidade tempos depois? A justiça tardia é inevitável? Isso pode ser chamado de justiça?

Alguém é nativo de algum lugar? Acho que na maioria dos casos, não. E talvez, de alguma forma, essa possa ser a resposta para essas indagações.

Diários de bicicleta, David Byrne

Acho que David Byrne é um tanto otimista quanto à resolução dos conflitos deixados pelas usurpações do passado. Uma justiça metafísica não existe e somente o equilíbrio das forças antagônicas com seus argumentos morais e imperativos sócio-econômicos podem definir quais serão os rumos da convivência ou rupturas.

Veja outro vídeo do Noah:

Bem-vindo ao amanhã

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Bem-vindo ao futuro. Uma inescapável jornada. Rumo ao que nos espera de horror ambiental. Rumo ao amanhã distópico. Enquanto podemos tecemos alvas odes arquitetônicas que contemplam um piscina suja. Um metáfora do que somos como civilização. E de como somos inimigos do mundo.

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Não sei porque fiquei associando na minha cabeça o prédio do museu com o estranho animal do Burgess Shale (primeira imagem). Tão estranho que foi batizado Hallucigenia sparsa. Talvez pelo museu parecer um artrópode. Nada sei da história da gênese do arquitetura do museu.

Fomos em seis visitar o museu. Chegamos de metrô na estação Uruguaiana.

Os temas audio visuais que me chamaram mais a atenção foram aqueles sobre a diversidade cultural no mundo e os que mostravam os números do nosso massacre ambiental. Parece ser politicamente correto falar da destruição do meio ambiente. As vezes dá impressão que é apenas uma moda. Ou um tema a mais para o entretenimento das massas.

E o museu, tristemente ou como um signo, projetava sua alvura sobre um mar de águas escuras numa manhã luminosa. Uma verdadeira cloaca, as águas da Baía da Guanabara.

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Na saída passamos pelo  14 Bis  e entramos no museu de arte. As entradas eram em combo para os dois museus.

E no Mar, um arte para consolar, um silêncio capturado num quadro.

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Aproveitamos a gratuidade do VLT. Fomos nele até à Cinelândia. Uma injeção na testa. Não dava para sentar. Atulhado igual a um vagão da Central ou Metrô na hora do rush. Todo mundo entrava e ninguém saia.

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Na Lapa desviamos um pouco dos cracudos.

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Comemos uns salgadinhos perto da escadaria da Lapa.

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E fomos almoçar no Ernesto.

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Pint of Science Brasil 2016

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Que a ciência é uma atividade muito divertida os cientistas já sabem! Agora, eles vão sair dos seus laboratórios durante três noites especiais só para contar a você como é o trabalho que eles fazem e os impactos disso na sua vida! É o Pint of Science, um festival internacional de divulgação científica que nasceu na Inglaterra em 2013.

http://pintofscience.com.br/

Programação Rio de Janeiro

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https://pintofscience.us/events/san-fran

The Gift of Satoshi

O carniceiro de Lyon

Ao saber da “carta” imediatamente me veio à lembrança um personagem histórico 055525para o qual comentários de Balzac despertaram a atenção de Zweig. Balzac dizia que Fouché era um gênio ao qual o mais intenso desprezo obnubilou sua importância e sagacidade.

Juntando o nome Fouché ao do autor da carta numa busca na Internet para ver se alguém já tinha feito a mesma associação vim a conhecer o artigo da Fernanda Torres.

No prefácio da sua biografia sobre Fouché Zweig diz:

Sei que uma descrição de um homem sem nenhuma moral, de alguém tão singular e importante como Joseph Fouché, vai de encontro ao desejo evidente de nosso tempo. Nossa época quer e ama biografias heróicas, pois, diante da carência de  lideranças políticas criativas, busca no passado exemplos mais elevados. Não desconheço o poder das biografias heroicas de elevar as almas, intensificar as forças, levantar o espírito. Desde os dias de Plutarco, são necessárias para cada geração em ascensão, para cada nova juventude. Mas é precisamente no âmbito político que elas correm o risco de falsear a História, ao levar a crer que – naquela época e sempre – os verdadeiros líderes de fato determinam o destino do mundo. Sem dúvida, por sua própria existência, uma natureza heroica domina a vida intelectual durante décadas e séculos, mas apenas a intelectual. Na vida real, verdadeira, na esfera de poder da política – e isto deve ser frisado como alerta contra toda credulidade neste âmbito –, raramente são as figuras superiores, as pessoas das ideias puras, que determinam os acontecimentos, e sim uma categoria muito inferior, porém mais hábil: os personagens dos bastidores.

Em 1914 e 1918, vimos como as decisões de importância histórica universal sobre guerra e paz foram tomadas não conforme a razão ou a responsabilidade, mas por indivíduos ocultos, de caráter duvidoso e capacidade de discernimento limitada. A cada dia verificamos que, no jogo ambíguo e muitas vezes leviano da política, ao qual os povos ainda confiam cegamente seus filhos e seu futuro, não são os homens de visão ética e de convicções inabaláveis que vencem, mas sim aqueles aventureiros profissionais que chamamos diplomatas, esses artistas de mãos gatunas, palavras ocas e nervos gélidos. Se, como já disse Napoleão há cem anos, a política realmente se tornou “la fatalité moderne”, a fatalidade moderna, tentemos reconhecer, em nossa defesa, os homens que estão por trás do poder e, com isso, o segredo perigoso da sua força. Que esta biografia de Joseph Fouché seja uma contribuição para o estudo da psicologia do homem político.

Salzburgo, outono de 1929

Nota:

Em Lyon Fouché executava usando um canhão e enfileirava os prisioneiros para economizar bala.