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A Relatividade do Errado

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Outro dia eu recebi uma carta. Estava escrita à mão em uma letra ruim, tornando a leitura muito difícil. Não obstante, eu tentei devido à possibilidade de que fosse alguma coisa importante. Na primeira frase, o escritor me disse que estava se formando em literatura Inglesa, mas que sentia que precisava me ensinar ciência. (Eu suspirei levemente, pois conhecia muito poucos bacharéis em literatura inglesa equipados para me ensinar ciência, mas sou perfeitamente ciente do meu estado de vasta ignorância e estou preparado para aprender tanto quanto possa de qualquer um, então continuei lendo.)

Parece que em um de meus inúmeros ensaios, eu expressei certa felicidade em viver em um século em que finalmente entendemos o básico sobre o universo.

Eu não entrei em detalhes, mas o que eu queria dizer era que agora nós sabemos as regras básicas que governam o universo, assim como as inter-relações gravitacionais de seus grandes componentes, como mostrado na teoria da relatividade elaborada entre 1905 e 1916. Também conhecemos as regras básicas que governam as partículas subatômicas e suas inter-relações, pois elas foram descritas muito ordenadamente pela teoria quântica elaborada entre 1900 e 1930. E mais, nós descobrimos que as galáxias e os aglomerados de galáxias são as unidades básicas do universo físico, como descoberto entre 1920 e 1930.

Veja, essas são todas descobertas do século vinte.

O jovem especialista em literatura inglesa, depois de me citar, continuou me dando uma severa bronca a respeito do fato de que em todos os séculos as pessoas pensaram que finalmente haviam compreendido o universo, e em todos os séculos se provou que elas estavam erradas. Segue que a única coisa que nós podemos dizer sobre nosso “conhecimento” moderno é que está errado. O jovem citou então com aprovação o que Sócrates disse ao saber que o oráculo de Delfos o tinha proclamado o homem o mais sábio da Grécia: “se eu sou o homem o mais sábio”, disse Sócrates, “é porque só eu sei que nada sei”. A consequência era que eu era muito tolo porque tinha a impressão de saber bastante.

Minha resposta a ele foi esta: “John, quando as pessoas pensavam que a Terra era plana, elas estavam erradas. Quando pensaram que a Terra era esférica, elas estavam erradas. Mas se você acha que pensar que a Terra é esférica é tão errado quanto pensar que a Terra é plana, então sua visão é mais errada do que as duas juntas”.

O problema básico é que as pessoas pensam que “certo” e “errado” são absolutos; que tudo que não é perfeitamente e completamente certo é totalmente e igualmente errado.

Entretanto, eu penso que não é assim. Parece-me que certo e errado são conceitos nebulosos, e eu devotarei este ensaio a explicar por que eu penso assim.

… Quando meu amigo, o perito em literatura inglesa, me disse que em todos os séculos os cientistas pensaram ter entendido o universo e estavam sempre errados, o que eu quero saber é quão errados estavam eles? Todos estão errados no mesmo grau? Vamos dar um exemplo.

Nos primeiros dias da civilização, a sensação geral era que a Terra era plana. Não porque as pessoas eram estúpidas, ou porque queriam acreditar em coisas estúpidas. Achavam que era plana por evidências sólidas. Não era só uma questão de “parece que é”, porque a Terra não parece plana. Ela é caoticamente irregular, com montes, vales, ravinas, penhascos, e assim por diante.

Naturalmente há planícies onde, em áreas limitadas, a superfície da Terra parece relativamente plana. Uma dessas planícies está na área do Tigre/Eufrates, onde a primeira civilização histórica (com escrita) se desenvolveu, a dos Sumérios.

Talvez tenha sido a aparência da planície que convenceu os Sumérios inteligentes a aceitar a generalização de que a Terra era plana; que se você nivelasse de algum modo todas as elevações e depressões, sobraria uma superfície plana. Talvez tenha contribuído com essa noção o fato que as superfícies d’água (reservatórios e lagos) parecem bem planas em dias calmos.

Uma outra maneira de olhar é perguntar qual é a “curvatura” da superfície da terra ao longo de uma distância considerável, quanto a superfície se desvia (em média) do plano perfeito. A teoria da Terra plana diria que a superfície não se desvia em nada de uma forma chata, ou seja, que a curvatura é 0 (zero) por milha.

É claro que hoje em dia aprendemos que a teoria da Terra plana está errada; que está tudo errado, enormemente errado, certamente. Mas não está. A curvatura da terra é quase 0 (zero) por milha, de modo que embora a teoria da Terra plana esteja errada, está quase certa. É por isso que a teoria durou tanto tempo.

Havia razões, com certeza, para julgar insatisfatória a teoria da Terra plana e, por volta de 350 A.C., o filósofo grego Aristóteles as resumiu. Primeiro, algumas estrelas desapareciam para o hemisfério do sul quando se viajava para o norte, e desapareciam para o hemisfério norte quando se viajava para o sul. Segundo, a sombra da Terra na Lua durante um eclipse lunar era sempre o arco de um círculo. Em terceiro lugar, aqui na própria Terra, é sempre o casco dos navios que desaparece primeiro no horizonte, em quaisquer direções que viajem.

Todas as três observações não poderiam ser razoavelmente explicadas se a superfície da Terra fosse plana, mas poderiam ser explicadas supondo que a Terra fosse uma esfera.

E mais, Aristóteles acreditava que toda matéria sólida tendia a se mover para o centro comum, e se a matéria sólida fizesse isso, acabaria como uma esfera. Qualquer volume dado de matéria está, em média, mais perto de um centro comum se for uma esfera do que se for qualquer outra forma.

Cerca de um século após Aristóteles, o filósofo grego Eratóstenes notou que o Sol lançava sombras de comprimentos diferentes em latitudes diferentes (todas as sombras teriam o mesmo comprimento se a superfície da Terra fosse plana). Pela diferença no comprimento da sombra, calculou o tamanho da esfera terrestre, que teria 25.000 milhas (cerca de 40.000 km) de circunferência.

Tal esfera se encurva aproximadamente 0,000126 milhas por milha, uma quantidade muito perto de 0, como você pode ver, e que não seria facilmente mensurável pelas técnicas à disposição dos antigos. A minúscula diferença entre 0 e 0,000126 responde pelo fato de que passou tanto tempo para passar da Terra plana à Terra esférica.

Note que mesmo uma diferença minúscula, como aquela entre 0 e 0,000126, pode ser extremamente importante. Essa diferença vai se acumulando. A Terra não pode ser mapeada em grandes extensões com nenhuma exatidão se a diferença não for levada em conta e se a Terra não for considerada uma esfera e não uma superfície plana. Viagens longas pelo mar não podem ser empreendidas com alguma maneira razoável de encontrar sua própria posição no oceano a menos que a Terra seja considerada esférica e não plana.

Além disso, a Terra plana pressupõe a possibilidade de uma terra infinita, ou da existência de um “fim” da superfície. A Terra esférica, entretanto, postula que a Terra seja tanto sem fim como no entanto finita, e é este postulado que é consistente com todas as últimas descobertas.

Assim, embora a teoria da Terra plana esteja somente ligeiramente errada e seja um crédito a seus inventores, uma vez que se considere o quadro todo, é errada o suficiente para ser rejeitada em favor da teoria da Terra esférica.

Mas a Terra é uma esfera?

Não, ela não é uma esfera; não no sentido matemático estrito. Uma esfera tem determinadas propriedades matemáticas — por exemplo, todos os diâmetros (isto é, todas as linhas retas que passam de um ponto em sua superfície, através do centro, a um outro ponto em sua superfície) têm o mesmo comprimento.

Entretanto, isso não é verdadeiro na Terra. Diferentes diâmetros da Terra possuem comprimentos diferentes.

O que forneceu a ideia de que a Terra não era uma esfera verdadeira? Para começar, o Sol e a Lua têm formas que são círculos perfeitos dentro dos limites de medida nos primeiros dias do telescópio. Isso é consistente com a suposição de que o Sol e a Lua são perfeitamente esféricos.

Entretanto, quando Júpiter e Saturno foram observados por telescópio pela primeira vez, logo ficou claro que as formas daqueles planetas não eram círculos, mas claras elipses. Isso significava que Júpiter e Saturno não eram esferas de fato.

Isaac Newton, no fim do século dezessete, mostrou que um corpo de grande massa formaria uma esfera sob atração de forças gravitacionais (exatamente como Aristóteles tinha proposto), mas somente se não estivesse girando. Se girasse, aconteceria um efeito centrífugo que ergueria a massa do corpo contra a gravidade, e esse efeito seria tão maior quanto mais perto do equador. O efeito seria tão maior quanto mais rapidamente o objeto esférico girasse, e Júpiter e Saturno certamente giravam bem rapidamente.

A Terra gira muito mais lentamente do que Júpiter ou Saturno, portanto o efeito deveria ser menor, mas deveria estar lá. Medidas de fato da curvatura da Terra foram realizadas no século dezoito e provaram que Newton estava correto.

Em outras palavras, a Terra tem uma protuberância equatorial. É achatada nos pólos. É um “esferoide oblato” e não uma esfera. Isto significa que os vários diâmetros da terra diferem em comprimento. Os diâmetros mais longos são os que vão de um ponto no equador a outro ponto oposto no equador. Esse “diâmetro equatorial” é de 12.755 quilômetros (7.927 milhas). O diâmetro mais curto é do pólo norte ao pólo sul e este “diâmetro polar” é de 12.711 quilômetros (7.900 milhas).

A diferença entre o maior e o menor diâmetro é de 44 quilômetros (27 milhas), e isso significa que a “oblacidade” da Terra (sua diferença em relação à esfericidade verdadeira) é 44/12755, ou 0,0034. Isto dá 1/3 de 1%.

Em outras palavras, em uma superfície plana, a curvatura é 0 em todos os lugares. Na superfície esférica da Terra, a curvatura é de 0,000126 milhas por milha todos os lugares [ou 8 polegadas por milha (12,63cm/km)]. Na superfície esferoide oblata da Terra, a curvatura varia de 7,973 polegadas por milha (12,59cm/km) a 8,027 polegadas por milha (12,67cm/km).

A correção de esférico a esferoide oblato é muito menor do que de plano a esférico. Consequentemente, embora a noção da Terra como uma esfera seja errada, estritamente falando, não é tão errada quanto a noção da Terra plana.

Mesmo a noção esferoide oblata da Terra é errada, estritamente falando. Em 1958, quando o satélite Vanguard I foi posto em órbita sobre a Terra, ele mediu a força gravitacional local da Terra — e consequentemente sua forma — com precisão sem precedentes. No fim das contas, descobriu-se que a protuberância equatorial ao sul do equador era ligeiramente mais protuberante do que a protuberância ao norte do equador, e que o nível do mar do pólo sul estava ligeiramente mais próximo o centro da terra do que o nível do mar do pólo norte.

Não parecia haver nenhuma outra maneira de descrever isso senão que dizendo a Terra tinha o formato de uma pêra, e muitas pessoas decidiram que a Terra não se parecia em nada com uma esfera mas tinha a forma de uma pêra Bartlett dançando no espaço. Na verdade, o desvio do formato de pêra em relação ao esferoide oblato perfeito era uma questão de jardas e não de milhas, e o ajuste da curvatura estava na casa dos milionésimos de polegada por milha.

Em suma, meu amigo literado em inglês, viver em um mundo mental de certos e errados absolutos pode significar imaginar que uma vez que todas as teorias são erradas, podemos pensar que a Terra seja esférica hoje, cúbica no século seguinte, um icosaedro oco no seguinte e com formato de rosquinha no seguinte.

O que acontece na verdade é que uma vez os cientistas tomam um bom conceito, eles o refinam gradualmente e o estendem com sutileza crescente à medida que seus instrumentos de medida melhoram. As teorias não são tão erradas quanto incompletas.

Isto pode ser dito em muitos casos além da forma da Terra. Mesmo quando uma nova teoria parece representar uma revolução, ela geralmente surge de pequenos refinamentos. Se algo mais do que um pequeno refinamento fosse necessário, então a teoria anterior não teria resistido.

Copérnico mudou de um sistema planetário centrado na Terra para um centrado no Sol. Ao fazer isso, mudou de algo que era óbvio para algo que era aparentemente ridículo. Entretanto, era uma questão de encontrar melhores maneiras de calcular o movimento dos planetas no céu, e a teoria geocêntrica acabou sendo deixada para trás. Foi exatamente porque a teoria antiga dava resultados razoavelmente bons pelos padrões de medida da época que ela se manteve por tanto tempo.

Novamente, foi porque as formações geológicas da Terra mudam tão lentamente e as coisas vivas sobre ela evoluem tão lentamente que parecia razoável no início supor que não havia nenhuma mudança e que a Terra e a vida sempre existiram como hoje. Se isso fosse assim, não faria nenhuma diferença se a Terra e a vida tinham bilhões ou milhares de anos. Milhares eram mais fáceis de se entender.

Mas quando cuidadosas observações mostraram que a Terra e a vida estavam mudando a uma taxa que era minúscula mas não nula, a seguir tornou-se claro que a Terra e a vida tinham que ser muito antigas. A geologia moderna surgiu, e também a noção de evolução biológica.

Se a taxa de mudança fosse maior, a geologia e a evolução alcançariam seu estado moderno na Antiguidade. É somente porque a diferença entre as taxas de mudança em um universo estático e em um evolutivo estão entre zero e quase zero que os criacionistas continuam propagando suas loucuras.

Uma vez que os refinamentos na teoria ficam cada vez menores, mesmo teorias bem antigas devem ter estado suficientemente certas para permitir que avanços fossem feitos; avanços que não foram anulados por refinamentos subsequentes.

Os Gregos introduziram a noção de latitude e longitude, por exemplo, e fizeram mapas razoáveis da bacia mediterrânea mesmo sem levar em conta a esfericidade, e nós usamos ainda hoje latitude e longitude.

Os Sumérios provavelmente foram os primeiros a estabelecer o princípio de que os movimentos planetários no céu são regulares e podem ser previstos, e tentaram achar maneiras de fazê-lo mesmo assumindo a Terra como o centro do universo. Suas medidas foram enormemente refinadas mas o princípio permanece.

Naturalmente, as teorias que temos hoje podem ser consideradas erradas no sentido simplista do meu correspondente bacharel em literatura inglesa, mas em um sentido muito mais verdadeiro e mais sutil, elas precisam somente ser consideradas incompletas.

Isaac Asimov

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A Essência da Realidade, David Deutsch

a_essencia_da_realidade_1284239045bHá mais de 10 anos entrei numa livraria para dar uma olhada nas novidades na estante de Informática. Sim, naquela época a Informática era destaque e havia uma estante separada. Na estante do lado estavam os livros de Administração. Por acaso vi um livro com o título A Essência da Realidade. Talvez fosse sobre alguma “realidade” afetando a administração de alguma empresa. Resolvi dar uma olhada no livro. Conclui que estava na estante errada. Falava de Física, Mecânica Quântica, Teoria de Tudo, Teoria da Informação, Games com Realidade Virtual, viagem no tempo, multiversos etc. Eu simplesmente não conseguia parar de ler. Só não comprei porque era bem caro, e ainda é (Na Estante Virtual custa mais de R$ 300,00 hoje). Anotava a página e voltava na livraria para ler mais.

Cito abaixo alguns fragmentos de textos do livro que me capturaram:

Prefácio

Se há uma única motivação para a visão de mundo descrita neste livro, é que graças principalmente a uma sucessão de descobertas científicas extraordinárias, agora possuímos algumas teorias extremamente profundas sobre a estrutura da realidade. Se tivermos de entender o mundo em um nível mais do que superficial, deve ser por meio dessas teorias e da razão, e não dos nossos preconceitos, opiniões recebidas ou até do senso comum. Nossas melhores teorias não são somente mais verdadeiras que o senso comum, elas fazem muito mais sentido. Devemos levá-las a sério, não meramente como fundamentos pragmáticos para seus respectivos campos, mas como explicações do mundo. E acredito que podemos alcançar o mais amplo entendimento se não as considerarmos isoladamente, mas em conjunto, pois elas estão inextricavelmente relacionadas.

Pode parecer estranho que esta sugestão – de que devemos tentar formar uma visão de mundo racional e coerente com base nas nossas melhores e mais fundamentais teorias – deva ser nova ou controversa. Contudo, na prática ela é. Um motivo é que cada uma dessas teorias tem, quando levada a sério, implicações muito contra-intuitivas. Consequentemente, foram feitos todos os tipos de tentativas para evitar enfrentar essas implicações, fazendo modificações “ad hoc” ou reinterpretações das teorias ou estreitando arbitrariamente seu domínio de aplicabilidade, ou simplesmente usando-as na prática, mas não extraindo nenhuma conclusão mais ampla. Deverei criticar algumas dessas tentativas (nenhuma das quais, acredito, tem muito mérito), mas apenas quando isso for um meio conveniente de explicar as próprias teorias. Pois este livro não é primordialmente uma defesa dessas teorias: é uma investigação sobre como seria a estrutura da realidade se elas fossem verdadeiras.

[…]

A Teoria de Tudo

Lembro-me que me disseram, quando criança, que nos tempos antigos era possível a uma pessoa muito instruída saber tudo o que era conhecido. Também me disseram que hoje em dia existe tanto conhecimento que ninguém seria capaz de aprender mais do que uma pequena fração dele, mesmo durante uma vida longa. Esta última afirmação me surpreendeu e desapontou. Na verdade, recusei-me a acreditar nela. Não sabia como justificar a minha descrença, mas sabia que não queria que as coisas fossem assim e invejava as pessoas instruídas de antigamente. Não que eu quisesse memorizar todos os fatos descritos nas enciclopédias do mundo; ao contrário, eu odiava memorizar fatos. Não era nesse sentido que eu esperava ser possível saber tudo o que era conhecido. Não me desapontaria ouvir que todos os dias aparecem mais publicações do que qualquer um poderia ler em uma vida inteira ou que existem 600.000 espécies conhecidas de besouros. Eu não tinha desejo de acompanhar a queda de cada pardal. Nem imaginava que um sábio antigo que supostamente sabia tudo o que era conhecido teria sabido tudo a respeito desse tipo de coisa. Eu tinha em mente uma ideia mais discriminadora do que deveria ser considerado como sendo conhecido. Por “conhecido” eu queria dizer entendido.

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In Memoriam – Lynn Margulis e a mitocôndria

Uma das descobertas mais fascinantes da biologia foi sobre a origem das mitocôndrias. Pela Margulis, que morreu hem 22 de novembro passado e foi esposa de Carl Sagan.

Nem transgênica, nem natural

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Apesar da forte mídia em favor do uso da soja, podemos hoje em dia, usando novos conhecimentos e  o velho, mas esquecido bom senso, dizer que não há porque se preocupar com a soja transgênica, já que a soja em si pode ser um grave equívoco quando pensamos em alimentação natural ou suplementos alimentares para melhorar a saúde.

Em outubro de 1999 o FDA (órgão fiscalizador dos medicamentos e alimentos nos EEUU) aprovou uma propaganda nos alimentos que tivessem baixa quantia de gordura saturada e colesterol. Era o que o maior conglomerado industrial americano precisava para dar os contornos necessários para a consolidação da soja no mercado mundial. A fantasia popular é de poder ter um produto que represente saúde e boa alimentação. A necessidade da indústria, de todo o setor secundário que vive do agronegócio é ter um “commodity” em cujo entorno seja investido todo o conhecimento tecnológico possível (agrotóxicos, tecnologia de produção, aditivos para qualificar sabor, textura etc.)

A soja é esta síntese.

Se apoiou numa estratégia de marketing super engenhosa que envolveu desde a medicina até grupos new age.

Alimentou ou alterou verdades. Foi sendo incrementada por décadas. O vilão mais óbvio foi o colesterol. O ingênuo útil foi o movimento vegetariano, o mais forte “apoiador” da concentração absoluta do poder de produção agrícola, e da plantação de transgênicos, em todo o mundo. O lado obscuro da “rainha”  alimentar usou e abusou de naturalistas alimentares. Os naturalistas se esqueceram de se perguntar se alterar de forma tão “carnívora” a paisagem do Rio Grande do Sul, com uma praga não alimentar como a soja seria uma atitude ecológica. Eles também se esqueceram de perguntar como viviam os verdadeiros homens naturais das Américas antes da invasão e destruição que os europeus introduziram de norte a sul no novo continente. Os naturalistas new age, numa  lógica higienista e purificadora típica da Santa Inquisição, também não se perguntaram como poderiam aproveitar os mais de 4000 vegetais nativos que poderiam de forma harmoniosa dar alimento e equilíbrio ecológico ao Brasil. Apoiaram ingenuamente a destruição maciça do natureza local. Estes mesmos naturalistas alimentares também deixaram de entender a inata biologia humana, e devem supor que os esquimós (que praticamente não comem vegetais e têm ótima saúde cardíaca) são um equívoco de Deus e não deveriam existir. Ou que os “malsais” (povo africano com os melhores perfis de colesterol do planeta), que só se alimentam daquilo que o pobre natureza local lhe oferece (carne e leite gordo de um bovino local), jamais deveriam ter a concessão da vida. Devem, no entanto, entender que  a Monsanto e seus aliados produzem soja para o seu bem estar e para a salvação de suas frágeis saúdes. Equívocos em todas as frentes.

A medicina tem sido uma outra força de apoio importante. Hoje em dia, qualquer produto alimentar quer ter o status de medicamento. Isto possivelmente se baseia na idéia obscura de que o ser humano é vítima fácil de alvos maléficos externos. Como não seria possível se livrar desses ofensores, nós seríamos protegidos pelos alimentos. Hoje em dia se procura comida que combata ao câncer e a velhice. O homem não cogita em mudar a si mesmo e o seu jeito pervertido de manejar o meio ambiente. Não quer saber se não seria ele próprio a causa de suas doenças. Numa lógica paranóica, busca protetores que possam ser ingeridos. Naturalmente estes produtos tem que ser comprados. Rendendo  muito a quem produz e vende.

Na contra-mão do FDA americano, o DOH da Inglaterra (Departamento de saúde) através do seu comunicado a todos os médicos do Reino Unido (CMO’s Update 37, de Janeiro de 2004) adverte que não se deva utilizar alimentos infantis baseado em fórmulas com soja (o famigerado leite de soja) como escolha para aquelas crianças que tenham qualquer dificuldade com a ingestão de leite de vaca (alergia, intolerância etc.), e muito menos para crianças saudáveis, tendo em vista que a alta concentração de fitoestrogênios que tais fórmulas contém pode ser perigosa a longo prazo para a saúde reprodutiva destas crianças.

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Existem outros estudos que falam de outros potenciais problemas, mas este parece ser o primeiro a ser reconhecido por um órgão oficial dos países aliados à soja. Um castelo de areia – a santidade da soja – está começando a desmoronar. Não seria um problema, se isto não significasse o quanto a saúde de muita gente já pode te sido danificada nas últimas décadas às custas da ganância do homem, que há séculos destrói muito mais do que ele acha que construiu, lastreada em uma ciência subserviente, totalmente ancorada às demandas do consumismo.

(Para mais informação consulte: www.sacn.gov.uk ou www.foodstandards.gov.uk)

Uma outra visão

A carne apodrece no seu cólon?

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Cito abaixo excertos de um excelente artigo que desvenda os mitos e fatos sobre a carne apodrecer nos nossos intestinos.

[…] isso não só é simplesmente falso, como é uma inversão da verdade. Como diz o provérbio:

“Quando aponta o seu dedo, os seus outros três dedos apontam para si.”

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Nós esmagamos o alimento na boca, onde a amilase (uma enzima) divide alguns dos amidos. No estômago, a pepsina (outra enzima) desintegra as proteínas, e o forte ácido clorídrico (pH 1,5-3, média de 2 … é por isso que sabe mal quando vomitamos) dissolve tudo o restante. A resultante polpa ácida é chamada de ‘chyme’ e podemos imediatamente ver que a teoria da “carne apodrece no estômago” é falsa. Nada “apodrece” numa cuba de pH 2 com  ácido clorídrico e pepsina.

Em média, uma “refeição mista (incluindo carne), demora 4-5 horas para sair totalmente do estômago […]

A bile emulsifica gorduras e ajuda a neutralizar o ácido do estômago; a lipase degrada as gorduras; a tripsina e a quimotripsina decompõem as proteínas e enzimas como a amilase, maltase, sacarase, e (nos tolerantes à lactose) a lactase decompõem alguns açúcares. Enquanto isso, a superfície do intestino delgado absorve tudo o que nossas enzimas dividiram em componentes suficientemente pequenos.

Finalmente, a nossa válvula ileocecal abre, e o nosso pequeno intestino delgado liberta o que sobrou no nosso intestino grosso, que é uma colónia de bactérias gigantes, contendo literalmente triliões de bactérias!

Desta forma, as bactérias da nossa flora intestinal trabalham e digerirem algum do conteúdo restante, produzindo por vezes, resíduos de produtos que podemos absorver. (E, muitas vezes, uma quantidade substancial de “gases”). A matéria vegetal remanescente indigestível (“fibras”), bactérias intestinais mortas, e outros resíduos surgem como fezes.

[…] a carne é digerida por enzimas produzidas pelo nosso próprio corpo. A principal razão pela qual precisamos das nossas bactérias dos intestinos é para digerir os açúcares, amidos e a fibra encontrados em cereais, leguminosas e vegetais, e que nossas enzimas digestivas não conseguem decompor.

Pelo dicionário Inglês

apodrecer \ (verbo) – que sofre uma decomposição pela acção de bactérias ou fungos.

Por outras palavras, a carne não apodrece no seu cólon. São os CEREAIS, LEGUMINOSAS e VEGETAIS que apodrecem o seu cólon. E isso é um facto.

… E é por isso que os feijões lhe provocam gases.

Mas espere! Há uma outra coisa engraçada! Sempre que comemos cereais, leguminosas e vegetais, não estamos a digerir e absorver quase nada da matéria da planta … estamos sim a  absorver resíduos bacterianos. Reformulando esta afirmação de forma menos diplomática:

Você não está a comer plantas: você está a comer excrementos de bactérias.

[…] a única maneira através do qual qualquer animal pode digerir plantas é recorrendo a bactérias para decomporem a celulose e aos intestinos para absorverem os resíduos.

Os animais ruminantes, incluindo bovinos, búfalos, veados, antílopes, cabras e outros animais de carne vermelha, possuem um “estômago extra” especial chamado de rúmen.

Eles mastigam e engolem ervas e folhas para o rúmen, fermentam-nas um pouco, vomitam-na de volta, voltam a mastigá-la um pouco mais (chamado de “ruminando”), e engolem-no novamente, onde é digerida pela segunda vez.

Fermentadores do intestino grosso, como cavalos, possuem um intestino grosso extra longo. E os coelhos fazem a digestão duas vezes: comem o seu próprio cocô, com o fim de obterem mais nutrientes a partir da matéria vegetal que comem.

Os seres humanos, em contrapartida, não possuem as bactérias intestinais que podem digerir a celulose. É por isso que não podemos comer erva, e porque os vegetais contêm tão pouco valor calórico para nós, e por isso designamos a celulose de “fibra insolúvel”: ela sai intacta tal como entrou.

Este fato por si só, prova que os seres humanos, enquanto omnívoros, são principalmente carnívoros: nós temos uma capacidade limitada para digerir alguma matéria da planta (amidos e dissacarídeos), de forma a ultrapassarmos tempos complicados, mas não podemos extrair quantidades significativas de energia a partir da celulose, que forma a maior parte dos elementos vegetais comestíveis, tal como os verdadeiros herbívoros conseguem.

Nós só podemos comer frutas, nozes, tubérculos e sementes (que chamamos de “grãos” e “feijão”) e as sementes só são comestíveis para nós, após uma laboriosa moagem, demolhagem e cozimento, porque ao contrário dos pássaros e roedores adaptados a esses alimentos, são tóxicos para os seres humanos no seu estado natural.

Você pode demonstrar a finalidade e os limites da digestão humana com uma experiência simples: coma um bife com alguns grãos de milho inteiros, e ver o que sai na outra extremidade. Não será o bife.

Extraido de

A CARNE APODRECE NO SEU CÓLON? NÃO. O QUE APODRECE? LEGUMINOSAS, CEREAIS E VEGETAIS!

Pint of Science Brasil 2016

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Que a ciência é uma atividade muito divertida os cientistas já sabem! Agora, eles vão sair dos seus laboratórios durante três noites especiais só para contar a você como é o trabalho que eles fazem e os impactos disso na sua vida! É o Pint of Science, um festival internacional de divulgação científica que nasceu na Inglaterra em 2013.

http://pintofscience.com.br/

Programação Rio de Janeiro

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https://pintofscience.us/events/san-fran

Zika e a Dieta Paleolítica

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Não, não vamos relacionar a Zika e a dieta dos nossos ancestrais. Apenas relacionar uma semelhança de atitude em dois episódios distantes no tempo. A semelhança é na prática de má ciência. No artigo Zika e Microcefalia: Fato ou Ficção Científica?  a frase

“(…) o diretor da OPAS diz: “alguns cientistas acreditam que é preciso mais provas, mas como profissional de saúde não tenho dúvida.”

tem uma semelhança gritante com esta outra

“Quando os cientistas alertaram o ABSURDO que estava sendo feito, MCGovern respondeu: “Não podemos nos dar ao luxo de vocês cientistas de esperar que todas as teses sejam discutidas antes de tomar uma atitude.”

https://www.instagram.com/p/uckvMdlYHn/

McGovern, que era um senador, influenciado por má ciência e convicções pessoais sem embasamento jogou a população dos EEUU, e talvez o resto do mundo, na epidemia de obesidade, sintoma da síndrome metabólica. Por causa de uma recomendação dietética completamente duvidosa.

O Dr. Souto, em seu blog, já mostrou de forma abundante que correlação não prova relação causal.

E a dieta paleolítica com isso? Nada. Apenas é fruto de boa ciência.

A má ciência pode ser um vetor mais insidioso do que milhões de mosquitos.

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