Arquivo do mês: agosto 2017

O guia do ciclista politicamente incorreto

sempe_pg_3riderswithshadows— O que houve com você? Por que resolveu escrever este guia?

— Foram ideias incorretas que me ocorreram durante uma queda.

— Uma queda? De bicicleta? Como deu tempo para pensar em tanta coisa numa queda?

— Assim como quando Eva deu a maçã para Adão estava tudo já na mente do Deus Único Onipotente e Onisciente. Assim como quando Einstein caiu da escada a equivalência das acelerações ficou clara num lapso e consolidou sua teoria da relatividade geral. Mas já estava tudo lá.

— O Guia já estava com você? E o utilizava?

— Sim. Intuitivamente. Instintivamente. Paranoicamente.

sempe_pg_balance2— E por que?

— Bem…começou bem antes da queda. Fui imprensado por um carro numa valeta na beira da pista e desgovernei-me. Caí atabalhoadamente atrás do carro que ou não me notou ou caiu fora de propósito. Ainda vi o branco de da sua tinta se afastando como um velejador solitário caído no mar vê seu veleiro se afastar cruelmente.

— O Guia traduz um ressentimento…

— Sim. Mas somente no início. Na verdade é um manual de guerrilha. Onde os ciclistas desistem, ou pelo menos o nosso ciclista politicamente incorreto, da guerra com os carros, de antemão perdida, e partem para uma atitude defensiva feita de atos, de pura ação, num flash mob coletivo e mudo, num incômodo ostensivo aos carros, os donos das ruas e da cidade.

— São mesmo. As cidades são construídas para eles e em torno deles. Se os carros fossem como as limos de Holy Motors falariam: “Somos os donos do pedaço!”.

sempeboy— Pois é. Mas como em Einstein minha teoria de relatividade geral da circulação das bicicletas, O Guia do Ciclista Politicamente Incorreto, surgiu bem antes na minha mente.

— Quando?

— Quando vi um conselho para que se andasse no acostamento na contramão das estradas. A pé ou de bicicleta.

— Foi o fiat lux

— Foi. O conselho se justificava de várias formas. A visão dos carros vindo de frente permitiria, na maioria dos casos, uma ação evasiva eficiente. Não teria também que virar o pescoço toda hora para ver se estava seguro. O monitoramento de frente seria constante.

— O único flanco seriam os carros ultrapassando…

— É verdade. Esta situação é similar a que ocorria ao andar pelo acostamento a favor do fluxo (menos na Inglaterra). Mas o ganho de se andar no acostamento contrário ao fluxo tinha vantagens superiores às desvantagens.

sempe1962-4— Mas nas ruas urbanas não há acostamento. Só sarjetas mal projetadas, mal construídas e mal conservadas.

— Isto é um empecilho. Uma desvantagem que leva à circulação em baixa velocidade, também para proteger os pedestres que, ao atravessar a rua, não costumam olhar para os dois lado e muito menos contar com uma bicicleta vindo pela contramão. Uma desvantagem compensada pelo extremo prazer que é andar de bicicleta. Eu fecho com Byrne quando ele diz:

Não ando de bicicleta para todo lugar por ser ecológico ou digno de nota. Faço principalmente pelo senso de liberdade e êxtase.

David Byrne

Vale a pena.

— Uma regra legal em algum lugar diz que os carros devem manter distância das bicicletas. E também para que tenham espelhinhos retrovisores, luzes de sinalização, capacetes no cocoruto dos ciclistas etc. Que andem na mesma mão dos carros também.

— Que não mais podem sentir a brisa refrescante num dia quente de verão. Por causa do capacete. Como se tudo isto fosse eficaz. Na verdade são pretextos para desconsiderar os direitos daqueles que estiverem irregulares.

— São para a proteção.

— Qualquer ciclista que as cumpra a risca e não siga o meu guia é candidato a mártir. Pelo menos nos lugares que vivi em meu país. No exterior também há uma guerra mas medidas de proteção melhores também, em alguns lugares. Por exemplo, já andei na frente de um ônibus numa faixa compartilhada, marcada no chão, sem que tivesse que me apressar em demasia. É claro que andei rápido, favorecendo o ônibus e a mim mesmo por chegar mais depressa ao meu destino. E com segurança.

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— Mas existem leis…

— Feitas por legisladores que estão lá pensando em seu carrões enquanto mentalmente reproduzem normas afeitas ao carros e inaplicáveis às bicicletas. Enquanto isto não tocam na arquitetura urbanística das cidades.

— E o Guia não poderia se tido como uma apologia da transgressão?

— No meu guia é mostrado claramente que a transgressão é conceitual e literária. Não aconselhamos a fazer isto em casa, quer dizer, nas ruas. Como pedimos às crianças que não imitem o Superman e saiam voando pela janela. O problema é que, diferentemente do voo sem asas do super homem, a estratégia do guia é vencedora. É de guerrilha. Não para derrotar os carros. Mas para apontar que há novos modos de convívio com eles, antes que desapareça o uso deles na forma atual. Antes que a arquitetura das cidades se tornem melhores para as bicicletas. Pois para os carros já seria boa se eles não fossem tantos.

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— Mas fale do que há no Guia.

— O guia é muito simples. Os princípios são poucos. Como num decálogo mosaico. Mas cobrem a maioria das necessidades.

— Pode enumerá-los?

— Vou também justificá-los…

moses-with-the-ten-commandments-on-two-tablets-tom-toroO primeiro mandamento é “Não andarás na mão ou o cuspirei da minha boca. Se fores morno e andares na mão o massacrarei transformando em metal retorcido a sua magrela e em carne imprestável o seu corpo.”

— Como se justifica?

— Um mandamento é um mandamento. Alguém já viu Moisés se justificando?

— Você é o Moisés das bicicletas?

0984c14751b6280555859559694a8efc-cute-hedgehog-penny-black-stamps— Sou mas me justifico. Houve um estudo que mostrou que os carros se aproximam mais de quem está de capacete numa bicicleta do que dos ciclistas que não o usam (Veja em português). Tentou-se um explicação que restaurasse a racionalidade deste fato esdrúxulo. Não seria humano pensar que os motoristas queiram penalizar os que usam capacete levando mais perigo aos mesmos. Optou-se por imaginar que os motorista consideravam os que estavam sem capacete mais “maluquinhos” e com comportamento mais caótico. O que os levava a afastar-se mais. O mesmo se dá com o ciclista na contramão. Observamos em nossa experiência que os motoristas dedicam mais atenção e cuidado com os ciclistas na contramão. São mais visíveis. Enquanto que os que vão na mão parecem vestir um manto da invisibilidade e serem vistos mais como um estorvo. Parece que contato visual frente a frente faz os motoristas respeitarem mais o ciclista. Ou porque o estão encarando ou por parecerem malucos.

— Muito interessante…

— O segundo mandamento nas vias é “Não cruzarás como os carros mas como os pedestres pegando carona nos seus privilégios já conquistados: Zebras e semáforos com acionamento por botão, onde houver.”

— E a pena?

— Sempre a mesma citada no primeiro mandamento.

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— E o terceiro?

— Uma variante do segundo. “Onde não houver o botão do semáforo desça da bicicleta e misture-se com os pedestres para obter mais proteção. Se não houver pedestres muito cuidado para não fazer parte de um strike do boliche dos carros mesmo quando estiver atravessando na faixa.”

— Puxa!

crossing— O quarto é uma tática para cruzamento de vias onde não há faixas mantendo-se na contramão: “Manterá-se na contramão ao cruzar a via mantendo, desta forma, no visual frontal os carros que vem da frente e depois, os carros que vem na via da esquerda onde você faz uma pequena entrada antes de cruzar a via afastado da complicação do cruzamento com várias direções a serem controladas. A única exceção à visualização de frente ocorrerá quando tiver que olhar sobre os ombros para ver os carros que vem da direita do cruzamento e que ficarão atrás quando fizer a pequena entrada.”

— Mas isto tornará cada cruzamento um processo lento.

— Sim. Mas lembra da guerrilha? O tanques em suas lagartas andam rápido mas os guerrilheiros a pé são mais ágeis e penetram em espaços mais confinados. Andar rápido de bicicleta numa arquitetura desfavorável da cidade é flertar com o diabo. Nem sempre o melhor caminho é a linha reta. Aqui menos não é mais. Caminhos mais longos são muitas vezes mais prazerosos e favoráveis ao serendipity. Às vezes o maior caminho é melhor desde que seguro. E a paisagem pode ser melhor. Evite ruas com muito trânsito e horários de rush. Neste momento os motoristas estão ansiosos para chegar no trabalho e vêm as bicicletas como um estorvo pilotado por “vagabundos” que não tem que chegar na hora para atender ao patrão ou aos próprios negócios. Embora mais gente queira ir para o trabalho de bicicleta. Escolha ruas alternativas onde não haja muitos carros em circulação. Principalmente nos horários de rush quando os motoristas apressados e estressados tendem a não prestar muita atenção em você, um completo empecilho.

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— E o quinto mandamento?

— Este é mais geral: “Fuja das vias e do confronto direto com o inimigo, os carros.”

— Como é uma guerrilha onde fica o confronto indireto?

— Por incrível que pareça são os pedestres que, compartilhando as calçadas com as bicicletas, se tornam a consciência pública antagônica aos carros, também seus inimigos. São tolerantes com as bicicletas nas calçadas se não há ciclovia. Experimentei este sentimento várias vezes quando pedestres nas calçadas pedem desculpa por estar fazendo que você espere pelo espaço para circular ao lado deles. Mas uma regra de ouro é que na calçada o pedestre é o rei. Nada de ameaçá-lo com movimentos caóticos e zigue-zags. Andar devagar é o melhor quando houver risco de colisão. Parar e esperar a decisão do pedestre sobre o compartilhamento do espaço. Raras vezes o pedestre me mandou ir para a rua. O confronto direto com os pedestres na verdade gera aliados contra a selvageria dos carros. Muitos pedestres também são ciclistas ou desejam se tornar.

Realmente, o tráfego desenvolveu-se no sentido de uma espécie de Moloch, que, ano sim, ano não, devora uma soma de vítimas que só se podem comparar às da guerra. Estas vítimas caem numa zona moralmente neutra; o modo em que são percebidos é de natureza estatística ; «Como é possível que, num tempo em que se luta em torno da cabeça de um assassino com a oferta completa de mundividências contrapostas, quase não esteja presente uma diferença de tomada de posição em relação às incontáveis vítimas da técnica, e particularmente da técnica do tráfego? Que tal não tenha sido o caso desde sempre, isso pode-se ver facilmente a partir da versão das primeiras leis do caminho-de-ferro, em que claramente se expressa o esforço para tornar responsável o caminho-de-ferro por qualquer dano que se dê puramente pelo facto da sua presença. Hoje, pelo contrário, impôs-se a concepção de que o peão não apenas se tem de adequar ao tráfego, mas também de que ele é imputável pelas infracções contra a disciplina do tráfego.

Notas:

  1. Boa parte das ilustrações neste post são do Sempé.
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Insulina: A raiz de todo o mal

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Parte 1

A função da gordura

Agora que já contei minha história mais de uma vez e demonstrei que existem estudos que demonstram que o nível de atividade física não é determinante para a perda de peso,  vamos falar sobre o que realmente faz diferença: a “raiz de todo o mal”, a INSULINA.

Nesta série de posts, vamos discutir um pouco de endocrinologia e biologia básicas, com base no livro Why We Get Fat, de Gary Taubes. O assunto pode ser um pouco espinhoso, mas uma vez que você preste bem atenção, você vai entender praticamente tudo o que você precisa saber para entender porque as pessoas engordam e o que devemos fazer para combater a obesidade.

Tudo o que vamos falar se baseia em pesquisas científicas publicadas entre 1920 e 1980 e que não são consideradas como tópicos controversos na literatura medica. O grande problema é que a maioria das “autoridades” em obesidade dos últimos 50 anos achavam que sabiam o que tornava as pessoas gordas e simplesmente ignoraram (conscientemente ou não) os fatos científicos de que vamos falar.

As primeiras perguntas que me vêm à mente são:

  1. Por que a gente armazena gordura?
  2. Sim, precisamos de um pouco de gordura pra nos manter aquecidos e proteger órgãos vitais de impactos. Mas por que o excesso?
  3. Por que a gordura tende a ficar localizada em alguns pontos e em outros não?
  4. Por que eu engordo e algumas pessoas não?

A maioria dos especialistas acreditam (e talvez você tenha sido educado pensando que se tratava de verdade incontestável) que a gordura armazenada no corpo é uma espécie de aplicação de longo prazo, que nosso corpo guarda para sobreviver quando passarmos fome, ou fizermos uma dieta, exercícios ou ficarmos presos em uma ilha deserta. Ou seja, algo como um fundo de aposentadoria que possa nos prover sustento quando deixarmos de ganhar dinheiro (no caso nutrientes) trabalhando (ou seja, comendo).

No entanto, por mais que isto tenha sido ensinado para nós como verdade, dados científicos da década de 1930 nos mostram que esta ideia não é nem remotamente precisa. Sabe-se que de fato a gordura está continuamente entrando e saindo das células de nosso tecido adiposo (gordura corporal), circulando por todo o corpo para ser usada como combustível, e o que sobra é retornado às células adiposas (ou seja, volta a ser estocado). Este processo acontece mesmo que não tenhamos comido ou nos exercitado recentemente.

Mesmo que durante um período de 24 horas, a gordura armazenada em nossas células provenha uma considerável parte do combustível que nossas células queimam para gerar energia, os “especialistas” cismam em nos dizer que os carboidratos (amido e açúcares) são a “fonte de energia preferida de nosso corpo” (o que é simplesmente um erro).

O motivo pelo qual eles dizem isso é a forma pela qual nosso corpo controla os níveis de açúcar no sangue após uma refeição. Se você ingere muitos carboidratos (o que a maioria das pessoas faz), suas células terão muito mais carboidratos para queimar antes de queimarem gordura.

Em outras palavras: quando os carboidratos são digeridos, eles são transformados em um carboidrato mais simples, chamado glicose, vulgarmente conhecida como o açúcar no sangue (a frutose é um caso a parte, mas não menos preocupante, falaremos sobre isto no futuro) e a gordura é quebrada em moléculas menores, chamadas ácidos graxos, que também circulam pela corrente sanguínea.

Como é de conhecimento comum, o excesso de glicose no sangue é diretamente relacionado com o diabetes, por exemplo, e tem efeitos danosos ao nosso corpo, como o comprometimento de vasos sanguíneos (angiopatia), distúrbios nos rins (nefropatia), problemas de visão (retinopatia), problemas no sistema nervoso (neuropatia) como formigamentos, problemas de pele (como lesões ulcerosas nos pés e pernas) e até mesmo levar à necessidade de amputação de membros.

Ou seja, a glicose no sangue é tóxica e nosso corpo precisa “se livrar dela” o mais rápido que puder. Para fazer isto, nosso pâncreas passa a produzir a insulina, um hormônio que tem várias funções, mas cujo principal papel é manter o nível de açúcar no sangue sob controle. Na verdade, o açúcar no sangue é tão nocivo que nosso corpo começa a secretar insulina (produzir e injetar no sangue) até mesmo quando pensamos em comer carboidratos. Quando a glicose da refeição começa a entrar em nossa corrente sanguínea, mais insulina ainda é secretada.

A insulina então sinaliza às células do corpo para aumentar a velocidade em que elas consomem a glicose do sangue. Algumas células passam então a usar a glicose como fonte de combustível, enquanto dois tipos de célula específicos passam a armazená-la para uso futuro: as células musculares (e o fígado) transformam a glicose em uma molécula chamada glicogênio e as armazenam; as células de gordura a transformam então em uma molécula chamada glicerol e então estocam este glicerol para uso futuro. Como parte deste processo de regulação do açúcar, o fígado passa também a converter parte da glicose do sangue em gordura e devolvê-la ao sangue.

À medida que o nível de açúcar no sangue passa a diminuir (e o nível de insulina junto com ele), mais e mais gordura armazenada em nosso corpo passa a ser liberada das células adiposas (ou seja, de gordura) e a ser usada como fonte de energia. Em outras palavras: enquanto houver muito açúcar no sangue (e este açúcar vem dos carboidratos), o corpo PARA de consumir gordura. Além disto, o corpo passa a transformar açúcar em gordura para poder estocá-la nas células gordurosas. E tudo isto ocorre para “limpar” do sangue os níveis tóxicos de glicose.

Fazendo uma analogia simples, em condições normais, nossa gordura corporal não funciona como uma poupança de longo prazo, como alguns especialistas sugerem, mas sim como sua carteira. Nós sacamos dinheiro no caixa eletrônico (comemos) e então guardamos na carteira (células de gordura) para ir gastando ao longo do dia (ou de alguns dias).

Mas como esta gordura é armazenada?

A gordura em nosso corpo é armazenada na forma de triglicerídeos, ou seja: uma molécula composta por três ácidos graxos ligados por uma molécula de glicerol. O glicerol (C3H8O3), por sua vez, é criado quando a molécula de glicose (C6H12O6) é “quebrada” e “remontada” como glicerol.

Em outras palavras: quanto mais carboidratos, mais glicose e mais insulina. Quanto mais glicose e insulina, mais glicerol. Quanto mais glicerol, mais nossas células gordurosas podem estocar triglicerídeos (ou seja, gordura). Quanto mais gordura armazenada, mais gordos ficamos.

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Em resumo:

  1. Nosso corpo armazena gordura como uma forma de se nutrir durante o tempo em que não estamos comendo, da mesma forma que guardamos o dinheiro na carteira para usarmos quando não estivermos próximo a um caixa eletrônico ou em um estabelecimento que não aceite cartão de débito.
  2. Quando você ouvir alguém falar que “os carboidratos (ou seja, a glicose) são a fonte de combustível preferida de nosso corpo”, saiba que na realidade a glicose não é a “fonte preferida” e, sim, a que mais causa prejuízo e que, por isto, nosso corpo precisa usá-la primeiro (a fim de se livrar de uma quantidade tóxica de açúcar no sangue).
  3. Quando nosso corpo queima açúcar (que vem dos carboidratos), ele para de queimar gordura, mas não para de armazenar gordura. Ou seja: quanto mais carboidratos você comer, mais gordo você vai ficar.

Esses três pontos devem responder à primeira pergunta “por que a gente armazena gordura?” e sugerir um caminho de resposta para a segunda pergunta “por que o excesso de gordura?”.

No próximo capítulo da série:

Por enquanto, falamos do lado bom da insulina no corpo: reduzir os níveis tóxicos de açúcar no sangue. Falamos também de dois efeitos colaterais da insulina: suspender a queima de gordura e causar o aumento da quantidade de matéria-prima que nosso corpo usa pra produzir a gordura.

No próximo capítulo vamos entender um pouco mais por que engordamos em excesso e como é feita esta transformação de glicose em gordura.

Parte 2

O acúmulo de gordura

No post anterior da série, fomos apresentados à insulina e entendemos como funciona o processo de acúmulo de gordura. Além disso, apresentamos também um conjunto de perguntas a serem respondidas:

  1. Por que a gente armazena gordura?
  2. Sim, precisamos de um pouco de gordura pra nos manter aquecidos e proteger órgãos vitais de impactos. Mas por que o excesso?
  3. Por que a gordura tende a ficar localizada em alguns pontos e em outros não?
  4. Por que eu engordo e algumas pessoas não?

A primeira pergunta foi respondida: nosso tecido adiposo (a gordura em nosso corpo) cumpre um papel fundamental para manter as células de nosso corpo abastecidas de energia enquanto não estamos comendo.

Para respondermos a segunda e a terceira perguntas, precisamos entender o mecanismo de regulação do tecido adiposo. Para tanto, pensemos na seguinte sequência de fatos:

  1. Pensamos em comer uma refeição contendo carboidratos;
  2. Nosso corpo começa a secretar insulina;
  3. A insulina sinaliza para as células gordurosas que elas devem suspender a liberação de ácidos graxos (a forma na qual a gordura é queimada como fonte de energia) e, ao invés disso, começar a armazenar ainda mais ácidos graxos, retirando-os da corrente sanguínea;
  4. Ficamos com fome (ou com mais fome);
  5. Começamos a comer;
  6. Nosso corpo secreta mais insulina;
  7. Os carboidratos são digeridos e entram na circulação como glicose, aumentando os níveis de açúcar no sangue;
  8. Nosso corpo secreta ainda mais insulina;
  9. Devido à ação da insulina descrita no passo 3, a gordura que comemos é armazenada como triglicerídeos nas células gordurosas, assim como parte dos carboidratos, que foram convertidos em gordura pelo fígado;
  10. As células gordurosas armazenam mais gordura (e por consequência engordamos);
  11. A gordura permanece “presa” nas células até o nível de insulina baixar.

A grosso modo, podemos dizer que engordamos demais porque comemos carboidratos, pois estes causam um aumento da concentração de insulina no sangue, e esta causa não só a suspensão do uso de gordura como combustível, mas também a “estocagem” desta gordura na forma de triglicerídeos em nossas células gordurosas. Desta forma, entramos em um ciclo vicioso em que passamos a acumular mais gordura do que queimamos e assim acumulamos gordura em excesso.

No entanto, ainda falta responder uma das perguntas propostas: por que a gordura tende a ficar localizada em alguns pontos e em outros não?

A resposta simples para esta pergunta está relacionada a uma enzima que nosso corpo produz, chamada lipase lipoproteica (LPL). Esta enzima se fixa às membranas de diferentes células e é responsável por quebrar os triglicerídeos (ou seja, a gordura) da corrente sanguínea e transformá-los em ácidos graxos, a fim de facilitar sua entrada nas células, pois os triglicerídeos são moléculas “grandes” e tem mais dificuldade de passar pela membrana das células de gordura. Ao quebrá-los em três ácidos graxos e uma molécula de glicerol, eles ficam “menores” e passam com mais facilidade pela membrana.

Se a LPL estiver na superfície de um músculo, ela direciona os ácidos graxos para que sejam usados como combustível pela célula muscular. No entanto, se estiver em uma célula gordurosa, os ácidos graxos serão ligados novamente a um glicerol dentro da célula, ou seja, sendo transformados em triglicerídeos (que como sabemos, não passam pela membrana para serem liberados).

Dependendo da pessoa, a distribuição da LPL é diferente e parece estar ligada aos hormônios sexuais. Em homens, por exemplo, a maior atividade de LPL se dá acima da cintura, enquanto nas mulheres, a atividade é maior nos seios e abaixo da cintura. Depois da menopausa, por exemplo, a atividade de LPL na região abdominal das mulheres se assemelha à dos homens e, por isto, as mulheres tendem a engordar. Na gravidez, a atividade aumenta nas nádegas e quadris, ajudando-as a nutrir o bebê e até mesmo a compensar o peso na barriga. Após o parto, a atividade de LPL nas mulheres reduz nas nádegas e quadris e aumenta nos seios. Desta forma, elas podem usar esta gordura para produzir leite para o bebê.

Assim como a insulina é o principal regulador do metabolismo da gordura, a insulina também é o regulador principal da atividade da LPL. A insulina ativa o LPL nas células gordurosas, particularmente nas do abdome. Ou seja, quanto mais insulina secretamos, maior a atividade da LPL nas células de gordura, e mais gordura sai da corrente sanguínea para ser armazenada. Para completar o cenário, a insulina também suprime a atividade da LPL nas células musculares, a fim de aumentar a quantidade de glicose utilizada pelos músculos como combustível (lembre-se: glicose em excesso é tóxica e o corpo precisa gastá-la o mais rápido possível).

Em outras palavras, se a insulina estiver alta, quando as células gordurosas liberarem ácidos graxos para serem usados como combustível pelo corpo, os músculos não irão utilizá-los (pois a atividade de LPL está baixa neles) e eles acabarão sendo utilizados onde a atividade da LPL for alta; ou seja, sendo armazenados como triglicerídeos novamente.

Além da LPL, a insulina também influencia uma outra enzima: a lipase hormônio-sensível (HSL). Assim como a LPL ajuda a entrada da gordura nas células quebrando os triglicerídeos para passarem pela membrana, a HSL atua dentro das células, transformando de volta os triglicerídeos estocados em ácidos graxos para que estes passem para fora através da membrana.

Em outras palavras: quanto mais ativa a HSL, mais gordura liberamos e mais gordura podemos usar como combustível. No entanto, a insulina tem o efeito de suspender a atividade da HSL, a fim de diminuir a quantidade de ácidos graxosdisponíveis e maximizar a queima da glicose.

Resumo

O papel da insulina é reduzir os níveis tóxicos de glicose (proveniente dos carboidratos) no sangue a todo custo, mesmo que isto signifique que toda a gordura que ingerirmos ou produzirmos seja armazenada nas células gordurosas.

Além disso, existem duas enzimas que determinam o modo como nossas células irão lidar com a gordura chamada: a LPL, que é responsável por facilitar a entrada de gordura nas células, e a HSL, que é responsável por facilitar a saída de gordura das células. Estas enzimas são distribuídas de maneira diferente por nosso corpo, e a insulina atua sobre as duas enzimas, aumentando a atividade da LPL nas células gordurosas e diminuindo nas musculares, além de diminuir a atividade da HSL por todo o corpo. A insulina realiza esta alteração nas enzimas a fim de cumprir sua atividade básica: suspender o uso de gordura como combustível a fim de queimar o máximo da glicose disponível no sangue e reduzir os níveis de glicose a patamares seguros.

Como resultado, enquanto a insulina está elevada acima dos níveis naturais (ou seja, quando temos uma dieta rica em carboidratos, mesmo os INTEGRAIS), nosso corpo não queima gordura até que a glicose no sangue seja toda consumida. Então, o corpo começará a eliminar a insulina, e, enquanto a insulina não for toda eliminada, nossas células ficarão sem nutrientes. Então, sentimos fome e a tendência (e também a recomendação dos nutricionistas) é comermos mais: fazendo-nos comer mais do que precisamos (afinal, se a insulina estivesse baixa, os ácidos graxos seriam usados como combustível).

Além disso, nossos corpos começam a crescer (pois estamos acumulando gordura nas células) e com isto, nosso peso aumenta, desenvolvemos mais músculo para sustentar nosso próprio peso, nossas necessidades de energia aumentam e isto nos faz comer mais, criando um ciclo vicioso.

Sendo assim:

Não engordamos porque comemos demais. Comemos demais porque engordamos.

No próximo capítulo

No próximo post iremos falar sobre a consequência deste ciclo vicioso: a resistência à insulina, que torna necessária uma maior quantidade de insulina no sangue, acelerando ainda mais o processo de engorde. A resistência à insulina é a pré-condição para o surgimento de diabetes tipo 2.

Parte 3

Por que eu engordo e ele não? Bem-vindo à resistência!

Por que algumas pessoas engordam e outras não? Se você leu o restante da série, Insulina: a raiz de todo o mal, você pode ter ficado com esta pergunta na cabeça. No primeiro e no segundo posts da série, você foi apresentado à insulina e entendeu como ela funciona para nos fazer engordar. No entanto, ainda nos falta explicar por que algumas pessoas engordam e outras não.

Neste post, adaptado do livro Why We Get Fat, de Gary Taubes, vamos entender um pouco mais sobre uma condição que se desenvolve em nossos organismos quando consumimos carboidratos em excesso por muito tempo.

Ao falar sobre o tema, o autor faz a seguinte proposição:

Se a insulina faz as pessoas engordarem, porque ela torna apenas alguns de nós gordos? Todos secretamos insulina, afinal, e mesmo assim muitos de nós são magros e continuam magros pela vida inteira. Esta é uma questão de natureza – nossa predisposição genética – não são a nutrição ou aspectos da dieta e/ou estilo de vida que disparam esta natureza.

A resposta para esta pergunta deriva, segundo o autor, do fato de que “os hormônios não trabalham no  vácuo, e a insulina não é exceção”. O efeito de um hormônio em qualquer tecido depende de uma série de fatores, tanto internos, quanto externos às células (lembre-se do LPL e do HSL que apresentamos no post anterior da série). Estes fatores intra e extracelulares tornam o efeito da insulina diferente dependendo da célula, do tecido e até mesmo do estágio de nossa vida ou desenvolvimento.

A insulina pode ser considerada como o hormônio que determina como os combustíveis são distribuídos por nosso corpo. Após uma refeição, a insulina e diversas enzimas que ela influencia (como o LPL e o HSL) determinam em que proporção e para que células os diferentes nutrientes serão enviados, quanto desse combustível será queimado, quanto será armazenado e como isto irá mudar ao longo do tempo.

 

Imagine um indicador de combustível como o da foto acima, em que um dos lados tem um “E”, que significa Energia, e o outro tem um “G”, que significa Gordura. Se o ponteiro se posiciona à direita (em direção ao “G”),  devemos entender que a insulina está enviando quantidades desproporcionais das calorias que você consome para serem armazenadas como gordura, ao invés de serem usadas como energia para seu corpo. Sendo assim, podemos dizer que você tem tendência a engordar. Além disso, você terá menos energia disponível para fazer atividade física; ou seja, você também tem tendência a ser sedentário. Se você não quiser ser sedentário, você terá que comer mais, a fim de compensar a perda das calorias que são transformadas em gordura. As pessoas que tem obesidade mórbida são aquelas que estão do lado “G” do indicador.

No entanto, se o ponteiro se posiciona no lado oposto do indicador (em direção ao “E”), você está queimando as calorias que você ingere como combustível de maneira desproporcional. Você tem energia suficiente para fazer exercícios e muito pouco desta energia será armazenada como gordura. Você será magro e ativo e comerá em moderação. Quanto mais você aponta na direção do “E”, mais energia você tem para atividade física e menos será armazenado como gordura (ou seja, mais magro você será). Deste lado do espectro estão os maratonistas.

Ok, se o “ponteiro” da minha insulina aponta para o lado “E”, eu emagreço, se aponta para o lado “G” eu engordo. Mas, como a posição do ponteiro é determinada?

À primeira vista, poderíamos pensar que quanto mais insulina secretarmos, mais gordos ficaremos. No entanto, não é bem assim que as coisas funcionam. Esta é parte da resposta, mas tem muito mais a ver com a consequência do problema do que com a causa.

Se diferentes pessoas comerem a mesma quantidade de carboidratos, algumas pessoas secretarão mais insulina do que outras e terão uma maior predisposição a armazenarem mais energia como gordura do que deixar disponível para ser gasta em atividade física. Seus corpos trabalham para manter o nível de açúcar no sangue sob controle (afinal, muito açúcar no sangue é tóxico), e, conforme explicamos no post Insulina, Gatos e Darth Vader, se for necessário para isto aumentar nossa massa gordurosa, a insulina vai fazê-lo.

No entanto, outro fator importante nesta equação é o quão sensível à insulina nossas células são e o quão rapidamente elas se tornam insensíveis em resposta à insulina secretada, condição esta chamada de “resistência à insulina“.

Quanto mais insulina secretarmos, maior a probabilidade de que nossas células tornem-se resistentes à insulina. Assim como um alcoólatra precisa de quantidades muito maiores de bebida para ficar alcoolizado, uma pessoa resistente à insulinaprecisa de quantidades muito maiores de insulina para manter o nível de açúcar sob controle.

Outra forma de pensar neste problema é que as células têm uma forma de decidir que não querem receber mais glicose do que já recebem (afinal, glicose em excesso faz mal para as células também) e, para isto, elas tornam mais difícil o trabalho da insulina de retirar a glicose da corrente sanguínea.

O “problema (ou a solução)”, como coloca Taubes, é que o pâncreas responde à quantidade de açúcar elevada no sangue injetando ainda mais insulina. O resultado deste processo é um ciclo vicioso: quando muita insulina é secretada (em resposta à ingestão de carboidratos de fácil digestão, como amido e açúcar), nossas células têm a tendência de rapidamente tornarem-se resistentes à insulina (especialmente as células musculares), pois elas já tem glicose suficiente.

Além disso, enquanto as células resistentes “não querem” receber mais glicose e seu pâncreas ainda está secretando mais insulina para remover a glicose do sangue, seu fígado continua transformando glicose em gordura e a insulina continua armazenando-a em suas células gordurosas (a não ser que elas também estejam resistentes à insulina). Em outras palavras, durante este processo, a insulina trabalha para lhe deixar mais gordo.

Para somar a este cenário, para cada célula e tecido de nosso corpo, a velocidade em que as células ficam resistentes à insulina é diferente. Se suas células musculares são mais sensíveis (isto é, menos resistentes) à insulina, elas vão “capturar” mais glicose do sangue e você se manterá magro. No entanto, se suas células de gordura são mais sensíveis, elas vão armazenar mais energia na forma de gordura (a fim de eliminar a glicose) do que seu corpo consegue gastar (e aí você engorda).

Por fim, se imaginarmos que nossas células são organismos vivos e que também sofrem o proceso de seleção natural, pode-se dizer que as células resistentes à insulina são melhor adaptadas a um ambientem em que a glicose é abundante e, por isto, ao longo do tempo, elas irão se reproduzir como células menos sensíveis à insulina. Ou seja, à medida que o tempo passa, você vai se tornando cada vez mais resistente à insulina.

Somando-se a isto o fato de que as células musculares têm uma tendência maior a se tornarem resistentes à insulina do que as células de gordura, teremos então a explicação para o fato de pessoas que são magras na juventude engordarem ao longo do tempo.

O conhecimento tradicional nos diz que ao longo do tempo, nosso metabolismobasal vai ficando cada vez mais lento e, por isto, queimamos menos energia à medida que envelhecemos. No entanto, provavelmente os defensores desta visão estão invertendo a causa e a consequência: é mais provável que nossos músculos vão se tornando cada vez mais resistentes à insulina, deixando uma parte maior da energia que consumimos ser convertida em gordura para ser armazenada. Isto então deixa menos energia disponível para consumirmos e, por isto, nosso metabolismo desacelera.

Ou seja, como diz Taubes:

O que parece ser a causa de engordar (a redução da velocidade do nosso metabolismo) é na verdade um efeito. Você não engorda porque seu metabolismo desacelera; seu metabolismo desacelera porque você está engordando.

Você deve estar se perguntando agora: “como posso evitar a resistência à insulina?“.

A resposta é simples: coma menos carboidratos, afinal, todo o carboidrato que ingerimos (à exceção da fibra) torna-se glicose em nosso sangue e quanto mais glicose, mais insulina secretamos e mais nossas células ficam resistentes a ela. Se simplesmente ingerirmos menos carboidratos, a taxa de glicose no sangue diminuirá e, por consequência, o nível de insulina no sangue também será reduzido. Desta forma, os efeitos da insulina ficam atenuados e você voltará a queimar gordura. É importante salientar que quanto mais resistente à insulina você for, menos carboidratos poderá comer e que quanto menos carboidratos você comer, mais rápido irá emagrecer.

Obs: sempre que fizer qualquer alteração em sua dieta, faça com o acompanhamento de um profissional de saúde. Mesmo que ele não concorde com sua dieta, ele poderá solicitar exames e você e o profissional poderão acompanhar a evolução de sua dieta.

Insulina: A raiz de todo o mal

Leonardo Pires | Fatopia

Uma lista de tarefas é suficiente | Life Method

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Se a sua vida é organizada de forma simples e você ainda resiste bravamente a abrir mão da simplicidade, mesmo tendo que enfrentar o mundo complexo à sua volta, uma lista simples de tarefas é suficiente. As tarefas entram na sua lista, como numa lista de compras, você as executa e marca como completadas ou, simplesmente as apaga depois de prontas. Como numa lista de compras. Não vamos debater com você sobre isto ser insuficiente na maioria dos casos. No post Escala versus complexidade há uma citação que reproduzo abaixo que expressa bem o problema:

[…] existe uma lei universal e sagrada dos sistemas complexos: “a complexidade de um sistema realizando uma tarefa deve ser tão grande quanto a complexidade da tarefa”.

Mas vamos deixar isto prá lá por enquanto. A sua vida é simples, não?

Uma lista simples é o que oferecem as várias ferramentas de To Do List que existem por aí. Nós vamos usar a Web. Nossa escolha inicial é usar o Google Calendar para fazer a nossa lista. Para manter a coisa um pouco mais manejável vamos renomear o nosso calendário default oferecido pela Google para Inbox. Por que não To Do List? Poderia ser mas queremos começar usando um nome que vamos manter depois. Vamos também criar outro calendário com o nome Done (Veja como em Criar uma nova agenda).

Nota: Para manter os calendários nesta ordem, Inbox e Done, use algum truque baseado em prefixos que você achar melhor.

Mas uma lista de tarefas num calendário não viola a função precípua de um calendário que é agendar compromissos com data e hora para ocorrer? Por que escolhemos o Google Calendar? Bem, o Google Calendar é rápido, funciona bem no celular (é rápido nele também), pode ter facilmente os seus calendários compartilhados na sua totalidade ou para eventos específicos, e tem capacidade offline e sincronização razoáveis.

Mas como vamos conviver com tarefas com data e hora ou somente data (eventos All Day no Google Calendar)? Bem, se são tarefas podemos evitar estabelecer uma hora para executá-las. Criamos eventos All Day para representá-las. Mas ainda assim vamos ter que voltar no tempo para a sua data de criação para que elas apareçam. Mesmo voltando para a data das tarefas ainda teremos que clicar no alto do calendário para ver os eventos All Day. Se estivermos considerando todas as nossas tarefas ASAP o fator temporal é irrelevante. Podemos deixar as tarefas onde elas foram criadas e usar o botão Agenda para ver a lista. Para localizar a data quando foi criado o primeiro evento podemos usar o botão Month. Então, vendo a nossa lista com o botão Agenda podemos começar a executar as tarefas (Todas elas All Day) assim que for possível. Como fazemos com a nossa lista de compras. Quando formos à rua fazemos as compras. Quando tivermos tempo e energia executamos as nossas tarefas. De cima para baixo ou em outra ordem com uma prioridade que está pairando na nossa mente. Cada tarefa executada pode ser eliminada do calendário ou movida para o calendário Done.

Life Method Calendars

O esquema de manejo sugerido acima pode funcionar bem com uma lista simples e não muito grande (e se espera que não cresça muito se você não for dado a uma procrastinação). O calendário não foi projetado para lidar com tarefas e sempre vai haver uma fricção com o nosso uso ad hoc. O uso do calendário desta forma não justifica o esforço. Nos próximos post vamos combinar duas ou três ferramentas Web para o nosso sistema completo para lidar com mais complexidade e dividir o problema.

Introdução | Life Method

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Life Method é um metódico sistema de controle das tarefas que podem alavancar e fazer diferença para a sua vida. Se você não for um pouco metódico ou sistemático o suficiente para organizar sua vida então este método não é para você. Mas a carga é mínima e pode ser ajustada de acordo com o que você é capaz de realizar.

Sou um fã do David Allen e o seu GTD (Já escrevi sobre GTD antes em vários posts). Já tentei várias ferramentas e formas de organizar minhas tarefas seguindo as orientações do GTD. No entanto um dos conselhos que não consegui seguir foi o de não colocar datas nas minhas tarefas. Logo entendi a razão do conselho quando não conseguia cumprir as tarefas e perdia bastante tempo movendo-as para a frente no tempo. O conselho do Allen era para colocar data e hora apenas nos compromissos envolvendo terceiros ou prazos fatais. O resto devia ser classificado como tarefas ASAP (As Soon As Possible). Como eu tinha muita insegurança sobre se não esqueceria de fazer algo importante caso não soasse um alarme para me lembrar de uma tarefa ou eu pudesse filtrar o que deveria fazer primeiro era difícil seguir o conselho.

Há também o problema da “mente do macaco” esvoaçando como uma borboleta no meio do paraíso de néctar oferecido pelas flores, hoje a Internet. Ou melhor seria dizer: pulando de galho em galho?

[…] na meditação o que fazemos é nos tornarmos amigos da “mente do macaco”. A “mente do macaco” é sempre inquieta, quer fazer alguma coisa, sempre quer ter trabalho. Você pode dar trabalho para a “mente do macaco”. Normalmente é ela quem dá um trabalho para você, esse é o problema. Agora você pode dar trabalho para a “mente do macaco”! Agora você pode se tornar o chefe e ser mais livre e a “mente do macaco” se torna o empregado. Mas o trabalho é a meditação! [Ou usar o Life Method! ;-)]

Buda Virtual

Ela está o tempo todo a nos estimular transformando todos em sofredores compulsórios da síndrome DDA. O artigo Meet the Life Hackers, do Clive Thompson (Leia em português), explana abundantemente sobre o tema das interrupções e seus efeitos sobre a nossa produtividade. Fala-se muito que o computador, que iria nos liberar dos trabalhos maçantes e aumentar explosivamente a nossa produtividade, jogou em nossas corcovas de camelo uma acachapante miríade de tarefas e  interrupções que anda enlouquecendo todo mundo. A solução não é o ludismo de quebrar os computadores (o que não seria nem possível pois eles estão “desaparecendo” imersos em objetos mais prosaicos e escondidos em fazendas de servidores tornando-se cada vez mais uma presença ubíqua e ao mesmo tempo invisível, fantasmagórica, arrastando suas correntes virtuais). E não há fuga possível pois estamos imersos no centro desse caos, como no olho do furacão, que ao contrário do que se diz é calmo, e a fuga nos leva para a periferia onde os ventos do nosso fracasso são cada vez mais fortes.  Life Method procura dar um rumo melhor à mente do macaco. A meditação é a solução budista para o problema. Life Method pode ser parecido com uma meditação. Menos contemplativa, mais ativa, “caindo de boca” na vida.

Recentemente voltei a refletir um pouco mais sobre o problema e usando os conceitos do GTD, Eisenhower Square e Time Block (Ver em português) configurei um sistema que parece razoável para o meu uso e que, talvez, faça sentido para você também.

Gregorio Duvivier faz uma crítica inteligente e cheia de humor ao projeto “escola sem partido”

Feyerabend e a depressão

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A depressão é tida como o “mal do século”. Não sabemos de qual. Feyerabend, que por causa de sua atitude como cientista, expressa no diálogo intitulado “For and Against method”, com Lakatos, sofria de depressão bem o diz sobre como ela gruda na sua pele como uma sarna e invade seu interior como um alien de filme de terror de ficção científica:

“A depressão esteve comigo durante um ano; como um animal, distintamente, uma coisa que se podia encontrar no espaço. Eu poderia levantar, abrir meus olhos, escutar — Ela está aqui ou não? Nem sinal. Talvez esteja dormindo. Talvez ela me deixe em paz hoje. Cuidadosamente, muito cuidadosamente, eu saio da cama. Tudo está em silêncio. Eu vou até a cozinha, começo a preparar o café. Nenhum barulho. TV –Bom dia América-, David Qual-é-seu-nome. Eu como e vejo os convidados. Lentamente a comida preenche meu estômago e me dá força. Agora uma rápida ida ao banheiro e saio para minha caminhada matinal – e lá está ela, minha fiel companheira, a depressão: “Achou que poderia sair sem mim?”.

Wikipedia

 

GREG NEWS com Gregório Duvivier | IMPOSTOS: #NÃOVAMOSLEVARNOTHORBA