Arquivo do mês: setembro 2007

Jardins de Rama

Quando estava lendo as descrições do ambiente no interior do artefato cilíndrico em ‘Encontro com Rama’, de Clarke, um pensamento parecido com o que encontrei num texto de Rubem Alves me acometeu:

Sonho com um jardim. Todos sonham com um jardim. Em cada corpo, um Paraíso que espera… Nada me horroriza mais que os filmes de ficção científica onde a vida acontece em meio aos metais, à eletrônica, nas naves espaciais que navegam pelos espaços siderais vazios… E fico a me perguntar sobre a perturbação que levou aqueles homens a abandonar as florestas, as fontes, os campos, as praias, as montanhas… Com certeza um demônio qualquer fez com que se esquecessem dos sonhos fundamentais da humanidade. Com certeza seu mundo interior ficou também metálico, eletrônico, sideral e vazio… E com isto, a esperança do Paraíso se perdeu. Pois, como o disse o místico medieval Angelus Silésius:

Se, no teu centro
um Paraíso não puderes encontrar,
não existe chance alguma de, algum dia,
nele entrar.”

Em http://www.rubemalves.com.br/jardim.htm

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Ida à Bienal do Livro

Resolvemos todos ir à Bienal, no Riocentro. Foi muito cansativa e demorada a viagem de ônibus para lá. Iasmin dormiu um pouco no trajeto. Voltamos de frescão e pregados. Na Bienal, com Iasmin quase o tempo todo no colo, ficou impossível flanar pelos estandes como planejava. Como chegamos perto de 13h comemos logo uma pizza a guisa de almoço. Compramos uns livrinhos infantis para Iasmin. Eu e Natacha compramos dois livros. O dela sobre microbiologia. O meu sobre Espinosa (A Vida e o Espírito de Baruch de Espinosa). Na contracapa do livro sobre Espinosa há um texto que não sei se do mesmo ou do autor anônimo que escreveu o livro. Já o tinha visto quando folheei o livro pela primeira vez numa livraria no centro da cidade. O texto é o seguinte:

Ainda que importe a todos os homens conhecer a verdade, todavia pouquíssimos a conhecem, porque a maioria deles se crê incapaz de procurá-la por si mesmos, ou não que se dar ao trabalho de fazê-lo. Assim, não admira que o mundo esteja repleto de opiniões vãs e ridículas, nada sendo mais capaz de lhes dar curso do que a ignorância. De fato, é ela a única fonte das falsas idéias que se têm da divindade, da alma, dos espíritos e de quase todos os erros que dela derivam. É um uso que prevaleceu, contentar-se com os prejulgamentos que se carregam desde o nascimento, e consultar pessoas pagas para sustentar opiniões recebidas e, por conseguinte, interessadas a convencer o povo a respeito delas, sejam verdadeiras ou falsas. […] Se o povo pudesse compreender em qual abismo a ignorância o arremessa, sacudiria logo o jugo dessas almas venais, que, para seu interesse particular, o mantém nessa ignorância.

O espírito do senhor Baruch de Espinosa

ELP – The Great Gates of Kiev (California Jam 1974)

ELP on Youtube

Dia Mundial Sem Carro: 22/Setembro/2007

Veja o ‘Dia Mundial Sem Carro’ no blog de Mateus.

Peça “Para acabar com o julgamento de Deus”

Eu e Natacha fomo ao teatro da Aliança Francesa, em Botafogo, (em 21/9/2007) assistir a peça sobre Artaud. A peça é baseada numa transmissão radiofônica censurada na época. As gravações, que foram usadas na peça foram preservadas apesar da ordem de destruição que foi dada. No final da peça houve um debate.

Meu “contato” com Artaud começou por uma biografia do mesmo há já alguns anos. As sua cartas ao seu psiquiatra e “carcereiro”, citadas na biografia (publicadas como Cartas de Rodez), é objeto de minha curiosidade desde lá. Não comprei o livro a respeito delas ainda. Pela biografia que li Artaud, de dentro de uma lucidez contraditória com seu status decretado de louco, não conseguiu reverter o dogma de sua loucura na crença de seu médico. A relação de poder entre o psiquiatra, representando a sociedade no seu horror ao elemento perturbador, e o seu ‘paciente’ não precisa aqui da voz emprestada de Foucault aos que só podem silenciar. A antinomia que Artaud representa é que ele próprio não silenciou e, portanto, a sua sanidade é absoluta quando escolhe a linguagem da loucura como metáfora dessa sanidade e lucidez extrema que revela, ou desvela, a insanidade do julgamento.

A oportunidade de “sentir” Artaud numa peça foi o que me atraiu para poder entender melhor o seu “teatro da crueldade”. Comecei a ler o “O teatro e seu duplo” para este fim, mas ainda não o terminei. E já faz algum tempo. O contato com uma peça que materializa esse teatro deve criar um incentivo para retomar a leitura.

Links relacionados:

Polêmica, tênis, frescobol, Rubens Alves e Foucault

 

Não resisti, olhando o site de Rubem Alves, de citar alguns textos ótimos (e é difícil escolher) do mesmo:

  • Proseando
  • O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada – palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra – pois o que se deseja é que ninguém erre.

Vi uma ligação dos textos acima com o  POLÊMICA, POLÍTICA E PROBLEMATIZAÇÕES, do Foucault. Abaixo cito um trecho:

Perguntas e respostas fazem de um jogo – jogo agradável e ao mesmo tempo difícil – em que cada parte procura usar apenas os direitos que lhe são dados pelo outro e pela forma consentida do diálogo.

O polemico, pelo contrário, procede atrelado a privilégios que detém antecipadamente e que não aceita nunca de pôr em discussão. Possui, por princípios, os direitos que o autorizam à guerra e que fazem desta luta uma empresa justa; diante dele não está um companheiro na busca da verdade, mas um adversário, um inimigo que errou, que é prejudicial e cuja existência constitui uma ameaça. Para ele, portanto, o jogo não consiste em reconhecer o outro como sujeito que tem direito à palavra, mas em anulá-lo como interlocutor de qualquer possível diálogo, e o seu objetivo final não será o de aproximar-se quanto possível de uma verdade difícil, mas o de fazer triunfar a justa causa de que se proclama, desde o inicio, o porta-voz. O polemico apoia-se em legitimidade da qual o seu adversário é, por definição, excluído.

Talvez um dia será necessário escrever a longa historia da polêmica como figura parasitária da discussão e o obstáculo à busca da verdade.

Foucault

Deus , um delírio (God Delusion), de Richard Dawkins

Terminei de ler o novo livro de Dawkins.

Há uma discussão sobre a tradução do título. A palavra delírio sugere uma mente delirante sonhando Deus. ‘Deus: uma desilusão’ talvez seja melhor por expressar bem o sentimento de desilusão de Dawkins com a religião e seu fundamento: Deus.

Dawkins usa a arma que sabe manejar bem: a ciência, em geral, e a biologia e a teoria da evolução de Darwin. E como maneja bem! O resultado é um deleitamento com os seus escritos, claros e diretos, de vulgarização da ciência e da teoria da evolução.

Dawkins é acusado de religiosidade com razão se o que se quer entender por religiosidade for o ‘religare’ citado por Rubem Alves. Encantar-se com a natureza, mesmo que com os olhos da razão, é ‘religare’. Mas evidentemente Dawkins não é religioso. A acusação é mais uma tática para confundir o seu libelo com o surgimento de somente mais uma nova seita. Seria mais um profeta de apenas mais uma nova religião a se combater com a verdade das religiões pré-existentes. Colocado assim, na mesma vala comum, o libelo de Dawkins, a sua ‘fúria sagrada’, perderia o impacto e a capacidade de fazer pensar. E é só isso que Dawkins pede que façamos. Pensar por nós mesmos. E concluir e seguir o que quiser, por quanto tempo quiser e só quando quiser. Simples assim.

Há um bom tempo Nietzsche relativizou a moral sem negar seu valor mas prescrevendo que uma nova moral surgirá para o novo além-homem, construída por ele e para ele, tão provisória enquanto necessária e enaltecedora da vida.

Espiritualidade

“Quero fazer os poemas das coisas materiais,
pois imagino que esses hão de ser
os poemas mais espirituais.
E farei os poemas do meu corpo
E do que há de mortal.
Pois acredito que eles me trarão
Os poemas da alma e da imortalidade.”
E à raça humana eu digo:
-Não seja curiosa a respeito de Deus,
pois eu sou curioso sobre todas as coisas
e não sou curioso a respeito de Deus.
Não há palavra capaz de dizer
Quanto eu me sinto em paz
Perante Deus e a morte.
Escuto e vejo Deus em todos os objetos,
Embora de Deus mesmo eu não entenda
Nem um pouquinho…
Ora, quem acha que um milagre alguma coisa demais?
Por mim, de nada sei que não sejam milagres…
Cada momento de luz ou de treva
É para mim um milagre,
Milagre cada polegada cúbica de espaço,
Cada metro quadrado de superfície
Da terra está cheio de milagres
E cada pedaço do seu interior
Está apinhado de milagres.
O mar é para mim um milagre sem fim:
Os peixes nadando, as pedras,
O movimento das ondas,
Os navios que vão com homens dentro
– existirão milagres mais estranhos?” (Walt Whitman)

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