Arquivo do mês: março 2016

A serpente de Cruzeta

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O comer do fruto da ciência do bem e do mal não significa passar a consumir algo pecaminoso que não se consumia antes. A expulsão do paraíso foi causada pelo conhecimento e não pela novidade. O conhecimento que aquele “fruto”, ou erva, a liamba, era o “fruto da ciência”. Assim ocorreu a “expulsão do paraíso” e da inocência dos velhinhos do Seridó.

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A cavalaria vermelha de Isaac Babel

Topei com uma referência a esta obra num livro de Rubem Fonseca (Vastas emoções e pensamentos imperfeitos) e achei num sebo uma edição de 1969 da Civilização Brasileira com tradução de Berenice Xavier. Já na introdução de Lionel Trilling, muito boa, somos preparados para a saborosa degustação do que vem adiante. Saborosa também é esta introdução que revela o dilema de um cossaco-judeu, aparentemente uma contradição em termos, diante da brutalidade e violência contrária a sua educação  na tradição judaica corrente. Vi também. já na introdução, uma possível fonte de inspiração histórico-literária para o tema da violência em Rubem Fonseca. A escolha de Rubem Fonseca pela violência dos seus personagens me fascina tal como Daniel Trilling descreve o fascínio exercido sobre Isaac Babel e sobre muitas pessoas. A violência com manifestação da vida, da força de viver a impor a vida exuberante e violenta porque não aceita ser contida na sua exuberância. Parece que a brutalidade dos cossacos, na descrição de Trilling, é, como a de um animal, inocente.

Como ser bem sucedido nos negócios

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Não. Não é sobre o urubu. Nem também auto-ajuda para quem quer vencer na vida. Embora o urubu tenha um plano de negócios bem sucedido ele representa o sucesso à custa da desgraça alheia no nosso imaginário moral. Na natureza não, porque ela é imoralista.

Está para ser negociado um acordo espúrio para parar investigações de corrupção. Isto ficou claro na matéria do Estadão (Veja no final) sobre a qual a senadora Gleisi chama a atenção.

Neste momento um trecho de uma letra de Cazuza precisaria ser invocada.

Brasil
Mostra tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim

Após o acordo os coxinhas não vão saber mais de nada pois o PIG vai se calar ou mesmo se dissolver e ser substituída por “uma imprensa responsável e profissional”. Não haverá mais “caça às bruxas”. De agora em diante só “fadas”. Fadas surpreendentes. Assim que se consumar o “golpe frio”, que é como a imprensa internacional está chamando a articulação da troica da oposição com a mídia e o judiciário, tudo ficará bem calmo. Na ditadura nada transpirava por causa do controle totalitário sobre tudo e pela expulsão dos dissidentes do país. Agora não é preciso censurar nem temer “o quarto poder”. Só existe uma voz. O pensamento único. As palavras são distorcidas numa “novilíngua”. “Guerra é paz”. A imprensa internacional que anuncia o “golpe frio”  é petista?

Uma coisa surpreendente para os desavisados, e os estrangeiros se enquadram mais facilmente nesta categoria  por não estarem imersos no mar de desinformação com que nos brindam cotidianamente, é o fato de corruptos estarem compondo comissões para condenar corruptos, como é o caso de pelo menos dois conhecidos citados na imprensa internacional: Cunha e Maluf.

Lula não tem milhões na Suíça, como o poderoso presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. Ele é acusado de corrupção e lavagem de dinheiro, um juiz do Supremo Tribunal de Justiça referiu a ele como um criminoso. Mas isso não impede que Cunha assuma a presidência da comissão, que é responsável pelo impeachment da presidente.

Nesta honrosa comissão de impeachment, senta-se entre outros, um ex-governador de São Paulo, que foi condenado na França por acusações de corrupção, mas não foi entregue pelos brasileiros, porque ele é brasileiro.

Der Spiegel

 

Que mal pode causar se um homem diz uma boa e grossa mentira por uma causa meritória e para o bem da igreja (luterana).

Lutero

O golpe através do judiciário foi a escolha dado ao seu discurso hermético que esconde o conteúdo atrás de um jargão pesado, empolado e incompreensível à população. É escolhido para dar uma roupagem de legitimidade porque o judiciário é confundido com a justiça. Na Itália a operação “Mãos limpas” acabou aperfeiçoando os mafiosos e seus aliados na corrupção. O juiz de lá, inspiração de Moro talvez, depois se meteu na política. Se deu mal e parece ter se envolvido com irregularidades. Um judiciário envolvido na politicagem e interessado numa meta é o aparelhamento perfeito. Como um crime perfeito. O judiciário aparelhado contra o executivo aparelhado. Quem vai ganhar? Não sabemos. Sabemos quem vai perder. Quando dois “brigam” um terceiro é a vítima do golpe do “paco” político.

Segue abaixo a entrevista memorável do Serra ao Estadão.

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O alienista

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Não. Não é sobre Machado de Assis. O título deste post coincide com a obra do “bruxo” que eu admiro muito. Teria muito que comentar sobre esta obra em particular. Falar sobre minhas percepções sobre ela. Mas fica, talvez, para depois. Um texto muito bom (abaixo) , inspirado na obra citada, despontou recentemente.

Itaguahy é aqui e agora, diria talvez Machado de Assis, ao observar o ponto ao qual chegamos. Ao inventar Simão Bacamarte, o protagonista de “O alienista”, Machado mobilizou sem dúvida referências diversas, tanto literárias quanto políticas. Parece certo que se inspirou também em personagens históricas concretas, ou em situações de sua época que produziam tais personagens.

Na década de 1880, habitante da Corte imperial, ele assistia havia décadas à ciranda infindável de epidemias de febre amarela, varíola, cólera, etc. e a luta inglória dos governos contra tais flagelos.

O pior da experiência era que o fracasso contínuo das políticas de saúde pública, ou da higiene pública, como se dizia com mais frequência, provocava, paradoxalmente, o aumento do poder de médicos higienistas e engenheiros. Esses profissionais se encastelavam no poder público munidos da “ciência” e da técnica que poderiam renovar o espaço urbano de modo radical e “sanear” a sociedade.

Demoliam-se casas populares, expulsavam-se moradores de certas regiões, reprimiam-se modos de vida tradicionais, regulava-se muita cousa sob o manto do burocratismo cientificista. E as epidemias continuavam.

Machado de Assis refere-se a esse quadro como “despotismo científico”, em “O alienista” mesmo, ao descrever “o terror” que tomara conta de Itaguahy diante das ações de Bacamarte. Havia inspetor de higiene e engenheiro da fiscalização sanitária a agir com convicção de Messias, cheios de autoridade, inebriados de seus pequenos poderes.

Simão Bacamarte, portanto, é desenhado d’après nature, para usar a expressão daquele tempo meio afrancesado, por mais caricatural que a personagem possa parecer. A arte imita a vida, segundo Machado de Assis, quem sabe. A estória que contou é conhecida por todos, talvez uma das referências intelectuais clássicas mais compartilhadas nesta nossa república da bruzundanga.

Por isso é uma estória boa para pensar a nossa condição coletiva, Brasil, março de 2016. Bacamarte queria estabelecer de maneira objetiva e irrefutável os limites entre razão e loucura. Conseguiu amplos poderes da câmara municipal, dinheiro para construir a Casa Verde, seu hospício de alienados, e passou a atuar como que ungido por suas convicções científicas.

Ao contrário do que imaginara inicialmente, encontrou uma diversidade assombrosa de loucos. Se o eram mesmo, continuam conosco, como os impagáveis loucos “ferozes”, definidos apenas como sujeitos grotescos que se levavam muito a sério. A galeria de loucos que tinha a mania das grandezas é quiçá a mais relevante em nossa situação atual. Havia o cara que passava o dia narrando a própria genealogia para as paredes, aquele pé rapado que se imaginava mordomo do rei, e outro, chamado João de Deus, propalava que era o deus João.

O deus João prometia o reino do céu a quem o adorasse, e as penas do inferno aos outros. Ainda hoje em dia Simão Bacamarte acharia material humano de sobra para encher a Casa Verde. Se ampliasse a pesquisa para a internet, ele teria de investigar a hipótese de a loucura engolfar o planeta inteiro.

Afinal, segundo ele, “a razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, insânia, e só insânia”. Ou talvez não. Se Bacamarte lesse e visse a grande mídia brasileira, é possível que concebesse um conceito mais circunscrito de alienação mental. Sem a cacofonia virtual estaríamos expostos apenas à monomania de uns poucos, e a diversidade de opiniões é sacrossanta nesta nossa hora. Bendita internet.

O messianismo cientificista de Bacamarte se foi. Mas o curioso é que a ficção dele criou raízes na história brasileira, virou realidade. Muitos dentre nós, de cabelo bem grisalho ou até nem tanto, lembrarão da situação do país no final dos anos 1980 e no início da década seguinte, a viver a passagem sem ponte da ditadura para a hiperinflação.

Em retrospecto, penso que havia um quê de continuação da ditadura naqueles planos econômicos todos que produziram até uma nova caricatura de Messias, o caçador de Marajás. Agora a população não era mais culpada de viver na imundície e nos maus costumes, a causar epidemias de febre amarela.

No entanto, estava inoculada pelo vírus da cultura inflacionária. Daí vieram os czares da Economia ou ministros da Fazenda, ou que nome tivesse aquela desgraceira. As “autoridades” daquela ciência cabalística confiscavam poupança, congelavam preços, nomeavam “fiscais” populares dos abusos econômicos, podiam fazer o que lhes desse na veneta. Mas dava errado.

A inflação voltava, os caras não acertavam. Vinha outro plano, mais confisco, mais arrocho salarial, e nada. Viveu-se assim por uma década, ou mais. Cada ministro era um pequeno deus, cujo poder tinha relação direta com a sua profunda ignorância sobre o que fazer para dar jeito na bruzundanga.

Os higienistas do final do século XIX e os economistas do final do século XX tinham muito em comum. Em algum momento, o despotismo econômico se foi. Tinha de passar, passou. Tivemos democracia por algum tempo, com todos os seus rolos, mas sem salvadores da pátria, o que era um alívio. Livres, ainda que sob a batuta do deus Mercado, uma espécie de messianismo sem Messias, ou sem endereço conhecido.
Eis que surge, leve e fagueiro, o messianismo judiciário.

De onde menos se esperava, a cousa veio. Simão Bacamarte encarnou de novo, vive-se a história como a realização radical da ficção, hiper-ficção. As operações de despolitização do mundo são as mesmas –no despotismo científico do XIX, no despotismo econômico do XX, no despotismo judiciário do século XXI.

De repente, num processo que historiadores decerto explicarão no futuro, com a pachorra e a paciência daqueles que não vivem o presente às tontas, pois não sabem esquecer o passado, um determinado poder da república se emancipa dos outros, se desgarra, engole tudo à sua volta. Em nome da imparcialidade, da equidade, da prerrogativa do conhecimento (tudo igualzinho aos higienistas e aos economistas de outrora), eles provincializam a nação inteira, e negam, a cada passo, o que professam em suas perorações retóricas: agem de forma partidarizada, perseguem determinados indivíduos e organizações, transformam a sua profunda ignorância histórica num poder avassalador.

Todos sabemos como terminou a estória de Simão Bacamarte. Depois de testar tantas hipóteses, de achar que a loucura poderia quiçá abarcar a humanidade inteira, ele concluiu que o único exemplar da espécie em perfeito equilíbrio de suas faculdades mentais era ele próprio.

Por conseguinte, o anormal era ele, alienado só podia ser quem não tinha desequilíbrio algum em suas faculdades mentais. Bacamarte trancou-se na Casa Verde para pesquisar a si próprio e lá morreu alguns meses depois. Pode ser que haja aí um bom exemplo. Alguém saberia dizer, por favor, onde Machado de Assis deixou a chave da Casa Verde?

Sidney Chalhoub

Os impactos reais da CPMF

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Muitos estão afirmando, com o máximo de certeza, que a CPMF é cumulativa (com razão) e por essa razão os custos relativos ao tributo serão repassados aos preços dos produtos, pressionando ainda mais a inflação (sem razão).

A CPMF teve vigência durante uma década (1997 a 2007) sem apresentar nenhuma evidência empírica que houve pressão inflacionária por conta de sua incidência naquele período.

Economistas, de um modo geral, tendem a pensar de forma mecanicista, ou seja, afirmam que uma coisa necessariamente causa outra, sem contudo examinar outros fatores relevantes, geralmente excluídos de seus modelos preditivos.

Esses repasses de custos ao preços não costumam se dar de forma automática, até porque muitos preços são formados pela lei da oferta e procura, e não pelo seus custos de produção.

Economistas ortodoxos entram facilmente em contradição. Negam teoricamente a inflação de custos. Mas quando lhes convêm, a adotam para confirmar suas teses.

O mais importante é que os dados empíricos não confirmam a hipótese. E o ambiente de baixa atividade econômica tampouco dá espaço para aumentos de preços, mesmo quando há aumento de custos, já que a demanda está em queda. A inflação de custos, em ambiente recessivo, só se verifica quando os preços são administrados. Caso contrário, os custos são absorvidos pelas empresas sob forma de redução da lucratividade de suas respectivas operações.

Por fim, é preciso sempre desconsiderar sumariamente expressões do tipo: “é inegável que” ou “todos sabemos que”, “sempre houve”, “é sabido e consabido” ou ainda “não resta dúvida de que”. Certezas não existem em economia. Não se trata de uma ciência exata e sim de uma ciência social aplicada. A neutralidade não faz parte do método. O observador (sujeito) interfere no fato observado (objeto) assim como um elefante deixa pegadas em um solo macio. Isso também vale para as conclusões desse texto. Possuímos apenas indícios de que algo pode ou não acontecer. As estatísticas baseadas em dados empíricos ajudam. Mas jamais nos livram das incertezas. O que se pode concluir, portanto, é que a afirmação de que a CPMF vai necessariamente causar aumento da inflação não possui nenhum respaldo científico. É apenas uma opinião simplista, baseada em uma hipótese de causa-efeito mecanicista, não evidenciada por dados empíricos, e possivelmente elaborada em razão de interesses políticos ou ideológicos de certos grupos econômicos.

O maior impacto da CPMF, se aprovada, será na rentabilidade das aplicações financeiras de renda fixa.

O economistas ortodoxos e os jornalistas da grande imprensa representam explicitamente o capital financeiro. E farão de tudo para convencer a sociedade, em especial a classe média, de que a CPMF só trará malefícios econômicos ao país.

O impacto da CPMF sobre a classe média é razoavelmente baixo. Uma movimentação mensal de R$ 20.000,00 acarreta uma tributação de R$ 40,00.

É sobretudo o capital financeiro quem mais deplora a CPMF.

O ano passado já houve aumento corajoso da PIS/Cofins sobre aplicações financeiras. Significa que o setor rentista vai dificultar ao máximo a aprovação da contribuição.

Enquanto isso o Imposto sobre Grandes Fortunas continua um tabu intocado pelo Congresso Nacional. Está previsto na CF desde 1988 e ainda não saiu do papel.

A CPMF seria uma saída emergencial, para começar a romper a espiral negativa (menos arrecadação, mais déficit, mais necessidade de financiamento, mais despesas com juros, mais corte de gastos sociais, menos investimentos em infraestrutura etc.).

Com o aumento da arrecadação, que baixou também devido a diminuição da atividade econômica em 2015, a necessidade de financiamento dos gastos no setor público diminuiria, o que reduziria, por sua vez, as despesas com juros.

É certo que apenas a CPMF, isoladamente, sem tocar na política monetária, ou seja, sem começar a baixar drasticamente os juros da Selic e mudar o arranjo institucional projetado para favorecer o setor financeiro da economia, será uma medida talvez até necessária mas insuficiente. E mexer na política monetária também é uma luta de Titãs.

Vejam o que aconteceu em 2013, quando a Selic caiu para 7,25% ao ano. Os juros reais das aplicações em renda fixa perdiam para a caderneta de poupança. Imaginem a humilhação, para um gestor de fundo diferenciado, com seu escritório localizado na área mais nobre da Zona Sul do Rio de Janeiro, com diplomas de pós-doutorado das universidades mais prestigiadas do mundo espalhados pela parede, ter que explicar para seu cliente, recém-desembarcado de seu helicóptero, que a melhor opção de investimento é a simplória caderneta de poupança.

Como bater as metas de venda? Não é por acaso que os defensores do modelo neoliberal afirmam que os bancos centrais devem ser independentes. O mercado não pode aceitar interferências. Bancos centrais devem ser livres para voar. E garantir que as aplicações financeiras dos bem nascidos decolem junto com seus helicópteros.

Blog do Ulysses Ferraz

The Proof-of-Work Concept by Daniel Krawisz em Português

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A busca

Talvez o aspecto menos intuitivo da rede Bitcoin é o conceito de proof-of-work  que ele utiliza para definir o requisito para a geração de um novo conjunto de operações (“block“) a ser adicionada à base de dados de transação distribuída (“block chain“). Este conceito, que cresceu a partir de idéias do movimento cypherpunk inicial1, é novo para a teoria monetária e parece um pouco fora de lugar em ciência da computação também. Vou mostrar que a biologia nos dá o quadro mais adequado para entendê-lo.

Todos os blocos na cadeia de blocos do Bitcoin tem uma curta sequencia de caracteres sem  sentido — chamada de nonce — atrelada a ele. Os computadores de mineração (the mining computers ) são obrigados a procurar pelas cadeias sem sentido (nonces) de tal forma que o bloco como um todo satisfaz uma determinada condição arbitrária. Especificamente, é necessário que o hash SHA-256 do bloco tenha um certo número de zeros no início.2 Hashes são funções de sentido único, por isso não há nenhuma maneira fácil de encontrar o nonce correto ou de outra forma de montar um bloco para que seja o correto [Que gera o hash quando é aplicada a função]. A única forma conhecida para encontrar nonce correto é simplesmente tentar aleatoriamente até encontrar [força bruta]. A Khan Academy fornece uma explicação visual de proof-of-work:

O procedimento, lembre-se, é totalmente arbitrário. É simplesmente uma complicação adicionada, como um ritual, de modo a fazer blocos mais difíceis de produzir. Realmente qualquer outra coisa faria o mesmo, desde que fosse computacionalmente difícil. Outras cripto-moedas usam outros algoritmos de hash. Não há nenhuma condição especial oriunda da teoria dos números que diga que só alguém como Shinichi Mochizuki poderia entender.3

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Embora a finalidade dos computadores de mineração seja fazer a contabilidade da cadeia de blocos (blockchain), a maioria do trabalho que eles realmente fazem é procurar nonces corretos, ao invés de alguma coisa a ver com a contabilidade. A energia utilizada para encontrar as nonces é perdida para sempre. A energia não “volta” com o valor de bitcoins do mesmo modo que o ouro faz para uma nota de banco honesta [lastro], como alguns supõem. Do vasto poder de computação que vai para a mineração bitcoin, exceto uma pequena fração, é aparentemente sem propósito.

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Quando uma pessoa atualiza seu computador de mineração, ela passa a minerar em um ritmo mais rápido e, portanto, a ganhar mais bitcoins. No entanto, quando todos atualizam, a mineração não se torna mais eficiente como um todo. Supostamente apenas um novo bloco a cada dez minutos, independentemente do quão duro a rede esteja trabalhando.  A rede atualiza a dificuldade (updates the difficulty)  exigindo condições mais rigorosas para os blocos seguintes. Todos os mineradores podem trabalhar mais, mas nenhum deles obtém um resultado melhor. É um pouco como uma floresta, em que cada árvore tenta crescer tão alto quanto possível, de modo a capturar mais luz do que os suas companheiras, com o resultado final de que a maioria da energia solar é usada para crescer troncos mortos e longos.

Por que amarrar cada bloco de bitcoin a um leito de Procusto (Procrustean) tão difícil? A maneira correta de pensar sobre o conceito de proof-of-work é como um meio para um grupo de pessoas com interesses próprios, nenhuma delas subordinada a nenhuma outra, para estabelecer um consenso contra um incentivo considerável para resistir a ele [fraudá-lo]. Bitcoin poderia funcionar perfeitamente sem prova de trabalho (proof-of-work), desde que todos fossem perfeitamente honestos e altruístas. Se eles não o são então chegar a um consenso é difícil.

Antes que um novo bloco seja gerado pode haver muitos pagamentos flutuando na rede e ainda não há qualquer resposta objetiva a respeito de quais os pagamentos deverão ser aceitos. Alguns podem ser inválidos, por isso todos precisam ser verificados. Alguns podem não incluir qualquer taxa de transação, então também deve haver uma decisão quanto ao fato de serem aceitos ou ignorados. Finalmente, pode haver um conjunto de dois ou mais pagamentos de tal modo que nem todos podem ser simultaneamente válidos, mas certos subconjuntos deles são válidos. Por exemplo, uma carteira (wallet) pode tentar gastar os mesmos bitcoins duas vezes ao mesmo tempo. Nesse caso, existe uma escolha arbitrária sobre qual dos pagamentos aceitar.

Assim, para um dado conjunto de pagamentos, pode haver diversos blocos possíveis que podem ser construídos a partir deles, nenhum dos quais é objectivamente o mais correto. Não será preciso, necessariamente, qualquer acordo sobre qual resultado é preferível porque diferentes blocos possíveis terá benefícios diferentes para pessoas diferentes. Existe, em primeiro lugar, a recompensa que vem da criação de um bloco de um conjunto de novos bitcoins. Isso é necessário porque sem ela haveria pouco incentivo para qualquer um que fizesse a contabilidade, em primeiro lugar; mas com uma recompensa disponível, cada minerador, naturalmente, prefere que o novo bloco seja a sua proposta, em vez de outra pessoa.

Há outras complicações mais sutis, mesmo sem considerar a recompensa. Um minerador pode recusar-se a validar transações que vêm de seu inimigo, ou ele pode ser mais ou menos altruísta, discriminando que tipos de taxas ele vai aceitar. Ele pode até querer dar um golpe alguém através de gastos duplo: neste cenário, ele iria enviar um pagamento a uma vítima em troca de um bem, mas só iria validar um segundo pagamento conflitante que ele fez ao mesmo tempo para outra carteira, que ele também possui. Isto faria com que o seu primeiro pagamento fosse inválido, e ele poderia, portanto, acabar com um bem que ele não pagaria.

Com tantas razões para querer manipular a cadeia de bloco para os seus próprios fins, os mineradores poderiam muito bem concordar em abstrato sobre a necessidade de um consenso, sem nunca chegar a acordo sobre qualquer proposta concreta. A solução do Bitcoin é adicionar requisitos adicionais para o protocolo que aumentam muito o custo de desleadade. Se os blocos são gerados aleatoriamente por um cálculo difícil, haverá apenas uma proposta novo bloco de cada vez. Uma vez que um novo bloco é proposto, os mineradores têm a opção de continuar a procurar uma alternativa mais favorável para si ou aceitar a nova proposta e continuar a busca pelo próximo. Todo aquele que aceita o último bloco entende que ele está seguindo um consenso natural e que, se tiver sorte o suficiente para gerar o próximo bloco, ele provavelmente será aceite pelas mesmas razões que ele aceitou o último. Por outro lado, para manter, de modo a tentar produzir um bloco mais favorável é muito arriscado, porque ele teria que convencer o suficiente do resto dos mineradores para estar junto com ele para poder estabelecer um novo consenso.

A regra geral é que o primeiro bloco minerado não é de interesse próprio, porque ninguém pode planeja estar em primeiro lugar. Só se pode ser o primeiro por sorte. Quaisquer insistências são suspeitas, porque para gerá-la, o minerador teve que fazer uma escolha de rejeitar uma alternativa perfeitamente boa e, presumivelmente, altruísta. Não é uma coisa fácil de fazer.4

O Princípio do Handicap

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Há uma ideia da biologia chamado o Princípio do Handicap (Handicap Principle) que lança luz sobre este processo.5 Ele diz que quando dois animais têm um incentivo para cooperar eles devem comunicar suas boas intenções uns aos outros de uma maneira crível. A fim de tornar a mentira implausível, o sinal deve impor um custo ao sinalizador que tornaria muito caro o ato de enganar. Em outras palavras, o sinal deve ser em si uma desvantagem.

Isso pode ser entendido em termos do Dilema dos Prisioneiros ( Prisoners Dilemma), uma idéia famosa da teoria de jogos que tem aplicações para uma enorme gama de fenômenos. O Dilema dos Prisioneiros tem dois jogadores, cada um com duas opções: cooperar entre-si ou não. Normalmente, o jogo é explicado em termos de uma história sobre dois prisioneiros em que cada um tem a opção de manter o silêncio ou delatar o outro. As características essenciais do Dilema dos Prisioneiros são de que para cada jogador é melhor escolher delatar independentemente da escolha do outro jogador, e que o maior benefício vai para aquele que delatou enquanto o outro manteve o silêncio. Os jogadores podem se sair melhor se ambos silenciarem em vez de ambos delatarem, mas uma vez que eles não têm nenhuma maneira de assegurar a cooperação entre eles, ambos irão optar por delatar.

O Princípio Handicap resolve o problema do Dilema dos Prisioneiros, permitindo uma etapa prévia ao jogo em que cada jogador tem a opção de fazer algo que, de forma convincente, remove o benefício da delação sobre o silenciamento. É difícil pensar em como fazer o Princípio da Handicap (Handicap Principle) trabalhar  com a história dos dois prisioneiros, mas suponho que eles têm um momento em conjunto com o Ministério Público e um dos presos com uma particularmente boa compreensão da teoria dos jogos diz ao procurador, “Se o outro prisioneiro é culpado, eu igualmente sou culpado.” Esta declaração tem um custo claro para si mesmo, porque ele remove sua capacidade de delatar quando o outro prisioneiro silencia. O outro prisioneiro, em seguida, tem a opção de repetir a declaração. Se ele não o fizer, então ele sabe que o primeiros prisioneiro tem como única opção viável delatar, mas se o fizer, então pode-se esperar que ambos os prisioneiros vão silenciar e cooperar entre si. Este é o Princípio do Handicap (Handicap Principle).

O Princípio do Handicap tem sido aplicado com sucesso em uma variada gama de fenômenos biológicos. Para dar um exemplo concreto, suponha que a presa de um animal de rapina percebe um predador a perseguindo. Ambos os animais se beneficiariam se a presa pudesse comunicar ao predador que está consciente da sua presença: o predador não iria querer caçar ainda mais se tivesse perdido o elemento surpresa, e a presa não seria caçada. No entanto, a presa poderia começar aleatoriamente “dizendo” [grifos nossos]: “Eu te vejo!” mesmo quando ela não vê o predador, apenas para dissuadir qualquer um predador que pudesse estar lá. Embora a presa possa estar mentindo, o predador não pode considerar o seu sinal como valor de face, e deve ignorá-la.6

Dentro de uma espécie, o princípio do handicap (handicap principle) explica muito sobre como os animais competem uns com os outros e interagem com seus companheiros. Por exemplo, entre os cervos, o macho com os maiores galhadas são os especimens mais fortes e melhores porque qualquer macho menor que tentar crescer galhadas maiores se arriscam seriamente ao usar mais energia e nutrientes para isso do o que eles podem dispor. Desta forma, fanfarrões de segunda categoria acabam com galhadas de segunda categoria e os de terceira acabam com galhadas de terceira categoria, e assim por diante.7

Em uma espécie social, o princípio do handicap (the handicap principle) explica muito sobre ética e altruísmo. Assim como os membros de uma espécie podem se diferenciar em força e saúde com um handicap de chifres ou galhadas, membros de uma espécie social pode usar o altruísmo como um handicap para se distinguir um do outro. Por exemplo, o princípio do handicap (the handicap principle) descreve um pássaro social chamado  Arabian Babbler que compete usando do altruísmo. As aves mais poderosas e dominantes demonstram a sua superioridade dispendendo um tempo de guarda para o resto do bando e por alimentar os filhotes dos pássaros do escalão inferior. Babblers não gostam de ser alimentados por outros Babblers de categoria semelhante, porque eles não gostam de se sentirem inferiores. O próprio Princípio do Handicap serve para descrever uma observação em que uma ave alimentou com um verme  outro pássaro apenas para ter o mesmo verme forçado diretamente de volta para sua própria garganta! 8

Proof-of-work não deve, portanto, ser visto como um sistema misterioso ou um desperdício, mas como algo funcional, natural, e potencialmente de valor para o projeto de qualquer protocolo de comunicação. Se um sistema distribuído de computadores é de propriedade de uma pessoa, ele pode assumir que todos eles vão cooperar porque ele controla o seu comportamento. Quando este não é o caso, há uma necessidade real para que os computadores diferentes provem que eles estão trabalhando para o mesmo objetivo. A universalidade do Princípio do Handicap em biologia deve ser suficiente para fazer com que um  protocolo que seja suspeito de não impor custos aos seus usuários convide ao abuso. É interessante pensar em como muitos problemas com a Internet podem ser atribuídos a uma falha em aplicar este princípio. Se proof-of-work tivesse sido entendido quando o e-mail foi inventado, nunca poderia ter havido o problema do spam. Se o protocolo da Internet exigisse proof-of-work para as solicitações do cliente, poderíamos não ter que nos preocupar com os ataques de negação de serviço (Distributed Denial of Service (DDoS) attacks).9

O sistema de proof-of-work do Bitcoin pode ser comparado a ambos: as galhadas e o altruísmo. A capacidade de gerar blocos é uma demonstração de força computacional, que é exatamente o que a rede Bitcoin precisa para auxiliar a verificar todas as transações. Mas é também uma demonstração de espírito de comunidade, porque, ao concordar em entrar numa competição pelo próximo o bloco, eles se mostram dispostos a respeitar os interesses da comunidade, em vez de manipular a cadeia de bloco para fins egoístas. Este é exatamente o tipo de coisa que deve ser esperado para manter uma comunidade coesa.

Bitmessage

Uma aplicação mais recente de proof-of-work é Bitmessage, que é um protocolo distribuídos de mensagem criptografada anônima que poderia um dia ser quase tão importante quanto o Bitcoin.10 Foi inspirado no Bitcoin, mas funciona de forma bastante diferente. Não há cadeia de blocos (blockchain) no protocolo Bitmessage porque não há necessidade de armazenar sempre todas as mensagens numa base de dados. Em vez disso, Bitmessage requer que todos que enviam uma mensagem executem algum trabalho antes que a rede a retransmita. Isso garante que cada mensagem será significativa: nenhum spammer pode se dar ao luxo de deixar seu computador funcionar por um minuto ou mais para cada mensagem que envia. Proof-of-work é essencial, pois uma rede distribuída que depende de computação doada por seus usuários não pode dar ao luxo de permitir aproveitadores. Ele está em seus estágios iniciais atualmente e ainda não foi estudado o suficiente para ser considerado seguro, mas tem um enorme potencial como uma alternativa para o e-mail.

PPCoin e Proof-of-Stake

A discussão de proof-of-work não seria completa sem uma discussão de PPCoin, a terceira mais popular cripto-moeda após Bitcoin e Litecoin.11 PPCoin também usa proof-of-work de modo a tornar a defecção não lucrativa, mas os custos são distribuídos de forma muito diferente entre os mineradores: esses mineradores que tenham porcessado um monte de PPCoin por um longo tempo sofrem muito menos  requisitos rigorosos para a produção de um bloco do que aqueles que tenham mantido alguns PPCoin e que os mantiveram por um tempo mais curto. Isto significa que as pessoas não tendem a seguir o consenso proposto pela pessoa com o computador mais poderoso, mas sim pela pessoa que tenha demonstrado o maior investimento na moeda. Mineradores são distinguidos por algo mais parecido com a antiguidade do que o poder. Quando um minerador cria um novo bloco na cadeia bloco (blockchain) do PPcoin, ele tem que negociar com algumas de suas moedas anteriores para obter os novos blocos – o que significa que todos que criam um bloco são menos capacitados para criar o próximo. Este sistema é chamado de proof-of-stake.

Proof-of-work e proof-of-stake têm diferentes custos e benefícios em diferentes circunstâncias. De acordo com o Princípio do Handicap, os custos impostos para produzir um sinal deve estar relacionada com o significado da mensagem. Um sistema de proof-of-stake demonstra o investimento na própria moeda do que um sistema de proof-of-work na rede subjacente.

Assim, se houvesse uma rede de proof-of-work e uma rede de proof-of-stake em que ambas tenham o mesmo valor de mercado, seria de se esperar, portanto, espera-se que a moeda de proof-of-work tenha uma rede maior com uma maior capacidade e mais líquidez do que a rede de proof-of-stake enquanto que a moeda de proof-of-stake teria a maior estabilidade dos preços.

O sistema de proof-of-work desencoraja os mineradores anti-sociais de manipular a cadeia de bloco (blockchain), ao tornar difícil fazer de forma consistente que a rede aceite seus blocos. O sistema de proof-of-stake, por outro lado, desencoraja mineradores anti-sociais, aceitando apenas a blocos de mineradores que têm um incentivo para garantir que o produto permanece absolutamente confiável. Em razão de o proof-of-stake estar sendo usado a medida que novos blocos são gerados, há rotatividade contínua sobre quem é capaz de minerar, e, portanto, menos incentivo para se especializar na manutenção da cadeia de bloco (blockchain).

Em seus estágios iniciais, uma rede de cripto-moeda exige um investimento de longo prazo na própria moeda, a fim de ganhar credibilidade e valor, ao passo que em uma rede maior, mais madura seria mais provável que exigisse uma especialização na infra-estrutura da rede para garantir que funcione devidamente.

Esta é uma discussão acadêmica. É contraproducente apoiar qualquer criptomoeda diferente de Bitcoin [por causa disto]. não é de se esperar que os consumidores comuns iriam escolher uma moeda em detrimento de outra por causa de detalhes técnicos obscuros que não afetam o seu uso como uma moeda. Eles serão muito mais propensos a escolher o que é mais amplamente aceito. Alguém que pensa que PPCoin é mais racional tem pouca expectativa de que PPCoin vença o Bitcoin, mas ele poderia ter uma chance de convencer a comunidade Bitcoin a adaptar um sistema de proof-of-stake em alguma versão futura do Bitcoin. Embora isto seja teoricamente possível e possa ter benefícios, os mineradores Bitcoin já tem um grande interesse  investido no sistema atual e, portanto, tendem a se opor a tal inovação.

The Proof-of-Work Concept , Daniel Krawisz, June 24, 2013