Arquivo do mês: fevereiro 2011

Leminski-ser poeta

Links com vídeos onde fala Leminski:

Perdoar e esquecer

Segundo Nietzsche, o problema do organismo não deve ser debatido entre o mecanicismo e o vitalismo. O que é que vale o vitalismo enquanto acredita descobrir a especifidade da vida nas forças reativas, aquelas mesmas que o mecanicismo interpreta diferentemente? O verdadeiro problema consiste na descoberta das forças ativas, sem as quais as próprias reações não seriam forças.

Deleuze, in Nietzsche e a filosofia

A análise nietzschiana do tipo forte e fraco é bem explicitada na figura e no esquema abaixo (retirado de um post anterior):

Charge de Quino (autor da tirinha da Mafalda)

As perspectivas dos fortes e fracos podem ser postas numa tabela:

Avaliação Fraco Forte
Técnica/Pela aptidão Ruim Bom
Moral Bom Mau

Nietzsche, o mestre da suspeita, inverte também o adágio platônico que diz que a felicidade é atingida pelos virtuosos. Inverte ao dizer que o homem feliz é virtuoso e não que o homem virtuoso é que atinge a felicidade. Uma inversão cheia de significados a partir de uma interpretação de uma troca de posição entre os objetivos, ou os anelos, e os pontos de partida. Tradutores da palavra grega “aretê”, raiz de “aristocracia”, preferem “virtude” (virtu) em vez de “excelência”. Tal preferência é carregada de um viés moral. O homem feliz é aquele que vive a vida longe do ressentimento do homem reativo. Senhor de sua plenitude de viver e escultor de si torna-se virtuoso por escolha e não por injunções externas, mas com seu espírito livre. Este é o seu mais perigoso aspecto ao olhar dos ressentidos que estão na corrida dos ratos em busca da felicidade. Essa espécie de ave de rapina que no seu voo descendente é como um destino.

As inversões são reveladoras de uma nova perspectiva, uma mudança de paralaxe na reflexão. Uma avaliação da própria forma de avaliar. Os provérbios mesmos, implicitamente sábios (às vezes de uma sabedoria popular), tornam-se como “koans” zenbudistas quando confrontados e em conjunto com suas inversões. “Dois pássaros na mão e um voando”? Ou o contrário disso? “Beber o café amargo porque doce basta a vida”? Ou o contrário? A inversão é sempre um instigante motor para um pensamento em que a paralaxe também faz parte da avaliação. Ortega Y Gasset diz que o homem não vive para conhecer, mas conhece para viver e com uma simples rotação desmorona edifícios inteiros de uma construção baseada em outros pressupostos.

A mesma coisa ocorre com a corriqueira avaliação que diz para perdoar mas não esquecer (Veja também a opinião de Shopenhauer sobre o assunto). O “perdoar” parece revelar uma magnanimidade altruísta. O “não esquecer” é assimilado, embora pareça uma nódoa, como uma mnemotécnica, uma forma sublimada do instinto biológico preventivo da repetição do sofrimento, como insignificante diante da magnanimidade do “perdoar”. Tal forma de avaliar é típica do ressentido que, na verdade, não quer esquecer que perdoou, essa sua magnanimidade, não quer que a esqueçam. Também não quer esquecer a ofensa que, daqui por diante, será a sua razão de viver, o seu remoer ressentido, o veneno que o sustentará nos seus longos períodos de inanição, o resultado da sua impotência em responder de forma saudável a uma ofensa. O próprio perdoar é, convenientemente, um bloqueio à sua ação e confina a sua vingança às perenes maquinações ressentidas e para sempre cravadas como um espinho em sua própria alma cada vez mais amesquinhada, embora sob o manto dourado da “magnanimidade” do ato de perdoar.

Já o não-ressentido, o nobre que tem no sentido da “aretê” como excelência a sua expressão, não perdoa mas esquece! Continua excelente na sua resposta imediata e oportunista já que não se estende muito além da situação causadora do agravo. Não importa se saiu vencedor no embate. E se a ofensa caracteriza-se como um denodo à sua honra e respeito de que se acha credor não há que perdoar o que nunca devia ter ocorrido. O que é uma afronta por si só é imperdoável. No entanto, de forma aparentemente contraditória, aquele que já é um homem não-reativo, esquece. Esquece a ofensa. Esquece sem esforço, naturalmente em seu espírito verdadeiramente magnânimo, porque qualquer esforço representa a memória mesma. É capaz de lembrar e separar com altivez o “joio do trigo” na galeria dos que lhe faltaram com o devido respeito sem mesmo lembrar dos detalhes da ofensa, o que reputa inútil pois não pode mais configurar seu agir. Procurando na biologia, e não na moral criada pelos homens, a sabedoria para a vida do homem não reativo acerta seu passo com aquilo mesmo que determina a vida. Como um animal saudável, que em vez de guardar a memória do que ocorreu quando a mão que o alimentava ou afagava de repente o atacou, guarda antes a identidade do dono da mão.

Características do ressentimento

Não nos devemos deixar enganar pela expressão “espírito de vingança”. O Espírito não faz da vingança uma intenção, um fim não realizado, mas, pelo contrário, fornece à vingança um meio. Não compreenderemos o ressentimento enquanto virmos aí apenas um desejo de vingança, um desejo de se revoltar e de triunfar. O ressentimento no seu princípio topológico implica um estado de forças real: o estado das forças reativas que já não se deixam agir, que se furtam à ação das forças ativas. Fornece à vingança um meio: inverter a relação normal das forças ativas e reativas. É por isso que o próprio ressentimento constitui já uma revolta, e já um triunfo dessa revolta. O ressentimento constitui o triunfo do fraco enquanto fraco, a revolta dos escravos e a sua vitória enquanto escravos. É na sua vitória que os escravos formam um tipo. O tipo senhor (tipo ativo) será definido pela faculdade de esquecer, como pelo poder de agir as reações. O tipo do escravo (tipo reativo) será definido pela prodigiosa memória, pelo poder do ressentimento; (…)

Deleuze, in Nietzsche e a filosofia

Metafísica

Retirei alguns excertos do artigo O Platão de Nietzsche e o Nietzsche de Platão, de Osvaldo Giacóia, que achei interessantes ao tratar do surgimento e da necessidade da metafísica:

com a crença na razão pura e no bem em si o Sócrates platônico dá origem ao gesto metafísico por excelência, aquele que consiste na instauratio e na consagração, como elementos matriciais do pensamento filosófico ulterior, da oposição ‘idealista’ entre sensível e supra-sensível, essa divisão fatal que põe fim ao ‘realismo’ dos antigos helenos, na medida em que implica e supõe uma desqualificação do sensível em proveito do inteligível, do temporal em função do eterno, do verdadeiro mundo em favor do mundo somente aparente, do ser em contraposição ao vir-a-ser. É a isso que Nietzsche denomina renegação e desqualificação da vida, antinatureza, fuga da realidade. (…)

O Sócrates platônico seria, então, o responsável filosófico pelo gesto seminal que, por meio da negação do mundo imanente e da vida, realiza uma espécie de inversão na perspectiva cultural que julga e avalia as relações entre o físico e o metafísico. Em Sócrates se corporifica o desenfreado otimismo especulativo, como fé inabalável na lógica e na dialética, essa hybris de uma razão pura que, guiada pelo ‘fio condutor da causalidade’ torna-se capaz de penetrar os abismos mais profundos do Ser, não somente para conhecê-los, como também para corrigi-los. (…)

Contrapondo-se à descrição por Calicles do ideal de virtude e felicidade como vida opulenta, licenciosa, desenfreada e plena de prazer, Sócrates afirma: “Mas também, com efeito, como tu o descreves, a vida é penosa. Eu, ao menos, não me admiraria se Eurípides tivesse razão quando diz: quem sabe se nossa vida não é apenas uma morte, estar morto, ao contrário, é a vida? Se nós, talvez, de fato estamos mortos? O que também já ouvi alhures, da parte de um dos sábios, a saber que nós agora estaríamos mortos e nossos corpos seriam nossos sepulcros, porém a parte da alma onde estão as inclinações seriam um permanente atrair e repelir para a frente e para trás…” (…)

o Sócrates platônico, como figuração da inversão dialética que dá origem à ‘farsa idealista do verdadeiro mundo’, do mundo metafísico como objeção ao ‘mundo real’, a este mundo. (…)

podemos ler em W. Jäger: “O Górgias desvenda ao nosso olhar uma nova valoração da vida, uma ontologia que radica no conhecimento socrático da essência da alma… Sem um tal ponto de apoio num mundo invisível, a existência do homem que vive e pensa como Sócrates perderia o equilíbrio, pelo menos se for vista pelos olhos de seres limitados ao mundo dos sentidos. A verdade da valoração socrática da vida só se podia compreender se referida a um ‘além’, tal qual o apontava a linguagem vigorosa e sensível das representações órficas da vida postmortem: uma morada onde se podia emitir um juízo definitivo acerca do valor e do desvalor, da felicidade e da ruína do Homem, onde a ‘própria alma’ era julgada pela ‘própria alma’, sem o invólucro protetor e enganoso da beleza, da posição social, da riqueza e do poder. Este ‘juízo’, que a imaginação religiosa transpõe para uma segunda vida, situada para além da morte, torna-se para Platão uma verdade superior, quando procura desenvolver até o fim o conceito socrático da personalidade humana como um valor puramente interior, baseado em si próprio”. (…)

No fundamental, o gesto metafísico do Sócrates platônico importaria em renegar o que é terrível, sombrio, trágico, na existência, enquanto a reversão de Nietzsche procuraria se apropriar e sublimar o caos incandescente dos mais temíveis abismos da alma humana: “admitir muitos estímulos e deixá-los atuar profundamente, muito deixar-se arrastar de lado, quase até o perder-se, sofrer muito e – apesar disso – impor sua direção geral” (Fr. póstumo do verão de 1883, VII 7 (253)); grandeza, fortaleza significa, em última instância, elasticidade, graça, força plástica. Essa a objeção fatal de Zaratustra aos homens sublimes: seu pesado esforço de auto-superação ainda não foi suprassumido na leveza da graça e da beleza: “Hoje vi um sublime, um solene, um penitente do espírito: Oh! Como se riu minha alma de sua feiúra! Guarnecido de feias verdades, seu botim de caça, e com muitos vestidos rotos; também muitos espinhos pendiam dele – mas não vi nenhuma rosa. Ele retornou do combate com animais selvagens: mas, de dentro de sua seriedade, fita-me ainda um animal selvagem, não superado. Domou monstros, resolveu enigmas: mas ainda deveria redimir seus próprios monstros e seus próprios enigmas, em filhos celestes deveria ainda transformá-los. Seu conhecimento não aprendeu, todavia, a sorrir e a não ser ciumento; ainda não se tornou tranqüila na beleza sua caudalosa paixão. Em verdade, não na saciedade deveria calar e submergir sua ânsia: mas na beleza! A graça forma parte da magnanimidade dos magnânimos. Mas cabalmente para o herói o belo lhe resulta, de todas as coisas, a mais difícil. Inconquistável é o belo para toda vontade violenta” (Za/ZA II Dos sublimes). (…)

E arrematando com Fernando Pessoa, através de seu heterônimo Alberto Caieiro:

Há metafísica bastante em não pensar em nada.
O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.
Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?

Não sei.
Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol

E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos

De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa. Metafísica?

Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

“Constituição íntima das cousas”…
“Sentido íntimo do Universo”…

Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.
Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!
(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

Fontes: