Arquivo do mês: outubro 2013

Curta Cinema 2013 de 1 a 7 de novembro

A cena para o curta-metragem brasileiro nunca esteve tão vibrante, nunca foi tão positiva e diversificada.

Há uma variada produção, e a classificação por gênero não se faz mais categórica e divisória no estilo de cada filme. Além disso, o curta não está mais restrito a ter seu reconhecimento na exibição em sala de cinema. As plataformas de exibição se tornaram múltiplas e inusitadas. O formato tanto é apreciado em uma sala escura como em galerias de arte, celular, televisão fechada, internet e até mesmo em fachadas de prédios ou monumentos. O curta é um formato libertário que vive em constante reinvenção.

Esta efervescência mostra a importância do curta na cadeia produtiva e criativa do audiovisual. O Curta Cinema sempre cumpriu seu papel de acompanhar e difundir o formato, reinventando formas, propostas, na intenção de explicitar a importância e o potencial de comunicação do curta-metragem. Um potencial que não deve ser subestimado. (…)

Fonte: http://curtacinema.com.br/2013/

Petição: Contra a cobrança do IPVA para embarcações

A Proposta de Emenda à Constituição (PEC 140/2012) que trata da cobrança de impostos para veículos aéreos e aquáticos apresentada pelo Deputado Assis Carvalho (PT do Piauí) encontra-se em tramitação e aguardando a criação de uma comissão na Mesa Diretora da Câmara dos Deputados. Na esteira das decisões políticas visando a aumento da arrecadação de impostos, ela pretende alterar a Constituição Federal para permitir aos estados a cobrança do IPVA sobre aviões e embarcações.

A matéria já foi objeto de discussão no STF em maio de 2002. Na época, a tentativa de impor o tributo era a mesma, mas sem a alteração constitucional e o Supremo vetou porque o IPVA (imposto sobre veículos automotores) é um sucessor da antiga TRU (Taxa rodoviária Urbana) e voltada apenas para veículos automotores terrestres. Agora, entretanto, com a tentativa de mudança da Constituição a manobra política poderá tornar a cobrança viável. O tema, que vem sendo defendido por alguns como sendo de “interesse popular” na verdade revela a ignorância sobre o uso dos veleiros. Sendo o IPVA um imposto para “veículos automotores”, jamais poderia incidir sobre um veleiro, movido eminentemente por vento. Num veleiro, o motor é apenas auxiliar em manobras quando da atracação/desatracação ou em emergências causadas pela falta de vento. Não é cabível mais um imposto sobre as embarcações produzidas no Brasil, que já tem uma carga tributária elevada e tem acarretado prejuízo junto a estaleiros, navegadores, trabalhadores das pequenas empresas e, por consequência, beneficiando a industria estrangeira e as importações.

Fonte: Avaaz

Low-Carb e Paleolítica | Documentário australiano legendado – parte 1 – espetacular!

A excelente Maryanne Demasi, jornalista e PhD em medicina, conseguiu inclusive colocar a Associação Australiana do Coração em uma saia justa, quando exigiu que os mesmos fornecessem as evidências que embasam suas recomendações de cortar a gordura, e eles não conseguiram.

Fonte: Low-Carb e Paleolítica

Atenção! Para ver com legendas siga o link imediatamente acima.

Vídeo Tour: Aruba

Adicione suas ideias aqui… (opcional)

Curtindo O Mundo

Aruba é um território autônomo holandês do Caribe, ao largo da costa da Venezuela. Além da Venezuela, os seus vizinhos mais próximos são Curaçao, São Martinho e a Península de La Guajira (Colômbia). Capital: Oranjestad. É um país integrante do Reino dos Países Baixos (Holanda).

Descoberta e ocupada em 1499 por exploradores espanhóis e adquirida pelos Países Baixos em 1636.  A maioria da população é descendente de europeus e indígenas caribenhos. Houve também imigração de países latino-americanos e norte-americanos. Sendo a religião católica, a predominante.

Os idiomas são: o holandês e o papiamento, as línguas oficiais. Mas a população costuma utilizar predominantemente o papiamento, que é uma língua derivada do português (que era falado pelos judeus e escravos vindos do nordeste brasileiro e das colônias portuguesas na África e que constitui sessenta por cento do seu léxico), com influência do castelhano, do inglês, do neerlandês e de línguas africanas.

Fonte: wikipedia

Ver o post original

Low-Carb e Paleolítica | Consequências não antecipadas e incentivos perversos

Em sistemas simples, com poucas e isoladas variáveis, é possível manipular tais variáveis com consequências previsíveis. Mas, à medida que os sistemas crescem em complexidade, a noção de que seja possível controlar os efeitos manipulando-se variáveis torna-se ingênua, quando não perigosa.

Na física isto é estudado pela teoria do caos. O exemplo clássico é o clima, no qual o número de variáveis é incontável, e pequenas perturbações iniciais podem desencadear efeitos imprevisíveis.
Mas é na economia que encontramos o conceito mais fascinante para analisarmos o impacto de condutas em saúde pública: a Lei das Consequências Não-Antecipadas.
A lei das consequências não antecipadas (ou não pretendidas) indica que, em um sistema altamente complexo, como o corpo humano, um sistema ecológico ou uma sociedade, intervenções levadas a cabo com um objetivo em mente, frequentemente produzirão desfechos completamente diferentes dos que se pretendia. Para se obter os desfecho necessário, frequentemente usam-se incentivos. Em economia, incentivos que levam à consequências não antecipadas desastrosas são denominados incentivos perversos.
(…) O fenômeno que vivemos hoje, esta epidemia sem precedentes de síndrome metabólica, diabetes e obesidade, é uma consequência não-antecipada de uma intervenção que tinha a melhor das intenções – a orientação de cortar a gordura da dieta.

Meditações do Quixote, Ortega Y Gasset

Recentemente descobri que este livro que estava procurando estava no estoque da Livraria Cultura. Comprei imediatamente. É o primeiro livro de Gasset e onde ele inicia a sua filosofia em torno do conceito da cirscunstância.

Já tinha lido dele A rebelião das massas e gostado muito. Veja meu outro post sobre ele.

Quando brinco com a minha gata, como sei que ela não está brincando comigo?

Outro dia estava na Travessa inspecionando alguns livros de Marshall Sahlins quando vi uma vendedora indicando o livro “Quando brinco com a minha gata, como sei que ela não está brincando comigo?” de Saul Frampton para um outro vendedor. Aquilo acendeu uma lembrança na minha mente. Eu achei que aquele livro estava na minha lista de desejos. Um pouco esquecido. Então resolvi aproveitar a coincidência e comprá-lo. Principalmente porque era uma biografia de Montaigne, elogiado por Nietzsche, que não elogiava ninguém, que numa frase, que é uma magnífica apologia, escreveu “O fato de esse homem ter escrito realmente aumentou a alegria de viver nesta terra… Se me fosse dada a tarefa, eu poderia me esforçar para ficar à vontade no mundo como ele”.

capa-montaigne-abril-cultural Como também estava esperando para ser lido em sua completude  o “Ensaios” de Montaigne da minha coleção Os Pensadores (pela Abril Cultural) resolvi lê-lo em paralelo à biografia. Estou adorando tanto a biografia como o livro. A honestidade intelectual de Montaigne é exemplar. O ensaio que cito a seguir é espécie de lição de vida e que, apesar de alguma componente estóica, está impregnada de uma nova concepção. Vejo neste texto talvez uma influência para o “amor fati” de Nietzsche. O estilo de Montaigne importa alguma paciência do leitor para vencer a leitura dos exemplos na parte inicial, as vezes datados historicamente e, talvez, com poucos atrativos para um leitor moderno, e depois beber na esplêndida conclusão no final do ensaio.

O bem e o mal só o são , as mais das vezes, pela idéia que deles temos

Os homens, diz antigo ditado grego, atormentam-se com a idéia que têm das coisas e não com as coisas em si. Seria grande passo, em alivio da nossa miserável condição, se se provasse que isso é uma verdade absoluta. Pois se o mal só tem acesso em nós porque julgamos que o seja, parece que estaria em nosso poder, ou não o levarmos a sério ou o colocarmos a nosso serviço. Se tal coisa depende de nós, por que não a resolveremos, liquidando-a ou tirando vantagem dela? Se aquilo a que chamamos mal não é nem mal nem tormento, e se somente nossa fantasia lhe atribui tal qualidade, podemos modificá-lo. E, em o podendo, é absurdo de nossa parte, e sem que nada nos obrigue, apegarmo-nos à solução mais aborrecida. E por que atribuir à doença, à indigência, ao desprezo um gosto ácido e mau se o podemos modificar? Pois o destino apenas suscita o incidente; a nós é que cabe determinar a qualidade de seus efeitos. Vejamos portanto se é possível afirmar com autoridade que aquilo a que chamamos mal não o é em si, ou, o que dá na mesma, se ainda que o seja depende de nós mudar-lhe a aparência e as conseqüências. Se as coisas que tememos tivessem um caráter próprio, a todos se imporiam de igual maneira, produzindo idênticas conseqüências. Todos os homens são, efetivamente, da mesma espécie e, com pequenas diferenças, providos de órgãos semelhantes, instrumentos de concepção e julgamento. A diversidade de opiniões acerca das coisas mostra claramente que atuam sobre nós segundo um dado estado de espírito. Quando um que seja as admita como são realmente, mil outros as deformam e modificam. Encaramos a morte, a pobreza e a do como nossos piores inimigos. Ora, essa morte que alguns consideram “a mais horrível entre as coisas horríveis” outros a julgam “o único refúgio contra os tormentos da vida — maior benefício que nos deu a natureza — a única garantia de nossa liberdade — o único amparo imediato e comum a todos contra os males”. Aguardam-na alguns a tremerem de medo; outros, preferem-na à vida. E não faltá até quem a considere demasiado acessível:

“Mors! utinam pavidos vitae subducere nolles. Sed virtus to sola daret!”
”Ó morte, quisessem os deuses que desdenhasses os poltrões e que somente a virtude merecesse tua preferência” [Lucano].

Mas não nos ocupemos com tão gloriosas coragens. Teodoro respondeu a Lisímaco que ameaçava matá-lo: — “Farás uma bela coisa, à semelhança do que pode fazer a cantárida.” Em sua maioria os filósofos propositadamente se adiantaram à chegada da morte, ou se apressaram, ajudando-a. Quanta gente do povo nos é dado ver que, ao ser conduzida para a morte, e não simplesmente para a morte mas para a morte ignominiosa, acompanhada às vezes de cruéis suplícios, demonstra grande firmeza de ânimo, ou por ostentação ou naturalmente, a ponto que se diria nada ter mudado em sua vida? Tais indivíduos resolvem seus problemas domésticos, fazem recomendações aos amigos, cantam, dirigem exortações à multidão, não desdenhando, não raro, a piada. E bebem à saúde de seus conhecidos com coragem idêntica à de Sócrates. Um deles, que conduziam à forca, pediu que “evitassem de passar por tal rua porquanto corria o risco de encontrar certo negociante a quem devia um dinheirinho e receava ser preso”. Outro disse ao carrasco que não lhe bulisse no pescoço, pois era muito coceguento e poderia ter um acesso de riso. Outro respondeu ao confessor que lhe afirmava cearia à noite com Nosso Senhor: — Vá em meu lugar, hoje estou de jejum. — Outro, que pedira para beber, vendo o carrasco fazê-lo antes, no mesmo recipiente, recusou “com medo da sífilis”. Conhecem todos a história daquele picardo a quem, quando subia a escada para a forca, apresentaram uma mulher prometendo- lhe mercê se com ela casasse. Ele a examinou um instante, e voltando-se para o carrasco exclamou: “cumpre o teu dever, é coxa”. Contam que na Dinamarca igual ocorrência se verificou. A um condenado à decapitação fizeram idêntica proposta e ele a recusou porque a moça tinha as bochechas caídas e o nariz muito pontudo. Em Tolosa, um lacaio, acusado de heresia, dava como única razão de sua crença a palavra de seu patrão, jovem clérigo, como ele preso. Pois preferiu a morte a deixar-se persuadir do erro de seu senhor. E relatam as crônicas que em Arrás, ao se apoderar Luís XI da cidade, muita gente do povo se entregou à prisão para não gritar “Viva o rei”. Entre os bufões, seres assaz desprezíveis, ‘houve quem conservasse até o último instante’ o espírito jocoso. Um deles, condenado à forca, no momento em que o carrasco o empurrava no vácuo, exclamou: Viva o prazer! o que era seu refrão habitual. Outro, a ponto de morrer, fora estendido sobre uma esteira junto à lareira e lhe perguntou o médico onde lhe doía: — Entre a cama e a chama, respondeu. [O trocadilho “Entre le banc” (leito superior, céu) “et /e feu” (fogo da lareira, inferno) é intraduzível. (N. do T.)] E ao padre que, para ministrar- lhe a extrema-unção, lhe procurava os pés encolhidos e crispados pela enfermidade, observou: vós os achareis na ponta de minhas pernas. E exortando-o um dos presentes a recomendar-se a Deus: Vai alguém vê-lo hoje? Ao que o outro retorquiu: Tu mesmo, e dentro em breve, se Lhe aprouver. — Não poderá ser amanhã à noite? Amanhã ou outro qualquer momento pouco importa; não de., muito, por isso trata de te recomendares a Ele. — Então é melhor que eu mesmo apresente  as recomendações. No reino de Narsinghpur as mulheres dos sacerdotes são ainda hoje enterradas vivas com os corpos de seus maridos; as outras mulheres que não pertencem à mesma casta são queimadas vivas nos funerais de seus esposos e todas suportam a sorte não somente com firmeza de ânimo, mas também com alegria. À morte do rei, suas mulheres, suas concubinas, seus favoritos, seus oficiais e servidores apresentam-se com fervor à fogueira em que arde o seu senhor e na qual vão precipitar-se, considerando grande honra acompanhá-lo ao outro mundo. Durante nossas últimas guerras na região milanesa, foi Milão tantas vezes tomada e retomada que o povo, impacientado com essas mudanças repetidas de destino, adquiriu tal indiferença ante a morte, que meu pai — de quem eu o ouvi — contou que, de uma feita, em uma só semana, vinte e cinco chefes de família se suicidaram. Esse fato lembra o que ocorreu no sítio de Xanthe a Bruto. Os habitantes, homens, mulheres e crianças, precipitaram-se em massa ao encontro da morte e com tal desejo de perder a vida, que mais não se teria feito para salvá-la. E foi somente com penosos esforços que pôde Bruto poupar alguns. Qualquer idéia pode apoderar-se de nós com força bastante para que a sustentemos até a morte. O primeiro artigo do juramento, tão impregnado de coragem, que fizeram os gregos durante as guerras médicas, determinava que todos se comprometessem antes a morrer do que a se sujeitar à dominação dos persas. E quantos na guerra entre turcos e gregos preferiram a morte cruel a renunciar a circuncisão e a aceitar o batismo? E de atos semelhantes há exemplos em todas as religiões. Tendo os reis de Castela banido os judeus de suas terras, vendeu-lhes o Rei João de Portugal, à razão de oito escudos por cabeça, a faculdade de se refugiarem em seu reino durante determinado tempo, ao fim do qual deviam partir. Para tanto se comprometia a fornecer- lhes navios que os transportassem à África. Vencido o prazo, após o qual os que não deixassem o território seriam reduzidos à escravidão, verificou-se haver número escasso de embarcações. Os que puderam embarcar, rudemente maltratados pelas equipagens, sofreram mil e urna indignidades; e andaram a navegar de um lado para outro até que, esgotadas as provisões, se vissem constrangidos a comprá-las, e muito caro, dos que os transportavam, a ponto de, em se prolongando tal estado de coisas, chegarem a desembarcar com apenas a camisa do corpo. Ao se informarem desse tratamento inumano, os que haviam ficado em Portugal conformaram-se com a servidão. Alguns fingiram mesmo mudar de credo. O Rei Manuel, sucessor de João, em subindo ao trono, devolveu-lhes inicialmente a liberdade. Mais tarde, mudando de opinião, ordenou-lhes que saíssem do reino e lhes assinou três portos de embarque. Diz o Bispo Osório, historiador latino digno de fé em nossa época e que escreveu a crônica daqueles tempos, que, em não os tendo convertido a liberdade, esperava o rei se decidissem ante tais condições, a fim de se livrarem do saque dos marinheiros a que deviam ser entregues, ou ainda para não trocarem uma terra, a que se haviam acostumado e na qual possuíam grandes riquezas, por qualquer região estrangeira deles desconhecida. Vendo-os resolvidos a partir e assim perdidas suas esperanças, o rei suprimiu dois dos portos autorizados, ou porque esperasse que um percurso maior e os maiores incômodos disso resultantes atemorizassem certo número, ou porque em os reunindo todos em um só local teria maiores facilidades na execução do projeto concebido de separá-los dos filhos menores de catorze anos, os quais, longe dos pais, se educariam segundo a nossa religião. Osório acrescenta que a execução dessa medida teve conseqüências horríveis. A afeição natural pelos filhos juntando-se ao apego à própria fé (de encontro ao que se chocava a bárbara ordem) fez que numerosos pais e mães se destruíssem a si próprios e, espetáculo mais horroroso ainda, por amor e compaixão, jogassem os filhos em poços a fim de subtraí-los à violência imposta. Finalmente, esgotado o prazo para a partida, e dada a falta de meios de transporte, retornaram os judeus à servidão. Alguns se tornaram cristãos, mas ainda hoje, cem anos passados, poucos portugueses estão convencidos da sinceridade de sua fé, bem como dos demais de sua raça, muito embora o hábito e o tempo, mais do que a coerção, sejam os fatores de maior influência nas mudanças de tal natureza. Em Castelnaudary, cinqüenta albigenses, acusados de heresia, recusaram-se a renegar sua crença e foram queimados vivos, todos juntos, suportando o suplício com uma coragem admirável:

“Quoties non modo ductores nostri, sed universi etiam Exercitus, ad non dubiam mortem concurrerunt?”
”Quantas vezes não vimos enfrentarem a morte certa não somente nossos generais mas também nossos exércitos inteiros?” [Cícero].

Vi um de meus amigos íntimos desejar a morte à força. Absolutamente imbuído dessa idéia, que ele próprio enraizara em si através de uma argumentação especiosa contra a qual nada pude, valeu-se com ardor febril da primeira oportunidade honrosa que se lhe ofereceu para pô-la em prática sem que o percebessem. Temos vários exemplos de pessoas, inclusive crianças, que em nossa época se suicidaram para abreviar a incômodos de nonada. A esse propósito não nos diz um autor antigo: “Que não havemos de temer, se receamos o que a própria covardia escolhe como refúgio? [Montaigne não nomeia o autor, mas trata-se de Sêneca]”  Não acabaria mais se aqui enumerasse todos os indivíduos de sexos, condições e seitas diferentes que, em tempos mais felizes, aguardaram a morte com resolução, ou a procuraram voluntariamente, e a procuraram não somente para pôr fim aos males desta vida como também, alguns, por andarem fartos dela ou porque esperavam vida melhor no outro mundo. São em número infinito, e mais cômodo me parece suputar aquelas para quem a morte foi motivo de temor. Um exemplo basta: estando o filósofo Pirro em um navio, presa de violenta tempestade, aos que maior pavor evidenciavam mostrava ele um porco indiferente ao temporal, e os instava a tomá-lo como exemplo. Ousaremos pois sustentar que a razão, essa faculdade de que tanto nos orgulhamos, e em virtude da qual nos consideramos donos e senhores dos demais seres, nos foi dada para objeto de tormento? De que nos serve entender as coisas se com isso nos tornamos mais covardes, se esse conhecimento nos tira o repouso e a tranqüilidade de que gozaríamos sem ele, se nos reduz a condição pior que a do porco de Pirro? Para nosso maior bem é que fomos dotados de inteligência; por que fazê-la voltar-se contra nós, contrariamente aos desígnios da natureza e à ordem universal que querem que cada um use suas faculdades e seus meios de ação da maneira mais conveniente à sua comodidade? Admitamos, direis, que tendes razão no que concerne à morte, mas que pensais da indigência? E da dor, que Aristipo, Jerônimo e a maioria dos sábios consideraram o maior dos males, isso com que concordam, na realidade, mesmo os que o negam em suas palavras? Sofrendo Possidônio aguda crise de dolorosa enfermidade, recebeu a visita de Pompeu, o qual se desculpou de haver escolhido tão mau momento para ouvi-lo divagar sobre filosofia: “Não permita Deus”, disse o filósofo, “que me domine a dor a ponto de me impedir de dissertar”, e pós-se a falar precisamente acerca da atitude de desprezo a ser assumida diante da dor. Enquanto discorria, ia entretanto aumentando o sofrimento: “Por mais que me castigues, ó dor, jamais convirei em que és um mal.” Que prova esta história de que se prevalecem os filósofos para discursar acerca do desprezo que devemos votar à dor? É questão de palavras. Se não se comovia com as alfinetadas da dor, por que interrompeu seu discurso? Por que pensava fazer ato meritório em não a chamando um mal? Não se trata aqui simplesmente de imaginação. Podemos opinar com conhecimento de causa, porquanto são nossos próprios sentidos os juízes:

“Qui nisi sunt veri, ratio quoque falsa sit omnis.”
”Se nos enganam, a razão igualmente nos engana” [Lucrécio]

Poderemos forçar nossa carne a admitir que chicotadas sejam cócegas? E nosso paladar a apreciar a babosa como um vinho Graves”? [Bordéus branco] O porco de Pirro entra aqui em apoio de nossa tese: não se apavora ante a morte iminente; mas se o batermos, gritará. Negaremos a lei geral da natureza, que se manifesta em tudo o que, sob a abóbada celeste, tem vida e treme ao golpe da dor? Até as árvores parecem gemer quando as mutilamos! Só sentimos a morte pelo pensamento, tanto mais quanto é coisa de um instante:

“Aut fuit, aut veniet; nihil est praesentis in illa.”
”Ou a morte foi, ou será; nada é presente nela” [La Boétie].

  ou

“Morsque minus poenae, quam mora mortis, habet”
“A morte é menos cruel do que sua espera” [Ovídio].

Milhares de homens, milhares de animais morrem sem se sentirem ameaçados. Dizemos também que o que tememos principalmente na morte é a dor, seu sinal precursor. Entretanto, a julgar por um Pai da Igreja:

“Malam mortem non facit, nisi quod sequitur mortem.”
”A morte não é um mal senão pelo que vem depois” [Santo Agostinho].

 Creio estar mais perto da verdade dizendo que nem o que a precede, nem o que a ela se segue são partes integrantes da morte. Falamos erroneamente a esse respeito. A experiência mostra que é antes a inquietação causada pelo sentimento da morte que faz com que lhe sintamos vivamente a dor, e nossos sofrimentos nos são penosos quando os pressentimos capazes de nos conduzir a tal fim. Mas o raciocínio enche-nos de vergonha por temermos coisa tão repentina, inevitável e que não se sente; e mascaramos nossa covardia com os pretextos mais plausíveis. Os males que, como conseqüência, só nos trazem sofrimento, nós os consideramos sem perigo. Quem encara como doença as dores de dentes, a gota, por dolorosas que sejam, se não nos ameaçam a vida? [Há confusão de Montaigne quanto à gota, que pode ser mortal] Admitamos um momento que na morte principalmente a dor nos preocupe. Não é também a dor que se nos apresenta no caso da pobreza, e no-la torna sensível pela sede, o frio, o calor, as vigílias? Ocupemo-nos pois unicamente com ela. Admito seja o pior acidente que nos possa acontecer, e isso tanto mais quanto sou o homem no mundo que lher quer mais mal, e a evito quanto posso embora graças a Deus, não tenha tido por enquanto muita intimidade com ela. Mas está em nós, senão aniquilá-la, ao menos diminui-la em nos mostrando pacientes e em livrando dela nossa alma e nossa inteligência, ainda mesmo que mantenha em suas garras o nosso corpo. Se assim não fosse, que valor teriam a valentia, a força, a magnanimidade, a firmeza de ânimo? Que papel desempenhariam se não pudéssemos desafiar a dor?

“A vida est periculi virtus.”
”A virtude é ávida de perigos” [Sêneca].

 Se não devêssemos dormir ao deus-dará, agüentar dentro da armadura o calor do meio-dia, comer carne de cavalo e asno, ser cortado em pedaços, deixar extraírem urna bala da nossa carne, sofrer quando nos recosem ou nos cauterizam, ou nos colocam sondas, como adquiriríamos nossa superioridade sobre o homem comum? E não nos convidam os sábios a evitar o mal e a dor, quando nos dizem que entre muitas ações igualmente boas cabe-nos desejar cumprir a que maiores dificuldades apresenta em sua execução?

“Non est enim hilaritate, nec lascivia, nec risu, aut joco comite Levitatis, sed saepe etiam tristes firmitate et constantia sunt beati.”
”Não é pela alegria e pelos prazeres, nem pelos divertimentos e pelo riso, companheiros habituais da frivolidade, que nos tornamos felizes; nós o somos também amiúde na tristeza, pela decisão e pela perseverança” [Cícero].

 Eis por que nossos pais nunca compreenderam que as conquistas feitas pela força e correndo os riscos da guerra fossem mais vantajosas do que as obtidas sem perigo pela inteligência e pela diplomacia:

“Laetius est, quoties magno sibi constat honestum.”
”A virtude é tanto mais doce quanto mais nos custa” [Lucano].

 Há mais, e isso nos deve consolar: é que, naturalmente,

“Si gravis, brevis;
Si longus, levis.”
”Quando a dor é violenta, dura pouco; e quando se prolonga, é leve” [Cícero].

Não a sentimos muito tempo se é excessiva; ou deixará de sê-lo ou porá fim à nossa existência, o que dá na mesma. Se não a podemos suportar ela nos destrói: “Lembra-te de que as grandes dores terminam com a morte; de que as pequenas nos deixam numerosos intervalos de repouso e de que somos capazes de dominar as de intensidade média. Enquanto são suportáveis, suportemo-las com paciência; se não o são, se a vida nos aborrece, saiamos dela como de um teatro[Cícero]” O que faz que tão impacientemente suportemos a dor é que não estamos habituados a procurar em nossa alma nossa principal satisfação; não contamos suficientemente com ela, que é a única e soberana senhora de nossa condição neste mundo. O corpo só tem (salvo quanto ao mais e ao menos) uma maneira de ser e de fazer; a alma, sob formas diversas e variadas e segundo o estado em que se acha, submete a si as sensações do corpo e outros acidentes. Daí a necessidade de estudá-la, e acordar nela seus meios de ação que são todo-poderosos. Não há raciocínio, nem prescrição, nem força que possam prevalecer contra suas preferências. Entre tantos milhares de meios à nossa disposição, escolhamos um que assegure nosso sossego e nossa conservação e estaremos não somente resguardados contra qualquer insulto, como também ofensas e males redundarão, se nos aprouver, em vantagens para nós. E talvez até nos regozijemos com eles. A alma tira partido de tudo indiferentemente: erro e sonho servem-lhe tanto, quanto a realidade, para nos proteger e satisfazer. É fácil verificar que nosso estado de espírito é que excita em nós a dor e a volúpia; nos animais, sobre os quais o espírito não atua, as sensações físicas manifestam-se naturalmente, tal qual são sentidas, e são por conseguinte mais ou menos uniformes em cada espécie, como se constata pela similitude das reações. Se não interviéssemos no comportamento de nossos membros, por certo nos sentiríamos melhor, pois sem dúvida lhes deu a natureza reações justas e moderadas em relação à dor; e não poderiam deixar de ser justas, porquanto em todos seriam idênticas. Mas como nos emancipamos de seus ditames, e nos entregamos à mais anárquica fantasia, procuremos ao menos orientar-nos no sentido que nos seja mais agradável. Platão receia que atentemos demasiado para a dor e a volúpia, o que, a seu ver, tornaria a alma dependente em excesso do corpo. Acredito antes que a desligam deste e a libertam. Assim como a fuga torna o inimigo mais encarniçado na perseguição, orgulha-se a dor de nos fazer tremer. Em relação a quem a enfrenta ela se mostra mais cordata; resistamos, pois, e contenhamo-la. Batendo em retirada, deixando que nos acue, provocamos e chamamos a nós a ruína que nos ameaça. Em se retesando, o corpo suporta melhor a carga; assim também a alma. Mas, passemos aos exemplos de interesse particular para as pessoas que como eu sofrem dos rins. Veremos que ocorre com a dor o mesmo que com os cristais que se coloram de acordo com o fundo em que repousam; e que ela só ocupa em nós o lugar que lhe damos:

“Tantum doluerunt, quantum doloribus se inseruerunt.”
”Quanto mais eles se entregam à dor, tanto mais ela os domina” [Santo Agostinho].

Sentimos mais agudamente um golpe de bisturi dado pelo médico do que dez estocadas no calor da luta. As dores do parto, que os médicos, e também Deus, estimam grandes e que cercamos de tantos cuidados, não lhes dão atenção certos povos. Deixo de lado as mulheres de Esparta, mas entre as suíças, na nossa criadagem, não se percebe que pariram, a não ser por andarem, ao depois, atrás de seus maridos com a criança ao pescoço, que antes carregavam no ventre. E essas ciganas feias que surgem por vezes em nossa terra lavam seus filhos recém-nascidos no riacho em que se banham ao mesmo tempo. Sem falar de tantas raparigas que dão à luz diariamente, e clandestinamente, crianças também concebidas às escondidas. Mas a nobre e bela esposa de Sabino, patrício romano, a fim de não comprometer a outrem, suportou sozinha e sem gemido as dores do parto de dois gêmeos. Um jovem de Lacedemônia, que roubou uma raposa e a escondeu sob o manto, deixou que ela lhe rasgasse o ventre para não confessar a tolice, porque temia mais a vergonha que nós a punição. Outro, ao apresentar o incenso, deixa se queimar por uma brasa caída em sua manga, a fim de não perturbar a cerimônia. E não se mencionam numerosos casos de crianças de sete anos que nos sacrifícios da iniciação, entre os lacedemônios, suportavam, sem chorar e até morrerem, a flagelação? Cícero viu-os baterem-se em grupos, de unhas e dentes, até perderem os sentidos para não se confessarem vencidos: ”Jamais os costumes vencerão a natureza, que é invencível; mas a moleza, os prazeres, o ócio, a indolência alteram nossa alma; as falsas opiniões e os maus hábitos corrompem-na” [Cícero].

Todos conhecem a história de Scevola que, tendo-se introduzido no acampamento inimigo para matar o chefe, não o conseguiu e, desejoso de atingir de qualquer maneira seu objetivo de libertar a pátria, teve uma idéia estranha. Confessando seu projeto a Porsena, o rei visado, acrescentou, a fim de assustá-lo, que no campo romano havia muitos como ele próprio decididos a tentar o golpe que falhara. E para mostrar que espécie de homem era ele, aproximou-se de um braseiro, estendendo o braço e assim o manteve a grelhar e sem demonstrar sofrimento até que o monarca inimigo, horrorizado, mandasse afastar o braseiro. E que dizer daquele que não interrompeu a leitura enquanto lhe amputavam um membro? E do outro que persistiu em motejarme rir-se das torturas, a ponto de se exasperarem os carrascos e se confessarem vencidos após os mais cruéis suplícios inventados para dominá-lo? É verdade que era filósofo! Um gladiador de César não cessou de gracejar enquanto lhe abriam os ferimentos e os sondavam: ”Já se viu um gladiador, por ínfimo que seja, gemer ou mudar de fisionomia? Que arte não põe ele em sua própria queda para esconder tal vergonha aos olhos do público! Derrubado afinal pelo adversário e condenado pelo povo, virou jamais a cabeça ao receber o golpe de misericórdia?” [Cícero].

Passemos às mulheres. Quem não ouviu falar daquela que, em Paris, mandou que a esfolassem na esperança de obter uma pele mais suave? Há quem arranque dentes sadios e viçosos para que a voz se torne mais doce ou para que eles tenham mais bela aparência. Quantos exemplos de desprezo à dor não temos nós desse gênero? São capazes de tudo e nada temem por pouco que sua beleza se beneficie:

“Vallere queis cura est albos a stirpe capillos, Et faciem, dempta pelle, referre novam.”

”Existe quem mande arrancar os cabelos brancos e se raspe para obter pele nova” [Tibulo].

Vi quem engolisse areia, e cinza, e sacrificasse o estômago a fim de conseguir uma tez pálida. Para ter o porte fino e elegante das espanholas, a quantas torturas se sujeitam, afetadas, arrochadas, entaladas até se ferirem e por vezes morrerem!

Entre muitos povos de nossa época acontece comumente que, para provar a veracidade de suas palavras, se inflijam voluntariamente castigos. Nosso rei cita casos vistos na Polônia, verificados como comprovantes de declarações que lhe foram feitas. Em França, afora casos semelhantes de imitação, vi na Picardia, pouco antes de voltar dessas famosas reuniões de Blois, uma moça que, para demonstrar a sinceridade de suas promessas, e sua fidelidade, espetou o braço cinco vezes com um estilete que trazia aos cabelos, sangrando abundantemente. Os turcos dão-se grandes cutiladas em honra de suas damas, e a fim de que não se apaguem queimam as chagas longamente, não só para sustar o sangue mas também para que se formem cicatrizes. Isso me foi dito e jurado por pessoas que o presenciaram. Nesse mesmo país vêem-se todos os dias indivíduos que, por algumas moedas, talham profundamente o braço ou a coxa. Agrada-me que abundem os testemunhos das coisas que importa estabelecer, e nesse ponto o cristianismo nos fornece provas concludentes. Depois de nosso divino Guia, quantos quiseram, como ele e por devoção, carregar a cruz! Testemunhas dignas de fé informam-me de que São Luís usou cilício até o momento em que, na velhice, o proibiu seu confessor. E todas as sextas-feiras fazia-se açoitar por um padre, com um açoite de cinco ferros que para tal trazia sempre consigo entre seus apetrechos domésticos.

O último Duque de Guyenne, Guilherme, pai de Eleonora, que trouxe para a casa de França esse ducado, usou constantemente, como penitência e durante dez ou doze anos, uma couraça sob o hábito religioso. Foulques, Conde de Anjou, foi até Jerusalém com uma corda ao pescoço, para aí se fazer açoitar diante do túmulo do Senhor. E não se vêem todos os anos, na sexta-feira santa, homens e mulheres aos magotes flagelarem-se reciprocamente até se rasgarem a pele e porem a nu os ossos, espetáculo de que fui não raro testemunha e não me seduziu jamais? Tais pessoas usam máscaras e algumas há que o fazem por dinheiro para garantir a salvação de outrem. Demonstram um desprezo à dor tanto maior quanto a avareza é um estimulante menos forte do que o fanatismo.

C. Maximus enterrou o filho, personagem consular; Catão o seu, pretor nomeado; L. Paulus os dois que tinha, a poucos dias de intervalo, e seus rostos não refletiram a menor emoção, nada revelou-lhes a tristeza. De uma feita disse eu de alguém, gracejando, que frustrara a justiça divina: por um cruel destino, perdera no mesmo dia, de morte violenta, três filhos já grandes; pouco faltou para que considerasse o acidente como um favor e um benefício particular da Providência. Não aprecio esses sentimentos antinaturais: perdi dois ou três filhos, em verdade ainda de peito. Conquanto eu não tenha morrido de dor, não deixou a coisa de me chocar. Trata-se, aliás, de uma das infelicidades a que o homem é mais sensível. Existem muitas outras causas de aflições que se verificam comumente e não me perturbariam se me atingissem. Desdenhei algumas que me ocorreram, dessas que todos consideram deverem afetar realmente; e não ousaria sem corar vangloriar-me em público de minha indiferença:

“ Ex quo intelligitur, non in natura, Sed in opinione, esse aegritudinem.”
”De como se verifica que a aflição não provém da natureza, mas decorre da opinião” [Cícero].

Esta é, com efeito, uma potência que tudo ousa e não tem medida. Quem jamais procurou a segurança e o repouso com mais ansiedade do que mostraram Alexandre e César na busca da inquietação e das dificuldades? Terez, pai de Sitalcez, dizia amiúde que quando não estava em guerra não lhe parecia houvesse alguma diferença entre ele e o seu moço de estrebaria. Quando cônsul, a fim de assegurar a submissão de certas cidades da Espanha, Catão proibiu o porte de armas aos habitantes, em conseqüência do que muitos se mataram:

“Ferox gens, nullam vitam rati sine armis esse.”
”Nação feroz que não acreditava se pudesse viver sem combater” [Tito Lívio].

E não conheceis inúmeros que renunciaram à doçura de uma existência tranqüila em seu lar, entre amigos e conhecidos, para irem viver em horríveis desertos inabitáveis? E outros não adotaram um tipo de vida abjeta, degradante, em que afetam comprazer-se, desprezando a sociedade? O Cardeal Borromeu, recém-falecido em Milão, a quem a nobreza, a imensa fortuna, o clima italiano e a mocidade outorgavam todas as alegrias e gozos, viveu constantemente em tal regime de austeridade que usava a mesma batina, no inverno como no verão; dormia unicamente sobre a palha; e as horas que os deveres do cargo não lhe consumiam, ele as passava de joelhos, estudando continuamente, tendo ao lado de seu livro um pedaço de pão e um pouco de água, que era tudo de que se compunha sua refeição, e também o tempo que lhe destinava. Conheço quem, com perfeito conhecimento de causa, tirasse proveito e promoção da infidelidade da mulher, coisa cuja simples idéia já apavora tanta gente.

Se a vista não é o mais necessário dos nossos sentidos, é pelo menos o que nos dá maior prazer; e de todos os nossos órgãos, os que contribuem para gerar parecem os mais úteis e os que proporcionam maior felicidade. Certas pessoas, entretanto, os detestam unicamente por causa das inefáveis satisfações que nos fornecem, e os sacrificam por isso mesmo que são valiosos. É provavelmente análogo o raciocínio de quem vaza voluntariamente os olhos.

A opinião que temos das coisas é que as valoriza. Isso se vê pelo grande número daquelas que não examinamos a não ser para as avaliar, antes que a nós mesmos. Não lhes ponderamos nem a qualidade nem a utilidade, mas apenas o que nos custam para as obtermos, como se o que pagamos fosse parte integrante delas; e o valor que lhes atribuímos mede se não pelos serviços que nos prestam, mas pelo que demos para consegui-las. Isso me induz a achar que as usamos de maneira estranha, pois valem segundo o que pesam e na medida do peso. E nunca as deixamos desvalorizarem-se. O preço dá valor ao diamante; a dificuldade à virtude; a dor à devoção; o amargor ao remédio. Há quem para chegar à pobreza jogue ao mar seus escudos, esse mesmo mar que outros esquadrinham e batem para encontrar a riqueza. Epicuro disse: ser rico não significa despir-se de preocupações, mas tão somente trocá-las por outras, e em verdade não é a carência e sim a abundância que acarreta a avareza.

Eis o que a esse respeito me sugere a experiência: Minha vida ao sair da infância apresentou três fases. A primeira durou cerca de vinte anos durante os quais vivi de recursos fortuitos, na dependência de outros, sem renda própria, sem uma situação definida nem previsão orçamentária. Gastava tanto mais alegre e descuidadamente quanto tudo provinha dos acasos felizes da sorte. Nunca passei melhor; nunca me aconteceu achar fechada a bolsa dos amigos. Impusera a mim mesmo, de resto, e como dever primeiro, pagar minhas dívidas em seu vencimento, o que me valeu mais de uma vez a prorrogação do mesmo, porquanto meus credores se comoviam com o meu esforço. Tal lealdade me tornou econômico e nunca enganei a ninguém. Sinto naturalmente algum prazer em pagar o que devo, como se me desfizesse de um fardo incômodo, imagem da servidão. Por outro lado, satisfaz-me fazer algo justo e que contente a outros. Abro exceção para os pagamentos em que é preciso regatear e contar. Quando me encontro nessa necessidade e não posso dar a outro a incumbência, vergonhosamente e por certo erroneamente, adio quanto possível o cumprimento da obrigação, a fim de evitar essas discussões a que, por temperamento e maneira de me exprimir, sou infenso. Nada detesto mais do que regatear: é uma justa de trapaças e impudências em que, após uma hora de conversas, cada qual transige, falhando à palavra dada e às afirmações reiteradas. E isso por alguns vinténs a mais ou a menos. Também me via em apertos quando tinha de pedir emprestado, e, não me animando a fazê-lo oralmente, corria o risco por escrito, o que me parece menos penoso e torna mais fácil a recusa. Entregava mais facilmente e com menor inquietação à minha estrela a satisfação de minhas necessidades do que me ocorreu depois, ao se desenvolverem em mim o espírito de previdência e o raciocínio. As pessoas que têm negócios a administrar consideram em geral horrível viver nessa constante incerteza. Em primeiro lugar não se lembram de que a maioria dos homens assim vive. Quanta gente de bem abandonou a renda certa – e quanta o faz diariamente – para ir em busca de favores reais e de fortuna! César, para se tornar César, endividou-se em cerca de um milhão em ouro. Quantos negociantes se iniciam no comércio mandando vender sua fazenda às Índias.

“Tot per impotentia freta.”
”Por tantos mares borrascosos” [Catulo].

De O bem e o mal só o são , as mais das vezes, pela idéia que deles temos, em Ensaios de Montaigne

Notamos que os exemplos de Montaigne podem ser um tanto aleatórios, baseados muitas vezes em testemunhos pouco fidedignos. Apesar de os relatos poderem ter uma componente importante de imaginação envolvida isto não invalida o desenvolvimento posterior por Montaigne já que ele os escolhe a dedo com o intuito de desenvolver a sua conclusão, não importa o quão fantasiosos possam ser. Os ensaios de Montaigne não são para o enriquecimento da erudição mas material para o pensamento. Do leitor espera que seja mais ativo e pensador. Nisso também vejo uma fonte de inspiração para o estilo nietzschiano.