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Necrológio para o povo brasileiro

necrologio_1293676843bRemexendo e tentando organizar a minha biblioteca, que está um caos depois da mudança, encontrei este livro que não via há anos. Sabia que estava soterrado por outros livros em algum lugar. Victor Giudice me impressionou muito com sua forma original de escrever. Eu, na época, vivia repetindo a frase “os vinhos e oz gueijos” de um de seus contos no livro Necrológio. O conto “O arquivo”, que reproduzo abaixo, parece antecipar aproximadamente o tema do filme “O Curioso Caso de Benjamin Button”, com sua inversão da trajetória de um trabalhador de escritório. Giudice já inova começando o conto na capa do livro. O conto parece descrever alegoricamente o que está acontecendo com o povo brasileiro que vê atônito e apático um retrocesso que parece um destino inexorável. Algo que caminha para reduzi-lo a um ponto geométrico sem dimensão. O grau zero da vida. Abaixo, talvez, da sobrevivência.

O arquivo

No fim de um ano de trabalho, joão obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos.

joão era moço. Aquele era seu primeiro emprego. Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso. Limitou-se a sorrir, a agradecer ao chefe.

No dia seguinte, mudou-se para um quarto mais distante do centro da cidade. Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor.

Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava satisfeito. Acordava mais cedo, e isto parecia aumentar-lhe a disposição.

Dois anos mais tarde, veio outra recompensa.

O chefe chamou-o e lhe comunicou o segundo corte salarial.

Dessa vez, a empresa atravessava um período excelente. A redução foi um pouco maior: dezessete por cento.

Novos sorrisos, novos agradecimentos, nova mudança.

Agora, joão acordava às cinco da manhã. Esperava três conduções. Em compensação, comia menos. Ficou mais esbelto. A pele tornou-se menos rosada. O contentamento aumentou.

Prosseguiu a luta.

Porém, nos quatro anos seguintes, nada de extraordinário aconteceu.

joão preocupava-se. Perdia o sono, envenenado em intrigas de colegas invejosos. Odiava-os. Torturava-se com a incompreensão do chefe. Mas não desistia. Passou a trabalhar mais duas horas diárias.

Uma tarde, quase ao fim do expediente, foi chamado ao escritório principal.

Respirou descompassado.
– Seu joão. Nossa firma tem uma grande dívida com o senhor.

joão baixou a cabeça em sinal de modéstia.
– Sabemos de todos os seus esforços. é nosso desejo dar-lhe uma prova substancial de nosso reconhecimento.

O coração parava.
– Além de uma redução de dezesseis por cento em seu ordenado, resolvemos, na reunião de ontem, rebaixá-lo de posto.

A revelação deslumbrou-o. Todos sorriam.
– De hoje em diante, o senhor vai passar a auxiliar de contabilidade, com menos cinco dias de férias. Contente?

Radiante, João gaguejou alguma coisa ininteligível, cumprimentou a diretoria, voltou ao trabalho.

Nessa noite, não pensou em nada. Dormiu pacífico, no silêncio do subúrbio.

Mais uma vez, mudou-se. Finalmente, deixou de jantar. O almoço era um sanduíche. Emagreceu, sentia-se mais leve, mais ágil. Não havia necessidade de muita roupa. Eliminou certas despesas inúteis, lavadeira, pensão.

Chegava em casa às onze da noite, levantava-se às três da madrugada. Esfarelava-se num trem e dois ônibus para garantir meia hora de antecedência.

A vida foi passando, com novos prêmios.

Aos sessenta anos, o ordenado equivalia a dois por cento do inicial. O organismo acomodara-se à fome. Uma vez ou outra, saboreava alguma raiz das estradas. Dormia apenas quinze minutos. Não tinha mais problemas de moradia ou vestimenta. Vivia nos campos, entre árvores refrescantes, cobria-se com os farrapos de um lençol adquirido há muito tempo.

O corpo era um monte de rugas sorridentes.

Todos os dias, um caminhão anônimo transportava-o ao trabalho.

Quando completou quarenta anos de serviço, foi convocado pela chefia:
– Seu joão. O senhor acaba de ter seu salário eliminado. Não haverá mais férias. E sua função, a partir de amanhã, será a de limpador de nossos sanitários.

O crânio comprimiu-se. Do olho amarelado escorreu um líquido tênue. A boca tremeu, mas nada disse. Sentia-se cansado. Enfim, atingira todos os objetivos. Tentou sorrir:
– Agradeço tudo que fizeram em meu benefício. Mas eu vou requerer minha aposentadoria.

O chefe não compreendeu:
– Mas seu joão, logo agora que o senhor está desassalariado? Por quê? Dentro de alguns meses já vai ter de pagar a taxa inicial para permanecer em nosso quadro. Desprezar tudo isto? Quarenta anos de convívio? O senhor ainda está forte. Que acha?

A emoção impediu qualquer resposta.

joão afastou-se. O lábio murcho se estendeu. A pele enrijeceu, tornou-se lisa. A estatura regrediu. A cabeça se fundiu ao corpo. As formas desumanizaram-se, planas, compactas. Nos lados, havia duas arestas. Ficou cinzento.

joão transformou-se num arquivo de metal.

Victor Giudice

Balaenoptera musculus

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O animal que tem ptera no nome não tomou red bull, mas nem por isso deixa de ter asas. Verdadeiras ou aparentes. Luis Dolhnikoff afirma, e isto ainda nada tem haver com as baleias, em Instruções para bem se matar, uma espécie de decálogo sarcástico do suicídio:

A internet é, enfim, uma grande cloaca virtual que ecoa, duplica e espelha o grande esgoto do mundo. Como disse Borges, os espelhos são cruéis porque dobram o número dos homens (apesar de também dobrarem o das mulheres). A internet é o grande espelho do mundo, com a única vantagem, afinal não desprezível, de a merda virtual não ter cheiro. Ainda assim, merda inodora não é ouro. Se o futuro existe, ele está no instrumento que opera na direção contrária ao espelho borgeano, o desduplicador de gente que é o suicídio, morte, além disso, tão inteligente que chega a ser filosófica, na insuspeitada opinião do grande Camus. Por isso mesmo, sou apesar de tudo cético quanto à sua possível e desejável adoção pela grande massa. A massificação do suicídio, derradeira utopia social depois da morte ou do suicídio de todas as utopias políticas, pode, porém, apesar de meu ceticismo, como toda boa utopia, ser difícil de implementar, mas não necessariamente impossível.

Como a querer desmentir Dolhnikoff a Internet, isso mesmo, essa “cloaca virtual”, engendra uma homenagem macabra a um animal que resvala ladeira abaixo em direção à extinção. Talvez a ameaça de uma adoção pela grande massa do suicídio não seja uma hipótese remota. O decálogo de Dolhnikoff esqueceu desta possibilidade que rege as massas hoje em dia, a Internet. A Wikipedia, sensível com é, já incluiu na sua página de desambiguação a entrada para o game Baleia Azul. As chaves são a palavra viral e uma interpretação polêmica sobre as baleias se suicidarem no raso perto das praias.

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Talvez o suicídio não seja privilégio dos Yanomamis em seu desenraizamento. A sociedade ocidental também está se desenraizando. Magriteanamente. Como rochas flutuantes desconectadas do solo, da vida.

Mas abandonando o viés literário recomendo o vídeo abaixo, do Felipe Neto, que vai ao ponto correto. O momento mais importante naqueles que jogam o jogo com fidelidade acontece antes do primeiro passo em direção ao game. Não sabemos se uma atitude individual generalizada tem o potencial de resolver o problema sem uma política pública séria. Mas se você detectou o problema no seu entorno o vídeo abaixo dá bons conselhos e é muito bem feito. A “dramatização” perpretada pelo youtuber me pareceu eficaz. Bem melhor que a montanha de conselhos beirando ao pueril, as vezes vindo de quem “conseguiu se salvar”, que proliferam na Internet.

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Fonte do gráfico: OMS: Suicídio já mata mais jovens que o HIV em todo o mundo

O gráfico acima corrobora que há mais suicídios entre jovens e em países de baixa renda. Como termômetro, embora talvez medindo a ponta o iceberg, da epidemia de depressão, este “mal do século” (de qual mesmo?), mostra que os adolescentes são mais vulneráveis nos países de baixa renda. Nos países de renda melhor o “vazio” ocorre mais tarde. Talvez a explicação da discrepância esteja em que o jovem nos países pobres vê mais incertezas no futuro. Nos mais ricos o passado é que deve ser decepcionante ou impactante. A competição desenfreada e o consumismo poderiam levar o crédito a medida que o seu potencial nilismo vem à tona. Reconheço que tudo isso é especulativo da minha parte neste momento.

A esposa de Gogol – Parte 8

Ver parte 1.

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Na verdade, a verdadeira razão de eu querer ver era porque já tinha entrevisto. Mas só vi rapidamente, e talvez você não deva permitir-me apresentar mesmo o menor elemento de incerteza nesta história verdadeira. E, no entanto, um testemunho ocular destes eventos não está completo sem a menção de tudo o que a testemunha sabe incluindo aquilo de que não tem certeza absoluta. Para resumir, esse algo era um bebê. Não de carne e sangue, é claro, mas algo como um boneco de borracha. Algo, em suma, que poderíamos julgar pela sua aparência, como o filho de Caracas.

Estava eu louco também? Isso eu não sei, mas o que eu sei é isso que vi, não claramente, mas com meus próprios olhos. E eu me pergunto por que foi que enquanto eu estava escrevendo isso, agora, não mencionei que quando Nikolai Vasilyevich voltava da parte de trás do seu quarto murmurava algo entre dentes: “Ele também! Ele também!”.

E isso é tudo que eu sei sobre a esposa de Nikolai Vasilyevich. No próximo capítulo, vou narrar o que aconteceu em seguida, e que é o último capítulo de sua vida. Mas para dar uma interpretação de seus sentimentos por sua esposa, ou a qualquer outra coisa, é outra tarefa mais difícil, apesar de eu ter tentado em outras partes deste volume e remeto o leitor para este esforço modesto. Espero ter lançado luz suficiente sobre a questão mais controversa e já desvelado o mistério, embora não sobre Gogol, seja sobre sua esposa. No decorrer desta escrita eu contradisse implicitamente a acusação sem sentido que ele abusou ou bateu em sua esposa, assim como outros absurdos. E qual outro pode ser o objetivo de um biógrafo humilde do que servir de memória deste gênio altaneiro que é o objecto do nosso estudo?

Tommaso Landolfi (Pico, Frosinone, 9 de agosto de 1908 – Roma, 1979) foi um escritor italiano e tradutor. Em adição à sua obra narrativa singular, ele destacou-se especialmente para suas traduções de russo. Embora pouco conhecido pela público em geral, talvez por causa de sua linguagem preciosista e barroca, bem como por manter-se a distância das principais tendências literárias italianas do período pós-guerra, é considerado um dos maiores escritores italianos do século XX.

Traduzido de LA ESPOSA DE GOGOL, DE TOMMASO LANDOLFI

Nota:

Harold Bloom inspirou Scliar para escrever “A mulher que escreveu a Bíblia” a partir do texto:

Em Jerusalém, há quase três mil anos, alguém escreveu um trabalho que, desde então, tem formado a consciência espiritualde boa parte do nosso mundo […].

Não era um escriba profissional, mas antes uma pessoa altamente sofisticada, culta e irônica, destacada figura da elite do rei Salomão […]; ua ma mulher, que escreveu para seus contemporâneos como mulher.

Harold Bloom, The Book of J (apud Scliar em A mulher que escreveu a Bíblia)

Por sua vez, ao ler o livro “Como e porque ler” do Bloom, resolvi empreender a tradução no topo impressionado pelo comentário sobre esta obra do Tommaso Landolfi:

Tommaso Landolfi

São célebres as palavras de Dostoiévski: “Todos saímos debaixo do ‘Capote’ de Gogol”, referindo-se ao conto que versa sobre um infeliz escrivão cujo capote novo é roubado. Desprezado pelas autoridades, às quais apresenta a queixa do roubo, o miserável acaba morrendo, e seu fantasma perambula, em vão, em busca de justiça. Ainda que muito bom, esse não é o melhor conto de Gogol, mas, talvez, “Senhorios do Velho Mundo”, ou o insano “O Nariz”, este último sobre um barbeiro que, ao tomar o café da manhã, descobre o nariz de um cliente dentro de um pão que a esposa lhe acabara de assar. O espírito de Gogol, sutilmente presente em muito do que Nabokov escreveu, atinge verdadeira apoteose na excelente obra do escritor italiano contemporâneo Tommaso Landolfi “A Esposa de Gogol”, talvez o conto mais engraçado e mais desconcertante que conheço.

O narrador, amigo e biógrafo de Gogol, “muito a contragosto”, relata a vida da esposa do escritor russo. Na vida real, Gogol, religioso fanático, jamais se casou, e, quando estava com cerca de quarenta e três anos, tomou a decisão de definhar até a morte, depois de queimar seus escritos inéditos. Mas o Gogol de Landolfi (que poderia ter sido inventado por Kafka ou por Borges) casa-se com um balão de borracha, uma esplêndida boneca de inflar, capaz de assumir formas e proporções segundo os caprichos do marido. Apaixonado pela mulher, quando esta assume uma determinada forma, Gogol mantém com ela relações sexuais, e lhe atribui o nome Caracas, em homenagem à capital da Venezuela, por motivos que só o louco do autor conhece.

Durante alguns anos, tudo vai bem, até que Gogol contrai sífilis, de cujo contágio ele, injustamente, culpa Caracas. Com o passar do tempo, cresce o sentimento de ambivalência de Gogol com relação à esposa. Ele acusa Caracas de comodismo, e até de traição, enquanto ela se torna cada vez mais amargurada e carola. Afinal, Gogol, enfurecido, propositadamente, bombeia ar em Caracas até ela explodir e voar pelos ares. Após recolher os restos de Madame Gogol, o eminente escritor os incinera na lareira, onde tem o mesmo fim dos manuscritos inéditos. Ao mesmo fogo, Gogol atira um boneco de borracha, filho de Caracas. Depois da catástrofe final, o biógrafo defende Gogol contra a acusação de espancar a esposa, e saúda a memória do autor genial.

O melhor prelúdio (ou poslúdio) a “A Esposa de Gogol” são alguns contos do próprio Gogol, que nos levarão a acreditar no ocorrido com a infeliz Caracas. Como possível amante de Gogol (seja por ele, de fato, encontrada, ou mesmo inventada), Caracas é perfeitamente viável. Landolfi jamais poderia ter escrito a mesma história e a intitulado “A Esposa de Maupassant”, muito menos “A Esposa de Turgenev”. Não, essa esposa só pode ser de Gogol, de mais ninguém, e eu raramente duvido da história de Landolfi, especialmente nos instantes que sucedem a cada releitura. Caracas tem uma realidade que Borges não busca — e nem consegue alcançar — em Tlön. Como a única noiva possível para Gogol, Caracas é, a meu ver, a paródia máxima da idéia de Frank O’Connor, de que a voz solitária que se faz ouvir no conto moderno é a da População Marginalizada. Quem haveria de ser mais marginalizada do que a esposa de Gogol?

Como e porque ler, Harold Bloom

Ver também:

A esposa de Gogol – Parte 7

Ver parte 1.

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Caracas inchou-se. Nikolai Vasilyevich suava, chorava e bombeava. Eu queria detê-lo, mas não sei por quê, não tinha coragem. Ela começou a ficar deformada, e logo assumiu uma aparência monstruosa; e ainda assim não mostrava sinais de alarme, ela estava acostumada a essas brincadeiras. Mas quando ela começou a sentir-se insuportavelmente cheia, ou talvez fosse quando as intenções de Nikolai Vasilyevich ficaram claras, ela tomou a expressão de, devo dizer, surpresa bestial, e até mesmo um pouco de súplica, mas sem perder o seu olhar de desdém. Ela tinha medo, e estava se refugiando em sua misericórdia, mas ela ainda não podia acreditar em seu destino imediato, não podia acreditar na fria audácia de seu marido. Ela também não podia ver o seu rosto porque ele estava atrás dela. Mas eu assisti com fascínio, e não movi um dedo. No final pressão interna passou por seus ossos frágeis na base do crânio, e imprimiu na sua face um inexplicável esgar. Seu umbigo, suas pernas, seus quadris, seus seios, e o que eu pude ver de suas nádegas estavam inchados em proporções incríveis. De repente, ela arrota, e dá um longo e sibilado gemido; ambos destes fenómenos poderiam ser, se se quisesse, explicados pelo aumento, acima mencionado, na pressão, que tinha forçado o seu caminho através da válvula na garganta. Finalmente seus olhos estavam inchados, ameaçando sair de suas órbitas. Suas costelas foram separadas de lateralmente e já não estavam ligadas ao esterno, neste momento ela tinha uma aparência similar a uma python quando digere um burro. Eu disse um burro? Um boi! Ou um elefante! Neste momento eu pensei que já estava morta, mas Nikolai Vasilyevich, suava, chorava e repetia: “Minha querida! Minha amada!” e continuava a bombear.

E de repente ela explodiu, de maneira uniforme, ou seja, não havia uma parte de sua pele que explodiu e o resto seguiu, no entanto toda a superfície o fez no mesmo instante. Voou pelo ares. As peças caíam mais ou menos à mesma velocidade, dependendo do seu tamanho, o que não era, em qualquer caso, excedente da média. Lembro-me claramente uma parte de seu rosto, com parte do lábio aderido, pendurado no canto da toalha de mesa. Nikolai Vasilyevich olhou para mim como um louco. Ele tentou recuperar a compostura, e mais uma vez com uma determinação furiosa, ele começou a recolher essas peças tristes que tinham sido uma vez a pele de Caracas e o resto dela. “Adeus, Caracas,” Creio que o ouvi murmurar; “Adeus, eras muito patética!” E de repente e bastante audível: “Fogo, fogo! Ela também deve terminar no fogo. Persignou-se com a mão esquerda, é claro. Então, quando já havia pego as peças, mesmo subindo em alguns móveis para não deixar nenhuma, as atirou direto para o coração do fogo, onde elas começaram a arder lentamente, com um odor excessivamente desagradável. Nikolai Vasilyevich, como todos os russos, tinha uma paixão por lançar ao fogo coisas importantes.

Ele, com o rosto afogueado, com um olhar indizível de desespero e ao mesmo tempo com um olhar de triunfo sinistro, observava a pira com esses miseráveis restos. Ele pegou meu braço e o apertava compulsivamente. Mas os restos do que já foi um ser pareceu restaurar alguma sanidade, como se de repente se lembrara de algo ou tomara uma decisão dolorosa. Em um instante, ele saiu da sala. Alguns segundos depois, eu o ouvi falar através da porta com uma voz fixa e entrecortada: “Foma Paskalovitch, eu quero que prometa que não vai olhar. Golubchik prometa não olhar para mim quando eu entrar.” Não sei se o contestei ou se tentei reconfortá-lo de algum modo. Mas ele insistiu, e eu tive que prometer que iria colocar meu rosto contra a parede e que só me voltaria quando ele me dissesse, como se fôssemos crianças. A porta, em seguida, se abre amplamente com um estrondo e Nikolai Vasilevich volta precipitadamente para a sala, correndo para a lareira

E aqui devo confessar a minha fraqueza, ainda que a considere justificada pelas circunstâncias extraordinárias. Olhei em volta antes de Nikolai Vasilyevich me dissesse que podia; isto fora mais forte do que eu. E foi bem a tempo de vê-lo carregar algo em seus braços, que jogou no fogo com os restos, e que de repente avivou o fogo. Então, como o desejo de olhar havia dominado qualquer desejo em mim, corri para a lareira. Mas Nikolai Vasilyevich se colocou no meio e empurrou-me com uma força que eu não acreditava que ele fosse capaz. Enquanto isso, o objeto era queimado e saía uma nuvem de fumaça. E antes que ele mostrasse sinais de ter se acalmado não havia mais nada além de uma pilha de cinzas silenciosas.

Ver parte 8.

A esposa de Gogol – Parte 6

Ver parte 1.

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“Acredite ou não, Foma Paskalovitch” ele, por exemplo, me diria, “Acredite ou não, ela está envelhecendo!” Então, inexplicavelmente comovido, ele, como sempre fazia, pegou minhas mãos nas suas. Ele também acusou Caracas de dedicar-se a prazeres solitários, algo que ele tinha expressamente proibido. Ele mesmo foi tão longe que a acusou de enganá-lo, mas as coisas que ele disse são tão obscuras que eu devo me desculpar por continuar dando conta delas

Uma coisa que parece certo é que nos últimos tempos Caracas, envelhecida ou não, havia se tornado uma criatura amarga, briguenta, hipócrita, e sujeita à mania religiosa. Não excluo a possibilidade de que ela tenha tido uma influência sobre a posição moral de Gogol no último período de sua vida, uma posição que é suficientemente conhecida. Em qualquer caso, o clímax trágico veio de forma inesperada uma noite, quando Nikolai Vasilyevich e eu estávamos comemorando suas bodas de prata; uma das últimas noites que passaríamos juntos. Não posso nem deveria tentar explicar o que o levou a essa decisão, num momento em que todas as aparências, ele se havia resignado a tolerar sua consorte. Eu não sei que novos acontecimentos tinham ocorrido naquele dia. Devo me limitar aos fatos; meus leitores deverão tirar deles o que puderem.

Nikolai Vasilyevich naquela noite estava excepcionalmente agitado. Seu desgosto com Caracas parecia ter alcançado uma intensidade sem precedentes. Sua famosa “pira das vaidades” – isto é, a queima de seus manuscritos, tinham já ocorrido; não se deveria dizer se por instigação de sua esposa ou não. Seu estado mental estava exaltado por outras causas. No que diz respeito à sua condição física; isto era todavia mais triste, e reforçou a minha impressão de que ele estava tomando drogas. De qualquer forma, ele começou a falar em um modo mais ou menos normal de Belinsky, que lhe estava dando problemas com seus ataques na Correspondência Selecta. De repente, eu vi lágrimas em seus olhos, ele se interrompei e bradou: “Não. Não. É demasiado, demasiado. Eu não posso suportá-lo mais “, e outras frases obscuras e desconectado não esclarecidas. Ele também parecia que falava para si mesmo. Esfregou as mãos, sacudiu a cabeça, levantou-se e sentou-se novamente depois de dar quatro ou cinco passos ao redor da sala. Quando Caracas apareceu, ou melhor, quando fomos à noite para o quarto oriental, não se controlou mais e começou a se comportar como um homem velho, sim eu posso colocar dessa maneira, como em sua segunda infância, deixando-se levar por seus impulsos absurdos. Por exemplo, ele me empurrava e continuava repetindo bobagens, “Aí está, Foma Paskalovitch; aí está!” Enquanto isso, ela parecia olhar para nós com uma atenção desdenhosa. Mas por trás dessas “maneirismos” podia se sentir uma verdadeira aversão, uma repugnância que, eu acho, tinha cruzado os limites do suportável. Assim é…

Depois de um certo tempo Nikolai Vasilyevich parecia reunir coragem. Derramou lágrimas, mas por alguma razão pareciam lágrimas mais masculinas. Sacudia as mãos de novo, segurou a minha, andava para cima e para baixo murmurando: “Isso é o bastante! Não podemos ter mais disto. Nunca se viu tal coisa. Como isso pode estar acontecendo? Como se supõe que eu possa suportar isso? e assim continuava. Então ele começou a saltar sobre a bomba furiosamente, de cuja existência parecia ter de repente se lembrado, e com a bomba na mão, correu como um turbilhão para Caracas. Inseriu o tubo em seu ânus e começou a inflá-la… Em lágrimas, gritou como um possuído, “Oh, como a amei, como a amei, minha pobre, pobre querida! … mas ela vai explodir! Infeliz Caracas, a mais patética entre as criaturas de Deus! Mas você deve morrer!” e assim, alternava uma coisa ou outra.

Ver parte 7.

A esposa de Gogol – Parte 5

Ver parte 1.

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Uma tentativa de estabelecer o que era o que subsistia como um atributo comum nas diferentes formas seria outra coisa. Talvez não tenha sido nem mais nem menos do que a inspiração criativa de Nikolai Vasilyevich. Mas não, teria sido algo muito original e estranho se tivesse partido dele mesmo, algo muito aversivo a si mesmo. Porque, digamos de uma vez, quem quer que ela fosse era de fato uma presença perturbadora e, ainda para ficar mais claro, hostil. Apesar disso, nem Gogol nem eu fomos bem sucedidos na formulação de uma hipótese satisfatória sobre sua verdadeira natureza; quando digo formular, quero dizer explicá-la em termos que são racionais e acessíveis para todos. Mas eu não posso omitir o evento extraordinário que aconteceu naquela época.

Caracas adoeceu de uma doença vergonhosa; ou melhor, Gogol; e ele não tinha, nem nunca teve, qualquer contato com outra mulher. Eu não vou tentar descrever como isto aconteceu ou de onde veio a complicação vergonhosa; tudo o que sei é o que aconteceu. E meu grande e infeliz amigo me disse “Então Foma Paskalovitch, você vê o que está no coração de Caracas; era o espírito da sífilis.” Às vezes ele iria culpar a si mesmo de uma forma muito absurda; sempre tinha uma tendência a auto-acusação. Este incidente foi principalmente uma grande catástrofe no que se refere à obscura relação entre marido e mulher, e os sentimentos hostis de Nikolai Vasilyevich começaram a crescer. Teve de passar por um tratamento longo e doloroso – o tratamento naqueles dias – e a situação foi agravada pelo fato de que a doença na mulher não parecia fácil de curar. Devo acrescentar que Gogol enganava a si mesmo, inflando e desinflando sua esposa e mudando várias partes de sua aparência, pensando que ele poderia obter uma mulher imune ao contágio, mas teve que se desistir quando não obteve resultados.

Eu devo ser breve, eu não quero esgotar meus leitores, e porque o que me lembro parece ser cada vez mais confuso. Devo apressar a conclusão trágica. Com relação a esta última no entanto, que não há dúvidas. Devo esclarecer mais uma vez que tenho a certeza do que digo. Eu era uma testemunha ocular. Isso é certo.

Os anos se passaram.  O desgosto que Nikolai Vasilyevich sentia por sua esposa crescia, apesar de seu amor por ela não dar nenhum sinal de diminuir. No final, aversão e apego tão ferozmente lutaram um com o outro em seu coração que estava profundamente afetado, quase partido pela metade. Seus olhos inquietos, que geralmente assumiam todos os tipos de expressões e às vezes falavam docemente ao coração do interlocutor, agora, quase sempre mostravam um tom febril, como se estivessem sob a influência de uma droga. Os impulsos mais estranhos se despertavam nele acompanhados por fobias irracionais. Ele me falava de Caracas mais e mais vezes, acusando-a de coisas impensáveis e surpreendentes. Nestas coisas que eu não poderia segui-lo, porque conhecia superficialmente sua esposa e quase nenhuma intimidade, ou mesmo nenhuma, e especialmente porque minha sensibilidade era tão limitado em comparação com a sua. Agora vou limitar-me a relatar algumas de suas acusações, sem se referir a minhas impressões pessoais.

Ver parte 6.

A esposa de Gogol – Parte 4

Ver parte 1.

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A primeira e, como eu disse, a última vez que ouvi a Caracas falar a Nikolai Vasilyevich foi uma manhã, quando estavamos sozinhos. Estávamos no quarto onde a mulher, se assim posso dizer, vivia. A entrada neste quarto era estritamente proibida para todos. Ele foi mobiliado mais ou menos de uma maneira oriental, não tinha janelas e foi localizado na parte mais inacessível da casa. Sim, eu sabia que ela podia falar, mas Gogol nunca explicou as circunstâncias em que isso acontecia. Estávamos, obviamente, apenas os dois, ou os três, lá. Nikolai Vasilyevich e eu estávamos bebendo vodca e discutindo o romance de Butkov. Lembro-me que paramos de falar sobre este assunto, e ele estava falando sobre o necessidade de reformas radicais na lei de herança. Nós tínhamos quase esquecido dela. Foi aí que, em uma voz rouca e suave, como Vênus no leito conjugal, disse ela, sem olhar para ninguém: “Eu quero fazer cocô.” Eu pulei, pensando que tinha ouvido mal, e olhei para ela. Ela estava sentada em uma pilha de travesseiros contra a parede; naquele dia ela era uma beleza loira delicada, em vez da carne. Sua expressão parecia uma mistura de suspeita e sagacidade, imaturidade e irresponsabilidade. E Gogol, ele corou violentamente e, em seguida, pulou sobre ela, colocou dois dedos em sua garganta. Ela começou a encolher e, devo admitir, tornou se pálida; ela tomou mais uma vez o ar que era dela e, eventualmente, se reduziu a nada mais do que uma pele macia em uma armação. Além disso, por razões práticas, que podem ser adivinhadas, ela tinha uma espinha flexível , se dobrava quase em duas, e o resto da noite nos olhava desde o chão onde ela tinha deslizado, com um olhar de abjeção. Tudo o que Gogol disse foi: “Ela só faz isso por brincadeira, ou para me irritar; porque na verdade ela não tem essas necessidades.” Na presença de outros, isto é na minha, ele geralmente a tratava com desdém.

Seguimos bebendo e conversando, mas Nikolai Vasilyevich parecia muito perturbado e ausente em espírito. Uma vez de repente interrompeu o que dizia, pegou minha mão na sua, e explodiu em lágrimas. “O que posso fazer agora?” exclamou. “Você entende, Foma Paskalovitch, que eu a amo?” É necessário assinalar que era impossível, a não ser por um milagre, repetir alguma das formas de Caracas. Ela era, em suma, uma nova criação a cada vez, e tinha sido em vão tentar encontrar novamente as mesmas proporções exatas, a pressão precisa, e assim, a antiga Caracas. Portanto, a loira em questão foi perdida para Gogol doravante para sempre; esta foi de fato uma perda trágica para um dos poucos amores de Nikolai Vasilyevich, como descrevi acima. Ele não me deu qualquer explicação; infelizmente, rejeitou as minhas palavras de encorajamento e se retirou cedo naquela manhã. Mas seu coração havia se mostrado abertamente a mim nesse arrebatamento. Já não era tão reticente comigo, e logo quase não tinhamos segredos entre nós. E isso, digo entre parênteses, me causa muito orgulho.

Parece que no início de sua vida juntos as coisas tinham corrido bem para o “casal”. Nikolai Vasilyevich tinha sido feliz com Caracas, e regularmente dormiam na mesma cama. Além disso, ele continuou esta prática até o final, dizendo com um sorriso tímido que não havia nenhuma companheira que fosse mais silenciosa ou menos intrusiva do que ela. Mas comecei a duvidar disso, especialmente ao julgar pelo estado em que estava, por vezes, depois de ter levantado. Em seguida, depois de alguns anos, seu relacionamento começou a deteriorar-se de forma estranha.

Tudo isso, deixe-me dizer uma vez por todas, não é nada mais do que uma tentativa esquemática de uma explicação. Mais ou menos por essa época a mulher começou a mostrar sinais de independência ou, poderia se dizer, de autonomia. Nikolai Vasilyevich teve a estranha impressão de que ela estava recebendo uma personalidade, talvez indecifrável, mas diferente da sua, e parecia escorregar de suas mãos. É verdade que havia alguma continuidade com cada nova aparência; entre todas essas morenas, essas loiras, ruivas, entre aquelas volumosas ou delgadas, havia algo em comum. No início deste capítulo eu falei sobre as minhas dúvidas sobre a idéia de considerar Caracas algo de uma personalidade unitária; mas mesmo nem sequer eu pude, quando a vi, livrar-me da impressão de que, curiosamente, era a mesma mulher. E talvez seja por isso que eu sinto que Gogol tinha que dar-lhe um nome.

Ver parte 5.