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Aprender a Viver, Luc Ferry

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Prólogo

Nos meses que se seguiram à publicação de meu livro O que É uma Vida Bem-sucedida?, várias pessoas me abordaram espontaneamente na rua para me dizer mais ou menos o seguinte: “Um dia, ouvi o senhor falar sobre sua obra… foi claríssimo, mas, quando tentei lê-lo, não compreendi mais nada…” A observação era direta, mas não agressiva. O que me causou constrangimento maior! Prometi a mim mesmo encontrar uma solução, sem saber exatamente como agir, de modo a, um dia, ser tão claro na escrita quanto afirmavam que eu era na fala…

Uma circunstância proporcionou-me a oportunidade de voltar a pensar no assunto. De férias num país onde a noite cai às seis horas, alguns amigos pediram que eu improvisasse um curso de filosofia para pais e filhos. O exercício obrigou-me a ir diretamente ao essencial, como até então eu nunca pudera fazer, sem recorrer a palavras complicadas, a citações eruditas ou alusões a teorias desconhecidas pelos meus ouvintes. À medida que eu avançava na narração da história das ideias, dei-me conta de que não existia nas livrarias um curso equivalente ao que eu estava construindo, bem ou mal, sem o auxílio de minha biblioteca. Encontram-se, naturalmente, inúmeras histórias da filosofia. Algumas são mesmo excelentes, mas as melhores são áridas demais para alguém saído da universidade, e ainda mais para quem ainda não entrou nela; outras não são interessantes.

Este pequeno livro é resultado daquelas reuniões amigáveis. Embora reescrito e completado, conserva ainda o estilo oral. Seu objetivo é modesto e ambicioso. Modesto, porque se dirige a um público de não especialistas, à semelhança dos jovens com os quais conversei naquele período de férias. Ambicioso, pois me recusei a aceitar a menor concessão às exigências da simplificação, caso deformasse a apresentação dos grandes pensamentos. Respeito tanto as obras maiores da filosofia que não aceito caricaturá-las por razões pseudopedagógicas. A clareza consta do caderno de encargos de uma obra que se dirige a iniciantes, mas pode ser obtida sem que se destrua seu objeto; do contrário, de nada vale.

Procurei, então, apresentar uma iniciação que, por mais simples que fosse, não abdicasse da riqueza e da profundidade das ideias filosóficas. Seu objetivo não é apenas oferecer um antegozo, um verniz superficial ou um resumo desfigurado pelos imperativos da vulgarização, mas também levar a descobrir essas obras, tais como são, a fim de atender a duas exigências: a de um adulto que quer saber o que é a filosofia, mas não pretende ir necessariamente além; a de um adolescente que deseja eventualmente estudá-la mais a fundo, embora ainda não disponha dos conhecimentos necessários para começar a ler por conta própria autores difíceis.

Por isso, tentei inserir aqui tudo o que hoje considero verdadeiramente essencial na história do pensamento, tudo o que gostaria de legar àqueles que considero, no sentido antigo, incluindo a família, meus amigos.

“Por que esta tentativa?

Para começar, por egoísmo, porque o mais sublime espetáculo pode tornar-se um sofrimento se não temos a sorte de ter alguém com quem partilhá-lo. Ora, ainda é pouco — e disso me dou conta a cada dia que passa — dizer que a filosofia não faz parte do que se chama comumente de “cultura geral”. Um “homem culto” presumivelmente conhece a história da França, algumas importantes referências literárias e artísticas, até mesmo alguma coisa de biologia ou de física, mas ninguém o reprovará por ignorar tudo a respeito de Epicteto, Spinoza ou Kant. Entretanto, adquiri, ao longo dos anos, a convicção de que para todo indivíduo, inclusive para os que não a veem como uma vocação, é valioso estudar ao menos um pouco de filosofia, nem que seja por dois motivos bem simples.

O primeiro é que, sem ela, nada podemos compreender do mundo em que vivemos. É uma formação das mais esclarecedoras, mais ainda do que a das ciências históricas. Por quê? Simplesmente porque a quase totalidade de nossos pensamentos, de nossas convicções, e também de nossos valores, se inscreve, sem que o saibamos, nas grandes visões do mundo já elaboradas e estruturadas ao longo da história das ideias. É indispensável compreendê-las para apreender sua lógica, seu alcance e suas implicações…

Algumas pessoas passam grande parte da vida antecipando a infelicidade, preparando-se para a catástrofe — a perda de um emprego, um acidente, uma doença, a morte de uma pessoa próxima etc. Outras, ao contrário, vivem aparentemente na mais total despreocupação. Elas até consideram que questões desse tipo não têm espaço na existência cotidiana, que provêm do gosto pelo mórbido que beira a patologia. Sabem elas que as duas atitudes mergulham suas raízes em visões do mundo cujas circunstâncias já foram exploradas com profundidade extraordinária pelos filósofos da Antiguidade grega?

A escolha de uma ética antes igualitária que aristocrática, de uma estética antes romântica que clássica, de uma atitude de apego ou desapego às coisas e aos seres em face da morte, a adesão a ideologias políticas autoritárias ou liberais, o amor pela natureza e pelos animais mais do que pelos homens, pelo mundo selvagem mais do que pela civilização, todas essas opções e muitas outras foram inicialmente construções metafísicas antes de se tornarem opiniões oferecidas, como num mercado, ao consumo dos cidadãos. As clivagens, os conflitos, as implicações que elas sugeriam desde a origem continuam, quer o saibamos ou não, a dirigir nossas reflexões e nossos propósitos. Estudá-los em seu melhor nível, captar-lhes as fontes profundas é se oferecer os meios de ser não apenas mais inteligente, mas também mais livre. Não consigo ver em nome de que deveríamos nos privar disso.

Além do que se ganha em compreensão, conhecimento de si e dos outros por intermédio das grandes obras da tradição, é preciso saber que elas podem simplesmente ajudar a viver melhor e mais livremente. Como dizem, cada um a seu modo, vários pensadores contemporâneos, não se filosofa por divertimento, nem mesmo apenas para compreender o mundo e conhecer melhor a si mesmo, mas, às vezes, para “salvar a pele”. Há na filosofia elementos para vencermos os medos que paralisam a vida, e é um erro acreditar que a psicologia poderia, nos dias de hoje, substituí-la.

Aprender a viver, aprender a não mais temer em vão as diferentes faces da morte, ou, simplesmente, a superar a banalidade da vida cotidiana, o tédio, o tempo que passa, já era o principal objetivo das escolas da Antiguidade grega. A mensagem delas merece ser ouvida, pois, diferentemente do que acontece na história das ciências, as filosofias do passado ainda nos falam. Eis um ponto importante que por si só merece reflexão.

Quando uma teoria científica se revela falsa, quando é refutada por outra visivelmente mais verdadeira, cai em desuso e não interessa a mais ninguém — à exceção de alguns eruditos. As grandes respostas filosóficas dadas desde os primórdios à interrogação sobre como se aprende a viver continuam, ao contrário, presentes. Desse ponto de vista seria preferível comparar a história da filosofia com a das artes, e não com a das ciências: assim como as obras de Braque e Kandinsky não são “mais belas” do que as de Vermeer ou Manet, as reflexões de Kant ou Nietzsche sobre o sentido ou não sentido da vida não são superiores — nem, aliás, inferiores — às de Epicteto, Epicuro ou Buda. Nelas existem proposições de vida, atitudes em face da existência, que continuam a se dirigir a nós através dos séculos e que nada pode tornar obsoletas. As teorias científicas de Ptolomeu ou de Descartes estão radicalmente “ultrapassadas” e não têm outro interesse senão histórico, ao passo que ainda podemos absorver as sabedorias antigas, assim como podemos gostar de um templo grego ou de uma caligrafia chinesa, mesmo vivendo em pleno século XXI.

A exemplo do primeiro manual de filosofia escrito na história, o de Epicteto, este pequeno livro trata o seu leitor por você. Porque ele se dirige, em primeiro lugar, a um aluno ao mesmo tempo ideal e real que está no limiar da idade adulta, mas pertence ainda, devido a muitos laços, ao mundo da infância. Que não se veja nisso nenhuma familiaridade de baixo quilate, mas tão somente uma forma de amizade, ou de cumplicidade, às quais só o tratamento íntimo convém.

Luc Ferry

Uma fábula para começar

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Há muito, muito tempo, a vida evoluiu num certo planeta, produzindo muitas organizações sociais — alcatéias, matilhas, cardumes, manadas, bandos, rebanhos, e assim por diante. Uma espécie cujos membros eram particularmente inteligentes desenvolveu uma organização social singular chamada “tribo”. O tribalismo funcionou bem para eles durante milhões de anos, mas chegou um momento em que decidiram experimentar uma nova organização social (chamada “civilização”), que era hierárquica e não-igualitária. Não se passou muito tempo e aqueles que ficavam no topo começaram a ter uma vida de grande luxo, usufruindo de um lazer perfeito e tendo o melhor de todas as coisas. Abaixo deles, uma classe formada por um número maior de pessoas vivia muito bem e não tinha do que queixar. Mas as massas que viviam na base da hierarquia não gostavam nem um pouco daquilo. Trabalhavam e viviam como animais de carga, lutando só para continuarem vivos.

“Isso não está dando certo”, disseram as massas. “O modo de vida tribal era melhor. Deveríamos voltar a viver daquela forma”.

Mas o chefe, que ficava no ponto mais alto da hierarquia, disse:

“Abandonamos para sempre aquela vida primitiva. Não podemos voltar a ela”. “Se não podemos voltar”, responderam as massas, “então vamos em frente — na direção de algo diferente”.

“Não, não pode ser”, disse o chefe, “porque nada diferente é possível. Nada pode existir além da civilização. A civilização é um invento final, insuperável”.

“Mas nenhum invento é insuperável para sempre. A máquina a vapor foi suplantada pelo motor a gasolina. O rádio foi suplantado pela televisão. A calculadora foi suplantada pelo computador. Por que seria diferente com a civilização?”

“Não sei por que é diferente”, disse o chefe, “mas é”.

Mas as massas não acreditaram — nem eu.

Além da civilização, Daniel Quinn 

Necrológio para o povo brasileiro

necrologio_1293676843bRemexendo e tentando organizar a minha biblioteca, que está um caos depois da mudança, encontrei este livro que não via há anos. Sabia que estava soterrado por outros livros em algum lugar. Victor Giudice me impressionou muito com sua forma original de escrever. Eu, na época, vivia repetindo a frase “os vinhos e oz gueijos” de um de seus contos no livro Necrológio. O conto “O arquivo”, que reproduzo abaixo, parece antecipar aproximadamente o tema do filme “O Curioso Caso de Benjamin Button”, com sua inversão da trajetória de um trabalhador de escritório. Giudice já inova começando o conto na capa do livro. O conto parece descrever alegoricamente o que está acontecendo com o povo brasileiro que vê atônito e apático um retrocesso que parece um destino inexorável. Algo que caminha para reduzi-lo a um ponto geométrico sem dimensão. O grau zero da vida. Abaixo, talvez, da sobrevivência.

O arquivo

No fim de um ano de trabalho, joão obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos.

joão era moço. Aquele era seu primeiro emprego. Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso. Limitou-se a sorrir, a agradecer ao chefe.

No dia seguinte, mudou-se para um quarto mais distante do centro da cidade. Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor.

Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava satisfeito. Acordava mais cedo, e isto parecia aumentar-lhe a disposição.

Dois anos mais tarde, veio outra recompensa.

O chefe chamou-o e lhe comunicou o segundo corte salarial.

Dessa vez, a empresa atravessava um período excelente. A redução foi um pouco maior: dezessete por cento.

Novos sorrisos, novos agradecimentos, nova mudança.

Agora, joão acordava às cinco da manhã. Esperava três conduções. Em compensação, comia menos. Ficou mais esbelto. A pele tornou-se menos rosada. O contentamento aumentou.

Prosseguiu a luta.

Porém, nos quatro anos seguintes, nada de extraordinário aconteceu.

joão preocupava-se. Perdia o sono, envenenado em intrigas de colegas invejosos. Odiava-os. Torturava-se com a incompreensão do chefe. Mas não desistia. Passou a trabalhar mais duas horas diárias.

Uma tarde, quase ao fim do expediente, foi chamado ao escritório principal.

Respirou descompassado.
– Seu joão. Nossa firma tem uma grande dívida com o senhor.

joão baixou a cabeça em sinal de modéstia.
– Sabemos de todos os seus esforços. é nosso desejo dar-lhe uma prova substancial de nosso reconhecimento.

O coração parava.
– Além de uma redução de dezesseis por cento em seu ordenado, resolvemos, na reunião de ontem, rebaixá-lo de posto.

A revelação deslumbrou-o. Todos sorriam.
– De hoje em diante, o senhor vai passar a auxiliar de contabilidade, com menos cinco dias de férias. Contente?

Radiante, João gaguejou alguma coisa ininteligível, cumprimentou a diretoria, voltou ao trabalho.

Nessa noite, não pensou em nada. Dormiu pacífico, no silêncio do subúrbio.

Mais uma vez, mudou-se. Finalmente, deixou de jantar. O almoço era um sanduíche. Emagreceu, sentia-se mais leve, mais ágil. Não havia necessidade de muita roupa. Eliminou certas despesas inúteis, lavadeira, pensão.

Chegava em casa às onze da noite, levantava-se às três da madrugada. Esfarelava-se num trem e dois ônibus para garantir meia hora de antecedência.

A vida foi passando, com novos prêmios.

Aos sessenta anos, o ordenado equivalia a dois por cento do inicial. O organismo acomodara-se à fome. Uma vez ou outra, saboreava alguma raiz das estradas. Dormia apenas quinze minutos. Não tinha mais problemas de moradia ou vestimenta. Vivia nos campos, entre árvores refrescantes, cobria-se com os farrapos de um lençol adquirido há muito tempo.

O corpo era um monte de rugas sorridentes.

Todos os dias, um caminhão anônimo transportava-o ao trabalho.

Quando completou quarenta anos de serviço, foi convocado pela chefia:
– Seu joão. O senhor acaba de ter seu salário eliminado. Não haverá mais férias. E sua função, a partir de amanhã, será a de limpador de nossos sanitários.

O crânio comprimiu-se. Do olho amarelado escorreu um líquido tênue. A boca tremeu, mas nada disse. Sentia-se cansado. Enfim, atingira todos os objetivos. Tentou sorrir:
– Agradeço tudo que fizeram em meu benefício. Mas eu vou requerer minha aposentadoria.

O chefe não compreendeu:
– Mas seu joão, logo agora que o senhor está desassalariado? Por quê? Dentro de alguns meses já vai ter de pagar a taxa inicial para permanecer em nosso quadro. Desprezar tudo isto? Quarenta anos de convívio? O senhor ainda está forte. Que acha?

A emoção impediu qualquer resposta.

joão afastou-se. O lábio murcho se estendeu. A pele enrijeceu, tornou-se lisa. A estatura regrediu. A cabeça se fundiu ao corpo. As formas desumanizaram-se, planas, compactas. Nos lados, havia duas arestas. Ficou cinzento.

joão transformou-se num arquivo de metal.

Victor Giudice

Balaenoptera musculus

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O animal que tem ptera no nome não tomou red bull, mas nem por isso deixa de ter asas. Verdadeiras ou aparentes. Luis Dolhnikoff afirma, e isto ainda nada tem haver com as baleias, em Instruções para bem se matar, uma espécie de decálogo sarcástico do suicídio:

A internet é, enfim, uma grande cloaca virtual que ecoa, duplica e espelha o grande esgoto do mundo. Como disse Borges, os espelhos são cruéis porque dobram o número dos homens (apesar de também dobrarem o das mulheres). A internet é o grande espelho do mundo, com a única vantagem, afinal não desprezível, de a merda virtual não ter cheiro. Ainda assim, merda inodora não é ouro. Se o futuro existe, ele está no instrumento que opera na direção contrária ao espelho borgeano, o desduplicador de gente que é o suicídio, morte, além disso, tão inteligente que chega a ser filosófica, na insuspeitada opinião do grande Camus. Por isso mesmo, sou apesar de tudo cético quanto à sua possível e desejável adoção pela grande massa. A massificação do suicídio, derradeira utopia social depois da morte ou do suicídio de todas as utopias políticas, pode, porém, apesar de meu ceticismo, como toda boa utopia, ser difícil de implementar, mas não necessariamente impossível.

Como a querer desmentir Dolhnikoff a Internet, isso mesmo, essa “cloaca virtual”, engendra uma homenagem macabra a um animal que resvala ladeira abaixo em direção à extinção. Talvez a ameaça de uma adoção pela grande massa do suicídio não seja uma hipótese remota. O decálogo de Dolhnikoff esqueceu desta possibilidade que rege as massas hoje em dia, a Internet. A Wikipedia, sensível com é, já incluiu na sua página de desambiguação a entrada para o game Baleia Azul. As chaves são a palavra viral e uma interpretação polêmica sobre as baleias se suicidarem no raso perto das praias.

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Talvez o suicídio não seja privilégio dos Yanomamis em seu desenraizamento. A sociedade ocidental também está se desenraizando. Magriteanamente. Como rochas flutuantes desconectadas do solo, da vida.

Mas abandonando o viés literário recomendo o vídeo abaixo, do Felipe Neto, que vai ao ponto correto. O momento mais importante naqueles que jogam o jogo com fidelidade acontece antes do primeiro passo em direção ao game. Não sabemos se uma atitude individual generalizada tem o potencial de resolver o problema sem uma política pública séria. Mas se você detectou o problema no seu entorno o vídeo abaixo dá bons conselhos e é muito bem feito. A “dramatização” perpretada pelo youtuber me pareceu eficaz. Bem melhor que a montanha de conselhos beirando ao pueril, as vezes vindo de quem “conseguiu se salvar”, que proliferam na Internet.

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Fonte do gráfico: OMS: Suicídio já mata mais jovens que o HIV em todo o mundo

O gráfico acima corrobora que há mais suicídios entre jovens e em países de baixa renda. Como termômetro, embora talvez medindo a ponta o iceberg, da epidemia de depressão, este “mal do século” (de qual mesmo?), mostra que os adolescentes são mais vulneráveis nos países de baixa renda. Nos países de renda melhor o “vazio” ocorre mais tarde. Talvez a explicação da discrepância esteja em que o jovem nos países pobres vê mais incertezas no futuro. Nos mais ricos o passado é que deve ser decepcionante ou impactante. A competição desenfreada e o consumismo poderiam levar o crédito a medida que o seu potencial nilismo vem à tona. Reconheço que tudo isso é especulativo da minha parte neste momento.

A esposa de Gogol – Parte 8

Ver parte 1.

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Na verdade, a verdadeira razão de eu querer ver era porque já tinha entrevisto. Mas só vi rapidamente, e talvez você não deva permitir-me apresentar mesmo o menor elemento de incerteza nesta história verdadeira. E, no entanto, um testemunho ocular destes eventos não está completo sem a menção de tudo o que a testemunha sabe incluindo aquilo de que não tem certeza absoluta. Para resumir, esse algo era um bebê. Não de carne e sangue, é claro, mas algo como um boneco de borracha. Algo, em suma, que poderíamos julgar pela sua aparência, como o filho de Caracas.

Estava eu louco também? Isso eu não sei, mas o que eu sei é isso que vi, não claramente, mas com meus próprios olhos. E eu me pergunto por que foi que enquanto eu estava escrevendo isso, agora, não mencionei que quando Nikolai Vasilyevich voltava da parte de trás do seu quarto murmurava algo entre dentes: “Ele também! Ele também!”.

E isso é tudo que eu sei sobre a esposa de Nikolai Vasilyevich. No próximo capítulo, vou narrar o que aconteceu em seguida, e que é o último capítulo de sua vida. Mas para dar uma interpretação de seus sentimentos por sua esposa, ou a qualquer outra coisa, é outra tarefa mais difícil, apesar de eu ter tentado em outras partes deste volume e remeto o leitor para este esforço modesto. Espero ter lançado luz suficiente sobre a questão mais controversa e já desvelado o mistério, embora não sobre Gogol, seja sobre sua esposa. No decorrer desta escrita eu contradisse implicitamente a acusação sem sentido que ele abusou ou bateu em sua esposa, assim como outros absurdos. E qual outro pode ser o objetivo de um biógrafo humilde do que servir de memória deste gênio altaneiro que é o objecto do nosso estudo?

Tommaso Landolfi (Pico, Frosinone, 9 de agosto de 1908 – Roma, 1979) foi um escritor italiano e tradutor. Em adição à sua obra narrativa singular, ele destacou-se especialmente para suas traduções de russo. Embora pouco conhecido pela público em geral, talvez por causa de sua linguagem preciosista e barroca, bem como por manter-se a distância das principais tendências literárias italianas do período pós-guerra, é considerado um dos maiores escritores italianos do século XX.

Traduzido de LA ESPOSA DE GOGOL, DE TOMMASO LANDOLFI

Nota:

Harold Bloom inspirou Scliar para escrever “A mulher que escreveu a Bíblia” a partir do texto:

Em Jerusalém, há quase três mil anos, alguém escreveu um trabalho que, desde então, tem formado a consciência espiritualde boa parte do nosso mundo […].

Não era um escriba profissional, mas antes uma pessoa altamente sofisticada, culta e irônica, destacada figura da elite do rei Salomão […]; ua ma mulher, que escreveu para seus contemporâneos como mulher.

Harold Bloom, The Book of J (apud Scliar em A mulher que escreveu a Bíblia)

Por sua vez, ao ler o livro “Como e porque ler” do Bloom, resolvi empreender a tradução no topo impressionado pelo comentário sobre esta obra do Tommaso Landolfi:

Tommaso Landolfi

São célebres as palavras de Dostoiévski: “Todos saímos debaixo do ‘Capote’ de Gogol”, referindo-se ao conto que versa sobre um infeliz escrivão cujo capote novo é roubado. Desprezado pelas autoridades, às quais apresenta a queixa do roubo, o miserável acaba morrendo, e seu fantasma perambula, em vão, em busca de justiça. Ainda que muito bom, esse não é o melhor conto de Gogol, mas, talvez, “Senhorios do Velho Mundo”, ou o insano “O Nariz”, este último sobre um barbeiro que, ao tomar o café da manhã, descobre o nariz de um cliente dentro de um pão que a esposa lhe acabara de assar. O espírito de Gogol, sutilmente presente em muito do que Nabokov escreveu, atinge verdadeira apoteose na excelente obra do escritor italiano contemporâneo Tommaso Landolfi “A Esposa de Gogol”, talvez o conto mais engraçado e mais desconcertante que conheço.

O narrador, amigo e biógrafo de Gogol, “muito a contragosto”, relata a vida da esposa do escritor russo. Na vida real, Gogol, religioso fanático, jamais se casou, e, quando estava com cerca de quarenta e três anos, tomou a decisão de definhar até a morte, depois de queimar seus escritos inéditos. Mas o Gogol de Landolfi (que poderia ter sido inventado por Kafka ou por Borges) casa-se com um balão de borracha, uma esplêndida boneca de inflar, capaz de assumir formas e proporções segundo os caprichos do marido. Apaixonado pela mulher, quando esta assume uma determinada forma, Gogol mantém com ela relações sexuais, e lhe atribui o nome Caracas, em homenagem à capital da Venezuela, por motivos que só o louco do autor conhece.

Durante alguns anos, tudo vai bem, até que Gogol contrai sífilis, de cujo contágio ele, injustamente, culpa Caracas. Com o passar do tempo, cresce o sentimento de ambivalência de Gogol com relação à esposa. Ele acusa Caracas de comodismo, e até de traição, enquanto ela se torna cada vez mais amargurada e carola. Afinal, Gogol, enfurecido, propositadamente, bombeia ar em Caracas até ela explodir e voar pelos ares. Após recolher os restos de Madame Gogol, o eminente escritor os incinera na lareira, onde tem o mesmo fim dos manuscritos inéditos. Ao mesmo fogo, Gogol atira um boneco de borracha, filho de Caracas. Depois da catástrofe final, o biógrafo defende Gogol contra a acusação de espancar a esposa, e saúda a memória do autor genial.

O melhor prelúdio (ou poslúdio) a “A Esposa de Gogol” são alguns contos do próprio Gogol, que nos levarão a acreditar no ocorrido com a infeliz Caracas. Como possível amante de Gogol (seja por ele, de fato, encontrada, ou mesmo inventada), Caracas é perfeitamente viável. Landolfi jamais poderia ter escrito a mesma história e a intitulado “A Esposa de Maupassant”, muito menos “A Esposa de Turgenev”. Não, essa esposa só pode ser de Gogol, de mais ninguém, e eu raramente duvido da história de Landolfi, especialmente nos instantes que sucedem a cada releitura. Caracas tem uma realidade que Borges não busca — e nem consegue alcançar — em Tlön. Como a única noiva possível para Gogol, Caracas é, a meu ver, a paródia máxima da idéia de Frank O’Connor, de que a voz solitária que se faz ouvir no conto moderno é a da População Marginalizada. Quem haveria de ser mais marginalizada do que a esposa de Gogol?

Como e porque ler, Harold Bloom

Ver também:

A esposa de Gogol – Parte 7

Ver parte 1.

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Caracas inchou-se. Nikolai Vasilyevich suava, chorava e bombeava. Eu queria detê-lo, mas não sei por quê, não tinha coragem. Ela começou a ficar deformada, e logo assumiu uma aparência monstruosa; e ainda assim não mostrava sinais de alarme, ela estava acostumada a essas brincadeiras. Mas quando ela começou a sentir-se insuportavelmente cheia, ou talvez fosse quando as intenções de Nikolai Vasilyevich ficaram claras, ela tomou a expressão de, devo dizer, surpresa bestial, e até mesmo um pouco de súplica, mas sem perder o seu olhar de desdém. Ela tinha medo, e estava se refugiando em sua misericórdia, mas ela ainda não podia acreditar em seu destino imediato, não podia acreditar na fria audácia de seu marido. Ela também não podia ver o seu rosto porque ele estava atrás dela. Mas eu assisti com fascínio, e não movi um dedo. No final pressão interna passou por seus ossos frágeis na base do crânio, e imprimiu na sua face um inexplicável esgar. Seu umbigo, suas pernas, seus quadris, seus seios, e o que eu pude ver de suas nádegas estavam inchados em proporções incríveis. De repente, ela arrota, e dá um longo e sibilado gemido; ambos destes fenómenos poderiam ser, se se quisesse, explicados pelo aumento, acima mencionado, na pressão, que tinha forçado o seu caminho através da válvula na garganta. Finalmente seus olhos estavam inchados, ameaçando sair de suas órbitas. Suas costelas foram separadas de lateralmente e já não estavam ligadas ao esterno, neste momento ela tinha uma aparência similar a uma python quando digere um burro. Eu disse um burro? Um boi! Ou um elefante! Neste momento eu pensei que já estava morta, mas Nikolai Vasilyevich, suava, chorava e repetia: “Minha querida! Minha amada!” e continuava a bombear.

E de repente ela explodiu, de maneira uniforme, ou seja, não havia uma parte de sua pele que explodiu e o resto seguiu, no entanto toda a superfície o fez no mesmo instante. Voou pelo ares. As peças caíam mais ou menos à mesma velocidade, dependendo do seu tamanho, o que não era, em qualquer caso, excedente da média. Lembro-me claramente uma parte de seu rosto, com parte do lábio aderido, pendurado no canto da toalha de mesa. Nikolai Vasilyevich olhou para mim como um louco. Ele tentou recuperar a compostura, e mais uma vez com uma determinação furiosa, ele começou a recolher essas peças tristes que tinham sido uma vez a pele de Caracas e o resto dela. “Adeus, Caracas,” Creio que o ouvi murmurar; “Adeus, eras muito patética!” E de repente e bastante audível: “Fogo, fogo! Ela também deve terminar no fogo. Persignou-se com a mão esquerda, é claro. Então, quando já havia pego as peças, mesmo subindo em alguns móveis para não deixar nenhuma, as atirou direto para o coração do fogo, onde elas começaram a arder lentamente, com um odor excessivamente desagradável. Nikolai Vasilyevich, como todos os russos, tinha uma paixão por lançar ao fogo coisas importantes.

Ele, com o rosto afogueado, com um olhar indizível de desespero e ao mesmo tempo com um olhar de triunfo sinistro, observava a pira com esses miseráveis restos. Ele pegou meu braço e o apertava compulsivamente. Mas os restos do que já foi um ser pareceu restaurar alguma sanidade, como se de repente se lembrara de algo ou tomara uma decisão dolorosa. Em um instante, ele saiu da sala. Alguns segundos depois, eu o ouvi falar através da porta com uma voz fixa e entrecortada: “Foma Paskalovitch, eu quero que prometa que não vai olhar. Golubchik prometa não olhar para mim quando eu entrar.” Não sei se o contestei ou se tentei reconfortá-lo de algum modo. Mas ele insistiu, e eu tive que prometer que iria colocar meu rosto contra a parede e que só me voltaria quando ele me dissesse, como se fôssemos crianças. A porta, em seguida, se abre amplamente com um estrondo e Nikolai Vasilevich volta precipitadamente para a sala, correndo para a lareira

E aqui devo confessar a minha fraqueza, ainda que a considere justificada pelas circunstâncias extraordinárias. Olhei em volta antes de Nikolai Vasilyevich me dissesse que podia; isto fora mais forte do que eu. E foi bem a tempo de vê-lo carregar algo em seus braços, que jogou no fogo com os restos, e que de repente avivou o fogo. Então, como o desejo de olhar havia dominado qualquer desejo em mim, corri para a lareira. Mas Nikolai Vasilyevich se colocou no meio e empurrou-me com uma força que eu não acreditava que ele fosse capaz. Enquanto isso, o objeto era queimado e saía uma nuvem de fumaça. E antes que ele mostrasse sinais de ter se acalmado não havia mais nada além de uma pilha de cinzas silenciosas.

Ver parte 8.

A esposa de Gogol – Parte 6

Ver parte 1.

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“Acredite ou não, Foma Paskalovitch” ele, por exemplo, me diria, “Acredite ou não, ela está envelhecendo!” Então, inexplicavelmente comovido, ele, como sempre fazia, pegou minhas mãos nas suas. Ele também acusou Caracas de dedicar-se a prazeres solitários, algo que ele tinha expressamente proibido. Ele mesmo foi tão longe que a acusou de enganá-lo, mas as coisas que ele disse são tão obscuras que eu devo me desculpar por continuar dando conta delas

Uma coisa que parece certo é que nos últimos tempos Caracas, envelhecida ou não, havia se tornado uma criatura amarga, briguenta, hipócrita, e sujeita à mania religiosa. Não excluo a possibilidade de que ela tenha tido uma influência sobre a posição moral de Gogol no último período de sua vida, uma posição que é suficientemente conhecida. Em qualquer caso, o clímax trágico veio de forma inesperada uma noite, quando Nikolai Vasilyevich e eu estávamos comemorando suas bodas de prata; uma das últimas noites que passaríamos juntos. Não posso nem deveria tentar explicar o que o levou a essa decisão, num momento em que todas as aparências, ele se havia resignado a tolerar sua consorte. Eu não sei que novos acontecimentos tinham ocorrido naquele dia. Devo me limitar aos fatos; meus leitores deverão tirar deles o que puderem.

Nikolai Vasilyevich naquela noite estava excepcionalmente agitado. Seu desgosto com Caracas parecia ter alcançado uma intensidade sem precedentes. Sua famosa “pira das vaidades” – isto é, a queima de seus manuscritos, tinham já ocorrido; não se deveria dizer se por instigação de sua esposa ou não. Seu estado mental estava exaltado por outras causas. No que diz respeito à sua condição física; isto era todavia mais triste, e reforçou a minha impressão de que ele estava tomando drogas. De qualquer forma, ele começou a falar em um modo mais ou menos normal de Belinsky, que lhe estava dando problemas com seus ataques na Correspondência Selecta. De repente, eu vi lágrimas em seus olhos, ele se interrompei e bradou: “Não. Não. É demasiado, demasiado. Eu não posso suportá-lo mais “, e outras frases obscuras e desconectado não esclarecidas. Ele também parecia que falava para si mesmo. Esfregou as mãos, sacudiu a cabeça, levantou-se e sentou-se novamente depois de dar quatro ou cinco passos ao redor da sala. Quando Caracas apareceu, ou melhor, quando fomos à noite para o quarto oriental, não se controlou mais e começou a se comportar como um homem velho, sim eu posso colocar dessa maneira, como em sua segunda infância, deixando-se levar por seus impulsos absurdos. Por exemplo, ele me empurrava e continuava repetindo bobagens, “Aí está, Foma Paskalovitch; aí está!” Enquanto isso, ela parecia olhar para nós com uma atenção desdenhosa. Mas por trás dessas “maneirismos” podia se sentir uma verdadeira aversão, uma repugnância que, eu acho, tinha cruzado os limites do suportável. Assim é…

Depois de um certo tempo Nikolai Vasilyevich parecia reunir coragem. Derramou lágrimas, mas por alguma razão pareciam lágrimas mais masculinas. Sacudia as mãos de novo, segurou a minha, andava para cima e para baixo murmurando: “Isso é o bastante! Não podemos ter mais disto. Nunca se viu tal coisa. Como isso pode estar acontecendo? Como se supõe que eu possa suportar isso? e assim continuava. Então ele começou a saltar sobre a bomba furiosamente, de cuja existência parecia ter de repente se lembrado, e com a bomba na mão, correu como um turbilhão para Caracas. Inseriu o tubo em seu ânus e começou a inflá-la… Em lágrimas, gritou como um possuído, “Oh, como a amei, como a amei, minha pobre, pobre querida! … mas ela vai explodir! Infeliz Caracas, a mais patética entre as criaturas de Deus! Mas você deve morrer!” e assim, alternava uma coisa ou outra.

Ver parte 7.