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Grau Zero da Política

newleftPor que o PT é tão assertivo nas questões sociais e reticente quando se trata da Lei dos Meios e monopólios midiáticos? O verdadeiro ato falho do ministro da Educação Aloízio Mercadante ao sair em defesa ao “seu” Frias frente às denúncias da Comissão da Verdade representa aquilo que o pensador francês Jean Baudrillard chamava de “grau zero da política”: as esquerdas nunca quiseram chegar ao Poder e, dizia Baudrillard, se um dia chegassem não haveria perigo porque o poder, de fato, não existe. Ele estava sendo profético.


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À primeira vista, talvez o tema dessa postagem (política partidária) cause estranheza ao leitor em um blog especializado na discussão sobre cinema e gnosticismo. As últimas discussões sobre a Lei dos Meios e os monopólios de mídia e a reticência do governo atual em debatê-la lembram um conceito de influência gnóstica do pensador francês Jean Baudrillard: a reversibilidade simbólica, o gênio maligno presente em todos os sistemas – todos os sistemas chegam a um ponto de desenvolvimento e complexidade que acabam inviabilizando sua própria finalidade, voltando-se contra si mesmo. É o caso do sistema político que chegaria ao chamado “grau zero”, onde a finalidade social foi substituída pela simulação e sedução. É a “transparência do Mal”.

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Em carta ao jornal Folha de São Paulo o ministro da educação Aloízio Mercadante saiu em defesa da memória de Octávio Frias de Oliveira, falecido dono da “Folha”, após um delegado dos tempos da ditadura militar dizer, na Comissão da Verdade, que ele colaborou ativamente na repressão e tortura aos “terroristas” e “subversivos”. Esse episódio parece que foi a gota d’água para muitos que ainda, pacientemente, esperavam que após 10 anos de governos de esquerda a questão do monopólio midiático no país já tivesse sido, pelo menos, confrontada.

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Enquanto isso o ministro da Comunicação Paulo Bernardo adota um tom genérico e não dá prazos quando trata sobre a Lei dos Meios – a promulgação do marco regulatório para concessões públicas, TVs abertas, TVs por assinatura e rádios. E para irritar ainda mais os setores de esquerda, a Secom (Secretaria de Comunicação da Presidência da República) continua com sua orientação “técnica” e “republicana” de manter o direcionamento de grossas verbas publicitárias aos monopólios midiáticos, os mesmos veículos de comunicação que diariamente fustigam o Governo com denúncias sobre escândalos e sonham com a judicialização da política e a próxima eleição presidencial sendo decidida pelo Supremo Tribunal federal.

Se no plano sócio-econômico os governos petistas são reconhecidos internacionalmente pelas medidas de inserção social, eliminação da pobreza, aumento do poder aquisitivo da chamada “nova classe média”, e crescimento do mercado de consumo interno, no plano simbólico-midiático mantém-se estático e subjugado aos “barões da mídia”. Mesmo depois de três mandatos presidenciais consecutivos.

Por que? Sadomasoquismo? Covardia? O resultado de um governo de coalização obrigado a encontrar um ponto de equilíbrio entre diferentes grupos de interesses? A sedução pelo holofote que as grandes mídias oferecem?

E se o problema do PT não for em relação à Política, mas em relação ao imaginário da Política? Ou talvez o “problema” não seja em relação ao partido. O PT hoje faz o jogo parlamentar que no passado era acusado de recusar por ser considerado um partido sectário e formado por radicais. Talvez o “problema” esteja nas nossas expectativas em relação ao que representa ser “de esquerda”, as nossas expectativas em relação ao próprio imaginário da Política.

O Poder não existe

Em 1977 em seu texto “A Luta Encantada ou a Flauta Final” o pensador francês Jean Baudrillard apresentou uma hipótese irônica e que lhe valeu a pecha de intelectual direitista: a esquerda jamais esteve interessada no poder, e que as sucessivas lutas políticas da esquerda não passam de algo artificial por excelência, marcado pelo simulacro da tensão revolucionária artificial. A ironia, para Baudrillard, está no fato de a esquerda critica o poder sempre, mas não toma a iniciativa de assumi-lo.

Mais tarde em outro texto chamado “Partidos Comunistas: Paraísos Artificiais da Política” Baudrillard apresentava três teses ao criticar o discurso de Enrico Berlinguer (secretário do partido comunista Italiano de 1972 a 1984): (1) os comunistas não mudarão nada se chegarem ao poder; (2) os comunistas não querem chegar ao poder; e (3) a tese totalmente niilista: não há perigo em ganhar o poder, porque o poder, de fato, não existe.

Em toda história, essa substância se manifestou em diversos lugares e situações: no corpo do rei (na concepção fisiológica do Poder, quem o detém é porque possui características natas no próprio corpo, o “sangue azul”, por exemplo); na inteligência instrumental do príncipe (a concepção maquiavélica do Poder, onde a política é pensada como um jogo cênico‑teatral de aparências, através do qual a vontade política se esgueira pela mentira); no Leviatã de Hobbes (Estado totalitário e centralizador, necessário para impedir a situação de anomia provocada pelo confronto dos interesses egoístas); no Estado Liberal burguês (onde o Poder é definido como espaço vazio, ocupado periodicamente pelo representante de uma vontade política pública e consensual) ou no Estado da ditadura do proletariado de Lênin e Stálin onde o Poder revolucionário é meio de liberação das forças produtivas e sociais amarradas historicamente pelas classes dominantes.
Na ciência política, o Poder sempre foi pensado como uma substância, ou um topos, em torno da qual gravita uma somatória de partidos políticos, interesses de classe, grupos, tudo enfimque se manifesta no campo político e que produz a politização geral da sociedade

Em todas essas visões o Poder e a Política são vistos como produção de alguma finalidade social. Mas a tese de Baudrillard é outra: e se a necessidade dereprodução tiver dominado o Poder (reprodução da democracia, da participação, dos direitos humanos, do acesso ao mercado, da manutenção macroeconômica) a tal ponto que alcançamos o grau zero da política? Explicando melhor, e se nesses dez anos os governos de esquerda nada mais foi feito do que modernizar um país marcado pelo anacronismo (exclusão, pobreza etc.) diante das necessidades de reprodução do valor e do capital?

Para Baudrillard, ainda pensamos o Poder como um espaço a ser preenchido por uma classe social e a Política como um campo de forças onde se produzem novas finalidades sociais (revoluções, contra-revoluções, golpes, etc.). Talvez o poder desterritorializante e sem limites do valor de troca tenha legado ao Poder a condição se tornar um mero aparelho reprodutor onde todas as ideologias, crenças ou doutrinas gravitariam em torno dessa necessidade imperiosa de reprodução macroeconômica. Em outras palavras, se Baudrillard estiver certo, o reconhecimento internacional pelos projetos de inclusão social dos governos do PT é o reconhecimento do próprio capital pela normalização das funções de reprodução de força de trabalho e consumo.

Ao chegar no poder o PT encontrou o grau zero da política. A sua reticência em relação à Lei dos Meios e os monopólios midiáticos é o primeiro sintoma disso: ele encontrou o limite estrutural do sistema político – o limite simbólico e midiático. Para entendermos um pouco mais isso, devemos ir mais fundo nessa tese de Baudrillard.

Eventos supracondutores

brasil-contra-a-corrupcao-grupo-apartidario-realiza-marcha-contra-a-corrupcao-em-brasiliaA escandalização da Política através das denúncias diárias de corrupção, tráfico de influências ou “mensalões” e a cobertura sensacionalista do terrorismo internacional pelas mídias são eventos que Baudrillard chamava de “supracondutores”.

Para ele, o escândalo das denúncias está para a Política assim como a especulação está para o sistema financeiro. Ambos os sistemas (financeiro e político) já há muito perderam sua finalidade social de produção para serem seduzidos pelo ardil das imagens, da circulação veloz de informação e notícias com um único propósito: simular a existência de algum valor de uso, de alguma finalidade para a existência do Poder, da Política e da Economia.

Para ficar apenas no sistema da Política, a imoralidade, a simulação e a sedução se tornaram componentes determinantes da política, com o propósito de, assim como no sistema financeiro, evitar crises sistêmicas: evitar que a sociedade, afinal, descubra que a inércia dominou a Política, que o Poder perdeu seu poder de atração centrípeda e que ele é apenas mais um dos personagens que gravitam em torno das ondas concêntricas da mídia.

E assim como no sistema financeiro onde a suspeita de que nada exista por trás de papéis, títulos ou compromissos resulta em pânico e corridas para sacar ativos, da mesma forma a Política convive com o fantasma de que um dia o eleitor descubra que por trás da representação democrática nada existe de produção (revoluções, transformações, História, enfim), mas apenas a reprodução da onisciente necessidade de reprodução macroeconômica do valor de troca.

Em termos mais diretos, a incrível tolerância do PT em manter polpudas verbas publicitárias às grandes mídias e a sua omissão em relação à necessidade de um marco regulador para os meios de comunicação representa um ato falho dessa necessidade sistêmica do sistema político manter a espiral de escândalos para manter a miragem referencial de que existe um lugar de Poder a ser disputado. Onde, mesmo na sua indiferença, os eleitores ainda mantenham em seu horizonte a percepção da existência de um lugar chamado Política e Poder.

O sistema político necessita da dose diária dos escândalos das denúncias. Seja quem ocupar o espaço do Poder, terá que fazer parte dessa irônica estratégia de retroalimentação do sistema. Cientistas políticos, críticos e jornalistas parecem ainda partilhar da ilusão de um valor de uso, de uma transparência final das finalidades sociais da Política e do Poder. Mas, como membros que somos de toda a midiosfera (com verbas ou sem verbas publicitárias do Governo), fazemos parte desse irônico jogo de simulação e sedução.

Cinegnose

Citação

Olhos dirigidos ao paraíso gelado

389518-r_640_600-b_1_d6d6d6-f_jpg-q_x-xxyxxO filme Kfraftidioten (2014) não pode ser resenhado por incultos. Pois no máximo eles dirão que se trata de um “gênero Tarantino”. Tem lances de humor e sangue que de fato seguem o estilo de Tarantino, mas a película norueguesa e sueca, do diretor Hans Petter Moland, traduzida por “O cidadão do ano” (procure traduzir você mesmo “Kfraftidioten”), é uma peça original e uma boa crítica do presente. Uma ficção mais próxima do chão (!), digamos assim.  

Escrevi esses dias que nos Estados Unidos de hoje há um candidato socialista que fustiga Hilary Clinton (artigo aqui). Ele diz que gostaria de ver os Estados Unidos antes como uma social-democracia nórdica que como um centro do liberalismo avançado socialmente. Ao mesmo tempo, uma das melhores séries de gansters do momento, produzida em associação americana e norueguesa, é a Lilyhammer (de Eilif SkodvinAnne Bjørnstad, 2012), que diz respeito à Noruega atual (com um fantástico capítulo no Brasil). Nos dois casos, do filme Kfraftidioten e da série, o que observamos? Que há americanos olhando para os países ricos do Atlântico Norte, e que o candidato Bernie Sanders, que fustiga Hilary, não fala algo que não está no ar.

Entre políticos, intelectuais e diretores de cinema, há os que estão mostrando que os Estados Unidos já deveriam estar naquela situação nórdica, civilizados e sem pobres, outros estão apontando para o fato de que, naquela paraíso, alguns problemas permanecem, e até estão sendo importados da América, Europa e até do Brasil. O paraíso social-democrata não é o de Adão. Bom sinal: o paraíso, ainda que desejável, está sendo visto com senso crítico e humor. É um sinal de que podemos sonhar e ao mesmo tempo sem sermos ingênuos?

O que existe nas democracias ricas nórdicas é o Welfare State efetivamente alcançado, e como algo diferente de outros que, até bem pouco tempo, pareciam poder funcionar fora do gelo, como o da França, Itália, Inglaterra ou até mesmo o do esboço americano. É mais estável que outros. Funciona segundo uma social democracia que absorveu padrões do “politicamente correto” sem que este tenha se deteriorado na versão criticada até por tolos (ou melhor, criticada mais por tolos) no Brasil, uma vez que não serve para garantir só os que estão livres, mas também os que vão presos. Todavia, em meio ao paraíso, como a série e o filme citados mostram, alguns problemas do mundo moderno permanecem vivos: frustrações típicas do nosso tempo envolvido em burocracias aparentemente sem rosto, crimes não puníveis, homossexualismo reprimido, solidão da mulher, maridos isolados, famílias passivas, pequenos e grandes Al Capones soltos dividindo territórios, drogas em uso assustadoramente alto e segundo um comércio que se autoprotege de modo sofisticado.

A série e o filme mostram que a social-democracia pode mesmo realizar o que prometeu, mas que se tenha na cabeça que um regime político, de esquematização do estado, não tem poder para fazer da terra dos homens uma terra de bondade, sem problemas. Não estou usando aqui do cliché “o mundo dos mortais é sempre o mesmo”. Nada disso. Estou dizendo que os problemas postos pela modernidade se mostram presentes no Estado de Bem Estar Social que funciona. O que vale dizer que talvez a filosofia política tenha menos a dizer agora, mas a filosofia de um modo geral não disse tudo.

images-31Tanto a série quanto o filme mostram que o gangsterismo dos anos trinta, imortalizado pelo cinema americano, não é uma ficção reposta desterritorializada nesse novo cinema atual, mas que ele efetivamente existe, na realidade, e isso porque há situações que perderam suas raízes e, afastadas de seus rituais, atingiram a condição separada, alienada, que torna tudo perigoso. A droga e os seus problemas derivados tem a ver com isso. Não há mais ritual para a droga, nem religioso e nem hippie, nem místico e nem “produtivo”. A droga aparece em uma situação moderna típica do que deve ocorrer com aquilo que Hannah Arendt chamou de elemento de consumo, não elemento de uso. É a droga pela droga para quem a consome. Para quem a trafica, é a droga pelo dinheiro. Mas isso em uma situação em que ambos já são equivalentes universais do mercado. Desse modo, tanto faz o dinheiro pelo dinheiro ou a droga pela droga. Ninguém mais sabe o se faz com o que se tem.

Claro, na sociedade em que, como Debord disse, o ser e o ter não precisam mais se oporem, porque tudo é da ordem do aparecer e parecer, pode-se ter dinheiro para aparecer e ter a droga para aparecer de modo melhor, isto é, feliz. A felicidade, ou melhor, sua aparência, se tornou uma obrigação. Mas a questão é que esse é o consumo que consome o consumidor. Não existe usuário de droga. Ninguém usa a droga, nem a droga usa alguém. A droga e o mundo produzido por ela consomem suas vítimas e heróis.

Mas, não é a droga o problema moderno. Ele é pedaço pequeno dele. O problema moderno que essas películas das séries de TV-internet e cinema mostram, que está vigente na social democracia rica, é que os ritos todos perderam o sentido no mundo, e que no território gelado isso se mostra de maneira muito mais escancarada. O homem moderno não tem expediente, não tem procedimentos que se devam obedecer por mais de um mês. Tratados podem ser desfeitos, ordens podem ser cumpridas ou não, palavras empenhadas não valem e ao mesmo tempo valem um assassinato ou vários. Há uma extrema passividade no interior de um frenesi para se manter a passividade. O gangsterismo dos filmes mostra bem o funcionamento do entretenimento moderno, o celular cheio de joguinhos e ligado ao Facebook e ao WhatsApp e coisas do gênero, onde todos simulam estar na adrenalina máxima; é um globo da morte em alta velocidade, mas como todo globo da morte, tendo as motos girando no mesmo círculo. No mundo da novidade, nada é realmente novo.

Há certo tédio gelado no mundo gelado de tipo norueguês, uma cena alegórica para o resto do mundo, como se a mensagem fosse a seguinte: o paraíso, aguardem os que acham que vão chegar nele, é frio.

Paulo Ghiraldelli

O horror, o horror

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A terra não parecia terrestre. Habituámo-nos à forma algemada de um monstro vencido, mas ali – ali podia ver-se qualquer coisa monstruosa e livre. Não parecia terrestre e os homens… não, desumanos não eram. Bem pior do que isso – era a suspeita de não serem desumanos. Aos poucos se chegava a tê-la. E eles gritavam, saltavam, rodopiavam e faziam caretas que eram um horror; embora nos assustasse a sensação de terem uma humanidade – igual à nossa -, a ideia de termos um parentesco remoto com aquela selvagem e apaixonada refrega. Feia. Muito feia, sim; mas fôssemos bastante homens e não deixaríamos de admitir intimamente que existe em nós um traço de simpatia embora diluído pela terrível franqueza daquele barulho, a obscura suspeita de conter um significado que nós – tão afastados, já, da noite das primitivas idades – podemos compreender. E porque não? O espírito humano de tudo é capaz – porque dentro dele há tudo, não só o passado como o futuro. E ali, ao fim e ao cabo o que havia? Contentamento, dor, devoção, coragem, raiva – sei lá! – mas principalmente verdade – verdade despida da sua máscara de tempo. Deixemos o louco abrir a boca e tremer – pois o homem compreende e pode ver sem pestanejar.

Joseph Conrad

em O coração das trevas

No coração das trevas em que se está transformando o Brasil, resvalando para se tornar o antigo Congo Belga, os policiais humilham e violentam ad nausean um morador de rua. A postura revela e traduz o desejo de parte da sociedade de tirar as condições dos sem teto de sobreviverem nas ruas. Fazê-los desaparecer. Da invisibilidade psicológica para a invisibilidade física. Para a morte… Isto me lembra, na contracorrente, o texto de Daniel Quinn, que cito abaixo, do seu livro Além da civilização:

Deixe meu povo ir embora!

Os moradores de rua estão “além da civilização” porque estão além do alcance da hierarquia da civilização, que tem-se mostrado incapaz de criar uma extensão estrutural que os inclua. O máximo que consegue fazer é oprimi-los, atormentá-los e obstruí-los. Para entrar em acordo com os moradores de rua seria necessário “deixá-los ir embora”, de forma bem parecida com o faraó bíblico que deixou os israelitas irem embora.

Estou dizendo que, na verdade, os moradores de rua querem ser moradores de rua? Não exatamente. Alguns são “temporários”: aterrissaram nas ruas depois de uma maré de azar e tudo quanto querem é voltar à estrada do sucesso da classe média. Nenhuma de minhas propostas atrapalharia isso. O resto deles está nas ruas não necessariamente porque adoram ser moradores de rua, mas porque as alternativas são piores do que ser morador de rua — internamento, infindáveis maus-tratos familiares, envolvimento com sistemas de assistência social cegos ou indiferentes às suas necessidades, e labuta num mercado de trabalho que não oferece nenhuma esperança real de mobilidade ascendente.

Mas persiste o fato de que muitos que se tornam moradores de rua inicialmente contra a vontade mais tarde adquirem uma nova perspectiva da situação.

“Gosto do jeito que a minha vida é agora”

Foi isso o que um morador de galerias subterrâneas disse à repórter Jennifer Toth. E explicou: “Sou independente e faço o que quero. Não que eu seja preguiçoso ou não queira trabalhar. Ando por toda a cidade quase todos os dias para catar latas. É a vida que eu quero”. Outro morador de galerias subterrâneas contou ter sido perseguido por um irmão que queria que ele voltasse a ter uma vida normal: “Ele me ofereceu dez mil dólares. Ele não entende! É aqui que eu quero estar agora. Talvez não para sempre, mas agora, sim”.

Um dos sujeitos de David Wagner, que fugiu de espancamentos constantes que recebia em casa, descobriu que a vida nas ruas “era legal, eu dormia quando queria, saía com as pessoas, bebia. Era livre como um passarinho”. Outro, que fugiu de um lar abusivo aos doze anos de idade, disse: “Era ótimo. Eu viajava, descia até o litoral, até o sul. Era maravilhoso, e eu não voltava nunca, acontecesse o que acontecesse”.

Mesmo quando a rua seja apenas a alternativa menos ruim, as pessoas sentem muitas vezes que tem mais apoio aqui do que tinham em casa. Um garoto que fugiu de casa, ao descrever seus amigos da rua para Katherine Coleman Lundy, disse: “Se eles precisavam de comida, precisavam de uns dólares, eu dava uns dólares pra eles… Sempre que eu precisava de alguma coisa, se eu precisasse, e eles tivessem, eles me davam”. Outro garoto que fugiu de casa disse a Jennifer Toth: “Temos apoio de verdade uns dos outros, não de um assistente social por uma hora só, mas de pessoas que gostam de você pra valer e te entendem”.

Que vai resultar disso?

Se deixarmos os moradores de rua encontrarem seus próprios refúgios e os ajudarmos a tornar esses lugares habitáveis (em vez de afugentá-los sempre que se estabelecerem), se os dirigirmos para as enormes quantidades de comida que são jogadas fora diariamente (em vez de obrigá-los a mendigar comida nos abrigos), se os auxiliarmos ativamente a se sustentar de acordo com seus próprios termos (e não de acordo com os nossos), pense bem: os moradores de rua deixarão de existir em grande medida como “um problema”. Seriam pessoas com quem sempre estaríamos trabalhando nas cidades, como a manutenção das ruas. As ruas de nossas cidades nunca vão ficar “em perfeito estado”. Sempre vão precisar de reparos — e nós sempre vamos cuidar de sua manutenção. Não pensamos na manutenção das ruas como “um problema” porque é algo com que entramos em acordo.

Se quisermos entrar em acordo com os moradores de rua, nós e eles (para variar) vamos trabalhar juntos em vez de entrarmos em desavença. Manter as pessoas abrigadas, alimentadas e protegidas se tornaria uma preocupação comum e uma tarefa comum.

Entrar em acordo com os moradores de rua não significa que os mendigos, as mulheres sem teto que andam com todos os seus pertences numa sacola e os bêbedos vão desaparecer — assim como a manutenção das ruas não significa que os buracos, as filas duplas e os engarrafamentos vão desaparecer. Entrar em acordo com os moradores de rua (como entrar em acordo com os terremotos) significa enfrentar a realidade, não significa eliminá-la.

Não estou COMPLETAMENTE sozinho!

Quase ao final de seu estudo notável sobre moradores de rua, Checkerboard Square: Culture and resistance in a homeless community, David Wagner escreve:

“E se os moradores de rua… tivessem a oportunidade de ter mobilidade coletiva e recursos coletivos em vez de fiscalização, vigilância e tratamento individual? E se as redes sociais densas e as sub-culturas coesas que constituem as comunidades de moradores de rua fossem utilizadas por advogados, assistentes sociais e outros? E se fosse oferecida moradia perto das áreas geográficas em que os grupos de moradores de rua se reúnem, moradias decentes que não exijam abandonar o grupo, mas que pudessem ser partilhadas com os amigos da rua… E se os benefícios sociais fossem distribuídos, não individual, mas coletivamente, de modo que a renda de manutenção ou recursos para comida, abrigo e outros bens fossem dados a um grupo inteiro de pessoas, não a indivíduos? Isto é, não seria necessário uma pessoa esperar horas a fio, fazer um relatório detalhado de todos os aspectos de sua vida pessoal e ir constantemente ao escritório de um assistente social para receber um novo atestado — bastaria obter um subsídio coletivo como parte de um grupo de moradores de rua (ou qualquer outro grupo de pessoas pobres)”.

Todas essas sugestões (que até Wagner concorda que são radicais) representam entrar em acordo com as realidades dos moradores de rua. Pretendem ajudá-los a viver decentemente enquanto são moradores de rua — e viver da maneira que eles querem viver (e não como os funcionários do governo pensam que eles devem viver).

Objeções

A idéia de entrar em acordo com os moradores de rua vai levantar objeções de todos os lados. Os liberais vão entendê-la como “desistir” de resolver o problema dos moradores de rua, mas isso seria o mesmo que dizer que entrar em acordo com a deterioração das ruas significa desistir de resolver o problema das ruas. Entrar em acordo com os moradores de rua significa ouvir os pobres, que acreditam ter condições de cuidar de si mesmos — com a ajuda que desejam em vez da ajuda que os habitantes de casas respeitáveis pensam que eles “devem ter”.

Na outra extremidade do leque político, os conservadores vão interpretar a proposta de entrar em acordo com os moradores de rua como passar a mão na cabeça dos que vivem de graça e que devem ser disciplinados e punidos até “arranjarem um emprego”. Vão acabar entendendo que é o mesmo que ajudar um pescador pobre a conseguir um equipamento de pesca em vez de lhe dar um peixe para comer.

No entanto, as objeções das autoridades do governo serão muito ruidosas porque sua questão com os moradores de rua vai além de meros princípios. Muita gente vive “combatendo” o problema dos moradores de rua e vêem seu desaparecimento como ameaça ao seu ganha-pão (embora seja evidente que não são bobos para colocar a questão dessa forma).

Na Los Angeles de 1998, roubar um carrinho de supermercado custava uma multa de mil dólares e cem dias atrás das grades. Quando um doador anônimo distribuiu “legalmente” cem carrinhos de supermercado a moradores de rua, as autoridades amarraram a cara e denunciaram a atitude como “bem intencionada, mas equivocada”.

A mais forte de todas as objeções

Entrar em acordo com os moradores de rua — permitir realmente que os pobres ganhem a vida nas ruas — abriria as portas da prisão da nossa cultura. Os excluídos e os insatisfeitos viriam todos para fora. Seria o primeiro grande movimento de pessoas para aquela terra de ninguém social e econômica que chamo de “além da civilização”.

A Tribo do Corvo, deixando de ser reprimida, cresceria — talvez explosivamente.

Não queremos que isso aconteça, queremos? Deus do céu, não. Seria caótico. Poderia até ser excitante.

Carlos, um garoto que fugiu de casa e vivia num bueiro do Riverside Park de Manhattan, disse a Jennifer Toth: “Eu mudaria o mundo para haver um lugar para nós. Um lugar bom onde a gente pudesse ter liberdade mesmo, e não viver num buraco”.

Algumas idéias perigosas aqui… um lugar para os moradores de rua… um lugar bom… liberdade mesmo… não num buraco…

Ponham mais guardas vigiando os muros. Reforcem os portões.

Daniel Quinn

A verdade nua e crua: para reflexão num dia de greve geral

Nota:

Eduardo Marinho tem outro vídeo (Ver abaixo) onde é alcunhado de “filósofo da rua”. Na minha opinião é um “nietzschiano” de madeira boa. Creio que se aproxima bem do tipo “Übermensch” descrito por Nietzsche no seu Zaratustra. Com certeza não é o “último homem”. Não pelo seu apreço ao homem desprotegido ou pobre, representado na grande massa de homens explorados e inferiorizados, mas pelo apreço à força trágica desses indivíduos que superam as adversidades. Parece repetir, no subtexto, o adágio nietzschiano “Aquilo que não me mata, só me fortalece”.

Veja abaixo mais vídeos sobre o Eduardo Marinho.

Ver “eduardo marinho” no Youtube.

Em  Nietzsche: A morte de Deus, o nascimento do Superhomem para enfrentar o niilismo e polêmica com os nazistas há trechos que conceituam o Übermensch com características bem próximas do que propões o Eduardo Marinho para a sua própria vida:

  • O Übermensch experimenta a vida com maior intensidade e profundidade do que a humanidade comum
  • O Übermensch cria seus próprios valores, ao invés de apenas aceitar os ensinamentos morais dos outros.
  • O Übermensch “vive perigosamente” no sentido de que ele valoriza coisas como novidade, criatividade, rigor intelectual, honestidade consigo mesmo, e intensidade da experiência, ao invés de mero conforto; ele procura alegria, não contentamento.
  • O oposto do Übermensch é o “último homem”, termo de Nietzsche para o tipo de pessoa que não deseja nada além do conforto e satisfação.
  • O modelo para o  Übermensch é o herói aristocrático, o tipo de indivíduo com grande alma representados por figuras da mitologia grega. Mas a grandeza do Übermensch é espiritual; se ele é um guerreiro, é no reino do conhecimento, ideias, e as artes.
  • O Übermensch ama a vida e o mundo para o último grau: ele quer o eterno retorno de todas as coisas, incluindo a sua própria vida, e até mesmo a vida daqueles que ele despreza. Isto é, independentemente de a doutrina do eterno retorno ser realmente verdade, ele deseja que ela seja verdadeira.

Ainda no artigo citado acima é analisada a importância do conceito do Übermensch:

Quão importante é o Übermensch na filosofia de Nietzsche como um todo?

A ideia do “SuperHomem” Übermensch está intimamente associada com Nietzsche, e muitas vezes é considerada estando no centro de seu pensamento, juntamente com conceitos como o eterno retorno e a vontade de potência . Na verdade, porém, ele só aparece em um livro: Zaratustra . Dificilmente é mencionado em algum dos seus outros escritos publicados, e só ocorre ocasionalmente nas notas que foram finalmente publicadas por sua irmã como A Vontade de Poder.

Por que ele parece abandonar a ideia do seu Superhomem depois de Zaratustra? Uma explicação plausível é que a ideia de uma espécie de ser humano que é tão distante de nós como nós somos do macaco não pode realmente inspirar-nos, uma vez que realmente não pode ser imaginada. Consequentemente, nas obras que vêm depois de Zaratustra, Nietzsche se concentra em descrever o indivíduo de alma grande, o tipo de pessoa que é “nobre”.

O conceito do Übermensch em Nietzsche está ligado à idéia de um tipo que estaria apto para abraçar a revelação acachapante do “eterno retorno” e usar como ferramenta cotidiana o “amor fati”. Os nazistas, com ajuda da sua irmã, idealizaram o homem superior cujo modus operandi não podia se desviar da supressão e opressão de “raças inferiores”. Nietzsche abandonou a idéia de superioridade como diferença em favor da autonomia e do jardim acolhedor com uma convidativa porta de entrada. Talvez inspirado no “filósofo do jardim“. Jardim onde “Epicuro ignora o ideal cívico e o substitui por um ideal afetivo”.

174. MODA MORAL DE UMA SOCIEDADE MERCANTIL

Por trás desse principio da atual moda moral: “As ações morais são as ações de simpatia para com os outros”, vejo dominar o instinto social do temor que assume assim um disfarce intelectual: esse instinto põe como princípio superior, o mais importante e o mais próximo, que é necessário retirar da vida o caráter perigoso que possuía outrora e que cada um deve ajudar nisso com todas as suas forças. É por essa razão que unicamente as ações que visam à segurança coletiva e ao sentimento de segurança da sociedade podem receber o atributo de “bom”! — Quão poucos prazeres devem desde logo ter os homens para consigo mesmos, para que tal tirania do temor lhes prescreva a lei moral superior, para que se deixem assim intimar sem contestação para não tirar ou desviar o olhar de sua própria pessoa, mas ter olhos de lince para toda miséria, para todo sofrimento dos outros! Com nossa intenção, impelida até o extremo, de querer aparar todas as asperezas e todos os ângulos da vida, não estamos no caminho certo para reduzir a humanidade até transformá-la em areia? Em areia! Uma areia fina, tênue, granulosa, infinita! É este seu ideal, ó heróis dos sentimentos simpáticos? — Entretanto, resta saber se porventura se serve mais ao próximo correndo imediatamente e sem cessar em seu socorro e ajudando-o — o que só pode ser feito muito superficialmente, a menos que se se torne penhora tirânica — ou fazendo de si mesmo algo que o próximo vê com prazer, por exemplo, um belo jardim tranqüilo e fechado que possua altas muralhas contra as tempestades e a poeira das grandes estradas, mas também uma porta acolhedora.

Aurora, Nietzsche

Eduardo “Zaratustra” Marinho aparentemente não quer seguidores. Quer reflexão espalhada à granel nas mentes de todos. Suas falas são construídas na “observação” e na “absorção” de uma compreensão norteadora. Mas que cada um deve adquirir. Não receber dele. E para adquirir é preciso buscar a experiência e o perigo. E ultrapassar o perigo, incólume, com a arma da experiência.

A Essência da Realidade, David Deutsch

a_essencia_da_realidade_1284239045bHá mais de 10 anos entrei numa livraria para dar uma olhada nas novidades na estante de Informática. Sim, naquela época a Informática era destaque e havia uma estante separada. Na estante do lado estavam os livros de Administração. Por acaso vi um livro com o título A Essência da Realidade. Talvez fosse sobre alguma “realidade” afetando a administração de alguma empresa. Resolvi dar uma olhada no livro. Conclui que estava na estante errada. Falava de Física, Mecânica Quântica, Teoria de Tudo, Teoria da Informação, Games com Realidade Virtual, viagem no tempo, multiversos etc. Eu simplesmente não conseguia parar de ler. Só não comprei porque era bem caro, e ainda é (Na Estante Virtual custa mais de R$ 300,00 hoje). Anotava a página e voltava na livraria para ler mais.

Cito abaixo alguns fragmentos de textos do livro que me capturaram:

Prefácio

Se há uma única motivação para a visão de mundo descrita neste livro, é que graças principalmente a uma sucessão de descobertas científicas extraordinárias, agora possuímos algumas teorias extremamente profundas sobre a estrutura da realidade. Se tivermos de entender o mundo em um nível mais do que superficial, deve ser por meio dessas teorias e da razão, e não dos nossos preconceitos, opiniões recebidas ou até do senso comum. Nossas melhores teorias não são somente mais verdadeiras que o senso comum, elas fazem muito mais sentido. Devemos levá-las a sério, não meramente como fundamentos pragmáticos para seus respectivos campos, mas como explicações do mundo. E acredito que podemos alcançar o mais amplo entendimento se não as considerarmos isoladamente, mas em conjunto, pois elas estão inextricavelmente relacionadas.

Pode parecer estranho que esta sugestão – de que devemos tentar formar uma visão de mundo racional e coerente com base nas nossas melhores e mais fundamentais teorias – deva ser nova ou controversa. Contudo, na prática ela é. Um motivo é que cada uma dessas teorias tem, quando levada a sério, implicações muito contra-intuitivas. Consequentemente, foram feitos todos os tipos de tentativas para evitar enfrentar essas implicações, fazendo modificações “ad hoc” ou reinterpretações das teorias ou estreitando arbitrariamente seu domínio de aplicabilidade, ou simplesmente usando-as na prática, mas não extraindo nenhuma conclusão mais ampla. Deverei criticar algumas dessas tentativas (nenhuma das quais, acredito, tem muito mérito), mas apenas quando isso for um meio conveniente de explicar as próprias teorias. Pois este livro não é primordialmente uma defesa dessas teorias: é uma investigação sobre como seria a estrutura da realidade se elas fossem verdadeiras.

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A Teoria de Tudo

Lembro-me que me disseram, quando criança, que nos tempos antigos era possível a uma pessoa muito instruída saber tudo o que era conhecido. Também me disseram que hoje em dia existe tanto conhecimento que ninguém seria capaz de aprender mais do que uma pequena fração dele, mesmo durante uma vida longa. Esta última afirmação me surpreendeu e desapontou. Na verdade, recusei-me a acreditar nela. Não sabia como justificar a minha descrença, mas sabia que não queria que as coisas fossem assim e invejava as pessoas instruídas de antigamente. Não que eu quisesse memorizar todos os fatos descritos nas enciclopédias do mundo; ao contrário, eu odiava memorizar fatos. Não era nesse sentido que eu esperava ser possível saber tudo o que era conhecido. Não me desapontaria ouvir que todos os dias aparecem mais publicações do que qualquer um poderia ler em uma vida inteira ou que existem 600.000 espécies conhecidas de besouros. Eu não tinha desejo de acompanhar a queda de cada pardal. Nem imaginava que um sábio antigo que supostamente sabia tudo o que era conhecido teria sabido tudo a respeito desse tipo de coisa. Eu tinha em mente uma ideia mais discriminadora do que deveria ser considerado como sendo conhecido. Por “conhecido” eu queria dizer entendido.

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Futuro primitivo

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O futuro primitivo, de John Zerzan, traz o problema da hierarquização no surgimento da civilização para o momento em que o simbólico passou a desempenhar um papel forte na cultura.

Ver também

Preconceitos… Pré-conceitos…

Preconceito é um “juízo” preconcebido, manifestado geralmente na forma de uma atitude discriminatória perante pessoas, culturas, lugares ou tradições considerados diferentes ou “estranhos”. Ao ser usado no sentido pejorativo costuma ser simplista, grosseiro e maniqueísta. As formas mais comuns de preconceito são: social, “racial“, cultural e “sexual“.[1] Para o indivíduo ser ou não preconceituoso podemos avaliar suas formas de socialização, isso distinguirá seus primórdios e no que ele virá a se transformar. Este processo, será explicado por culturas e a própria história no contexto em que se está inserido. Geralmente a pessoa que tende a ter esse tipo de sentimento, não o faz apenas por um só tipo, ele engloba todos os preconceitos e alimenta todos eles. O assunto em questão diz mais sobre a pessoa preconceituosa do que aquele que está sofrendo com este, por causa das características identificadas.

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