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A Relatividade do Errado

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Outro dia eu recebi uma carta. Estava escrita à mão em uma letra ruim, tornando a leitura muito difícil. Não obstante, eu tentei devido à possibilidade de que fosse alguma coisa importante. Na primeira frase, o escritor me disse que estava se formando em literatura Inglesa, mas que sentia que precisava me ensinar ciência. (Eu suspirei levemente, pois conhecia muito poucos bacharéis em literatura inglesa equipados para me ensinar ciência, mas sou perfeitamente ciente do meu estado de vasta ignorância e estou preparado para aprender tanto quanto possa de qualquer um, então continuei lendo.)

Parece que em um de meus inúmeros ensaios, eu expressei certa felicidade em viver em um século em que finalmente entendemos o básico sobre o universo.

Eu não entrei em detalhes, mas o que eu queria dizer era que agora nós sabemos as regras básicas que governam o universo, assim como as inter-relações gravitacionais de seus grandes componentes, como mostrado na teoria da relatividade elaborada entre 1905 e 1916. Também conhecemos as regras básicas que governam as partículas subatômicas e suas inter-relações, pois elas foram descritas muito ordenadamente pela teoria quântica elaborada entre 1900 e 1930. E mais, nós descobrimos que as galáxias e os aglomerados de galáxias são as unidades básicas do universo físico, como descoberto entre 1920 e 1930.

Veja, essas são todas descobertas do século vinte.

O jovem especialista em literatura inglesa, depois de me citar, continuou me dando uma severa bronca a respeito do fato de que em todos os séculos as pessoas pensaram que finalmente haviam compreendido o universo, e em todos os séculos se provou que elas estavam erradas. Segue que a única coisa que nós podemos dizer sobre nosso “conhecimento” moderno é que está errado. O jovem citou então com aprovação o que Sócrates disse ao saber que o oráculo de Delfos o tinha proclamado o homem o mais sábio da Grécia: “se eu sou o homem o mais sábio”, disse Sócrates, “é porque só eu sei que nada sei”. A consequência era que eu era muito tolo porque tinha a impressão de saber bastante.

Minha resposta a ele foi esta: “John, quando as pessoas pensavam que a Terra era plana, elas estavam erradas. Quando pensaram que a Terra era esférica, elas estavam erradas. Mas se você acha que pensar que a Terra é esférica é tão errado quanto pensar que a Terra é plana, então sua visão é mais errada do que as duas juntas”.

O problema básico é que as pessoas pensam que “certo” e “errado” são absolutos; que tudo que não é perfeitamente e completamente certo é totalmente e igualmente errado.

Entretanto, eu penso que não é assim. Parece-me que certo e errado são conceitos nebulosos, e eu devotarei este ensaio a explicar por que eu penso assim.

… Quando meu amigo, o perito em literatura inglesa, me disse que em todos os séculos os cientistas pensaram ter entendido o universo e estavam sempre errados, o que eu quero saber é quão errados estavam eles? Todos estão errados no mesmo grau? Vamos dar um exemplo.

Nos primeiros dias da civilização, a sensação geral era que a Terra era plana. Não porque as pessoas eram estúpidas, ou porque queriam acreditar em coisas estúpidas. Achavam que era plana por evidências sólidas. Não era só uma questão de “parece que é”, porque a Terra não parece plana. Ela é caoticamente irregular, com montes, vales, ravinas, penhascos, e assim por diante.

Naturalmente há planícies onde, em áreas limitadas, a superfície da Terra parece relativamente plana. Uma dessas planícies está na área do Tigre/Eufrates, onde a primeira civilização histórica (com escrita) se desenvolveu, a dos Sumérios.

Talvez tenha sido a aparência da planície que convenceu os Sumérios inteligentes a aceitar a generalização de que a Terra era plana; que se você nivelasse de algum modo todas as elevações e depressões, sobraria uma superfície plana. Talvez tenha contribuído com essa noção o fato que as superfícies d’água (reservatórios e lagos) parecem bem planas em dias calmos.

Uma outra maneira de olhar é perguntar qual é a “curvatura” da superfície da terra ao longo de uma distância considerável, quanto a superfície se desvia (em média) do plano perfeito. A teoria da Terra plana diria que a superfície não se desvia em nada de uma forma chata, ou seja, que a curvatura é 0 (zero) por milha.

É claro que hoje em dia aprendemos que a teoria da Terra plana está errada; que está tudo errado, enormemente errado, certamente. Mas não está. A curvatura da terra é quase 0 (zero) por milha, de modo que embora a teoria da Terra plana esteja errada, está quase certa. É por isso que a teoria durou tanto tempo.

Havia razões, com certeza, para julgar insatisfatória a teoria da Terra plana e, por volta de 350 A.C., o filósofo grego Aristóteles as resumiu. Primeiro, algumas estrelas desapareciam para o hemisfério do sul quando se viajava para o norte, e desapareciam para o hemisfério norte quando se viajava para o sul. Segundo, a sombra da Terra na Lua durante um eclipse lunar era sempre o arco de um círculo. Em terceiro lugar, aqui na própria Terra, é sempre o casco dos navios que desaparece primeiro no horizonte, em quaisquer direções que viajem.

Todas as três observações não poderiam ser razoavelmente explicadas se a superfície da Terra fosse plana, mas poderiam ser explicadas supondo que a Terra fosse uma esfera.

E mais, Aristóteles acreditava que toda matéria sólida tendia a se mover para o centro comum, e se a matéria sólida fizesse isso, acabaria como uma esfera. Qualquer volume dado de matéria está, em média, mais perto de um centro comum se for uma esfera do que se for qualquer outra forma.

Cerca de um século após Aristóteles, o filósofo grego Eratóstenes notou que o Sol lançava sombras de comprimentos diferentes em latitudes diferentes (todas as sombras teriam o mesmo comprimento se a superfície da Terra fosse plana). Pela diferença no comprimento da sombra, calculou o tamanho da esfera terrestre, que teria 25.000 milhas (cerca de 40.000 km) de circunferência.

Tal esfera se encurva aproximadamente 0,000126 milhas por milha, uma quantidade muito perto de 0, como você pode ver, e que não seria facilmente mensurável pelas técnicas à disposição dos antigos. A minúscula diferença entre 0 e 0,000126 responde pelo fato de que passou tanto tempo para passar da Terra plana à Terra esférica.

Note que mesmo uma diferença minúscula, como aquela entre 0 e 0,000126, pode ser extremamente importante. Essa diferença vai se acumulando. A Terra não pode ser mapeada em grandes extensões com nenhuma exatidão se a diferença não for levada em conta e se a Terra não for considerada uma esfera e não uma superfície plana. Viagens longas pelo mar não podem ser empreendidas com alguma maneira razoável de encontrar sua própria posição no oceano a menos que a Terra seja considerada esférica e não plana.

Além disso, a Terra plana pressupõe a possibilidade de uma terra infinita, ou da existência de um “fim” da superfície. A Terra esférica, entretanto, postula que a Terra seja tanto sem fim como no entanto finita, e é este postulado que é consistente com todas as últimas descobertas.

Assim, embora a teoria da Terra plana esteja somente ligeiramente errada e seja um crédito a seus inventores, uma vez que se considere o quadro todo, é errada o suficiente para ser rejeitada em favor da teoria da Terra esférica.

Mas a Terra é uma esfera?

Não, ela não é uma esfera; não no sentido matemático estrito. Uma esfera tem determinadas propriedades matemáticas — por exemplo, todos os diâmetros (isto é, todas as linhas retas que passam de um ponto em sua superfície, através do centro, a um outro ponto em sua superfície) têm o mesmo comprimento.

Entretanto, isso não é verdadeiro na Terra. Diferentes diâmetros da Terra possuem comprimentos diferentes.

O que forneceu a ideia de que a Terra não era uma esfera verdadeira? Para começar, o Sol e a Lua têm formas que são círculos perfeitos dentro dos limites de medida nos primeiros dias do telescópio. Isso é consistente com a suposição de que o Sol e a Lua são perfeitamente esféricos.

Entretanto, quando Júpiter e Saturno foram observados por telescópio pela primeira vez, logo ficou claro que as formas daqueles planetas não eram círculos, mas claras elipses. Isso significava que Júpiter e Saturno não eram esferas de fato.

Isaac Newton, no fim do século dezessete, mostrou que um corpo de grande massa formaria uma esfera sob atração de forças gravitacionais (exatamente como Aristóteles tinha proposto), mas somente se não estivesse girando. Se girasse, aconteceria um efeito centrífugo que ergueria a massa do corpo contra a gravidade, e esse efeito seria tão maior quanto mais perto do equador. O efeito seria tão maior quanto mais rapidamente o objeto esférico girasse, e Júpiter e Saturno certamente giravam bem rapidamente.

A Terra gira muito mais lentamente do que Júpiter ou Saturno, portanto o efeito deveria ser menor, mas deveria estar lá. Medidas de fato da curvatura da Terra foram realizadas no século dezoito e provaram que Newton estava correto.

Em outras palavras, a Terra tem uma protuberância equatorial. É achatada nos pólos. É um “esferoide oblato” e não uma esfera. Isto significa que os vários diâmetros da terra diferem em comprimento. Os diâmetros mais longos são os que vão de um ponto no equador a outro ponto oposto no equador. Esse “diâmetro equatorial” é de 12.755 quilômetros (7.927 milhas). O diâmetro mais curto é do pólo norte ao pólo sul e este “diâmetro polar” é de 12.711 quilômetros (7.900 milhas).

A diferença entre o maior e o menor diâmetro é de 44 quilômetros (27 milhas), e isso significa que a “oblacidade” da Terra (sua diferença em relação à esfericidade verdadeira) é 44/12755, ou 0,0034. Isto dá 1/3 de 1%.

Em outras palavras, em uma superfície plana, a curvatura é 0 em todos os lugares. Na superfície esférica da Terra, a curvatura é de 0,000126 milhas por milha todos os lugares [ou 8 polegadas por milha (12,63cm/km)]. Na superfície esferoide oblata da Terra, a curvatura varia de 7,973 polegadas por milha (12,59cm/km) a 8,027 polegadas por milha (12,67cm/km).

A correção de esférico a esferoide oblato é muito menor do que de plano a esférico. Consequentemente, embora a noção da Terra como uma esfera seja errada, estritamente falando, não é tão errada quanto a noção da Terra plana.

Mesmo a noção esferoide oblata da Terra é errada, estritamente falando. Em 1958, quando o satélite Vanguard I foi posto em órbita sobre a Terra, ele mediu a força gravitacional local da Terra — e consequentemente sua forma — com precisão sem precedentes. No fim das contas, descobriu-se que a protuberância equatorial ao sul do equador era ligeiramente mais protuberante do que a protuberância ao norte do equador, e que o nível do mar do pólo sul estava ligeiramente mais próximo o centro da terra do que o nível do mar do pólo norte.

Não parecia haver nenhuma outra maneira de descrever isso senão que dizendo a Terra tinha o formato de uma pêra, e muitas pessoas decidiram que a Terra não se parecia em nada com uma esfera mas tinha a forma de uma pêra Bartlett dançando no espaço. Na verdade, o desvio do formato de pêra em relação ao esferoide oblato perfeito era uma questão de jardas e não de milhas, e o ajuste da curvatura estava na casa dos milionésimos de polegada por milha.

Em suma, meu amigo literado em inglês, viver em um mundo mental de certos e errados absolutos pode significar imaginar que uma vez que todas as teorias são erradas, podemos pensar que a Terra seja esférica hoje, cúbica no século seguinte, um icosaedro oco no seguinte e com formato de rosquinha no seguinte.

O que acontece na verdade é que uma vez os cientistas tomam um bom conceito, eles o refinam gradualmente e o estendem com sutileza crescente à medida que seus instrumentos de medida melhoram. As teorias não são tão erradas quanto incompletas.

Isto pode ser dito em muitos casos além da forma da Terra. Mesmo quando uma nova teoria parece representar uma revolução, ela geralmente surge de pequenos refinamentos. Se algo mais do que um pequeno refinamento fosse necessário, então a teoria anterior não teria resistido.

Copérnico mudou de um sistema planetário centrado na Terra para um centrado no Sol. Ao fazer isso, mudou de algo que era óbvio para algo que era aparentemente ridículo. Entretanto, era uma questão de encontrar melhores maneiras de calcular o movimento dos planetas no céu, e a teoria geocêntrica acabou sendo deixada para trás. Foi exatamente porque a teoria antiga dava resultados razoavelmente bons pelos padrões de medida da época que ela se manteve por tanto tempo.

Novamente, foi porque as formações geológicas da Terra mudam tão lentamente e as coisas vivas sobre ela evoluem tão lentamente que parecia razoável no início supor que não havia nenhuma mudança e que a Terra e a vida sempre existiram como hoje. Se isso fosse assim, não faria nenhuma diferença se a Terra e a vida tinham bilhões ou milhares de anos. Milhares eram mais fáceis de se entender.

Mas quando cuidadosas observações mostraram que a Terra e a vida estavam mudando a uma taxa que era minúscula mas não nula, a seguir tornou-se claro que a Terra e a vida tinham que ser muito antigas. A geologia moderna surgiu, e também a noção de evolução biológica.

Se a taxa de mudança fosse maior, a geologia e a evolução alcançariam seu estado moderno na Antiguidade. É somente porque a diferença entre as taxas de mudança em um universo estático e em um evolutivo estão entre zero e quase zero que os criacionistas continuam propagando suas loucuras.

Uma vez que os refinamentos na teoria ficam cada vez menores, mesmo teorias bem antigas devem ter estado suficientemente certas para permitir que avanços fossem feitos; avanços que não foram anulados por refinamentos subsequentes.

Os Gregos introduziram a noção de latitude e longitude, por exemplo, e fizeram mapas razoáveis da bacia mediterrânea mesmo sem levar em conta a esfericidade, e nós usamos ainda hoje latitude e longitude.

Os Sumérios provavelmente foram os primeiros a estabelecer o princípio de que os movimentos planetários no céu são regulares e podem ser previstos, e tentaram achar maneiras de fazê-lo mesmo assumindo a Terra como o centro do universo. Suas medidas foram enormemente refinadas mas o princípio permanece.

Naturalmente, as teorias que temos hoje podem ser consideradas erradas no sentido simplista do meu correspondente bacharel em literatura inglesa, mas em um sentido muito mais verdadeiro e mais sutil, elas precisam somente ser consideradas incompletas.

Isaac Asimov

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Gorduras saturadas para que te quero

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Se você faz dieta low-carb ou paleo a busca pelas gorduras saturadas, as melhores, e a restrição ou eliminação do resto é uma meta que pode ser auxiliada pelo gráfico acima.

Feyerabend e a depressão

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A depressão é tida como o “mal do século”. Não sabemos de qual. Feyerabend, que por causa de sua atitude como cientista, expressa no diálogo intitulado “For and Against method”, com Lakatos, sofria de depressão bem o diz sobre como ela gruda na sua pele como uma sarna e invade seu interior como um alien de filme de terror de ficção científica:

“A depressão esteve comigo durante um ano; como um animal, distintamente, uma coisa que se podia encontrar no espaço. Eu poderia levantar, abrir meus olhos, escutar — Ela está aqui ou não? Nem sinal. Talvez esteja dormindo. Talvez ela me deixe em paz hoje. Cuidadosamente, muito cuidadosamente, eu saio da cama. Tudo está em silêncio. Eu vou até a cozinha, começo a preparar o café. Nenhum barulho. TV –Bom dia América-, David Qual-é-seu-nome. Eu como e vejo os convidados. Lentamente a comida preenche meu estômago e me dá força. Agora uma rápida ida ao banheiro e saio para minha caminhada matinal – e lá está ela, minha fiel companheira, a depressão: “Achou que poderia sair sem mim?”.

Wikipedia

 

Google, um gigante golpeado

Google, um gigante golpeado

por Carlos Drummond publicado 21/07/2017 00h30, última modificação 20/07/2017 17h41

A Comissão Europeia aplica multa bilionária ao Google e traz alento a concorrentes prejudicados no Brasil

Google

Poucas multinacionais são donas da internet, o que significa riscos para os indivíduos

 

A multa recorde de 2,4 bilhões de euros aplicada pela Comissão Europeia ao Google no mês passado alimentou esperanças de alguma contenção, pela esfera pública, do poder dos monopólios globais que, no caso das empresas da internet, gera para a sociedade efeitos negativos muito além da economia e do consumo.

A punição foi aplicada por abuso da posição dominante do Google no mercado de mecanismos de busca, ao dar vantagem ilegal ao seu próprio serviço de comparação dos preços informados nos anúncios divulgados na internet, justificou a Comissão. Mais de 90% da receita da companhia provém de anúncios.

Caso o Google não interrompa a prática até setembro, receberá multa diária em valor correspondente a 5% do faturamento mundial da empresa-mãe, a Alphabet, que atingiu 26 bilhões de dólares no último trimestre do ano passado.

Desde o início dos abusos, diz o relatório da Comissão, o serviço de comparação de preços do Google conseguiu aumentar seu volume de tráfego 45 vezes no Reino Unido, 35 na Alemanha, 19 na França, 29 nos Países Baixos, 17 na Espanha e 14 na Itália. As práticas ilegais provocaram baixas súbitas do tráfego para sites concorrentes, de 85% no Reino Unido, 92% na Alemanha e 80% na França.

Não foi falha ou desleixo, mas um efeito planejado, dizem especialistas. “As pesquisas do Google não foram projetadas para fornecer os resultados mais relevantes e os melhores preços aos consumidores, mas para ele próprio ganhar mais dinheiro. Os consumidores ficam sujeitos a uma escolha reduzida de bens e serviços e, em última análise, pagam preços mais elevados do que se os resultados das buscas para compras oferecessem de fato as melhores opções”, sintetizou o FairSearch, grupo de empresas e entidades dedicadas à defesa da concorrência na busca online, a propósito da multa aplicada pela Comissão Europeia.

O Google teria abusado de sua posição dominante também nos mercados do seu sistema operacional Android, para dispositivos móveis, e do serviço próprio AdSense, que permite aos sites publicar anúncios segmentados. Os dois casos, o primeiro deles denunciado pelo FairSearch, estão sob investigação pela Comissão Europeia.

A decisão da Comissão deu novo alento a sites brasileiros e empresas que lutam no Conselho Administrativo de Defesa Econômica contra o que consideram abusos de poder do gigante da internet no País. A E-Commerce, detentora dos sites Buscapé e Bondfaro, apresentou ao Cade duas denúncias contra o Google. Em 2013, acusou-o de “raspagem” de conteúdo do Buscapé e sua apresentação no Google Shopping americano, prática conhecida como scraping. A companhia disse que isso ocorreu apenas uma vez e se deveu a um erro.

Em 2014, a E-Commerce alegou que o Google Shopping beneficiava o próprio site, em detrimento dos demais comparadores de preço, por meio do posicionamento privilegiado na modalidade chamada de “busca orgânica” e ainda com a apresentação do respectivo link na busca patrocinada, com fotos e em posição de destaque. As denúncias geraram processos em andamento no Conselho.

Outra denúncia foi encaminhada no ano passado ao Cade pela Yelp, empresa com site e aplicativos dedicados à avaliação de estabelecimentos comerciais sediada nos Estados Unidos. O Google estaria utilizando seu poder de mercado para favorecer o próprio mecanismo de buscas locais na internet por informações específicas sobre estabelecimentos no Brasil. Um processo foi aberto no órgão de defesa econômica.

O Google é objeto ainda de um inquérito do Cade instaurado em 2013, a partir de uma denúncia da Microsoft de imposição de restrições à operação entre plataformas de busca patrocinada pela interface AdWords. O resultado seria a criação de dificuldades para a realização do multihoming ou veiculação e gestão de campanhas de busca daquele tipo em mais de uma plataforma.
Lá e cá, o modo de operação é o mesmo.

“As práticas investigadas no Brasil possuem semelhanças com condutas do Google sob exame em outros países, embora em cada local os casos tenham suas particularidades. O exame dos processos, bem como as decisões proferidas sobre eles, é independente. No entanto, o andamento das investigações conduzidas por autoridades de outras jurisdições pode servir de subsídio à análise realizada pelo Cade”, informou à CartaCapital aquela autarquia, vinculada ao Ministério da Justiça.

A punição do órgão executivo da União Europeia ao Google amplia a perspectiva de alguma contenção do poder dos monopólios globais

Assegurar a concorrência em benefício do consumidor é importante, mas há um grande número de outros direitos violados. “A atenção de organismos europeus para a proteção da concorrência em ações de uso de poder dominante para autofavorecimento não se restringe ao comércio online. Há também posicionamentos acerca da coleta de dados pessoais”, sublinha Marina Pita, coordenadora do Coletivo Intervozes, parceiro de CartaCapital.A agência alemã antitruste, diz, investiga se a maior rede social do mundo, o Facebook, abusa de sua dominância, forçando os usuários a aceitar termos injustos acerca da utilização de dados pessoais.

Vários levantamentos mostram um grau de concentração da propriedade igual ou superior ao existente na mídia tradicional, reconhecido como elevado. Quanto mais rápido a sociedade se desvencilhar das ilusões de liberdade na internet e olhá-la com espírito crítico, portanto, melhor para ela. Christian Krell, diretor da Friedrich Ebert Foundation, da Alemanha, resume a situação nesta autocrítica: “Tivemos sonhos de que todos pudessem se informar de forma mais rápida e barata sobre tudo o que nos afeta.

E que pudessem compartilhar sua visão das coisas com os outros. O resultado foi um algoritmo do Facebook que usa cerca de 100 mil indicadores para escolher o que lemos com uma precisão espantosa, individualmente orientada para cada pessoa e seus pontos de vista, ao mesmo tempo que os reforça. Sem o menor vestígio de discussões ou debates mútuos sobre questões de interesse coletivo”.

O pesquisador recorre a um exemplo específico para reforçar seu argumento: “Quando a busca de nomes afro-americanos provoca o surgimento, na tela, de propaganda de agências de proteção ao crédito que fornecem informações sobre infratores, esse padrão é baseado em julgamentos de valor incorporados em uma lógica racista, segundo a qual afro-americanos são considerados com maior frequência criminosos”.

Krell propõe estabelecer uma dimensão ética para a internet, mas é necessário saber quem deverá defini-la. A autorregulação não é solução, por se tratar de um oximoro, conforme alertou o economista Joseph Stiglitz. A impossibilidade de as empresas vigiarem a si próprias, sublinhada pelo Nobel de Economia, é demonstrada todos os dias com revelações de práticas corporativas ilegais, não só contra os consumidores, mas em prejuízo também dos cofres públicos, a exemplo da sonegação sistemática.

Na especialidade de tungar governos e contribuintes, os gigantes da internet são insuperáveis, mostrou o economista Gabriel Zucman, em levantamento abrangente sobre a utilização dos paraísos fiscais. “Os grandes países europeus e os Estados Unidos, onde os reis da sonegação – os Googles, Apples e Amazons – produzem e vendem a maior parte dos seus produtos e serviços, mas com frequência pagam poucos impostos, são os maiores prejudicados.

Grande parte do lucro do Google, que é transferido para as Bermudas, é ganha na Europa; na ausência de paraísos fiscais, essa empresa pagaria mais impostos na França e na Alemanha”, denuncia Zucman.

O controle público esbarra em barreiras nacionais, enquanto as múltis da internet contam com ampla liberdade de articulação transnacional. “Tanto a infraestrutura de rede como os serviços oferecidos e os estoques de dados gerados são, sobretudo, propriedade privada de algumas empresas multinacionais. Essa estrutura faz a digitalização moldar toda a nossa vida e a torna altamente vulnerável”, alerta Krell.

Enquanto, na Europa, instituições e fóruns diversos enfrentam os monopólios, no Brasil, o governo paralisou o funcionamento do Comitê Gestor da Internet, considerado referência internacional na governança multissetorial da rede, denuncia o Intervozes. Composto de representantes do governo, do setor privado, da sociedade civil e de especialistas técnicos e acadêmicos, coordena a atribuição de endereços ou protocolos (os IPs) e o registro de nomes de domínios com o sufixo “br”. Além disso, estabelece diretrizes estratégicas relacionadas ao uso e desenvolvimento da rede no Brasil, como estabelecido no Marco Civil da Internet e em seu decreto regulamentador.

O órgão corre, entretanto, risco de desmonte, pois há mais de um mês o governo segura a edição de uma portaria interministerial de nomeação dos novos integrantes do CGI e resolveu paralisar as atividades do órgão, enquanto as designações não saírem.

Resultado, na avaliação do Intervozes, do incômodo de determinados setores, notadamente os operadores privados e a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), com as ações do Comitê Gestor, contrário ao estabelecimento de franquia de dados na internet fixa e defensor da neutralidade de rede, rejeitada pelas empresas de telecomunicações atuantes no setor, empenhadas na adoção de modelos de negócio mais lucrativos à custa de prejuízos para os usuários.

Carta Capital

Na economia, o todo é diferente da soma das partes

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Falácias da composição

Na economia, o todo é diferente da soma das partes

por Laura Carvalho, na Folha

Hoje em dia, para livrar-se do trânsito, basta seguir a rota sugerida por um aplicativo da moda.

Mas o algoritmo de um bom aplicativo deve estar preparado para mudar a rota quando o trânsito piorar porque todo o mundo resolveu seguir a rota inicialmente indicada.

De mesma forma, em um estádio de futebol, é só ficar de pé para enxergar melhor. Salvo quando todos resolvem levantar-se. Nesse caso, todos perdem visão e conforto.

As chamadas falácias da composição consistem em afirmar que o todo possui a mesma propriedade que as partes que o integram.

Na economia, essas falácias impedem que raciocínios que valem para um agente econômico —uma família ou uma firma, por exemplo— possam ser transferidos para o sistema econômico como um todo. Daí a importância da distinção entre a macro e a microeconomia.

Talvez a falácia da composição mais conhecida na macroeconomia seja o chamado paradoxo da poupança —um dos elementos centrais no desenvolvimento da economia keynesiana e do princípio da demanda efetiva.

Em suma, se uma família resolve consumir menos, sua poupança será maior. Mas, se todas as famílias tomam a mesma decisão, cai a demanda agregada e a própria renda nacional, fazendo com que a poupança total não aumente.

Um outro paradoxo macroeconômico refere-se ao endividamento. Se uma família ou empresa decide gastar menos para pagar suas dívidas, o seu nível de endividamento cai em relação à sua renda. Mas, se todas as famílias, firmas e governo resolvem cortar seus gastos ao mesmo tempo para pagar suas dívidas, a renda nacional cai e o endividamento total aumenta em relação ao PIB.

Da mesma forma, na teoria de deflação de dívidas de Irving Fisher, grandes depressões surgem quando muitos agentes ao mesmo tempo resolvem pagar suas dívidas por meio da venda de seus ativos: o resultado é que o preço dos ativos cai e o endividamento líquido sobe.

Outra falácia da composição está na essência das chamadas guerras fiscais: o Estado que consegue reduzir impostos pode até atrair mais empresas e acabar arrecadando mais, mas, se todos os Estados reduzem impostos, nenhum deles torna-se mais atrativo do que o outro e todos perdem arrecadação.

Por fim, todo empresário sabe que reduzir o custo com a mão de obra é uma forma muito eficaz de ganhar competitividade em relação aos seus concorrentes e/ou aumentar seu lucro.

Mas, se uma mudança reduz o custo com a mão de obra de todos os empresários ao mesmo tempo, não é possível ganhar competitividade em relação aos concorrentes nacionais.

E os exportadores, por sua vez, só ganham competitividade junto a concorrentes estrangeiros que não tenham seguido a mesma estratégia.

Sabemos que não é esse o caso de boa parte do mundo globalizado nas últimas décadas.

E o que é pior. Se vale o chamado paradoxo dos custos de Kalecki, uma redução generalizada de salários em uma economia diminui também o mercado consumidor, reduzindo vendas e lucros.

Em outras palavras, de nada adianta ter uma fatia maior de um bolo menor.

É por essas e outras que a reforma trabalhista aprovada na terça-feira (11) pelo Senado deve, no futuro, decepcionar até mesmo os empresários que a apoiaram. Na verdade, iludem-se os que hoje acham que só os trabalhadores pagarão o pato.

Escala versus complexidade

 

O artigo O mundo está muito complexo, de Denis Russo Burgierman, me chamou a atenção para o trabalho Y. Bar-Yam sobre a complexidade. A abordagem pela dicotomia escala versus complexidade parece bem poderosa e explicativa.

O mundo está muito complexo

Aposto que você também notou: viver está complicado. É muita senha, muita informação, muito ódio, muita opção, muita novidade, muito problema que parece ser insolúvel. Por quê? E tem cura?

Por Denis Russo Burgierman
Publicado em 29 jun 2014, 22h00

angustiaTenho quase certeza de que você sabe do que eu estou falando. Uma certa angústia, uma sensação de que tudo está escorregando do controle. E também uma pitada de desânimo com a ordem geral do mundo, como se não adiantasse fazer nada, porque qualquer esforço vai se perder numa série de consequências inesperadas, e pode até acabar tendo efeito contrário ao pretendido. Caceta, de onde vem isso?

trc3a2nsito1A vida está complicada demais. É muita senha para decorar, muita lei para seguir, muita conta para pagar. É muito trânsito. Muito carro na rua, disputando espaço com caminhão de lixo, e é também muito lixo na calçada à espera de alguém que o recolha. É muito risco, muito crime, muita insegurança.

sistemas-de-gestao-complicado-ou-complexoÉ muito partido político, e nenhum deles parece minimamente interessado nas coisas que são importantes para você. É muita opção de trabalho, mais do que em qualquer momento da história, e ao mesmo tempo é muito difícil encontrar um trabalho que faça sentido. É muita doença estranha de que eu nunca antes tinha ouvido falar, e muita gente morrendo disso. É muita indústria tradicional, de ares eternos, desmoronando de um segundo para o outro. É muita gente saindo da escola sem saber ler nem fazer conta. É muito problema, e cada um parece impossível de resolver. Estou surtando? Só eu estou sentindo isso?

É complexo, mano

examplesPor outro lado, o mundo está cheio de possibilidades, inclusive a de acessar informação ao toque de um dedo. Dei um google, encontrei um texto chamado Complexity Rising (“O aumento da complexidade”), do físico americano Yaneer Bar-Yam, fundador do Instituto de Sistemas Complexos da Nova Inglaterra.

Arrá, está lá: o mundo está mesmo ficando mais complexo, não é paranoia minha. O texto explica o que é complexidade: é o número de coisas conectadas umas às outras. Quanto mais partes um sistema tem, e quanto mais ligações existem entre essas partes, mais complexo ele é. Um exemplo de coisa complexa é o recheio do seu crânio: 86 bilhões de neurônios, cada um deles conectado a vários outros, um emaranhado quase infinito de possíveis caminhos a percorrer.

homo-sapien-huntersSegundo Bar-Yam, a sociedade humana vem constantemente aumentando de complexidade há milênios. No início, quando vovô era caçador-coletor e dava rolezinho na savana africana, vivíamos em grupos de no máximo umas dezenas de pessoas, e cada grupo era basicamente isolado dos outros. A complexidade da sociedade era mínima. Diante disso, nossas estruturas de controle eram bem simples. No geral, um chefe mandando e todo o resto da turma obedecendo – um general e os soldados, um chefe e a ralé.

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Mas a moleza não durou. Primeiro surgiram impérios vastos (Egito, Mesopotâmia, China, Índia) com maior diversidade de necessidades e papéis sociais (escribas, escultores, cozinheiros, prostitutas). A complexidade foi aumentando.

Diante disso, já não funcionava mais o sistema simples de controle direto. Segundo Bar-Yam, existe uma lei universal e sagrada dos sistemas complexos: “a complexidade de um sistema realizando uma tarefa deve ser tão grande quanto a complexidade da tarefa”. Como um faraó é menos complexo do que a sociedade egípcia, não seria possível para o faraó regular e controlar todos os aspectos dessa sociedade. Por isso, foram surgindo hierarquias intermediárias: o mestre de obras para organizar a peãozada, o capitão de navio para mandar na marujada, a madame para cuidar das garotas.

hierarquia_da_empresa_sakarolhaE a humanidade seguiu ficando cada vez mais complexa, mais intrincada, mais especializada. E, para dar conta disso, as hierarquias foram ganhando mais e mais níveis – diretor, vice-diretor, gerente, subgerente, auxiliar, terceiro-auxiliar do subgerente do vice-diretor. Só assim para cada chefe lidar com a complexidade do que está abaixo dele. Até chegar a hoje, quando vivemos na sociedade mais complexa de todos os tempos. Só que aí as hierarquias pararam de funcionar – colapsaram. O mundo ficou tão complexo que ficou impossível para um chefe dominar a complexidade abaixo dele.

Quando Bar-Yam tornou-se especialista em sistemas complexos, na década de 1980, esse não era um ramo glamouroso da ciência. Os físicos preferiam áreas ultraespecializadas e achavam o estudo de grandes sistemas uma coisa meio esotérica. Ele insistiu e sua dedicação valeu a pena. No mundo complexo de hoje, Bar-Yam e seu instituto estão atraindo um monte de clientes importantes.

O exército americano procurou-o para entender como lutar contra inimigos ligados em rede, misturados à população civil em cidades labirínticas – situação bem mais complexa do que as guerras de antigamente. Bar-Yam também tem trabalhado como consultor na reforma dos sistemas de saúde e educação dos Estados Unidos, na estratégia do Banco Mundial para ajuda humanitária e na concepção de grandes projetos de engenharia. Não está faltando trabalho.

Parecia o sujeito certo para resolver meu problema. Escrevi um e-mail para ele, perguntando se há “algumas regras simples que ensinem a lidar com complexidade?” (editores de revistas adoram fórmulas simples). Bar-Yam já chegou detonando: “não há regras simples para lidar com o que é complexo”. Mas, se eu quisesse aprender os princípios gerais da gestão da complexidade, eu poderia comprar o livro dele, Making Things Work (“Fazendo as coisas funcionarem”, sem versão em português).

225x225bbComprei. O livro é ótimo. A tese central é que todo sistema complexo tem duas características: a escala e a complexidade. Para fazer um sistema complexo funcionar, é preciso ter uma estratégia para a escala e outra para a complexidade.

Exemplo: o corpo humano tem dois sistemas de proteção, um para escala, outro para complexidade. O sistema neuromuscular (cérebro comandando nervos que acionam músculos que movem ossos) serve para escala, enquanto o sistema imunológico (glóbulos brancos independentes agindo cada um por conta própria) lida com complexidade. O neuromuscular nos defende de ameaças grandes – surras, atropelamentos, ladrões. O imunológico lida com inimigos minúsculos – bactérias, vírus, fungos. Por terem funções diferentes, os dois sistemas adotam estratégias diferentes.

No neuromuscular, a lógica é hierárquica, centralizada e linear – o cérebro manda, nervos e músculos obedecem, todos juntos, orquestrados, somando esforços numa mesma direção, para gerar uma ação em grande escala (um soco, por exemplo). Já no sistema imunológico, cada célula age com liberdade e se comunica com as outras, o que gera milhões de ações a cada segundo, uma diferente da outra, cada uma delas microscópica, em pequena escala – e o resultado final é uma imensa complexidade, com o corpo protegido de uma quantidade quase infinita de possíveis ameaças.

Para viver saudável é preciso ter os dois sistemas: neuromuscular e imunológico. Um sem o outro não adianta. Não há nada que um bíceps forte possa fazer para matar uma bactéria, assim como glóbulos brancos sarados são inúteis numa briga. É assim com todo sistema complexo: precisamos de algo hierárquico para lidar com a escala das coisas, e de algo conectado em rede para a complexidade.

O problema do mundo de hoje, e a razão para o desconforto descrito no começo deste texto, é que nossa sociedade está toda ajustada para lidar com escala, mas é absolutamente incompetente na gestão da complexidade. Estamos combatendo infecção a tapa. Tudo por causa de uma invenção que está completando 100 anos.

O século da escala

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Foi talvez a invenção mais transformadora da era contemporânea, mas ninguém registrou o nome do inventor, nem a data do “eureca”. Na verdade, ninguém nem mesmo deu um nome ao invento. Só cerca de um ano depois, uma revista técnica de engenharia fez o batismo: linha de montagem.

9780262018715_0Segundo as pesquisas do historiador David Nye em seu livro America’s Assembly Line (“A linha de montagem da América”, sem versão em português), a invenção da linha de montagem ocorreu em algum momento de novembro de 1913. A dificuldade de estabelecer uma data precisa vem do fato de que a invenção foi gradual, coletiva e aconteceu quase espontaneamente. Ela não foi uma ideia espocando do nada na mente de algum cientista brilhante – foi uma resposta social a uma necessidade premente.

A necessidade era aumentar a produção de carros. Em 1900, só 5 mil americanos tinham carro – apenas 13 anos depois, já eram mais de 1 milhão. Centenas de fábricas trabalhavam sem parar para atender a essa explosão da demanda, mas ainda assim as fábricas recebiam mais pedidos do que eram capazes de atender. Isso gerou uma corrida entre as fábricas por ganhos de produtividade.

Quem ganhou essa corrida foi a empresa de um mecânico chamado Henry Ford. No esforço de poupar segundos e assim fazer mais carros por dia, os mecânicos e engenheiros da Ford foram aprimorando seu processo. Começaram a padronizar milimetricamente cada peça do carro, para acelerar os encaixes. Cronometraram cada movimento dos mecânicos, para descobrir o melhor jeito de fazer cada tarefa. E, a cereja do bolo: inverteram a lógica da fábrica. Em vez de grupos de mecânicos andando de uma carcaça a outra para montar os carros, eram os carros que se moviam num trilho, puxados por cordas, no meio de um corredor de mecânicos. Cada mecânico realizava uma tarefa curta e repetitiva, de maneira que nenhum deles tinha mais o domínio do processo todo. Resultado: a fábrica começou a despejar nas ruas um carro novo a cada minuto.

Em 1910, a Ford tinha feito 19 mil carros. Em 1911, 34 mil. Em 1912, 76 mil. Em dezembro de 1913, a linha de montagem começou a operar. Em 1914, a empresa montou 264.972 carros – todos idênticos. Um aumento de produtividade descomunal, que possibilitou a Henry Ford dobrar o salário de seus operários e ao mesmo tempo baixar o preço dos carros, transformando operários em clientes.

O sucesso foi tão grande que, nas décadas que se seguiram, a lógica da linha de montagem se espalhou por toda a indústria, em todo o mundo. Bicicletas, geladeiras, telefones, televisores passaram a ser montados em esteiras rolantes ou trilhos, com peças sempre iguais montadas por trabalhadores superespecializados. Até mesmo a comida se encaixou nesse esquema: nossos alimentos também passaram a ser padronizados e montados industrialmente com acréscimos químicos de nutrientes. Prédios passaram a ser produzidos com peças idênticas e tarefas cronometradas, o que inaugurou a era dos arranha-céus nos anos 30.

supermercadoNossa vida está cheia de linhas de montagem – o carrinho do supermercado passando entre corredores de produtos, o automóvel trafegando em rodovias rodeadas de lojas, as filas de carros nos drive-thrus do mundo. Ao longo do último século, a lógica da linha de montagem chegou a todas as esferas da vida.

5kmd0a4rs7pz9gp09w1vubefcA educação, por exemplo. “As escolas hoje são organizadas como fábricas”, disse o educador britânico Ken Robinson numa palestra no TED. “Educamos crianças em lotes”, disse, referindo-se ao hábito de separar os alunos em séries. Saúde, governo, cidades, cultura, ciência. Praticamente tudo nessa alvorada do século 21 parece seguir o mesmo esquema: divisão do trabalho numa sequência linear de tarefas especializadas, montagem gradual das peças, ganhos constantes de eficácia, produtos padronizados. “A linha de montagem passou a ser muito mais que um arranjo físico de máquinas”, disse Nye. “Ela é o centro de um sistema cultural que se estende até muito além dos portões das fábricas.” Esse sistema cultural aumentou de maneira explosiva a escala de tudo.

E esse aumento de escala mudou o mundo de uma maneira espetacular. Quando os funcionários da Ford conceberam a linha de montagem, havia menos de 2 bilhões de pessoas no mundo inteiro. Hoje, apenas um século depois, já passamos dos 7 bilhões – um aumento populacional quase inacreditável que só foi possível graças a um espetacular ganho global de produtividade.

A produção de comida, de casas e de bens de consumo aumentou astronomicamente para atender tanta gente. E, mesmo com a explosão populacional, hoje a proporção de pessoas no mundo com acesso a saúde e educação é maior que nunca, graças ao ganho de escala alcançado pelos serviços públicos. A população global produz mais, consome mais, vive mais, sabe mais do que em qualquer outro período da história humana. Esse é o resultado de 100 anos da era da escala. Sob muitos aspectos, foi o maior salto de progresso da história da humanidade. Por que então o mal-estar?

O século da complexidade

Lembre-se do que Bar-Yam escreveu: todo sistema complexo precisa ter uma estratégia para lidar com escala e outra para a complexidade. A linha de montagem é como o sistema neuromuscular – ótima para escala.

Ela é linear e hierárquica – são os executivos que mandam nos engenheiros, que por sua vez controlam os mecânicos, assim como o cérebro comanda nervos que acionam músculos. Por isso, ela só consegue dar uma resposta de cada vez: um soco no caso do sistema neuromuscular, um carro sempre idêntico no caso da linha de montagem. Nossa sociedade moldada ao longo dos últimos 100 anos à imagem da linha de montagem é ótima para ações de escala, mas não tem flexibilidade alguma para lidar com complexidade. Estamos sem sistema imunológico.

“É fácil ficar pessimista com o mundo de hoje”, diz Bar-Yam. Em meio às inúmeras linhas de montagem que dominam a humanidade, parece que toda a complexidade do mundo está fugindo do nosso controle, enquanto nos sentimos impotentes para resolver problemas à nossa volta. É essa a história que o ilustrador Marcio Moreno procurou contar no desenho surreal que percorre estas páginas [As imagens citadas não foram localizadas].

 

Por todo lado, há exemplos de ações de escala que acabam esmagando a complexidade. Por exemplo: nosso modelo de produção industrial, que aumentou prodigiosamente nossa capacidade de fazer coisas, mas está causando um acúmulo global de lixo e gases de efeito estufa e levando milhares de espécies à extinção e quase todos os ecossistemas ao colapso. Ou nossas tentativas industriais de aumentar a segurança, o que hiperlotou o mundo de regras impossíveis de cumprir e de senhas impossíveis de lembrar.

Ou nossos sistemas de alimentação e saúde, que focaram tanto na escala da produção de alimentos, de maneira a baratear a comida, que a complexidade dos micronutrientes se perdeu. E hoje, pelo visto, estamos pagando o preço, com a explosão das “doenças complexas”: males difusos, de causas múltiplas, como câncer, doenças autoimunes, degenerativas e psiquiátricas.

Ou ainda nosso sistema de educação, concebido com uma lógica linear e padronizadora, para formar alunos idênticos, todos com os mesmos conhecimentos. Além de nivelar por baixo, detonando a qualidade da educação, esse modelo padronizador é justamente o contrário do que nosso mundo complexo precisa hoje – gente diversa, capaz de resolver problemas diversos.

Segundo Bar-Yam, desde o tempo das cavernas, sempre que algo começa a pifar porque a complexidade fica grande demais, “temos uma forte tendência de tentar descobrir quem é o responsável. Alguém tem que ser demitido, alguém tem que pagar, alguém tem que ser punido”, diz. E aí escolhemos um novo chefe ou criamos uma nova hierarquia para lidar com o problema. Só que hierarquias são péssimas para gerir complexidade. O único jeito de lidar com sistemas complexos é criando estruturas de controle complexas: redes de gente com autonomia de identificar e resolver problemas.

Perguntei a Bar-Yam como o Brasil deveria lidar com nossos frustrantes políticos. Ele respondeu que o problema não é só do Brasil. “Precisamos de um novo tipo de democracia”, disse. “Nossa democracia usa o voto para agregar a capacidade de decisão da população. Isso não é eficiente, porque reduz uma grande quantidade de informação (o conhecimento de todos os cidadãos) a um pequeno número de respostas (os seus representantes)”. Faria mais sentido imaginar um sistema político mais imunológico, no qual cada cidadão reage com autonomia às ameaças que enxerga, como um glóbulo branco. Política, economia, saúde, educação, sustentabilidade, clima, cidade. Em todo lugar onde há complexidade, parece estar ocorrendo uma espécie de colapso. Mas, assim como aconteceu 100 anos atrás com a linha de montagem respondendo à nossa necessidade de escala, desde a década de 1990, uma série de inovações parece estar surgindo espontaneamente em resposta à nossa necessidade de complexidade. Primeiro veio a internet, que nos conectou em rede, criando uma alternativa para as estruturas hierárquicas. E agora as inovações estão pipocando.

Tem todos os esquemas de compartilhamento de recursos – quartos, casas, carros, bicicletas, ferramentas, espaço para trabalhar – nos ajudando a otimizar o uso de recursos. Tem os moradores que assumem a responsabilidade por cuidar dos espaços públicos e criam praças melhores do que qualquer prefeito seria capaz. Tem os sites de crowdfunding, crowdsourcing e as outras formas de colaboração criativa, que geram um novo modelo de indústria. Tem os aplicativos de trânsito, como o Waze, que dão a cada motorista o poder de encontrar um caminho que flui, o que acaba melhorando o trânsito como um todo. Tem as redes de pacientes de doenças raras, trocando informações pela internet e muitas vezes ajudando uns aos outros mais do que nosso sistema superespecializado de medicina. Tem as manifestações parando as ruas do mundo e forçando os dirigentes políticos a repensarem sua relação com os cidadãos. Tem as grandes empresas, trocando o comando vertical por estruturas de controle mais distribuído.

E, em 2014, o mundo parece estar preparado para uma transformação profunda – possivelmente tão profunda quanto aquela de 1914. Talvez aí essa angústia com a complicação da vida passe. “Quando somos parte de um time complexo, o mundo se torna um lugar notavelmente confortável, porque conseguimos agir de maneira eficaz, ao mesmo tempo em que estamos protegidos da complexidade do mundo”, diz Bar-Yam. Enquanto isso não acontece, talvez ajude saber que a origem do problema não está em nós. É o mundo que está organizado errado.

A primeira linha

Já entramos na vida por uma linha de montagem. O Brasil é um dos países que mais fazem partos por cesárea, o que permite um ritmo industrial: procedimentos rápidos e padronizados, com hora marcada, e mulheres anestesiadas, para não atrapalharem o processo.

Alunos idênticos

A educação básica é padronizadora, com alunos divididos em séries (lotes), e o mesmo conteúdo ensinado a todos. Alunos com talentos únicos são enquadrados, nivelando o sistema por baixo e reduzindo a diversidade da sociedade.

Doping escolar

Num modelo industrial de educação, é desejável que os alunos sejam padronizados, assim como as peças numa linha de montagem. Talvez isso explique a “epidemia” de déficit de atenção nas crianças ocidentais. Remédios psiquiátricos então “padronizam” o temperamento.

Mundo hierárquico

A educação produz adultos talhados para uma sociedade hierárquica – uns são formados para mandar, outros para obedecer, como exige a sociedade industrial. Quase ninguém aprende a trabalhar de forma colaborativa e a resolver problemas juntos, como exige o mundo complexo.

Engarrafamento sem fim

Num mundo hierárquico, as pessoas são obcecadas por sinais de diferenciação social – e o mais poderoso deles é o carro. Não é à toa que 10 mil novos carros chegam às ruas do Brasil por dia, e que como consequência a velocidade média de um carro seja equivalente à de uma galinha.

Consumo em massa

Numa sociedade industrial de escala, não basta haver produção em massa – o consumo precisa ser em massa também. Por isso, os maiores prédios dos nossos tempos, equivalentes às catedrais na Idade Média, são os shopping centers, que se transformaram nas áreas preferidas para o lazer. E haja rolezinho.

A última linha
A vida segue com sua lógica industrial até o final. A maioria das pessoas morre em UTIs de hospitais, depois de uma longa e cara agonia que quase sempre consome mais recursos do que todos os gastos médicos de uma vida inteira. UTIs são lugares impessoais, que mantêm os pacientes longe das pessoas que importam para eles.

Super Interessante

O flagelo da agricultura

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Há algum tempo citei o Manning e agora encontrei uma excelente entrevista com o autor (em abril de 2004). Inicialmente colocarei aqui uma tradução automática que aos poucos irei burilando. [Atualização: revisão completada].

Vejo uma relação de afinidade com o filme Demain no que toca à agricultura. Manning não propões abandonar a agricultura. Mas imprimir uma direção correta. Como também é feito no filme, que não critica a agricultura em geral mas a forma atual com ênfase na monocultura, antagônica da diversidade, chave para a sustentabilidade. Ao escrever este post em paralelo com o relativo ao filme Demain [a publicar] notei uma afinidade imensa, como se o que está na entrevista, e talvez no livro [que ainda não li], fosse precursor do filme. Nos post sobre o filme Demain (de 2015) exploro mais esta, suposta por mim, afinidade.

O flagelo da agricultura

Richard Manning argumenta que olhar para o que a “natureza já imaginou” poderia ser a solução para um mundo devastado pela agricultura.

O conceito do selvagem nobre existe há algum tempo na nomenclatura da civilização ocidental. Na cultura popular, a frase pode conjurar imagens de índios americanos de filmes como Dances with Wolves , ou aborígenes de The Gods Must Be Crazy . Um nativo escassamente vestido corre ao redor da mata com um arco e flecha, vivendo uma vida simples que é melhor descrita como “próxima à natureza”. Mas de onde exatamente nossa concepção de povos tribais como inerentemente “nobre” veio? E isto é exato?

Richard Manning, que escreveu extensivamente sobre cultura, agricultura e meio ambiente, acredita que “o selvagem nobre” não é uma maneira particularmente satisfatória de descrever os povos tribais. “É mais complicado do que isso”, diz ele. No entanto, em seu novo livro, Contra o Grão: Como a Agricultura seqüestrou a civilização , ele cita o caso de tribos – particularmente tribos caçadoras-coletoras – que vivem de forma fundamentalmente sustentável, considerando que o sistema social que se desenvolveu com o advento da agricultura gerou desigualdade e fome, e teve um imenso impacto ambiental em um período de tempo (cerca de 10.000 anos) que contrasta com a história da vida humana no planeta (cerca de 4 milhões de anos). Enquanto os argumentos contra a agricultura ganharam força nas últimas décadas, centraram-se principalmente no debate sobre os desenvolvimentos do século XX, como a Revolução Verde ou as culturas geneticamente modificadas. O escopo da Manning é muito mais amplo do que isso, e se estende à própria origem das sociedades agrícolas. Ele argumenta que ocorreu uma grande mudança entre os seres humanos quando descobrimos a agricultura – e começamos a avançar em direção a um ethos de domínio baseado na prática da domesticação.

“A domesticação é uma evolução humana”, escreve Manning, “uma mudança fundamental na qual a seleção humana exerce pressão suficiente sobre a planta selvagem que é visivelmente e irreversivelmente alterada, seus genes são alterados”. Paradoxalmente, Manning explica que a domesticação ajudou a criar uma sociedade que foi ainda mais afetada pelos caprichos da natureza do que pelas sociedades caçadoras e coletoras. Isso ocorre porque o tipo de agricultura que viemos praticar estava vinculada a uma relação catastrófica com a Terra: o desmatamento de grandes extensões de terra para colocar uma única planta. Essa prática começou a destruir a diversidade – a força fundamental de todos os sistemas naturais.

Em Contra o Grão , Manning olha além dos efeitos ambientais da agricultura e da civilização, que já foram bem documentados, e explora o que essas invenções têm feito para a qualidade da vida humana no planeta. A agricultura nos deu o excedente, o excedente nos deu riqueza, e a riqueza nos deu hierarquias que necessariamente criaram uma subclasse. “Se quisermos buscar maneiras pelas quais os seres humanos diferem de todas as outras espécies, essa dicotomia [entre ricos e pobres] lideraria a lista”, escreve Manning. “A evolução não nos capacita para lidar com a abundância”. A agricultura industrial mostrada na América do século XX – alimentada por subsídios do governo e o “dumping” de grãos excedentes em mercados estrangeiros e caracterizada pela mudança para alimentos processados ​​- resultou na obesidade do mundo desenvolvido e na desnutrição dos em desenvolvimento. Os leitores podem achar as soluções propostas por Manning para os problemas causados ​​pela agricultura surpreendentes. Embora se possa esperar que ele encoraje a civilização a abandonar a agricultura em favor de algo mais “nobre”, nesta entrevista ele sugere que devemos abraçá-la. Na verdade, a chave para combater os problemas que criamos através da agricultura consiste em utilizar as manipulações ambientais que nós confiamos para domesticar nosso ambiente – mas de maneiras diferentes.

Manning é o autor de Last Stand, A Good House, Grassland, One Round River, e Food’s Frontier. Ele mora em Montana. Falamos por telefone em 5 de março de 2004.

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Richard Manning

Achei seu subtítulo, “Como a agricultura seqüestrou a civilização”, um pouco confuso, já que você parece dizer que a agricultura e a civilização são basicamente sinônimas. Você pode explicar o que você quis dizer?

Na verdade, eu concordo com você. No entanto, há uma ressalva interessante para isso: sempre pensamos que a agricultura permitiu o sedentarismo, o que deu às pessoas tempo para criar civilização e arte. Mas a evidência que está emergindo do registro arqueológico sugere que o sedentarismo veio primeiro, e depois a agricultura. Isso ocorreu perto das foz dos rios, onde as pessoas dependiam de frutos do mar, especialmente o salmão. Estas foram provavelmente culturas extremamente abundantes que tiveram uma enorme quantidade de tempo de lazer – eles apenas tiveram que esperar que as corridas de salmão ocorressem. Existem alguns bons registros dessas comunidades, e dos restos de esqueleto podemos ver que eles conseguiram até 95 por cento de seus nutrientes de fontes de salmão e derivados do oceano. Ao longo do caminho, eles desenvolveram arte altamente refinada – algo que sempre associamos à agricultura.

A descoberta da agricultura, você escreve, levou a uma mudança na forma como interagimos com o nosso ambiente, em direção a um ethos de “dominância”. É difícil não imaginar a agricultura como algo que reflete um impulso inerente dentro do homem para derrotar, ou pelo menos, domar a natureza. Mas você também argumenta que o desenvolvimento da agricultura foi apenas “oportunismo”. A agricultura vem do desejo de dominar, ou foi apenas uma grande coincidência?

Podemos abordar isso com cerca de cinquenta ângulos diferentes e não apresentar uma resposta satisfatória. Mas acho que é realmente importante pensar nesses termos. Uma visão é dizer que todo o dano que vemos no planeta é o resultado de nossos números e da natureza humana – e que a agricultura é o pior sintoma da condição humana, porque tem o maior impacto no planeta. Nesta análise, não culpamos a agricultura – culpamos os humanos.

Mas não acho que seja essa a explicação completa. Isso fica muito mais rico quando você olha a co-evolução: não são apenas genes humanos no trabalho aqui. São genes de trigo e genes de milho – e como eles têm uma influência sobre nós. Eles aproveitaram nossa capacidade de viajar, nossa inventividade, nossa capacidade de usar ferramentas, viver em um amplo número de ambientes e nossa enorme necessidade de carboidratos. Devido à capacidade dos nossos cérebros, fomos capazes de espalhar não só nossos genes, mas também os genes do trigo. É por isso que faço o argumento de que você tem que ver isso em termos do trigo que nos domina também. Esse processo co-evolutivo entre humanos e nossas culturas primárias de alimentos é o que criou a agricultura que vemos hoje.

O maior problema com a agricultura – e a civilização – parece ser o excedente que ela cria. Você faz questão de dizer que os seres humanos ainda não desenvolveram uma forma de lidar com o excedente. Você acha que algum dia iremos?

Desde que a civilização começou, o excedente esteve conosco. Uma espécie de “necessidade cega de excesso” tem conduzido nossa cultura exatamente na direção errada. Ele cria sociedades estratificadas. O CEO de uma empresa ganha mil vezes mais do que um de seus trabalhadores. Esse tipo de disparidade não existe em nenhum outro tipo de espécie. E isso sugeriria que não conseguimos melhorar o consumo do excedente – na verdade, ficamos piores nisso.

Lidar com excedentes é uma tarefa difícil. O problema começa com o fato de que, assim como o desejo sexual, o impulso alimentar aumentou na evolução. Se você tem uma necessidade profunda e ansiosa de comida, você vai se dar bem melhor do que seu vizinho, e ao longo dos anos esse gene será transmitido. Então você obtém essa criatura que ficou bem ajustada para realmente precisar de comida, especialmente carboidratos. O que nos leva à questão mais fundamental: podemos lidar com o açúcar? Ao fazer formas mais concentradas de carboidratos, estamos jogando em algo que é bastante viciante e poderoso. É por isso que somos tão obesos. Temos acesso a todo esse açucar, e simplesmente não podemos controlar a nossa necessidade, é genética.

Agora, podemos ganhar a capacidade de superar isso? Não tenho certeza. Você tem que adicionar a isso o fato de que há muito dinheiro a ser ganho por pessoas que sabem como concentrar o açúcar. Eles têm um interesse real em perceber que não superamos esses tipos de vícios. Na verdade, é assim que você controla as sociedades – você explora esse impulso básico para a alimentação. É assim que treinamos cães – se você quer fazer um cachorro se comportar corretamente, você o priva ou dá comida. Os seres humanos não são tão diferentes. Nós simplesmente gostamos de pensar que somos. Assim, como elemento de controle político, os alimentos e as imagens de alimentos são extremamente importantes.

E quanto ao controle religioso? Se a agricultura cria o excedente, o que cria hierarquias sociais, então, como a religião afetou isso?

O controle de um enorme suprimento de alimentos foi tecido na observância religiosa. No início da agricultura, foi o sacerdote que decidiu quando o plantio ocorreria, e todas as observações religiosas estavam voltadas para mudanças sazonais. Tudo é tecido em uma história muito rica – é mesmo em nossas orações: “Dê-nos hoje o nosso pão de cada dia”.

Mas a religião também entra em comportamento exibicionista. Parte disso é a abnegação que acompanha a observância religiosa. As pessoas são rápidas porque é o oposto do que as pessoas normais fariam, então é uma exibição de fidelidade. E embora eu não pretenda desprezar os vegetarianos, todos nós também vimos esse tipo de comportamento exibicionista: o vegetariano, por exemplo, que faz o pedido em voz muito alta em um restaurante para que todos saibam que ele é moralmente superior de alguma forma.

Isso é interessante. Você acha que o vegetarianismo tanto não é socialmente responsável como está falido?

Depende de como é feito. Nos EUA, usamos alimentos altamente processados ​​como substituições. Você sabe, creme de arroz e hambúrgueres de soja e tudo isso. Uma vez que você está nesse tipo de processo, então os ganhos de energia do vegetarianismo são removidos quase imediatamente. Mas além disso, você tem que olhar para a maneira como fazemos a agricultura nos EUA. Nós eliminamos enormes áreas de habitat. Iowa tem algo menos de 1% de seu habitat nativo. Bem, esse habitat sustentava animais selvagens. Então, você tem dificuldade em argumentar a favor do vegetarianismo como uma espécie de “bondade para com os animais” quando você está destruindo todo o habitat desse forma.

Se a agricultura e a civilização causaram tantos problemas, e os caçadores-coletores? O seu modo de vida funciona melhor?

Vamos considerar o que aconteceu na América. Quando os colonos europeus vieram aqui, tornou-se uma política muito ativa do governo tentar fazer com que os índios começassem a cultivar. Thomas Jefferson era explícito nisso, e ele não estava sozinho. Mas os índios simplesmente fugiram – e não só deixaram a agricultura branca, mas deixaram sua própria agricultura. Uma vez que eles tinham cavalos, eles tinham a opção de caçar muito mais efetivamente. Eles depuseram suas enxadas, e foram em seus cavalos, adentraram nas planícies ocidentais e tornaram-se nômades em lugares que não se via ninguém há anos. Eles se tornaram caçadores. Eles “descobriram algo”, ou eles conseguiram um acordo com a natureza que de alguma forma era sustentável? Não, é mais complicado do que isso, porque assim que o mercado de carne de caça entrou na área e permitiu que eles vendessem vestes de bisonte aos brancos, eles realmente participaram da extinção do bisonte – mesmo antes que os caçadores brancos entrassem em cena.

Mas mesmo essa prática foi resultado do contato com a civilização.

E habilidade. Assim, uma vez dada a tecnologia, o mercado e a capacidade de explorar esse recurso de uma maneira diferente, eles simplesmente aproveitaram.

Então, há algo que a civilização pode aprender com o modo de vida tribal?

Sim, acho que há algo realmente importante que as culturas caçadoras e coletoras aprenderam de que poderíamos nos beneficiar. É a ideia fundamental da insegurança. Nós negociamos uma enorme quantidade de liberdade em nossa sociedade por segurança. Esse é sempre o trade-off. É nossa incapacidade de lidar com nossa falta de controle sobre como e quando morremos, que é fundamentalmente responsável por tudo isso. Então, desistimos de muita liberdade para as falsas garantias de que não vamos morrer dessa ou daquela maneira. Eu acho que podemos aprender com os caçadores-coletores que é realmente uma ilusão. Esse tipo de segurança não pode ser obtido em um sistema natural – e estamos em um sistema natural e sempre estaremos. Portanto, precisamos aceitar uma boa parte dessa instabilidade e ameaça e perigo em nossas vidas.

Parece uma venda difícil.

Sim. É absolutamente uma venda difícil. Quero dizer, você olha como as pessoas vendem carros hoje, algo assim, “Este carro não vai matar você” – eles não se importam com mais nada. Esqueça os quilômetros por litro. E olhe o que estamos dispostos a desistir neste país em termos de liberdades civis, por exemplo, apenas por causa da ameaça do terrorismo. Você não pode mudar a realidade de que o mundo é um lugar perigoso. Então, é uma ilusão pensar que podemos estar seguros. Seria muito melhor se simplesmente abandonássemos essa ilusão e dissessemos: “Eu vou morrer, eu poderia morrer a qualquer momento – agora vou continuar a aproveitar a vida”.

Eu me pergunto o quanto poderia demorar para retornarmos a essa visão de mundo? Na natureza, quando uma espécie adota uma prática insustentável, a natureza eventualmente morde de volta com uma catástrofe, como um acidente populacional. É isso o que vai levar os humanos a mudar a forma como produzem alimentos?

As pessoas sempre dizem: “Bem, se houver alguma catástrofe terrível, então aprenderemos”. Mas a catástrofe já está aqui. A África é uma catástrofe. Ásia, América Latina … Os lugares mais pobres do mundo estão constantemente experimentando essas coisas que imaginamos serem desastrosas.

Mas não na América.

Não, não na América. Até agora, estamos confortavelmente capacitados em manter isso fora da vista. É por isso que não lemos notícias internacionais neste país, é por isso que não aparece nos nossos aparelhos de televisão – porque somos capazes de manter uma espécie de negação sobre o fato de que um terço da humanidade vive com menos de um dólar um dia. Nós nos separamos. Está ao nosso redor – nós simplesmente ignoramos isso.

De que forma o Primeiro Mundo “sentirá na própria carne” os problemas que decorrem da agricultura industrial?

Eu acho que os efeitos do aquecimento global vão crescer nos próximos quinze a vinte anos. Haverá falhas generalizadas por causa do aquecimento global, isso é bem claro. E haverá  enormes mudanças climáticas e cada vez mais incêndios florestais.

Alguns podem afirmar que o capitalismo de livre mercado é a melhor maneira de criar civilizações mais igualitárias. É tentador ver o mercado livre como o reflexo societal mais próximo da “sobrevivência do mais apto” da natureza. O que você acha?

O capitalismo é um processo muito linear – nós construímos fábricas com ele. Não pensa em termos de complexidade, e certamente não aceita insegurança. Isso nos leva de volta aos fundamentos da agricultura. É um sistema de fábrica, um sistema linear. Pensamos em insumos, saídas e uma única planta de cada vez.

A natureza não funciona assim. A promessa da natureza é algo chamado de “excesso de rendimento”, sendo o todo maior que a soma de suas partes. É por isso que eu valorizo ​​muito os sistemas naturais. Eles trabalham em combinação com muitas coisas diferentes, e quando essas coisas estão juntas e finamente sintonizadas, elas tendem a produzir mais do que qualquer coisa com que possamos substituí-las. Por exemplo, as pradarias fornecem seu próprio fertilizante.

A co-evolução traz soluções para os problemas que são muito melhores do que o que podemos encontrar. Então, dessa forma, é diferente do que concebemos a partir do capitalismo.

Você escreve que as soluções para os problemas da agricultura industrial não virão do governo, já que a própria idéia de governo brotou das civilizações agrícolas. Existem maneiras de aplicar nossa compreensão da natureza à sociedade atual?

Bem, existem algumas coisas esperançosas lá fora. Já estamos começando a acomodar nossa compreensão da natureza na tecnologia da informação. Quando começamos a brincar com coisas como a inteligência artificial, por exemplo, sabemos que temos que lidar com a complexidade e que temos que projetar esses sistemas orgânicos que se parecem com a natureza.

Mas os grandes passos provêm da compreensão do genoma. Isso nos dá uma incrível apreciação da natureza, e também a capacidade de aproveitar a produtividade da natureza de maneiras únicas.

Tipo, como?

Por exemplo, quando você vai à sua loja local de alimentos saudáveis, você vê dois tipos de beterraba – dourados e listrados. Isso aconteceu porque algumas pessoas estavam observando alguns parentes selvagens e mutações naturais em beterraba, e descobriram que havia dois genes que criavam a cor vermelha nas beterrabas e se trocavam de um lado para o outro (não usando engenharia genética, mas um simples “knock-out“), ela se tornava listrada. Acontece que esta variação codifica um produto químico chamado betalin, que é um agente de combate ao câncer. Então, ao entender a manipulação desse gene, e ao colocar mais betalin na beterraba, eles aumentaram a capacidade de combater câncer. Se olharmos mais em culturas “esquecidas” e também em parentes selvagens de culturas, todos esses pigmentos são codificados em genes. E esses genes têm muitas capacidades de combate à doença que criamos fora de nossas plantas. Nós podemos trazer esses de volta às nossas colheitas com bastante facilidade e rapidez com a tecnologia que temos.

Ao mesmo custo para o consumidor?

Sim, absolutamente o mesmo. O criador que conheço que fez isso em Wisconsin diz que é tão fácil que ele não precisa lidar com companhias de sementes. No “velho mundo” você tinha que trabalhar com empresas de sementes, e a empresa de sementes tinha que recuperar seu investimento – portanto, as coisas eram caras. Mas ele pode fazê-lo muito rapidamente, liberá-lo para os agricultores orgânicos, e depois continuar crescendo, e é uma semente grátis.

Isso é interessante. Acho que a minha primeira reação sempre que ouço sobre manipulações da natureza é negativa. No seu livro, você ressalta que mesmo algo tão básico quanto o uso do fogo – algo que as sociedades tribais fizeram e ainda fazem – é uma manipulação da natureza. E aqui você parece estar pressionando por mais manipulação.

Eles são apenas manipulações mais sábias. Um dos princípios fundamentais aqui é que essas manipulações não são guiadas tanto por nossa imaginação como pelo que existia antes – a sabedoria coletiva da natureza. Então, estamos voltando e olhando para os genes mais amplos e complexos que ignoramos antes e dizendo: “O que há aqui que não sabíamos?” O princípio aqui é a humildade. Não somos capazes de imaginar as soluções definitivas: temos que ver o que a natureza já imaginou e imitar isso.

As soluções de que você fala parecem ter muito a ver com agricultura orgânica e alternativa. Isso é bom para o hipster em Manhattan, que pode pagar toda a loja de alimentos, ou o fazendeiro em Minnesota, que pode cultivar milho orgânico em solo fértil, e quanto a quem vive na pobreza? Em seu livro, você desenvolve a crônica da opressão dos pobres pelas civilizações agrícolas. Que esperança existe para eles agora?

Eu conheço um projeto na Índia, que é um caso interessante porque a Índia, como a maioria dos países pobres, é tão fortemente dependente do arroz. Mas na Índia, verifica-se que os mais pobres dos pobres dependem do arroz seco. É um tipo de conceito estranho; Não é irrigado. Algo como 40 por cento da área terrestre dada ao arroz no mundo é arroz seco. Os pobres dependem disso por um motivo: eles não podem pagar as melhores terras, não podem pagar a irrigação, de modo que eles se aproximam das coisas muito marginais, e há milhares de anos.

Claro, a ciência nos últimos trinta ou quarenta anos tem procurado intensamente o arroz irrigado, porque esse arroz oferece mais lucro. Mas há alguns pesquisadores em Bangalore, na Índia, que vem coletando as variedades locais de arroz seco que as pessoas crescem nas comunidades pobres. Em seguida, compararam-nos contra as melhores variedades “melhoradas” do melhor da ciência, e descobriram que as variedades locais eram melhores. Elas sempre floresceram – não importa o quão ruim as condições – e elas tinham certos valores nutricionais que as outras variedades não possuíam.

Então eles estão catalogando os genomas de todas essas variedades selvagens e criando essas variedades com as melhores características em uma variedade de arroz que, embora muito próximo das locais, também possui algumas das capacidades resistentes a doenças e resistentes a insetos das variedades melhoradas. Em outras palavras, eles estão fazendo uma variedade “super local”. E então eles estão devolvendo para essas pessoas pobres de graça. É um caso interessante em que as pessoas estão pensando em maneiras de usar a tecnologia para intervir a favor dos pobres.

Mas melhorar o rendimento apenas criando mais alimentos, o que, por sua vez, não cria mais pessoas?

Essa é uma questão fascinante – se você olhar para o crescimento da população no mundo, ocorre não apenas nos lugares mais agrícolas do globo, mas também nos lugares mais pobres. O crescimento populacional está ficando louco em lugares como Índia, África e Sudeste Asiático. Você precisa encontrar maneiras de acelerar a renda dos mais pobres apenas um pouco, porque o registro é muito claro que, se pudermos melhorar sua renda, sua taxa de natalidade diminui drasticamente. Eu vi isso. Eu estava em uma aldeia no México, onde um fazendeiro estava fazendo algo como 15 por cento mais do que seu vizinho, e ele tinha dois filhos enquanto o vizinho tinha treze. Isso é muito comum no mundo em desenvolvimento. A taxa de natalidade está mais intimamente relacionada com o rendimento da família – e isso é verdade em todo o mundo. Quanto melhor for sua renda, menos crianças você tende a ter. A educação também é importante, especialmente entre as mulheres. Se você pode educar as mulheres, então o controle de natalidade entra em jogo muito mais facilmente, e elas têm opções para se exercitar. Uma boa agricultura é extremamente importante para que isso aconteça – mas não a agricultura industrial, o que apenas piora. Se pudermos intervir, temos que entender que, se cultivarmos bem a agricultura, melhoraremos a vida. Mas se o fizermos mal, vamos piorar.