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Grau Zero da Política

newleftPor que o PT é tão assertivo nas questões sociais e reticente quando se trata da Lei dos Meios e monopólios midiáticos? O verdadeiro ato falho do ministro da Educação Aloízio Mercadante ao sair em defesa ao “seu” Frias frente às denúncias da Comissão da Verdade representa aquilo que o pensador francês Jean Baudrillard chamava de “grau zero da política”: as esquerdas nunca quiseram chegar ao Poder e, dizia Baudrillard, se um dia chegassem não haveria perigo porque o poder, de fato, não existe. Ele estava sendo profético.


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À primeira vista, talvez o tema dessa postagem (política partidária) cause estranheza ao leitor em um blog especializado na discussão sobre cinema e gnosticismo. As últimas discussões sobre a Lei dos Meios e os monopólios de mídia e a reticência do governo atual em debatê-la lembram um conceito de influência gnóstica do pensador francês Jean Baudrillard: a reversibilidade simbólica, o gênio maligno presente em todos os sistemas – todos os sistemas chegam a um ponto de desenvolvimento e complexidade que acabam inviabilizando sua própria finalidade, voltando-se contra si mesmo. É o caso do sistema político que chegaria ao chamado “grau zero”, onde a finalidade social foi substituída pela simulação e sedução. É a “transparência do Mal”.

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Em carta ao jornal Folha de São Paulo o ministro da educação Aloízio Mercadante saiu em defesa da memória de Octávio Frias de Oliveira, falecido dono da “Folha”, após um delegado dos tempos da ditadura militar dizer, na Comissão da Verdade, que ele colaborou ativamente na repressão e tortura aos “terroristas” e “subversivos”. Esse episódio parece que foi a gota d’água para muitos que ainda, pacientemente, esperavam que após 10 anos de governos de esquerda a questão do monopólio midiático no país já tivesse sido, pelo menos, confrontada.

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Enquanto isso o ministro da Comunicação Paulo Bernardo adota um tom genérico e não dá prazos quando trata sobre a Lei dos Meios – a promulgação do marco regulatório para concessões públicas, TVs abertas, TVs por assinatura e rádios. E para irritar ainda mais os setores de esquerda, a Secom (Secretaria de Comunicação da Presidência da República) continua com sua orientação “técnica” e “republicana” de manter o direcionamento de grossas verbas publicitárias aos monopólios midiáticos, os mesmos veículos de comunicação que diariamente fustigam o Governo com denúncias sobre escândalos e sonham com a judicialização da política e a próxima eleição presidencial sendo decidida pelo Supremo Tribunal federal.

Se no plano sócio-econômico os governos petistas são reconhecidos internacionalmente pelas medidas de inserção social, eliminação da pobreza, aumento do poder aquisitivo da chamada “nova classe média”, e crescimento do mercado de consumo interno, no plano simbólico-midiático mantém-se estático e subjugado aos “barões da mídia”. Mesmo depois de três mandatos presidenciais consecutivos.

Por que? Sadomasoquismo? Covardia? O resultado de um governo de coalização obrigado a encontrar um ponto de equilíbrio entre diferentes grupos de interesses? A sedução pelo holofote que as grandes mídias oferecem?

E se o problema do PT não for em relação à Política, mas em relação ao imaginário da Política? Ou talvez o “problema” não seja em relação ao partido. O PT hoje faz o jogo parlamentar que no passado era acusado de recusar por ser considerado um partido sectário e formado por radicais. Talvez o “problema” esteja nas nossas expectativas em relação ao que representa ser “de esquerda”, as nossas expectativas em relação ao próprio imaginário da Política.

O Poder não existe

Em 1977 em seu texto “A Luta Encantada ou a Flauta Final” o pensador francês Jean Baudrillard apresentou uma hipótese irônica e que lhe valeu a pecha de intelectual direitista: a esquerda jamais esteve interessada no poder, e que as sucessivas lutas políticas da esquerda não passam de algo artificial por excelência, marcado pelo simulacro da tensão revolucionária artificial. A ironia, para Baudrillard, está no fato de a esquerda critica o poder sempre, mas não toma a iniciativa de assumi-lo.

Mais tarde em outro texto chamado “Partidos Comunistas: Paraísos Artificiais da Política” Baudrillard apresentava três teses ao criticar o discurso de Enrico Berlinguer (secretário do partido comunista Italiano de 1972 a 1984): (1) os comunistas não mudarão nada se chegarem ao poder; (2) os comunistas não querem chegar ao poder; e (3) a tese totalmente niilista: não há perigo em ganhar o poder, porque o poder, de fato, não existe.

Em toda história, essa substância se manifestou em diversos lugares e situações: no corpo do rei (na concepção fisiológica do Poder, quem o detém é porque possui características natas no próprio corpo, o “sangue azul”, por exemplo); na inteligência instrumental do príncipe (a concepção maquiavélica do Poder, onde a política é pensada como um jogo cênico‑teatral de aparências, através do qual a vontade política se esgueira pela mentira); no Leviatã de Hobbes (Estado totalitário e centralizador, necessário para impedir a situação de anomia provocada pelo confronto dos interesses egoístas); no Estado Liberal burguês (onde o Poder é definido como espaço vazio, ocupado periodicamente pelo representante de uma vontade política pública e consensual) ou no Estado da ditadura do proletariado de Lênin e Stálin onde o Poder revolucionário é meio de liberação das forças produtivas e sociais amarradas historicamente pelas classes dominantes.
Na ciência política, o Poder sempre foi pensado como uma substância, ou um topos, em torno da qual gravita uma somatória de partidos políticos, interesses de classe, grupos, tudo enfimque se manifesta no campo político e que produz a politização geral da sociedade

Em todas essas visões o Poder e a Política são vistos como produção de alguma finalidade social. Mas a tese de Baudrillard é outra: e se a necessidade dereprodução tiver dominado o Poder (reprodução da democracia, da participação, dos direitos humanos, do acesso ao mercado, da manutenção macroeconômica) a tal ponto que alcançamos o grau zero da política? Explicando melhor, e se nesses dez anos os governos de esquerda nada mais foi feito do que modernizar um país marcado pelo anacronismo (exclusão, pobreza etc.) diante das necessidades de reprodução do valor e do capital?

Para Baudrillard, ainda pensamos o Poder como um espaço a ser preenchido por uma classe social e a Política como um campo de forças onde se produzem novas finalidades sociais (revoluções, contra-revoluções, golpes, etc.). Talvez o poder desterritorializante e sem limites do valor de troca tenha legado ao Poder a condição se tornar um mero aparelho reprodutor onde todas as ideologias, crenças ou doutrinas gravitariam em torno dessa necessidade imperiosa de reprodução macroeconômica. Em outras palavras, se Baudrillard estiver certo, o reconhecimento internacional pelos projetos de inclusão social dos governos do PT é o reconhecimento do próprio capital pela normalização das funções de reprodução de força de trabalho e consumo.

Ao chegar no poder o PT encontrou o grau zero da política. A sua reticência em relação à Lei dos Meios e os monopólios midiáticos é o primeiro sintoma disso: ele encontrou o limite estrutural do sistema político – o limite simbólico e midiático. Para entendermos um pouco mais isso, devemos ir mais fundo nessa tese de Baudrillard.

Eventos supracondutores

brasil-contra-a-corrupcao-grupo-apartidario-realiza-marcha-contra-a-corrupcao-em-brasiliaA escandalização da Política através das denúncias diárias de corrupção, tráfico de influências ou “mensalões” e a cobertura sensacionalista do terrorismo internacional pelas mídias são eventos que Baudrillard chamava de “supracondutores”.

Para ele, o escândalo das denúncias está para a Política assim como a especulação está para o sistema financeiro. Ambos os sistemas (financeiro e político) já há muito perderam sua finalidade social de produção para serem seduzidos pelo ardil das imagens, da circulação veloz de informação e notícias com um único propósito: simular a existência de algum valor de uso, de alguma finalidade para a existência do Poder, da Política e da Economia.

Para ficar apenas no sistema da Política, a imoralidade, a simulação e a sedução se tornaram componentes determinantes da política, com o propósito de, assim como no sistema financeiro, evitar crises sistêmicas: evitar que a sociedade, afinal, descubra que a inércia dominou a Política, que o Poder perdeu seu poder de atração centrípeda e que ele é apenas mais um dos personagens que gravitam em torno das ondas concêntricas da mídia.

E assim como no sistema financeiro onde a suspeita de que nada exista por trás de papéis, títulos ou compromissos resulta em pânico e corridas para sacar ativos, da mesma forma a Política convive com o fantasma de que um dia o eleitor descubra que por trás da representação democrática nada existe de produção (revoluções, transformações, História, enfim), mas apenas a reprodução da onisciente necessidade de reprodução macroeconômica do valor de troca.

Em termos mais diretos, a incrível tolerância do PT em manter polpudas verbas publicitárias às grandes mídias e a sua omissão em relação à necessidade de um marco regulador para os meios de comunicação representa um ato falho dessa necessidade sistêmica do sistema político manter a espiral de escândalos para manter a miragem referencial de que existe um lugar de Poder a ser disputado. Onde, mesmo na sua indiferença, os eleitores ainda mantenham em seu horizonte a percepção da existência de um lugar chamado Política e Poder.

O sistema político necessita da dose diária dos escândalos das denúncias. Seja quem ocupar o espaço do Poder, terá que fazer parte dessa irônica estratégia de retroalimentação do sistema. Cientistas políticos, críticos e jornalistas parecem ainda partilhar da ilusão de um valor de uso, de uma transparência final das finalidades sociais da Política e do Poder. Mas, como membros que somos de toda a midiosfera (com verbas ou sem verbas publicitárias do Governo), fazemos parte desse irônico jogo de simulação e sedução.

Cinegnose

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Olhos dirigidos ao paraíso gelado

389518-r_640_600-b_1_d6d6d6-f_jpg-q_x-xxyxxO filme Kfraftidioten (2014) não pode ser resenhado por incultos. Pois no máximo eles dirão que se trata de um “gênero Tarantino”. Tem lances de humor e sangue que de fato seguem o estilo de Tarantino, mas a película norueguesa e sueca, do diretor Hans Petter Moland, traduzida por “O cidadão do ano” (procure traduzir você mesmo “Kfraftidioten”), é uma peça original e uma boa crítica do presente. Uma ficção mais próxima do chão (!), digamos assim.  

Escrevi esses dias que nos Estados Unidos de hoje há um candidato socialista que fustiga Hilary Clinton (artigo aqui). Ele diz que gostaria de ver os Estados Unidos antes como uma social-democracia nórdica que como um centro do liberalismo avançado socialmente. Ao mesmo tempo, uma das melhores séries de gansters do momento, produzida em associação americana e norueguesa, é a Lilyhammer (de Eilif SkodvinAnne Bjørnstad, 2012), que diz respeito à Noruega atual (com um fantástico capítulo no Brasil). Nos dois casos, do filme Kfraftidioten e da série, o que observamos? Que há americanos olhando para os países ricos do Atlântico Norte, e que o candidato Bernie Sanders, que fustiga Hilary, não fala algo que não está no ar.

Entre políticos, intelectuais e diretores de cinema, há os que estão mostrando que os Estados Unidos já deveriam estar naquela situação nórdica, civilizados e sem pobres, outros estão apontando para o fato de que, naquela paraíso, alguns problemas permanecem, e até estão sendo importados da América, Europa e até do Brasil. O paraíso social-democrata não é o de Adão. Bom sinal: o paraíso, ainda que desejável, está sendo visto com senso crítico e humor. É um sinal de que podemos sonhar e ao mesmo tempo sem sermos ingênuos?

O que existe nas democracias ricas nórdicas é o Welfare State efetivamente alcançado, e como algo diferente de outros que, até bem pouco tempo, pareciam poder funcionar fora do gelo, como o da França, Itália, Inglaterra ou até mesmo o do esboço americano. É mais estável que outros. Funciona segundo uma social democracia que absorveu padrões do “politicamente correto” sem que este tenha se deteriorado na versão criticada até por tolos (ou melhor, criticada mais por tolos) no Brasil, uma vez que não serve para garantir só os que estão livres, mas também os que vão presos. Todavia, em meio ao paraíso, como a série e o filme citados mostram, alguns problemas do mundo moderno permanecem vivos: frustrações típicas do nosso tempo envolvido em burocracias aparentemente sem rosto, crimes não puníveis, homossexualismo reprimido, solidão da mulher, maridos isolados, famílias passivas, pequenos e grandes Al Capones soltos dividindo territórios, drogas em uso assustadoramente alto e segundo um comércio que se autoprotege de modo sofisticado.

A série e o filme mostram que a social-democracia pode mesmo realizar o que prometeu, mas que se tenha na cabeça que um regime político, de esquematização do estado, não tem poder para fazer da terra dos homens uma terra de bondade, sem problemas. Não estou usando aqui do cliché “o mundo dos mortais é sempre o mesmo”. Nada disso. Estou dizendo que os problemas postos pela modernidade se mostram presentes no Estado de Bem Estar Social que funciona. O que vale dizer que talvez a filosofia política tenha menos a dizer agora, mas a filosofia de um modo geral não disse tudo.

images-31Tanto a série quanto o filme mostram que o gangsterismo dos anos trinta, imortalizado pelo cinema americano, não é uma ficção reposta desterritorializada nesse novo cinema atual, mas que ele efetivamente existe, na realidade, e isso porque há situações que perderam suas raízes e, afastadas de seus rituais, atingiram a condição separada, alienada, que torna tudo perigoso. A droga e os seus problemas derivados tem a ver com isso. Não há mais ritual para a droga, nem religioso e nem hippie, nem místico e nem “produtivo”. A droga aparece em uma situação moderna típica do que deve ocorrer com aquilo que Hannah Arendt chamou de elemento de consumo, não elemento de uso. É a droga pela droga para quem a consome. Para quem a trafica, é a droga pelo dinheiro. Mas isso em uma situação em que ambos já são equivalentes universais do mercado. Desse modo, tanto faz o dinheiro pelo dinheiro ou a droga pela droga. Ninguém mais sabe o se faz com o que se tem.

Claro, na sociedade em que, como Debord disse, o ser e o ter não precisam mais se oporem, porque tudo é da ordem do aparecer e parecer, pode-se ter dinheiro para aparecer e ter a droga para aparecer de modo melhor, isto é, feliz. A felicidade, ou melhor, sua aparência, se tornou uma obrigação. Mas a questão é que esse é o consumo que consome o consumidor. Não existe usuário de droga. Ninguém usa a droga, nem a droga usa alguém. A droga e o mundo produzido por ela consomem suas vítimas e heróis.

Mas, não é a droga o problema moderno. Ele é pedaço pequeno dele. O problema moderno que essas películas das séries de TV-internet e cinema mostram, que está vigente na social democracia rica, é que os ritos todos perderam o sentido no mundo, e que no território gelado isso se mostra de maneira muito mais escancarada. O homem moderno não tem expediente, não tem procedimentos que se devam obedecer por mais de um mês. Tratados podem ser desfeitos, ordens podem ser cumpridas ou não, palavras empenhadas não valem e ao mesmo tempo valem um assassinato ou vários. Há uma extrema passividade no interior de um frenesi para se manter a passividade. O gangsterismo dos filmes mostra bem o funcionamento do entretenimento moderno, o celular cheio de joguinhos e ligado ao Facebook e ao WhatsApp e coisas do gênero, onde todos simulam estar na adrenalina máxima; é um globo da morte em alta velocidade, mas como todo globo da morte, tendo as motos girando no mesmo círculo. No mundo da novidade, nada é realmente novo.

Há certo tédio gelado no mundo gelado de tipo norueguês, uma cena alegórica para o resto do mundo, como se a mensagem fosse a seguinte: o paraíso, aguardem os que acham que vão chegar nele, é frio.

Paulo Ghiraldelli

Necrológio para o povo brasileiro

necrologio_1293676843bRemexendo e tentando organizar a minha biblioteca, que está um caos depois da mudança, encontrei este livro que não via há anos. Sabia que estava soterrado por outros livros em algum lugar. Victor Giudice me impressionou muito com sua forma original de escrever. Eu, na época, vivia repetindo a frase “os vinhos e oz gueijos” de um de seus contos no livro Necrológio. O conto “O arquivo”, que reproduzo abaixo, parece antecipar aproximadamente o tema do filme “O Curioso Caso de Benjamin Button”, com sua inversão da trajetória de um trabalhador de escritório. Giudice já inova começando o conto na capa do livro. O conto parece descrever alegoricamente o que está acontecendo com o povo brasileiro que vê atônito e apático um retrocesso que parece um destino inexorável. Algo que caminha para reduzi-lo a um ponto geométrico sem dimensão. O grau zero da vida. Abaixo, talvez, da sobrevivência.

O arquivo

No fim de um ano de trabalho, joão obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos.

joão era moço. Aquele era seu primeiro emprego. Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso. Limitou-se a sorrir, a agradecer ao chefe.

No dia seguinte, mudou-se para um quarto mais distante do centro da cidade. Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor.

Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava satisfeito. Acordava mais cedo, e isto parecia aumentar-lhe a disposição.

Dois anos mais tarde, veio outra recompensa.

O chefe chamou-o e lhe comunicou o segundo corte salarial.

Dessa vez, a empresa atravessava um período excelente. A redução foi um pouco maior: dezessete por cento.

Novos sorrisos, novos agradecimentos, nova mudança.

Agora, joão acordava às cinco da manhã. Esperava três conduções. Em compensação, comia menos. Ficou mais esbelto. A pele tornou-se menos rosada. O contentamento aumentou.

Prosseguiu a luta.

Porém, nos quatro anos seguintes, nada de extraordinário aconteceu.

joão preocupava-se. Perdia o sono, envenenado em intrigas de colegas invejosos. Odiava-os. Torturava-se com a incompreensão do chefe. Mas não desistia. Passou a trabalhar mais duas horas diárias.

Uma tarde, quase ao fim do expediente, foi chamado ao escritório principal.

Respirou descompassado.
– Seu joão. Nossa firma tem uma grande dívida com o senhor.

joão baixou a cabeça em sinal de modéstia.
– Sabemos de todos os seus esforços. é nosso desejo dar-lhe uma prova substancial de nosso reconhecimento.

O coração parava.
– Além de uma redução de dezesseis por cento em seu ordenado, resolvemos, na reunião de ontem, rebaixá-lo de posto.

A revelação deslumbrou-o. Todos sorriam.
– De hoje em diante, o senhor vai passar a auxiliar de contabilidade, com menos cinco dias de férias. Contente?

Radiante, João gaguejou alguma coisa ininteligível, cumprimentou a diretoria, voltou ao trabalho.

Nessa noite, não pensou em nada. Dormiu pacífico, no silêncio do subúrbio.

Mais uma vez, mudou-se. Finalmente, deixou de jantar. O almoço era um sanduíche. Emagreceu, sentia-se mais leve, mais ágil. Não havia necessidade de muita roupa. Eliminou certas despesas inúteis, lavadeira, pensão.

Chegava em casa às onze da noite, levantava-se às três da madrugada. Esfarelava-se num trem e dois ônibus para garantir meia hora de antecedência.

A vida foi passando, com novos prêmios.

Aos sessenta anos, o ordenado equivalia a dois por cento do inicial. O organismo acomodara-se à fome. Uma vez ou outra, saboreava alguma raiz das estradas. Dormia apenas quinze minutos. Não tinha mais problemas de moradia ou vestimenta. Vivia nos campos, entre árvores refrescantes, cobria-se com os farrapos de um lençol adquirido há muito tempo.

O corpo era um monte de rugas sorridentes.

Todos os dias, um caminhão anônimo transportava-o ao trabalho.

Quando completou quarenta anos de serviço, foi convocado pela chefia:
– Seu joão. O senhor acaba de ter seu salário eliminado. Não haverá mais férias. E sua função, a partir de amanhã, será a de limpador de nossos sanitários.

O crânio comprimiu-se. Do olho amarelado escorreu um líquido tênue. A boca tremeu, mas nada disse. Sentia-se cansado. Enfim, atingira todos os objetivos. Tentou sorrir:
– Agradeço tudo que fizeram em meu benefício. Mas eu vou requerer minha aposentadoria.

O chefe não compreendeu:
– Mas seu joão, logo agora que o senhor está desassalariado? Por quê? Dentro de alguns meses já vai ter de pagar a taxa inicial para permanecer em nosso quadro. Desprezar tudo isto? Quarenta anos de convívio? O senhor ainda está forte. Que acha?

A emoção impediu qualquer resposta.

joão afastou-se. O lábio murcho se estendeu. A pele enrijeceu, tornou-se lisa. A estatura regrediu. A cabeça se fundiu ao corpo. As formas desumanizaram-se, planas, compactas. Nos lados, havia duas arestas. Ficou cinzento.

joão transformou-se num arquivo de metal.

Victor Giudice

A Química transforma-se em Alquimia na série “Breaking Bad”

breaking2bbadApós cinco temporadas, a premiada série televisiva de dramas, crimes e thriller “Breaking Bad” (2008-2013) ingressou na lista de filmes de diversos gêneros que exploram simbologias alquímicas de transformação como “Blue Velvet” de David Lynch ou “Beleza Americana” de Sam Mendes. Narrativas que exploram as possibilidades de transformações íntimas em nossas vidas através de elementos que tradicionalmente tomamos como negativos: caos, trevas e morte. Um professor de Química confronta a morte, o câncer e um vida fracassada por meio de uma jornada radical de redenção no submundo do narcotráfico. A metanfetamina azul se transforma na série em simbologia alquímica ao mesmo tempo de redenção espiritual e destruição de um mundo de aparências. Por isso, “Breaking Bad” também foi um “experimento sociológico”, segundo seu criador Vince Gilligan.

Dostoiévsky num deserto do Oeste dos EUA. Dessa maneira muitos críticos sintetizaram as cinco temporadas da série Breaking Bad: um professor de Química do ensino médio (Walt White) em um canto empoeirado dos EUA (Albuquerque, Novo México), labuta em seu desespero silencioso por saber que já é um condenado pelo câncer no pulmão. Com um filho deficiente físico e a esposa grávida, sabe que um possível tratamento o levará à banca rota. Junta-se a um ex-aluno rebelde (Jesse) para, com seus conhecimentos de química, fazer a metanfetamina mais pura do mercado do submundo das drogas, para ganhar muito dinheiro rapidamente e, assim, garantir a segurança financeira da sua família após a sua morte.

Tudo levava a crer que teríamos uma história tragicômica de um protagonista que pateticamente tentava salvar uma vida que falhara, mostrando que a existência é desprovida de qualquer sentido ou propósito. Mas as cinco temporadas mostraram que não era isso: a jornada de Walt White converteu-se numa épica batalha de transformação íntima onde um velho modo de vida baseado em aparências e farsas é levado ao caos para que o novo renasça, mesmo com o custo da própria morte.

As pistas já eram dadas pelo criador da série, Vince Gilligan, onde nos créditos iniciais vemos a tabela periódica estilizada e em movimento: mais do que Química, Gilligan mostrou simbolismos da Alquimia – Breaking Bad tratou das possibilidades de dissoluções e transmutações em nossas vidas, encorajando meditações sobre como o poder das trevas, caos e morte, elementos tradicionalmente pensados de forma negativa, podem se converter em elementos positivos: agentes catalizadores de iluminações, novas ordens e vidas.

A simbologia alquímica

breaking-bad-season-5-kingGilligan explorou a imagerie do cinema alquímico presente em uma tradição de filmes comoBlue Velvet (1986) de David Lynch, Beleza Americana (1999) de Sam Mendes eSinédoque, Nova York(2008) de Charlie Kaufman.

Prática antiga que combina elementos da Química, Metalurgia, Matemática, Cabala, Gnosticismo, Magia e Astrologia, a Alquimia busca, através de sucessivas operações (Nigredo, Albedo e Rubedo), reproduzir as etapas de criação do cosmos físico pelo Demiurgo para redimir a matéria – elevá-la do estado da “ignorância” (como a pedra, por exemplo) para estágios superiores de “consciência” (como o ouro).

Portanto, toda Alquimia seria um complexo conjunto de práticas experimentais e místicas que simbolizariam os estados de transmutação da consciência: diferente de muitas linhas neo-platônicas ou cabalistas, a matéria não pode ser simplesmente transcendida ou desprezada. Ela deve ser redimida, transmutada por meio do caos e da morte.

Nas entrevistas onde procura esclarecer o processo de criação da sérieBreaking Bad, Vince Gilligan afirma que nunca levou Química e Matemática à sério na escola e se arrependia desse desprezo. Isso teria sido o principal motivador para o argumento da série, que o fez devorar revistas Popular Science e contar com uma especialista da Universidade de Oklahoma – leia “Breaking Bad creator Vince Gilligan answers fan questions”.

Esse mix de fascínio, ciência popular e consultoria técnica parece confirmar como a cultura de massa com a sua subliteratura de HQs, magazines, filmes B, sci fi, horror e fantasia, acabou criando uma espécie de “sub-zeitgeist” esotérico-religioso que faz renascer arquétipos que dão uma leitura mística de fenômenos científicos.

Por que a metanfetamina é azul?

breaking2bbad2bmetanphetamineO primeiro exemplo é a cor azul da metanfetamina de Walt: Gilligan procurava uma cor para o produto que representasse o grau de pureza do produto que conotasse também a própria busca de redenção de Walt.  A consultoria técnica ponderou que se aplicamos uma cor ao produto, quimicamente ele se tornaria menos puro. Gilligan ignorou a evidência científica (para Gilligan a cor amarela que seria a quimicamente correta lembraria urina e vergonha) e optou pelo azul que simbolizaria pureza. Para reforçar, sua esposa chama-se Skyler numa referencia ao céu azul e a suas roupas da mesma cor.

Outro ponto interessante da imagerie alquímica da série é o câncer pulmonar de Walt. A palavra pulmão vem de pleumon (fluir, fluturar) provavelmente porque, ao contrário das outras vísceras, lançado à água o órgão flutua. Na tradição o esotérica, o pulmão está associado ao ar e a espiritualidade, o pneuma (a alma racional). Mais um simbolismo da redenção e transformaçãoo buscada pelo protagonista.

Além disso, temos o codinome escolhido por Walt para ser reconhecido no submundo do narcotráfico: “Heisenberg”. Sabemos que o físico Werner Heisenberg foi o formulador do conhecido Princípio da Incerteza na física quântica: quando se tenta estudar uma partícula atômica, a medição da posição necessariamente perturba o momentum de uma partícula. Em outras palavras, Heisenberg queria dizer que você não pode observar uma coisa sem influenciá-la.

breaking2bbad2blabEsse codinome não seria mais perfeito para um protagonista alquímico como Walt White. Diferente do cinema tradicional onde o protagonista é “extrovertido” (tenta intervir e alterar o mundo) ou “introvertido” (contemplativo), no cinema alquímico o protagonista pratica a “centroversão”: a sua transformação íntima acaba afetando involuntariamente a todos ao redor (na série, em uma sucessão de mortes, tragédias e dramas familiares em cascata), num processo holístico semelhante ao sugerido por Heisenberg onde o observador não consegue ficar à parte do objeto.

As etapas alquímicas de transformação – spoilers à frente

A narrativa e as sucessivas temporadas de Breaking Bad parecem acompanhar os três estágios de transformação alquímica:

(a) Nigredo (enegrecimento): o caos primário da indiferenciação. Sob a influência de Saturno, Walt é melancólico em seu desespero silencioso. Nas duas primeiras temporadas, tal como os filmes noir dos anos 1940-50 não má mocinhos e bandidos, ninguém é o que aparenta ser: Rank, o cunhado de Walt e investigador da Departamento de Narcóticos da Polícia, por trás da sua aparência de superxerife, é inseguro e busca reconhecimento e promoção encobrindo seus problemas conjugais; um cidadão benemérito da polícia local na verdade é um narcotraficante implacável e cruel (Gus Fring); Skyler trai Walt com um antigo amante etc.

A melancolia de Walt só poderia ser atraída para o submundo e para um personagem loser como Jesse: no cinema alquímico, personagens como o do Estrangeiro (aquele que possui uma relação de estranhamento com sua família e cidade) sempre é atraído para o submundo – o protagonista vê que a única forma de redenção é mergulhando no caos para redimir a matéria.

breaking2bbad2b1(b) Albedo (embranquecimento):  Sr. White (branco) encontra um estado ideal de estabilização, abstrato e ideal. Sob a assistência do impagável advogado porta-de-cadeia Saul Goodman, cria canais de lavagem de dinheiro da metanfetamina. Ele quase consegue conciliar a vida familiar com o submundo do narcotráfico. Na alquimia o estágio do Albedo é regido pela Lua: nesse estágio sonhos e fantasias de um mundo ideal torna-se perigoso, podendo tornar o protagonista “lunático”. Walt começa a tomar gosto pelo seu personagem Heisenberg (careca com um chapéu estiloso preto). Essa idealização e a aparente regressão do câncer pode criar um ilusório estado de estabilização.

(c) Rubedo (erubescimento): a esse estado ideal que acompanhamos na temporada 3 e 4, é necessário injetar o Sol, a Vida e o Sangue na última temporada. Como Vince Gilligan afirmou, era necessário encontrar uma forma de Walt pagar pelo seus pecados e, ao mesmo tempo, encontrar sua redenção. Paradoxalmente, o protagonista renascerá do caos das relações humanas por meio da morte.

O banho de sangue final (que faz lembrar outra narrativa alquímica de transformações no filme Taxi Driver de 1976 com Robert De Niro) e a emblemática imagem final de Walt mortalmente ferido passando sua mão ensanguentada em um dos recipientes do laboratório de produção de metanfetamina marcam imageticamente a transmutação do rubedo: num laboratório em meio do deserto (elemento Sol) o laboratório é marcado pelo vermelho do sangue – tanto em filmes com Blue Velvet como em Beleza Americana, sangue e flores vermelhas são as imagens desse momento culminante de redenção do protagonista.

Um experimento sociológico

breaking2bbad2bwaltNa entrevistas Gilligan afirmou diversas vezes que Breaking Bad era um verdadeiro experimento sociológico pela forma como os espectadores interagiram com Walt White ao longo da série ao acompanhar suas transformações.

Mas esse experimento foi além: ao mostrar como as transformações íntimas de Walt foram revelando a realidade por trás do teatro das aparências sociais, passamos a colocar sob suspeita alguns acontecimentos que muitas vezes figuram na mídia:

(a) Quando você ver notícias de pessoas que misteriosamente desapareceram sem deixar vestígios (abduzidas por ETs?) desconfie: como na série, deve ter sido algumas daquelas pessoas azaradas que apareceram no lugar errado e na hora errada. Assassinadas por serem testemunhas, são dissolvidas em caldos químicos em laboratórios de narcotraficantes;

(b) Correntes de donativos na Internet para causas humanitárias e para o tratamento de pessoas com doenças exóticas, também desconfie: pode ser uma forma cibernética de lavagem de dinheiro sujo através de algum laranja;

(c) Se ouvir falar de uma empresa ou negócio praticamente falido que foi vendido e, repentinamente, prospera e em pouco tempo começa a abrir filiais, pode ter certeza: é um instrumento de lavagem de dinheiro. Afinal, como dizia Balzac, por trás de toda fortuna se esconde um grande crime.

Cinegnose

Apertem os cintos… a Esquerda sumiu


A escalada de manifestações nas ruas em todo o país parece expressar um profundo mal estar dos jovens em relação não apenas à política (o jogo partidário), mas principalmente à instituição da Política como representação de qualquer demanda social.

Desconfiam que por trás da Política ou do Poder não existe nada mais do que ardil, simulação, blefe. Mas a mídia tem horror ao vácuo: para manter o ardil da simulação os meios de comunicação precisam encaixar as manifestações em um script, assim como um novo roteiro de um filme publicitário que oferece mais do mesmo para o mercado.

As interpretações dos cientistas e comentaristas políticos crescem na mesma proporção que os protestos nas ruas. Em toda essa espiral interpretativa há um ponto que todos parecem concordar: a incrível flexibilidade e rapidez da logística das mobilizações nas ruas através das redes sociais contrasta com os lentos canais de comunicação representativos de partidos políticos, Executivo e organizações classistas. A UNE, por exemplo, desapareceu. Qualquer identificação partidária no meio das passeatas é vista com maus olhos e rejeitada pelos manifestantes.

Mas essa questão logística de comunicação é apenas o sintoma: os jovens na rua estão expressando um profundo mal estar em relação não apenas à política (o jogo partidário), mas principalmente à Política – o questionamento da própria ideologia política como representação de qualquer demanda social. Em outras palavras, os jovens desconfiam que por trás da Política ou da ideologia não existe nada e que tudo é um ardil, uma simulação, um blefe.

A essa desconfiança que parece estar latente em cada voto nulo ou em branco o pensador francês Jean Baudrillard chamava de “grau zero da política”. Para ele o Poder teria perdido a sua correspondência objetiva no real. Ele subsistiria apenas no campo midiático da simulação da vontade política das autoridades, das suas declarações, das suas “canetadas” em projetos e promulgação de leis, nas intrigas palacianas, nos boatos metodicamente “vazados” para as mídias. Diante do Capital, o Poder subsistiria como mero gerenciador da manutenção macroeconômica. Dito de outro modo, o Poder não mais produz a Política, ele apenas reproduzpolíticas econômicas, financeiras, sociais etc.

O perigo da simulação

Ña Política não existe produção,
mas reprodução

O que seria então o jogo partidário senão a simulação de diferenças ideológicas que, em si, cessaram? Lendo Baudrillard parece que ele quer nos dizer que os partidos guardam uma analogia às mercadorias promovidas pela Publicidade: em mercados cartelizados os produtos começam a ficar cada vez mais parecidos tecnologicamente; por isso, o ardil publicitário seria o de simular diferenças (design, cores, apresentação, retórica etc.), criar um centro gravitacional em torno do qual tudo circule para evitar a suspeita no consumidor de que tanto faz qual produto escolher.

É exatamente esse o perigo de toda simulação ou blefe: e se suspeitarmos de que nada existe por trás? E se o eleitor descobrir que por trás da representação democrática não existe produção (História, Revolução, Transformação, Rupturas etc.), mas apenas a reprodução ad eternum não só do jogo político (circularidade e auto-referência) como também reprodução da onisciente necessidade de reprodução macroeconômica do valor de troca?

Esse mal estar de que, na verdade, “tanto faz” representaria o momento de verdade de toda essa escalada de protestos que testemunhamos nas ruas e nos meio de comunicação. Os jovens estão deixando o rei nu, Dorothy abre a cortina e descobre que o Mágico de Oz não existe.

Horror ao vácuo

Porém, a natureza parece ter horror ao vácuo. A ausência de centro gravitacional, de uma massa com densidade suficiente para criar uma força centrípeda que dê sentido à Política e ao Poder, passa a ser compensada de forma canhestra por uma instituição: a mídia.

Quando Maria Judith Brito, presidente da Associação Nacional dos Jornais (ANJ), falou que diante de uma oposição fragilizada politicamente no país os meios de comunicação seriam de fato o verdadeiro partido de oposição, não foi uma mera bravata ou elogio à liberdade de (em)imprensa. Foi na verdade uma tese baudrillardiana de que toda a sociedade já gravita em torno das mídias como a única forma de produção de sentido possível, nem que seja como simulação.

O campo de enquadramento da câmera passa a ser o novo tempo forte do social, em torno do qual todos os agentes gravitam, inclusive o próprio Poder e a Política.

O incêndio do painel da Coca-Cola
Copa 2014

Nas ruas o comportamento dos manifestantes diante das mídias tem semostrado ambíguo: de um lado queimam furgões de emissoras de TV como o da Record ou expulsam repórteres da TV Globo como o caso de Caco Barcelos; por outro, onde tem um cinegrafista e um spot de luz (desde que não identificada a emissora) é imediatamente cercado por manifestantes que gritam palavras de ordem, pulam, acenam e mostram cartazes com mais palavras de ordem e reivindicações.

É inegável que há um componente cênico-teatral nas ações nas ruas, um desejo de visibilidade, de repercussão ao depredar símbolos midiáticos (o painel da Coca-Cola em referência à Copa 2014) ou quando eskatistas posam para fotos e cinegrafistas diante da carcaça do furgão da TV Record incendiado.

Passado o momento progressista e de verdade de um movimento que rechaçou a simulação do jogo político-partidário, o movimento corre agora o risco de ser mais um agente a gravitar em torno dos meios de comunicação, principalmente agora que a mídia descobriu um escript para encaixá-lo. Passado o momento de perplexidade em que a mídia viu as manifestações das ruas sem poder entendê-las a não ser pela execração (“vândalos”, “criminosos”, “burrice política” etc.), agora vislumbram a possibilidade de encaixar as passeatas e mobilizações no roteiro da simulação do Poder e da Política a partir da criação da atmosfera de uma suposta crise.

Em poucos dias a TV Globo passou a compará-los aos “caras-pintadas” do impeachment de Collor, a convidar os espectadores a enviar seus melhores vídeos sobre os protestos, a caprichar nos enquadramentos de forte carga retórica (torre da FIESP na avenida Paulista iluminada em verde e amarelo diante de um mar de faixas e cartazes, uma criança que dava flores para cada manifestante que passava na avenida Faria Lima…). E as cenas de depredação e incêndios provocadas claramente por truculentos agitadores sempre mostrados em tomadas aéreas por helicópteros para dar um impacto ainda maior de caos e anomia, emendadas por comentários sobre perda do controle federal, repercussão internacional das manifestações, aumento do dólar e assim por diante em um delirante discurso metonímico.

Se a grande novidade da explosão das manifestações foi pegar a questão das tarifas de ônibus como um álibi para expressar esse mal estar do jovem diante do artificialismo da Política, agora ironicamente começam a ser capturados pelo mesmo discurso midiático que quer encobrir esse mesmo artificialismo ao simular a existência de Poder através do ensaio de golpe contra o governo Dilma.
 

Nostalgia ideológica

Dilma precisa ser derrubada  por uma
necessidade simbólica de
simulação das diferenças ideológicas

Se o Poder não existe para Baudrillard, porque falar então em “golpe”? Para Baudrillard, se existe Poder ele não está mais no campo da política e do discurso, mas na ordem do proibido, da Lei, dimensões que evocam muito mais uma antropologia da política do que a ordem objetiva do real. Explicando melhor, o PT precisa ser derrubado não porque ele é virulento e radical (afinal ele nada mais fez até agora do que modernizar o país pela normalização das funções de reprodução de força de trabalho e consumo ótima para o capital com as medidas de inserção social e a manutenção da financeirização), mas por uma necessidade simbólica de simulação das diferenças ideológico-partidárias.

Encaixar os gritos das ruas à pauta midiática do combate à corrupção e à indignação “contra tudo que está aí” é um álibi para invocar toda a nostalgia ideológica retro da Direita: neoliberais radicais, neofascistas e tantos “neos” quanto forem necessários para a simulação do embate político.

Pois justamente no momento em que os jovens nas ruas expressavam esse sintoma do envelhecimento e fastio diante do jogo da simulação da Política e do Poder, eis que surgem os meios de comunicação ávidos por encaixar esses jovens manifestantes em um roteiro pré-estabelecido que, por incrível que pareça, a mídia levou algum tempo para entender: o script da “primavera de mudanças”, da “novidade política”, assim como o roteiro de uma campanha publicitária que lança mais do mesmo no mercado.

Tudo isso lembra o já mítico filme “Show de Truman” (Truman Show, 1998): diante da melancolia e paranoia crescentes do protagonista que desconfia de que há algo de errado na cidade de Seaheaven onde vive, o produtor do reality show cria um plot melodramático para racionalizar o mal estar de Truman: na verdade tudo o que ele sente nada mais é do que a culpa pela morte do pai.

Da mesma forma os meios de comunicação querem transformar as manifestações na palmatória de um suposto processo de moralização política em andamento, retirando toda a radicalidade de jovens que começavam a perceber que por trás das camadas ideológicas, nada existe.

Em um revivalnostálgico voltam à memória da mídia a “marcha pela família” que antecedeu o golpe que derrubou João Goulart em 1964, as greves gerais que minaram o poder do governo socialista de Allende no Chile e a “Marcha dos 100 mil” de protesto contra a ditadura militar brasileira em 1968. Da Esquerda para a Direita essas imagens retro são repercutidas para, de alguma forma, dar sentido às verdadeiras flash mobs que se tornaram as mobilizações. A mídia soube entender em tempo hábil tudo isso, mas e a Esquerda? Sumiu… apertem os cintos.

Cinegnose

“A dívida pública é um mega esquema de corrupção institucionalizado”

divida

Economia Entrevista – Maria Lucia Fattorelli

“A dívida pública é um mega esquema de corrupção institucionalizado” por Renan Truffi — publicado 09/06/2015 04h34, última modificação 09/06/2015

Para ex-auditora da Receita, convidada pelo Syriza sistema atual provoca desvio de recursos públicos para o mercado financeiro

CartaCapital: O que é a dívida pública?

Maria Lucia Fattorelli: A dívida pública, de forma técnica, como aprendemos nos livros de Economia, é uma forma de complementar o financiamento do Estado. Em princípio, não há nada errado no fato de um país, de um estado ou de um município se endividar, porque o que está acima de tudo é o atendimento do interesse público. Se o Estado não arrecada o suficiente, em princípio, ele poderia se endividar para o ingresso de recursos para financiar todo o conjunto de obrigações que o Estado tem. Teoricamente, a dívida é isso. É para complementar os recursos necessários para o Estado cumprir com as suas obrigações. Isso em principio.

CC: E onde começa o problema?

MLF: O problema começa quando nós começamos a auditar a dívida e não encontramos contrapartida real. Que dívida é essa que não para de crescer e que leva quase a metade do Orçamento? Qual é a contrapartida dessa dívida? Onde é aplicado esse dinheiro? E esse é o problema. Depois de várias investigações, no Brasil, tanto em âmbito federal, como estadual e municipal, em vários países latino-americanos e agora em países europeus, nós determinamos que existe um sistema da dívida. O que é isso? É a utilização desse instrumento, que deveria ser para complementar os recursos em benefício de todos, como o veículo para desviar recursos públicos em direção ao sistema financeiro. Esse é o esquema que identificamos onde quer que a gente investigue.

CC: E quem, normalmente, são os beneficiados por esse esquema? Em 2014, por exemplo, os juros da dívida subiram de 251,1 bilhões de reais para 334,6 bilhões de reais no Brasil. Para onde está indo esse dinheiro de fato?

MLF: Nós sabemos quem compra esses títulos da dívida porque essa compra direta é feita por meio dos leilões. O processo é o seguinte: o Tesouro Nacional lança os títulos da dívida pública e o Banco Central vende. Como o Banco Central vende? Ele anuncia um leilão e só podem participar desse leilão 12 instituições credenciadas. São os chamados dealers. A lista dos dealers nós temos. São os maiores bancos do mundo. De seis em seis meses, às vezes, essa lista muda. Mas sempre os maiores estão lá: Citibank, Itaú, HSBC…é por isso que a gente fala que, hoje em dia, falar em dívida externa e interna não faz nem mais sentido. Os bancos estrangeiros estão aí comprando diretamente da boca do caixa. Nós sabemos quem compra e, muito provavelmente, eles são os credores porque não tem nenhuma aplicação do mundo que pague mais do que os títulos da dívida brasileira. É a aplicação mais rentável do mundo. E só eles compram diretamente. Então, muito provavelmente, eles são os credores.

CC: Por quê provavelmente?

MLF: Por que nem mesmo na CPI da Dívida Pública, entre 2009 e 2010, e olha que a CPI tem poder de intimação judicial, o Banco Central informou quem são os detentores da dívida brasileira. Eles chegaram a responder que não sabiam porque esses títulos são vendidos nos leilões. O que a gente sabe que é mentira. Porque, se eles não sabem quem são os detentores dos títulos, para quem eles estão pagando os juros? Claro que eles sabem. Se você tem uma dívida e não sabe quem é o credor, para quem você vai pagar? Em outro momento chegaram a falar que essa informação era sigilosa. Seria uma questão de sigilo bancário. O que é uma mentira também. A dívida é pública, a sociedade é que está pagando. O salário do servidor público não está na internet? Por que os detentores da dívida não estão? Nós temos que criar uma campanha nacional para saber quem é que está levando vantagem em cima do Brasil e provocando tudo isso.

CC: Qual é a relação entre os juros da dívida pública e o ajuste fiscal, em curso hoje no Brasil?

MLF: Todo mundo fala no corte, no ajuste, na austeridade e tal. Desde o Plano Real, o Brasil produz superávit primário todo ano. Tem ano que produz mais alto, tem ano que produz mais baixo. Mas todo ano tem superávit primário. O que quer dizer isso, superávit primário? Que os gastos primários estão abaixo das receitas primárias. Gasto primários são todos os gastos, com exceção da dívida. É o que o Brasil gasta: saúde, educação…exceto juros. Tudo isso são gastos primários. Se você olhar a receita, o que alimenta o orçamento? Basicamente a receita de tributos. Então superávit primário significa que o que nós estamos arrecadando com tributos está acima do que estamos gastando, estão está sobrando uma parte.

CC: E esse dinheiro que sobra é para pagar os juros dívida pública?

MLF: Isso, e essa parte do superávit paga uma pequena parte dos juros porque, no Brasil, nós estamos emitindo nova dívida para pagar grande parte dos juros. Isso é escândalo, é inconstitucional. Nossa Constituição proíbe o que se chama de anatocismo. Quando você contrata dívida para pagar juros, o que você está fazendo? Você está transformando juros em uma nova divida sobre a qual vai incidir juros. É o tal de juros sobre juros. Isso cria uma bola de neve que gera uma despesa em uma escala exponencial, sem contrapartida, e o Estado não pode fazer isso. Quando nós investigamos qual é a contrapartida da dívida interna, percebemos que é uma dívida de juros sobre juros. A divida brasileira assumiu um ciclo automático. Ela tem vida própria e se retroalimenta. Quando isso acontece, aquele juros vai virar capital.  E, sobre aquele capital, vai incidir novos juros. E os juros seguintes, de novo vão se transformados em capital. É, por isso, que quando você olha a curva da dívida pública, a reta resultante é exponencial. Está crescendo e está quase na vertical. O problema é que vai explodir a qualquer momento.

CC: Explodir por quê?

MLF: Por que o mercado – quando eu falo em mercado, estou me referindo aos dealers – está aceitando novos títulos da dívida como pagamento em vez de receber dinheiro moeda? Eles não querem receber dinheiro moeda, eles querem novos títulos, por dois motivos. Por um lado, o mercado sabe que o juros vão virar novo título e ele vai ter um volume cada vez maior de dívidas para receber. Segundo: dívida elevada tem justificado um continuo processo de privatização. Como tem sido esse processo? Entrega de patrimônio cada vez mais estratégico, cada vez mais lucrativo. Nós vimos há pouco tempo a privatização de aeroportos. Não é pouca coisa os aeroportos de Brasília, de São Paulo e do Rio de Janeiro estarem em mãos privadas. O que no fundo esse poder econômico mundial deseja é patrimônio e controle. A estratégia do sistema da dívida é a seguinte: você cria uma dívida e essa dívida torna o pais submisso. O país vai entregar patrimônio atrás de patrimônio. Assim nós já perdemos as telefônicas, as empresas de energia elétrica, as hidrelétricas, as siderúrgicas. Tudo isso passou para propriedade desse grande poder econômico mundial. E como é que eles [dealers] conseguem esse poder todo? Aí entra o financiamento privado de campanha. É só você entrar no site do TSE [Tribunal Superior Eleitoral] e dar uma olhada em quem financiou a campanha desses caras. Ou foi grande empresa ou foi banco. O nosso ataque em relação à dívida é porque a dívida é o ponto central, é a espinha dorsal do esquema.

CC: Como funcionaria a auditoria da dívida na prática? Como diferenciar o que é dívida legítima e o que não é?

MLF: A auditoria é para identificar o esquema de geração de dívida sem contrapartida. Por exemplo, só deveria ser paga aquela dívida que preenche o requisito da definição de dívida. O que é uma dívida? Se eu disser para você: ‘Me paga os 100 reais que você me deve’. Você vai falar: “Que dia você me entregou esses 100 reais?’ Só existe dívida se há uma entrega. Aconteceu isso aqui na Grécia. Mecanismos financeiros, coisas que não tinham nada ver com dívida, tudo foi empurrado para as estatísticas da dívida. Tudo quanto é derivativo, tudo quanto é garantia do Estado, os tais CDS [Credit Default Swap – espécie de seguro contra calotes], essa parafernália toda desse mundo capitalista ‘financeirizado’. Tudo isso, de uma hora para outra, pode virar dívida pública. O que é a auditoria? É desmascarar o esquema. É mostrar o que realmente é dívida e o que é essa farra do mercado financeiro, utilizando um instrumento de endividamento público para desviar recursos e submeter o País ao poder financeiro, impedindo o desenvolvimento socioeconômico equilibrado. Junto com esses bancos estão as grandes corporações e eles não têm escrúpulos. Nós temos que dar um basta nessa situação. E esse basta virá da cidadania. Esse basta não virá da classe politica porque eles são financiados por esse setor. Da elite, muito menos porque eles estão usufruindo desse mecanismo. A solução só virá a partir de uma consciência generalizada da sociedade, da maioria. É a maioria, os 99%, que está pagando essa conta. O Armínio Fraga [ex-presidente do Banco Central] disse isso em depoimento na CPI [Comissão Parlamentar de Inquérito] da Dívida, em 2009, quando perguntado sobre a influência das decisões do Banco Central na vida do povo. Ele respondeu: “Olha, o Brasil foi desenhado para isso”.

CC: Quanto aproximadamente da dívida pública está na mão dos bancos e de grandes empresas? O Tesouro Direto, que todos os brasileiros podem ter acesso, corresponde a que parcela do montante?

MLF: Essa história do Tesouro Direto é para criar a impressão que a dívida pública é um negócio correto, que qualquer um pode entrar lá e comprar. E, realmente, se eu ou você comprarmos é uma parte legítima. Agora, se a gente entrar lá e comprar, não é direto. É só para criar essa ilusão. Tenta entrar lá para comprar um título que seja. Você vai chegar numa tela em que vai ter que escolher uma instituição financeira. E essa instituição financeira vai te cobrar uma comissão que não é barata. Ela não vai te pagar o juros todo do título, ela vai ficar com um pedaço. O banco, o dealer, que compra o título da dívida é quem estabelece os juros. Ele estabelece os juros que ele quer porque o governo lança o título e faz uma proposta de juros. Se, na hora do leilão, o dealer não está contente com aquele patamar de juros, ele não compra. Ele só compra quando o juros chega no patamar que ele quer. Invariavelmente, os títulos vêm sendo vendidos muito acima da Selic [taxa básica de juros]. Em 2012, quando a Selic deu uma abaixada e chegou a 7,25%, nós estávamos acompanhando e os títulos estavam sendo vendidos a mais de 10% de juros. E eles sempre compram com deságio. Se o título vale 1000 reais, ele compra por 960 reais ou 970 reais, depende da pressão que ele quer impor no governo aquele dia. Olha a diferença. Se você compra no Tesouro Direto, você não vai ter desconto. Pelo contrário, você vai ter que pagar uma comissão. E você também não vai mandar nos juros. É uma operação totalmente distinta da operação direta de verdade que acontece lá no leilão.

CC: Por que é tão difícil colocar a auditoria em prática? Como o mercado financeiro costuma reagir a uma auditoria?

MLF: O mercado late muito, mas na hora ele é covarde. Lá no Equador, quando estávamos na reta final e vários relatórios preliminares já tinham sido divulgados, eles sabiam que tínhamos descoberto o mecanismo de geração de dívida, várias fraudes. Eles fizeram uma proposta para o governo de renegociação. Só que o Rafael Correa [atual presidente do Equador] não queria negociar. Ele queria recomprar e botar um ponto final. Porque quando você negocia, você dá uma vida nova para a dívida. Você dá uma repaginada na dívida. Ele não queria isso. Ele queria que o governo dele fosse um governo que marcasse a história do Equador. Ele sabia que, se aceitasse, ficaria subjugado à dívida. Ele foi até o fim, fez uma proposta e o que os bancos fizeram? 95% dos detentores dos títulos entregaram. Aceitaram a oferta de recompra de no máximo 30% e o Equador eliminou 70% de sua dívida externa em títulos. No Brasil, durante os dez meses da CPI da Dívida, a Selic não subiu. Foi incrível esse movimento. Nós estamos diante de um monstro mundial que controla o poder financeiro e o poder político com esquemas fraudulentos. É muito grave isso. Eu diria que é um mega esquema de corrupção institucionalizado.

CC: O mercado financeiro e parte da imprensa costumam classificar a auditoria da dívida de calote. Por que a auditoria da dívida não é calote?

MLF: A auditoria vai investigar e não tem poder de decisão do que vai ser feito. A auditoria só vai mostrar. No Equador, a auditoria só investigou e mostrou as fraudes, mecanismos que não eram dívidas, renúncias à prescrição de dívidas. O que é isso? É um ato nulo. Dívidas que já estavam prescritas. Uma dívida prescrita é morta. E isso aconteceu no Brasil também na época do Plano Brady, que transformou dívidas vencidas em títulos da dívida externa. Depois, esses títulos da dívida externa foram usados para comprar nossas empresas que foram privatizadas na década de 1990: Vale, Usiminas…tudo comprado com título da dívida em grande parte. Você está vendo como recicla? Aqui, na Grécia, o país está sendo pressionado para pagar uma dívida ilegítima. E qual foi a renegociação feita pelo [Geórgios] Papandréu [ex-primeiro-ministro da Grécia]? Ele conseguiu um adiamento em troca de um processo de privatização de 50 bilhões de euros. Esse é o esquema. Deixar de pagar esse tipo de dívida é calote? A gente mostra, simplesmente, a parte da dívida que não existe, que é nula, que é fraude. No dia em que a gente conseguir uma compreensão maior do que é uma auditoria da dívida e a fragilidade que lado está do lado de lá, a gente muda o mundo e o curso da história mundial.

CC: Em comparação com o ajuste fiscal, que vai cortar 70 bilhões de reais de gastos, tem alguma estimativa de quanto a auditoria da dívida pública poderia economizar de despesas para o Brasil?

MLF: Essa estimativa é difícil de ser feita antes da auditoria, porém, pelo que já investigamos em termos de origem da dívida brasileira e desse impacto de juros sobre juros, você chega a estimativas assustadoras. Essa questão de juros sobre juros eu abordei no meu último livro. Nos últimos anos, metade do crescimento da divida é nulo. Eu só tive condição de fazer o cálculo de maneira aritmética. Ficou faltando fazer os cálculos de 1995 a 2005 porque o Banco Central não nos deu os dados. E mesmo assim, você chega a 50% de nulidade da dívida, metade dela. Consequentemente para os juros seria o mesmo [montante]. Essa foi a grande jogada do mercado financeiro no Plano Real porque eles conseguiram gerar uma dívida maluca. No início do Plano Real os juros brasileiros chegaram a mais de 40% ao ano. Imagina uma divida com juros de 40% ao ano? Você faz ela crescer quase 50% de um ano para o outro. E temos que considerar que esses juros são mensais. O juro mensal, no mês seguinte, o capital já corrige sobre o capital corrigido no mês anterior. Você inicia um processo exponencial que não tem limite, como aconteceu na explosão da dívida a partir do Plano Real. Quando o Plano Real começou, nossa dívida estava em quase 80 bilhões de reais. Hoje ela está em mais de três trilhões de reais. Mais de 90% da divida é de juros sobre juros.

CC: E isso é algo que seria considerado ilegal na auditoria da dívida pública?

MLF: É mais do que ilegal, é inconstitucional. Nossa Constituição proíbe juros sobre juros para o setor público. Tem uma súmula do Supremo Tribunal Federal, súmula 121, que diz que ainda que tenha se estabelecido em contrato, não pode. É inconstitucional. Tudo isso é porque tem muita gente envolvida, favorecida e mal informada. Esses tabus, essa questão do calote, muita gente fala isso. Eles tentam desqualificar. Falamos em auditoria e eles falam em calote. Mas estou falando em investigar. Se você não tem o que temer, vamos abrir os livros. Vamos mostrar tudo. Se a dívida é tão honrada, vamos olhar a origem dessa dívida, a contrapartida dela.

CC: Ao longo da entrevista, a senhora citou diversos momentos da história recente do Brasil, o que mostra que esse problema vem desde o governo Fernando Henrique Cardoso, e passou pelas gestões Lula e Dilma. Mas como a questão da dívida se agravou nos últimos anos? A dívida externa dos anos 1990 se transformou nessa dívida interna de hoje?

MLF: Houve essa transformação várias vezes na nossa história. Esses movimentos foram feitos de acordo com o interesse do mercado. Tanto de interna para externa, como de externa para interna, de acordo com o valor do dólar. Esses movimentos são feitos pelo Banco Central do Brasil em favor do mercado financeiro, invariavelmente. Quando o dólar está baixo, e seria interessante o Brasil quitar a dívida externa, por precisar de menos reais, se faz o contrário. Ele contrai mais dívida em dólar. Esses movimentos são sempre feitos contra nós e a favor do mercado financeiro.

CC: E o pagamento da dívida externa, em 2005?

MLF: O que a gente critica no governo Lula é que, para pagar a dívida externa em 2005, na época de 15 bilhões de dólares, ele emitiu reais. Ele emitiu dívida interna em reais. A dívida com o FMI [Fundo Monetário Internacional] era 4% ao ano de juros. A dívida interna que foi emitida na época estava em média 19,13% de juros ao ano. Houve uma troca de uma dívida de 4% ao ano para uma de 19% ao ano. Foi uma operação que provocou danos financeiros ao País. E a nossa dívida externa com o FMI não era uma dívida elevada, correspondia a menos de 2% da dívida total. E por que ele pagou uma dívida externa para o FMI que tinha juros baixo? Porque, no inconsciente coletivo, divida externa é com o FMI. Todo mundo acha que o FMI é o grande credor. Isso, realmente, gerou um ganho político para o Lula e uma tranquilidade para o mercado. Quantos debates a gente chama sobre a dívida e as pessoas falam: “Esse debate já não está resolvido? Já não pagamos a dívida toda?’. Não são poucas as pessoas que falam isso por conta dessa propaganda feita de que o Lula resolveu o problema da dívida. E o mercado ajuda a criar essas coisas. Eu falo o mercado porque, na época, eles também exigiram que a Argentina pagasse o FMI. E eles também pagaram de forma antecipada. Você vê as coisas aconteceram em vários lugares, de forma simultânea. Tudo bem armado, de fora para dentro, na mesma época.

CC: O que a experiência grega de auditoria da dívida poderia ensinar ao Brasil, na sua opinião?

MLF: São muitas lições. A primeira é a que ponto pode chegar esse plano de austeridade fiscal. Os casos aqui da Grécia são alarmantes. Em termos de desemprego, mais de 100 mil jovens formados deixaram o país nos últimos anos porque não têm emprego. Foram para o Canadá, Alemanha, vários outros países. A queda salarial, em média, é de 50%. E quem está trabalhando está feliz porque normalmente não tem emprego. Jornalista, por exemplo, não tem emprego. Tem até um jornalista que está colaborando com a nossa comissão e disse que só não está passando fome por conta da ajuda da família. A maioria dos empregos foram flexibilizados, as pessoas não têm direitos. Serviços de saúde fechados, escolas fechadas, não tem vacina em posto de saúde. Uma calamidade terrível. Trabalhadores virando mendigos de um dia para o outro. Tem ruas aqui em que todas as lojas estão fechadas. Todos esses pequenos comerciantes ou se tornaram dependentes da família ou foram para a rua ou, pior, se suicidaram. O número de suicídios aqui, reconhecidamente por esse problema econômico, passa de 5 mil. Tem vários casos de suicídio em praça pública para denunciar. Nesses dias em que estou aqui, houve uma homenagem em frente ao Parlamento para um homem que se suicidou e deixou uma carta na qual dizia que estava entregando a vida para que esse plano de austeridade fosse denunciado.

Carta Capital

Encanto e cautela com o PT

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ENCANTO E CAUTELA COM O PT

 

Mércio Gomes *

 

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A grande vitória de Luiz Inácio Lula da Silva e do PT nas eleições presidenciais de 2002, bem como o expressivo aumento de sua representação no Executivo e no Legislativo em quase todos os estados da União parecem indicar que o Brasil e o povo brasileiro acharam afinal o partido de esquerda que os possa representar para si e para o mundo. Na história Republicana outros partidos almejaram e lutaram com igual destemor e até maior sacrifício para alcançar o que o PT vem de obter em apenas 22 anos de exercício político. Tempos diferentes, não se duvida, mas tal não é feito inglório, ao contrário, merece o louvor de todos os partidos de esquerda da atualidade, especialmente daqueles que não se coligaram com o PT no primeiro turno, defendendo projetos próprios. O PPS, cujo projeto foi esboçado e apresentado pela candidatura Ciro Gomes, alcançou em certo momento da campanha (30/07 a 20/09) até 30% de intenções de votos, i.e., da empatia imaginária do povo brasileiro, quando Lula estava com 34%. A candidatura Ciro Gomes, entretanto, desmoronou para 12%, enquanto Lula subia até alcançar 46,4% dos votos válidos depositados em 6 de outubro, para, ao final, chegar à marca recorde de 52.793.261 votos, ou 61,3% dos votos válidos, no segundo turno. Ao que indicaram as pesquisas, grande parte dos votos intencionados, mas perdidos, de Ciro Gomes, ainda no primeiro turno, migraram para o PT, e igualmente no segundo turno. Por sua vez, a candidatura Garotinho, abrigada no vetusto PSB, também acenou ao povo brasileiro um laivo de opção de esquerda, embora fortemente temperada com um linguajar salvacionista e um estrepitoso comportamento para-religioso, à moda americana de evangelização. Seus votos se dividiram entre Lula e Serra no segundo turno.

De modo que, no cômputo geral e à primeira vista de uma análise política exclusivamente funcionalista e quantitativa, em cima do eixo de representação partidária, o Brasil teria chegado, após oito anos de governo neoliberal, ao seu máximo de esquerdismo: no total, cerca de 75% de votos foram dados a representantes nacionais ditos de esquerda no primeiro turno. No segundo, polarizado entre Lula e o candidato da situação, José Serra, essa porcentagem caiu bastante (61,3%), indicando, ou o reconhecimento de que o candidato Serra não era necessariamente de direita, ou a opção Lula não preenchia a visão de muitos eleitores dos demais candidatos.

Por tudo isso, poder-se-ia perguntar: o Brasil ficou, para o gáudio e felicidade geral dos sonhos nossos utopistas, rouge? Pergunta que deixamos no retórico e resposta que se queda vazia. Seria demasiado pretender discorrer sobre a visão e a atitude política do povo brasileiro e as suas circunstâncias atuais em tão pouco espaço de tempo, e sobre números de votos. Importa aqui a preocupação de analisar o vencedor, o PT, sua formação e sua essencialidade para que possamos reconhecer seu papel na história brasileira recente e para podermos nos situar perante o governo Lula, que se inicia em 2003. O fato de uma outra proposta, a do PPS, ter tocado no imaginário político-cultural de quase um terço da população brasileira nos leva a crer que o povo brasileiro reserva uma cautela ao PT, apesar de o ter consagrado nas urnas. Tal cautela tem sua razão de ser, e este é o sentido das considerações que se seguem.

aaeaaqaaaaaaaayqaaaajge0n2uwm2yzltqzzmitngjhyi1im2jmlwuwoddknzdjzwuyoq  Nossa análise político-cultural é fruto de muitos anos de reflexão sobre o formato de ser do PT, sua origem nos estertores da ditadura militar, sua reificação da organização sindicalista, sobretudo de classe média, como meio de veicular sua mensagem e suas atitudes políticas, sua mistificação a-histórica do povo brasileiro, e sua pretensão de ser o legítimo representante do sentimento de brasilidade.

 

I

 

lula-paz-e-amor  Há mais de 20 anos o povo brasileiro tem ouvido os discursos e experimentado as práticas políticas do Partido dos Trabalhadores. Auto-intitulando-se o representante de todos que trabalham, por suposto em oposição aos que vivem do capital, o PT ganhou uma aura de legitimidade popular como poucos partidos ou movimentos sociais jamais conseguiram no Brasil. A glorificação em vida de um ex-operário, homem do povo sofrido, migrante nordestino a São Paulo, impoluto e ilibado, só fez consolidar esse carisma. Para este partido, depois de quatro eleições presidenciais, chegou a hora de provar o gosto do pudim. Muita gente vai se aproximar e querer estar junto. Entretanto, um momento de reflexão e cautela não faz mal.

Sejamos diretos: há inúmeros motivos políticos, culturais e filosóficos para não se confiar que o PT é o partido que melhor pode representar os anseios do Brasil e as necessidades de ascensão do povo brasileiro. Em cada estado brasileiro onde esse partido tem visibilidade e posicionamentos políticos definidos, e até naqueles onde ele nunca chegou a se erguer com viabilidade político-eleitoral, despontam marcas de negatividade no seu comportamento político. O PT tem demonstrado ser autocentrado, totalizante, manipulador de eventos políticos, crítico de oportunidade, infirme para com parceiros, internamente divisionista e ilusionista para com os anseios populares. Sua visão político-cultural do Brasil tem como fulcro o ideal pequeno-burguês da classe média urbana, nas suas modalidades sindicalista, radical, moralista e narcísica. Simbolicamente, basta observar as letras de suas canções e vinhetas eleitorais (exemplos, “sem medo de ser feliz” e “é só você querer”) para que isto se evidencie. erthalPoliticamente, basta um único exemplo da atuação negativa do PT, no caso em relação ao programa educacional do Rio de Janeiro nos dois governos Brizola (1983-87; e 1991-94) para esclarecer o sentido desse comportamento. Em muitos outros estados exemplos semelhantes podem ser lembrados.

  Em 1982 a eleição de Leonel Brizola reavivou a possibilidade de retomada do movimento nacionalista-trabalhista – nem comunista, nem liberal -, que vinha sendo construído desde a década de 1920, com o Movimento Modernista, com a Revolução de 1930 e durante toda a década de 1950 até o golpe de 31 de março de 1964. O Brasil crescia economicamente, desafiava sua estrutura classista e racista com atividades sociais e culturais e parecia estar consolidando um caminho de formulação cultural autônoma. O golpe de 1964 e o supra-golpe do AI-5, de dezembro de 1968, obstruíram esse caminho e abriram uma dupla vereda de ilusão econômica e desencantamento cultural. Aumentando o fosso entre povo e classe média, alienou ainda mais esta última, que só foi se dar conta do embuste quando começou a sentir sua renda caindo, a partir de 1978. Pois então, em 1982, com as eleições diretas para governador um caminho novo se abria, não se sabia ainda para onde, sob que condutor ou que condições, mas trazia esperanças. Darcy Ribeiro, intelectual e homem público com raízes na cultura brasileira, na antiga militância comunista e então no trabalhismo, chamou esse movimento de “socialismo moreno”.

  Entre os principais projetos do governo Brizola estava a criação de um novo modelo educacional para o ensino fundamental. Idealizado por Darcy Ribeiro, o sistema cognominado CIEP pretendia realizar os propósitos de uma linha histórica de educadores brasileiros que começara com o Movimento dos Pioneiros de 1929, passando pela Escola Modelo de Anísio Teixeira e pelo experimento de Ensino Médio criado nos primeiros anos da Universidade de Brasília. Adicionava-se a isso uma metodologia de ensino que partia do respeito às culturas locais do alunado, por inspiração do Método Paulo Freire e de idéias construtivistas, incluía um espaço físico amplo para a prática de esportes, a permanência dos alunos durante oito horas na escola, a alimentação integral, o cuidado médico e odontológico, e ainda a presença de tutores para jovens carentes cujas famílias não os podiam sustentar, especialmente aqueles que estavam vivendo nas ruas. Os prédios, desenhados por Oscar Niemeyer, eram de concreto armado, construído em larga escala em fábricas, fáceis de montar em qualquer lugar, portanto, resultando em custos relativamente baixos.

  Darcy conclamou partidos políticos e a sociedade civil para apoiar esse projeto, que podia abrir caminho para um modelo mais generoso de educação para o povo trabalhador excluído, diminuindo com isso o fosso entre este e a classe média, já àquela altura totalmente entregue à escola particular. Darcy convocou o professorado superior e de ensino fundamental para ajudar a conceber melhor o projeto e a realizá-lo na prática.

Como respondeu o PT a esse projeto? Apesar do apoio dado em diversas ocasiões por Paulo Freire, que então vivia em São Paulo já incorporado às hostes intelectuais do PT, este partido montou uma avassaladora campanha de críticas sobre todos os aspectos do projeto, arregimentou o sindicato de professores para boicotar, chantagear e obstaculizar a sua implementação, jogou pesado para cooptar o professorado ainda jovem para uma retórica e um comportamento de feroz resistência, enfim, fez eco multiplicado das críticas que a imprensa conservadora vinha veiculando por interesses políticos. Nessa ocasião é que Darcy Ribeiro cunhou a frase “o PT é a esquerda que a direita gosta”. ciep2-720x340Pois bem, o projeto dos CIEPs fracassou e com isso o PT teve uma vitória inegável do ponto de vista político, pois desnorteou do eleitorado fluminense a visão generosa e revolucionária desse projeto. Em conseqüência, os seguintes governos deixaram de manter e dar continuidade a esse projeto de escola integral, e o resultado é que empacou a entrada de milhares de jovens de famílias pobres no circuito de conhecimento necessário à obtenção de trabalho dignificante. A educação que existia, que servia, como ainda serve, para manter o status quo desigualitário, continua a impedir a elevação do nível educacional. Assim, ao cabo de 20 anos de balanço, o baixo nível educacional, a desmotivação do professorado, a alienação dos pais e o baixo rendimento dos alunos no Rio de Janeiro alimentam a exclusão social dos jovens da classe trabalhadora, insuflam a existência de alternativas marginalizantes, retrai, como já disse Dante Aleghieri, “qualquer esperança” de mudança a curto e médio prazos. Resta agora nos apegarmos ao mote dos últimos dias da campanha eleitoral do PT, segundo o qual a esperança vence o medo, e torcermos para que as críticas então feitas possam agora ser norteadas para uma atitude de inovação e de realização na área educacional que recupere a esperança criada por Darcy Ribeiro em 1983.

Creio que esse exemplo é bastante cruel, mas certamente se equivale a tantos mais em outros estados onde o PT tem mostrado sua garra para impedir cada e toda mudança real que não venha de sua incipiente e limitada criatividade político-cultural. oramento-participativo-21-728Ultimamente o filósofo Denis Rosenfield tem com muita coragem desmascarado a administração petista no Rio Grande do Sul, demonstrando seu caráter autocentrado, exclusivista e ilusionista. O propalado “orçamento participativo”, estabelecido na prefeitura de Porto Alegre, tem demonstrado ser nada mais do que um aliciador de jovens para se transformarem em quadros petistas nos bairros periféricos, sem nenhuma melhora sensível nas condições de vida das populações que lá vivem. Por sua vez, a interferência partidária em instituições como a Polícia Militar demonstram o caráter totalitário do PT naquela administração. A pergunta é: Por que o PT fez o que fez no Rio de Janeiro, e por que continua a fazer toda vez que algum partido congênere, de esquerda, sem falar nos partidos de centro e de direita, cria alguma coisa fora dos padrões a que se restringe sua concepção do mundo e sua capacidade de trabalho político? A resposta não é curta, nem circunstancial. A razão desse comportamento é estrutural, está no ADN do PT e deve ser buscada na própria configuração de seu surgimento.

 

II

 

O surgimento do PT está contado em seus manuais de propaganda e nos livros analíticos escritos quase sempre por simpatizantes, dos mais científicos aos mais ideológicos. O PT teria nascido do movimento operário do ABC paulista nos estertores do regime militar, quando o crescimento econômico que suportara durante uma década o sistema político, o operariado das grandes indústrias e a satisfação da classe média, apresentava de súbito sinais de rápida e incontida desaceleração. Nesse momento os sindicatos de operários e da classe média, cujas direções até então estavam aquietadas, começaram a vociferar seu descontentamento de classe, o qual foi logo amoldado em discurso político contra o regime militar. Surgia de súbito um líder jovem, com pouco mais de 30 anos, cuja voz e cujo porte se elevavam à estatura de líder carismático. Em torno dele se agregaram os sindicatos da grande indústria automobilista, das estatais e de funcionários públicos, a Igreja Católica, suas pastorais e suas comunidades de base, o jovem segmento da classe média frustrada nos últimos anos pelas perdas salariais, em busca de recomposição social, enfim, muitos potenciais políticos que advinham de atuações políticas desenganosas, seja como participantes de guerrilhas, seja como membros desgarrados dos partidos de esquerda que haviam sido banidos pela ditadura militar. Um ou outro membro da elite econômica ou da tradição política também se incorporou, ainda timidamente. Para esta composição inicial, bastante díspar em suas posições de classe e visões de mundo, os ideólogos do PT procuraram estabelecer as bases filosóficas e políticas que amalgamassem uma identidade comum. Os principais formuladores dessa concepção foram dois professores da Universidade de São Paulo: Francisco Weffort e Marilena Chauí. Eis como esses dois intelectuais justificaram o PT.

IMG_0647.JPGWeffort é cientista político, aluno de Florestan Fernandes e Fernando Henrique Cardoso. Entrou na discussão política ainda durante o período que ele e outros daquela academia convencionaram chamar de “populista”, escrevendo um artigo em que considera populismo toda atuação político-partidária e de Estado que se apresenta como sendo em prol do povo, como tendo uma identidade popular, quando, na verdade, seria um movimento da elite e para a elite. O mecanismo dessa atuação procederia através da aparente concessão de alguns benefícios e garantias políticos, econômicos e sociais, os quais, por suas naturezas limitadas, não afetariam substancialmente a equação social existente. Para que os trabalhadores se sentissem partícipes, o mecanismo envolveria a cooptação, ao custo de favores pessoais ou de grupo, de líderes trabalhadores que para tanto teriam que trair os interesses maiores de sua classe. O populismo seria, portanto, nada mais que uma enganação da elite – rural ou burguesa – sobre o trabalhador, ainda não consciente de seu potencial revolucionário, e do povo, ainda insciente sobre as causas sociais de suas condições de vida. Para Weffort e seus epígonos, tudo que acontecera no Brasil desde a Revolução de 1930 não passara de populismo, de Getúlio Vargas a Ademar de Barros, a Jânio Quadros e João Goulart, e, por que não, também o período de Juscelino Kubitschek. No limite também Plínio Salgado teria apelos populistas. Apressado em não perder a ocasião, um outro professor da USP, Otávio Ianni, publicou nos primeiros anos da ditadura um livro que teve grande repercussão pelos anos seguintes, com o título “O Colapso do Populismo”, que consolida as teses de Weffort e iria dar sentido político à atuação política posterior das esquerdas pós-ditadura. O governo Goulart teria sido o ápice e ao mesmo tempo o fim de um período e de um modo de fazer política que havia se destruído por suas próprias fraquezas e contradições. Nem era preciso falar em militares cooptados pela guerra fria, empresários avessos a dar concessões salariais e participação nos lucros, elite política e social com receio de perder poder, o imperialismo americano financiando o golpe com medo de possíveis desdobramentos da revolução cubana no maior país da América Latina. O que ficou marcado na sociologia uspiana desde então é que o populismo passou a ser encarado como um anátema político, um câncer que fora extirpado e que não podia voltar. Nos primeiros anos da década de 1980, Weffort ficou encarregado de demonstrar em todas as ocasiões possíveis, analíticas ou ideológicas, acadêmicas ou jornalísticas, que o PT nascera contra o populismo, sobretudo porque nascera do primeiro movimento autóctone do trabalhador brasileiro. Em certo momento Weffort chegou a dizer que a única coisa positiva que havia acontecido desde a Abolição da Escravidão era o PT. Tudo mais teria sido enganação da elite, à revelia do povo, e para mantê-lo sempre sob rédeas curtas. Perante essa retórica, que se tornou senso comum nos meios universitários e em seguida no professorado escolar, muitos se surpreenderam quando, na primeira oportunidade, a eleição de seu professor Fernando Henrique Cardoso, Weffort, que estivera no âmago do PT, como membro de sua Executiva e seu principal ideólogo político, se bandeou para o barco do PSDB tornando-se ministro da cultura. Mais adiante entenderemos por que a surpresa é ingênua.

marilena-chaui1Marilena Chauí é filósofa da USP, tendo incorporado em seu modo de pensar a visão socialista-estruturalista francesa, especialmente do cientista político Claude Lefort. Em fins da década de 1970 ela escrevia intensamente contra a idéia de “competência”, alegando que tal conceito não passava de uma arma ideológica da elite burguesa, pois servia unicamente para encobrir um discurso de poder, de classe superior. Augurava, quem sabe, como poeta-filósofa, o surgimento de quem, por essa análise, devia por princípio negativo ser considerado competente. Escreveu também criticamente sobre o uso ideológico de conceitos de cultura popular e cultura erudita, sem esclarecer sobre suas incompatibilidades ou não. Em 1985, Chauí foi secretária de cultura da prefeitura petista de Luíza Erundina, onde se esmerou para criar uma cultura de leitura nos bairros e defender minorias. Em novembro de 1989, no segundo turno da eleição presidencial, ela iria defender por que o PT seria o verdadeiro e talvez o único partido de esquerda, do povo e para o povo, a existir no Brasil. Sua definição do PT seria elaborada por uma lógica de exclusão daquilo que ele não era. O PT teria surgido em contraponto a outros movimentos político-culturais que deram origem a partidos de esquerda tradicionais. Os principais contrapontos ao PT seriam:

a.                O velho PCB, na medida em que o PT recusa o leninismo, isto é, a concepção e a prática do centralismo democrático por ela ser autoritária, exclusivista de iluminados, refutadora da participação dos militantes, que seriam passivos. Ademais, o PCB estivera desde sempre dependente de influências externas, que tendiam a obnubilar a visão crítica e analítica dos seus quadros intelectuais. Por esses motivos é que o PCB teria se envolvido numa aventura em 1935 e tinha ao longo dos anos dado motivos para ser proscrito por tantos anos. Por conseguinte, ficava revelado que toda a prática política do velho Partidão teria resultado num atraso à autoconsciência do povo trabalhador brasileiro.

b.       O PTB, isto é, o partido trabalhista supostamente criado à imagem e semelhança do populismo getulista, com viés para-fascista, e que se prolongara na década de 1950 até o golpe de 1964. Para o PT, segundo Chauí, o trabalhismo não passaria de um movimento da elite política para preservar o capitalismo e rechaçar as possibilidades revolucionárias do movimento operário que havia surgido em São Paulo desde o início do século XX, que teria estado em ascensão e que fora reprimido e suprimido de suas potencialidades por concessões forçadas de interesses não totalmente legítimos, como as medidas da CLT, a unicidade sindical e o papel interventor do Ministério do Trabalho. O PTB tinha sido, sobretudo, um partido de elite em pele de cordeiro para iludir os trabalhadores de que eles estavam com o poder e tinha participação no seu destino econômico e social.

c.                A guerrilha, isto é, os movimentos de grupos armados oriundos da perda de hegemonia dos partidos comunistas, que haviam se insurgido voluntariosamente contra a ditadura militar, por fruto de decisões equivocadas e por isso mesmo sem ter o respaldo nem de trabalhadores organizados, nem da classe média insatisfeita (que então estivera mais ou menos satisfeita), nem do povo em geral.

eu-sou-eticoAs três palavras chaves em itálico, autoritarismo, ilusionismo e voluntarismo resumem o sentido máximo da crítica de Chauí a esses partidos e movimentos de esquerda que antecederam o PT, e que lhe poderiam fazer algum tipo de desafio intelectual. Urgia abrir-lhes suas feridas e seus pontos fracos para que fossem rechaçados e em conseqüência para se pudesse traçar o caminho para a caracterização novidadeira do PT. Que seria contra tudo isso. Portanto, o PT era e haveria de ser democrático e participante em suas decisões, científico, isto é, não ideológico em sua concepção filosófica, e organizado como estrutura com estratégia de curto e longo prazos. O PT seria a culminância de toda a trajetória do povo trabalhador, especialmente desde os românticos imigrantes anarquistas, trajetória que passara por meios e modos que precisavam ser expurgados porque estavam a conspurcar a pureza do novo.

classe-mc3a9diaA partir dessas concepções, todas nascidas do movimento político-cultural da USP, que repulsava os movimentos anteriores, é que o PT se fez discurso ideológico e prática política pelo Brasil afora. Atraiu o operariado sindicalizado da grande indústria consolidado pelo desenvolvimento econômico dos anos de chumbo da ditadura militar, cujas lideranças anteriores haviam sido destroçadas; atraiu uma juventude de classe média que estivera alienada e sem participação e que vinha perdendo garantias e privilégios de classe; atraiu conceituados segmentos da Igreja Católica e o sentimento cristão de ação política em função da sua anterior negação aos partidos de esquerda, mas que durante a ditadura estivera do lado dos mais oprimidos e reprimidos; por fim, atraiu políticos jovens advindos de experiências frustradas e de desencantamento com os movimentos políticos acima vistos, especialmente da guerrilha. Estes últimos foram, sem dúvida, os grandes organizadores do PT, compondo atualmente parte de seus quadros superiores, embora alguns tenham abnegado de suas visões mais radicais. celebridade_01Por outro lado, os estertores finais da União Soviética já se faziam sentir nos países periféricos, tal como a Polônia que, naquela conjuntura tinha um papa, um líder operário de grande carisma e uma organização pré-partidária, a Solidariedade. A imensa propaganda positiva que Lech Walesa recebeu na Europa e daí para o Brasil foi integrada em paralelo com o surgimento do PT e com a figura de Lula. Ambos surgiam como grandes novidades, puras em sentimento e em ação, e estariam batalhando contra regimes totalitários, autoritários, enfim, contra o passado que precisava ser enterrado e superado.

a-usp-institucional-848x395No campo intelectual, a ideologia petista – emoldurada por catedráticos da USP, que, aliás, por força do desmoronamento da Universidade do Brasil e do ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros), que até o golpe ainda constituíam baluartes do pensamento de esquerda no Brasil, se tornara hegemônica no pensamento social da época – se impôs nas universidades, sobretudo pelo uso desenfreado que fazia do conceito de autoritarismo, com o qual mesclava todos os movimentos políticos e culturais (exemplo, o Conselho Popular de Cultura) prévios ao surgimento do PT.

Aqui, portanto, cabe uma palavra a mais sobre autoritarismo para que fique bastante clara a importância do uso desse conceito na formação e propagação do PT pelo Brasil.

 

III

 

 1380710181_452932_1380711325_noticia_normal O conceito de autoritarismo foi introduzido no cenário brasileiro a partir de um artigo publicado no fim da década de 1960 pelo cientista político espanhol radicado nos Estados Unidos, Juan Linz. Usando de argumentos retirados da sociologia weberiana, Linz propunha que o que se passara na Espanha franquista, em Portugal salazarista, bem como aquilo que estava se passando no Brasil dominado pelos militares era fruto de uma atitude política própria de uma fase do capitalismo ainda dominado pelo patrimonialismo. O autoritarismo seria o exercício do poder obtido por razões de direito que antecediam um verdadeiro pacto político-social. Assim, independente de estar vivendo num regime ditatorial, o Brasil de 1968 era antes de tudo um Estado autoritário por força do exercício do poder sem participação do povo. Para os propugnadores da aplicação do conceito de autoritarismo, o Brasil tinha sido autoritário desde sempre, fosse no Império, na República Velha, no Estado Novo e mesmo nos tempos do populismo. Desse modo, numa cartada só esse conceito reuniu tudo que havia acontecido na história política e social brasileira reduzindo-a a um denominador comum.

  Por sua vez, o autoritarismo político estava arraigado num modo de ser social, numa psicologia e numa cultura. Por todos os seus poros, o Brasil seria autoritário: na relação entre burguês e operário, rico e pobre, brancos e pretos, professor e aluno, enfim, homem e mulher, e por que não, amado e amada. Todos deviam se cuidar para não serem autoritários, um germe epidêmico que precisava ser extinto. Quanto mais tradicional na cultura brasileira, quanto menos consciente do processo de mudanças multifacetadas pelas quais o país passava, quanto menos enfronhado no novo discurso antiautoritário que surgia com força nesses tempos, especialmente trazido por uma filosofia francesa pessimista, cuja porta-voz principal era Michel Foucault, mais autoritário a pessoa seria.

Mas quais seriam os critérios que poderiam definir o ser autoritário e a atitude não autoritária? Quem estaria apto para aplicar esse critério?

Nos estertores da ditadura militar, como se não quisesse cutucar a onça de vara curta chamando-a por seu nome verdadeiro, os intelectuais e os políticos com ares de democratas ou de revolucionários passaram a chamá-la de autoritária. Ulysses Guimarães, Franco Montoro, o iniciante Fernando Henrique Cardoso, os cientistas políticos do IUPERJ e da USP, seguidos por seus epígonos, enfim, os intelectuais que estavam fazendo o PT. Em seguida o conceito de autoritário foi estendido para o passado mais recente. Sofreram essa pecha sem piedade o cambaleante Partido Comunista, sem quadros e sem discurso para se reestruturar no movimento operário ou na jovem intelectualidade; o trabalhismo criador de líderes pelegos, o insensato populismo piromaníaco. Para usar uma surrada imagem política, jogaram lama em cima de todos aqueles que estavam voltando do exílio achando que podiam retomar a história do ponto em que a haviam deixado. Darcy Ribeiro exemplificou essa atitude negativa ao dizer que os militares o haviam anistiado, mas não seus colegas da academia!

O uso do termo autoritarismo se prolongou por uns bons vinte anos. Ainda hoje se ouve ecos acusatórios, já menos intensos e dirigidos com menos nitidez. O estrago já estava feito. O autoritarismo foi usado para esvaziar o potencial de retomada da história brasileira por aqueles cujas carreiras e pensamentos foram interrompidas pela ditadura. Beneficiaram-se propositalmente aqueles que, de algum modo, haviam preenchido o vazio deixado pelos exilados nas universidades, nas instituições de produção de saber ou de propaganda ideológica, nos partidos políticos. Os beneficiários souberam espalhar nesses meios que os retornados eram de uma outra era, que estavam defasados intelectual e politicamente, que não poderiam voltar a ser o que eram antes porque seria uma volta ao passado autoritário.

Quem soube se aproveitar melhor dessa conjuntura? O PT e o grupo do PMDB, especialmente centrado em São Paulo, que mais tarde iria formar o PSDB. Eis porque o PT está bastante vinculado tanto à ideologia que emana de São Paulo quanto ao seu fraterno oposto, o PSDB.

 

IV

 

Algumas palavras da relação entre PT e PSDB cabem aqui. Foi mencionado de passagem que a USP tornou-se hegemônica desde a década de 1970 sobre o pensamento sobre a sociedade brasileira. Apesar de não ter apoiado o golpe, a USP não sofreu tanto quanto a Universidade do Brasil e o ISEB, que até então faziam pesquisas e produziam conhecimento paralelo ao da universidade paulista. As mencionadas instituições fluminenses foram arrasadas, suas principais lideranças exiladas. O ISEB se acabou de vez, tendo recebido sua pá de cal pela feroz crítica que lhe foi feito por um dos jovens próceres da USP, que o cognominou de “fábrica de ideologia”. Desse modo, a ciência estava preservada no pensamento uspiano, os demais sendo produtores tão somente de má ciência, de ideologia. Em nenhum momento desde sempre algum intelectual da USP fez uma análise crítica do surgimento ideológico desta instituição, e do seu papel político em elevar o pensamento burguês paulista à condição de superior aos demais pensamentos. Uma análise sobre o papel dos intelectuais franceses criando uma sociologia que induzia a se pensar que até então o Brasil não tinha intelectuais e pensadores, que o Brasil carecia de tradição de pensar, sobre Florestan Fernandes afirmando seu método como científico (por ser funcionalista e depois marxista), em oposição ao ecletismo dos demais, sobre o CEBRAP, com o auxílio da Fundação Ford (assim como o IUPERJ e o Museu Nacional, no Rio de Janeiro) se impondo como arena de discussão e crítica do período pré-golpe e, na medida do possível, sobre as alternativas radicais ou negociadas dentro do regime ditatorial. Essas novas instituições do saber sociológico se impuseram não só academicamente, mas também político-ideologicamente sobre as instituições similares em todo o país, especialmente porque conseguiram recursos para pesquisa de fundações americanas, bem como o domínio sobre os órgãos oficiais de fomento, tais como o CNPq, a CAPES e a Fapesp. Algum dia é preciso fazer uma análise de por que, como e por que meios as fundações Ford, Rockefeller e em seguida a MacArthur foram tão pródigas no financiamento dessas instituições.

Para além da discussão propriamente acadêmica, de cunho teoricista, a nova discussão sociológica se esparramou pela mídia a partir de 1976-77 através de revistas e jornais como Opinião eMovimento. Além de autores estrangeiros revisionistas do marxismo, ligados a uma tradição weberiana, com laivos de Hanna Arendt, que eram vistos como os teóricos dos novos tempos, a discussão foi aplicada à atualidade brasileira com vistas à busca de uma saída para o fim do regime ditatorial, cognominado “autoritário”. Duas saídas despontaram: uma democracia light, sem radicalismo, sob a hegemonia burguesa paulista, à la social-democracia européia; ou um “socialismo” baseado no novo operariado paulista, que emularia os sindicatos de classe média e por osmose a organização do povo insciente e desorganizado. Isto é, as duas opções se concretizaram no PT e mais tarde no PSDB.

Diferentemente do PSDB, o PT se tornou um partido nacional, e não quase que exclusivamente paulista ou paulistocêntrico, não por causa do seu operariado de fábrica, mas por causa da simpatia que lhe devotou a jovem classe média frustrada, até então não participante e confiante no projeto econômico do regime. Politicamente esse segmento da classe média aparelhou-se nos sindicatos de funcionários públicos, do professorado, nas incipientes associações da sociedade civil, nos movimentos a favor de minorias e causas para-políticas, como meio ambiente, homossexualismo, etc. Por sua vez, a Igreja Católica apoiou a idéia de um partido que se posicionava contra as ideologias comunista e trabalhista, que ela tanto atacara desde sempre. Os ideólogos da teoria da libertação propuseram uma relação mística dos vários segmentos oprimidos do povo com a divindade e a idéia colou.

30-11-2015-22-25-00-alceu-memoriaPortanto, na ruptura com a ditadura militar surgiram visões de um novo mundo que rejeitavam a história brasileira (reificando aquela famosa frase que diz que “brasileiro não tem memória”) para criarem novas instituições a partir da crítica específica ao tal regime autoritário. O novo parecia surgir por si mesmo. O novo e sua mística valeram para arrebanhar a imaginação daqueles que jamais haviam participado de política e dos que no fundo tinham apoiado os motivos que os golpistas de 1964 alegavam para ter derrubado o regime democrático pregresso. Nisso o PSDB, contrapondo-se ao udenismo, ao liberalismo e ao mais recente MDB, e o PT rejeitando as políticas de aliança comunista-trabalhista-nacionalista do governo Goulart, despontaram com o mesmo figurino de novidade, como as duas faces de uma mesma moeda. Não é surpresa, portanto, quando se fala que suas visões de Brasil e os seus quadros técnicos são intercambiáveis.

 

V

 

Duas observações finais de dois luminares da atualidade darão a medida exata da relação PT – PSDB e da semelhança de seus projetos político-culturais. Um deles é Alain Touraine, professor de Sociologia do Trabalho, da Universidade Sorbonne, amigo de Fernando Henrique Cardoso. Antes ainda do primeiro turno, ele disse em entrevista que o PT iria ganhar e deveria fazer por bem se aliar ao PSDB, já que seus quadros advêm da mesma origem e têm pensamentos comuns. O outro é o poeta Caetano Velloso que, um tanto reticente em declarar seu voto para Ciro Gomes, falou em seminário na USP que apenas Ciro representaria algo fora da USP e, portanto, carregava maior representatividade para entender a complexidade cultural brasileira. Caetano, obviamente, não menospreza a USP, ao contrário; apenas não a sente capaz de dar conta do que é o Brasil. De modo contrário, Alain Touraine sobrevaloriza o pensamento uspiano, e despreza o que há de resto no Brasil. Tal qual o PT e o PSDB.

 

VI

 

220px-chief_vestalO autocentramento do PT tem duas razões de ser. Uma é de constituição de identidade e diz respeito à preservação de suas características e imagem diante dos eleitores e das circunstâncias políticas. O PT se consolidou como partido pela consistência de seu posicionamento político perante a nação. Considerando o jogo político como algo de legitimidade duvidosa, o PT estabeleceu seus próprios princípios para jogar. Nos momentos em que lhe foi exigido transigência a alguns desses princípios, o PT não transigiu. Isto ocorreu durante acontecimentos que são considerados por muitos como cruciais na história recente do país, a exemplo da eleição pelo Congresso Nacional do presidente Tancredo Neves, em 1984, fato simbólico para o fim da ditadura militar; a assinatura da nova Constituição brasileira, em 1988, fato simbólico para o início de um novo período de democracia; e a participação político-administrativa no governo do vice-presidente Itamar Franco, após o impedimento de F. Collor, fato de alguma relevância moral para o Brasil. Nessas ocasiões, o PT se negou a participar e puniu membros que ousaram ir contra essa determinação. Nesse sentido, o PT se considera o único partido “puro” ou legítimo para representar o povo brasileiro, visto como uma consolidada maioria oprimida.

A outra razão de autocentramento é estratégica. Refere-se à necessidade de abrir um caminho próprio diante dos “percalços”, não de “acontecimentos” políticos. O PT considera que a política no Brasil é uma farsa das elites para enganar o povo. Assim, todo evento político não passaria de uma encenação, uma ilusão enganadora, que, portanto, deve ser ultrapassada à luz do interesse estratégico maior do partido, qual seja, o poder total. O PT rejeita em princípio alianças de qualquer natureza. Só as tem feito, ou com partidos que intrinsecamente não mais visam o poder, como o PC do B, ou, nos últimos tempos, com partidos que lhe possam conferir uma imagem nova, mas que não forcem mudanças vitais na sua concepção política. O máximo que o PT e seus administradores concedem a esses aliados de conveniência é negociação de pontos insignificantes em programas de governo e participação subalterna no poder, nunca uma simbiose de forças. Nesse sentido, o PT almeja ser o único partido real, aquele que deve ter o poder ao final, idealmente como partido único.

  Que forças sociais dão suporte a esta visão e esta atitude políticas do PT? Certamente não é sua base trabalhadora, já que se pode supor que, no Brasil, como de resto no mundo desde o fim da Segunda Guerra Mundial, os trabalhadores se posicionam, em relação ao capital, de um modo relacional e negociador, não de confronto. A não ser por um outro grupelho que professa a adaptação de um trotskismo canhestro (o maoismo e a glorificação da Albânia já se foram) ao Brasil, os trabalhadores e a maioria de brasileiros que desejam ser trabalhadores sindicalizados apostam na negociação, o que implica de algum modo em aceitação estratégica de sua posição social. Assim, a força social que induz o PT ao autocentramento advém dos outros dois segmentos que o compõem: o segmento radical da classe média, que projeta o Brasil à sua imagem e semelhança, e o segmento de cunho religioso.

  Embora de visões diferentes, esses dois segmentos são liderados por pessoas de idêntica extração social. Destituídos de historicidade, eles apelam para a elevação de seus estatutos de classe como modelo para todo o Brasil. Em outras palavras, elas acreditam que seu modo de ser e viver é o que deve representar e ao mesmo tempo servir de emulação para todo o povo brasileiro, especialmente os destituídos de significação política e de sentido cultural.

 

VII

 

Uma idéia bastante propalada pelo PT, especialmente nos seus momentos de baixa, é de que o PT, sua existência, faz bem ao Brasil. Que o PT, pela honestidade de seus quadros e pela vigilância que mantém sobre “os donos do poder”, é imprescindível ao país. Que pelo menos dá um peso contrário que ajuda a produzir um equilíbrio político no Brasil. Ora, não existe monopólio de honestidade em partido político, nem o PT teve experiências suficientes para demonstrar que está vacinado contra o vício da corrupção e do peculato. Ao contrário, suas experiências reiteradas no Rio Grande do Sul, no Mato Grosso do Sul, em Belém, em Santo André e outras cidades estão a desdizer essa alegação. Que outros partidos de centro e de direita têm índices bastante mais altos de desonestidade, não restam dúvidas, mas tudo indica que a inépcia administrativa do PT provoca perdas igualmente altas ao erário público, bem como atrasa o caminho do desenvolvimento socioeconômico do país.

Por sua vez, o espaço cultural onde predomina a honestidade pessoal e pública, isto é, o respeito ao dinheiro público, não surgiu com o PT, nem é muito menos um evento recente. Ao contrário do que supõem até bons intelectuais com tendências petistas, a honestidade pública brasileira existe desde a incepção do espírito republicano, com os positivistas, passa pela ética e pela moral pessoal dos comunistas, por largos segmentos do trabalhismo, inclusive pelo próprio Getúlio Vargas, e faz parte do caráter de uma boa parte da elite brasileira de espírito público, que ajudou a produzir o desenvolvimento do Brasil. Figuras como Arthur Bernardes (independente de sua atuação política durante seu período de governo), José Maria Alckmin, Israel Pinheiro, Barbosa Lima Sobrinho, o próprio João Goulart e seus principais ministros, apenas para citar aqueles que fizeram política e administraram o país antes do golpe de 1964, e tantíssimos outros de porte político menor, são reconhecidos acima de qualquer suspeita. Haverá muitíssimos mais exemplos que precisam ser reconhecidos como sendo resultado de um espaço cultural que existe no Brasil, sobre o qual é preciso se refazer a história política brasileira diante da simplificação a que foi submetida por uma sociologia apressada e ideológica que domina os centros de conhecimento e pesquisa do país.

Independente do PT, a honestidade política e administrativa brasileira é uma virtude real, com uma história e com um potencial ainda maior para se expandir sobre a desonestidade, que todos reconhecem. O que mais importa é encontrar os mecanismos e criar instituições culturais e sociais que favoreçam essa expansão. E estes não serão predominantemente jurídicos e contábeis, como supõem os próceres da honestidade petista, corporativamente centrados, herdeiros, junto aos bons burgueses do PSDB, da aflição legiferante portuguesa para encobrir as realidades mais profundas e escamotear as saídas culturais para resolver os problemas brasileiros.

Só um partido que respeita a história do Brasil será capaz de reconhecer no brasileiro, pobre, remediado, médio ou rico, e na nossa cultura como meio de formação de uma identidade maior, o nosso potencial de honestidade pessoal e público.

 

VIII

 

Enfim, é nesse quadro de formação, de visão e de atuação políticas que o PT toma o poder legitimamente para governar o Brasil. O que se pode dele esperar? De uma perspectiva positiva e esperançosa, a capacidade de liderar um momento de mudanças que a sociedade brasileira vem exigindo com grande ênfase: mudanças na macroeconomia, na qualidade da educação, na distribuição de riquezas, na forma de vivência política, no posicionamento do Brasil em relação à comunidade internacional. Uma tal agenda necessitará de forças de apoio e de compartilhamento de responsabilidades. Governo de coalizão efetiva. Dada a formação genética do PT, só por um processo de superação dialética, movido pelo sentimento de responsabilidade do poder, é que o PT, com Lula ao seu leme, poderá constituir um governo nesses moldes.

Podemos dizer que o governo Lula terá três adversários a enfrentar: um externo, que são as condições do imperialismo capitalista; um interno que são as forças conservadoras brasileiras; e um mais interno ainda, que são os dissensos e divergências dentro do próprio PT. Os aliados de esquerda vão estar espremidos entre essas três forças adversárias, certamente buscando meios de intermediar. Não será tarefa fácil para Lula nem para seus aliados.

yeshuaPor sua vez, há o povo, que espera. Em Lula o povo depositou sua esperança, seu desejo de mudanças para melhorar sua vida. Alguns dizem que o povo tem esperanças milenaristas, espera um salvador que o redima da sua situação de pobreza e humilhação. Mas o povo sabe também esperar por esperar, dando tempo a que as coisas aconteçam e, se acontecerem, delas participará. Não será por uma propalada organização das forças populares, de cunho comunista-leninista, ou de cunho sindicalista-petista, que o povo participará. Não é assim, nunca foi assim, que o povo alcançou em vários momentos da história brasileira a autoconsciência de sua posição para poder agir politicamente. Não podemos sucumbir aos apelos da reificação dos sentimentos esquerdistas da classe média para sindicalizar as relações sociais que se dão no seio do povão. É preciso encontrar novos caminhos, de razão e lógica cultural, de vivência e convivência, de experimentação de relacionamento e de atitudes criativas.

A tarefa do governo Lula é estar ciente de que o povo tem suas razões de ser e agir e que ele tem que estar atento a isso, conduzindo seu partido e seus aliados a um caminho firme e seguro. De nossa parte, nossa grande tarefa é nos mantermos fiéis à história ascensional do povo brasileiro e de seguirmos na busca de elevar esse povo, ainda recalcado como ser político e como agente cultural autônomo, ao ponto de consolidação de uma nova cultura mundial. Precisamos nos manter confiantes de que isto é possível e que assim há de ser feito, por obra e graça da inteligência e do amor.

Resumo: O propósito do artigo é o de contribuir para um melhor entendimento das coordenadas ideológicas e da trajetória histórica percorrida pelo PT, da fundação a chegada do partido ao poder em 2003, para refletir sobre a sua pretensão de ser o legítimo representante do sentimento de brasilidade e dos anseios populares.

Palavras-chave: Partido dos Trabalhadores, sociologia uspiana, populismo, autoritarismo e autocentramento.

* Mércio Gomes é antropólogo, professor da UFF, autor dos livros O índio na história (Vozes, 2002), The indians and Brazil (UPF, 2000) e Darcy Ribeiro (Ícone, 2000).