Desconfiar de Ciro Gomes

4bab9008229316dd2e5dd066b12265a3Na palestra do Ciro Gomes em Harvard (Veja o vídeo no final) ele descreve bem como a juventude que vai estudar fora volta com a cabeça colonizada por respostas prontas sem estudar a história do Brasil e as forças locais que determinam os rumos da política. Falam de ética e moral como se fossem do Olimpo e por decreto pudessem instaurar, “ex machina”, a Ética e a Moral.

Ciro Gomes estabelece uma chave para o escrutínio dos políticos. Desconfiar. Pode ser uma frase de efeito mas sempre é um bom conselho. Um ceticismo inicial antes de uma credulidade relativa e conjuntural, nunca estrutural. Nunca uma carta branca incondicional. Sempre a credulidade deve ser provisória. O ceticismo também. Mas a ordem, partindo do ceticismo,  é importante para cada caso em que se aplique.

Ciro Gomes propõe o desconfiar em política. Desconfiar de um dos seus agentes, os políticos. Por consequência, desconfiar de Ciro Gomes. Pode parecer uma contradição em termos ou apenas uma retórica sedutora, um arroubo de sinceridade ou cinismo. Algo como um político que uma vez adentrou uma sala onde eu trabalhava, não sei quem deixou ele invadir assim um espaço que era dito preservado e livre de um aparelhamento tal, dizendo, que diferentemente de outros políticos, não faria promessas. Respondi imediatamente que não poderia votar num político que não fazia promessas. Pois se os que as faziam não as cumpriam como é que eu iria me virar quando não havia promessa alguma. Contentar-me com os seus “belos olhos”? Em relação aos primeiros, os que prometiam, ou que “promentiam”, eu poderia pelo menos lucrar com um aprendizado, mesmo a custa de decepções.

Embora pareça que o Ciro Gomes esteja a querer ser simpático e conquistar o interlocutor somente, com uma frase superficial, o conselho é um aviso para que não sejamos ingênuos e que não coloquemos a culpa da nossa ingenuidade naquele que nos enganou. A política sempre é uma via que tem duas mãos. Não é para crianças. É uma das atividades mais distintivas do que é adulto. Do que já está além do rito de passagem. O rito de passagem da vida civilizada é a linha divisória entre os que ainda não viveram o suficiente para entender minimamente sobre política e os que ultrapassaram a linha. E o passaporte é um trabalho árduo de auto esclarecimento consciente, como pontuou o Ciro Gomes, no final da sua palestra, ao responder a um jovem estudante de Harvard: “Te vira cara”.

 

Golpe no Leblon

Contaram-me que em Rio das Ostras os evangélicos dominaram a política e passaram a controlar a escola de música municipal. Se for verdade configura-se como um ataque partidário-religioso à diversidade cultural.

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Pois mal ouvi falar disto, com um intervalo de poucas horas, tive a informação de que um outro ataque a um ambiente cultural inestimável está prestes a acontecer. E pelos mesmos agentes. Evangélicos.

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No entorno dos bares da Conde de Bernadotte ficam os teatros. Saindo dos teatros há o ambiente dos bares, verdadeiras “catedrais” do Rio como são citados em

Se o Rio fosse uma religião os bares seriam suas catedrais

Ricardo Freire

onde uma parada para degustar o ambiente cultural criado numa peça de teatro num bate-papo regado a chope e iguarias numa mesa de bar é um hábito corriqueiro.

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Se tal boato se concretizar prevejo o fim do ambiente agradável da Conde de Bernadotte. Vai virar um deserto pior que uma amazônia desmatada. Seu “solo cultural” já frágil vai se degradar rápida e inexoravelmente.

De roldão desaparecerão os bares e a livraria. E todo o resto. Muito triste.

Pirro de novo!

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Não a vitória mas o porco.

A presidente foi à ONU e lá estando comportou-se como o plácido porco de Pirro. Assumiu-se como estadista a discutir coisas mais amplas sobre o mundo do que nossa vã filosofia tupiniquim das elites acredita que exista.

Afirmam que ela não devia ir com medo do que ela possa dizer alegando que haveria prejuízo para a imagem do país. Esquecendo-se que a imagem do país já está muito prejudicada com o espetáculo na câmara. Não pensaram nisto quando votaram por suas famílias. Nenhuma declaração da presidente no exterior vai nem fazer cosquinhas no que a opinião pública mundial já tem conhecimento. É claro que o prejuízo para os golpistas é diferente. Toda vez que eles são atacados dá para trocar ” Brasil” ou “nação ” por “nós golpistas”, uma verdadeira nação a parte.

Precipitados os golpistas se perderam numa negação que mais confirma o seu contrário do que convence da sua exatidão.

A palavra “golpe” é dolorida demais para os seus ouvidos. Desesperam-se imensamente dela. É como se tivessem a mãe xingada sem remissão.Mas foi em suas bocas, num ato falho flagrante, que a palavra grassou.

Elegantemente e com postura de estadista a presidente falou em retrocesso. Coisa que também devia incomodá-los grandemente por causa da sua quimérica “ponte para o futuro”. Quando não tem competência nem para uma ciclovia que fique incólume a uma onda.

Vitória de Pirro

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Os exércitos se separaram; e, diz-se, Pirro teria respondido a um indivíduo que lhe demonstrou alegria pela vitória que “uma outra vitória como esta o arruinaria completamente”. Pois ele havia perdido uma parte enorme das forças que trouxera consigo, e quase todos os seus amigos íntimos e principais comandantes; não havia outros homens para formar novos recrutas, e encontrou seus aliados na Itália recuando. Por outro lado, como que numa fonte constantemente fluindo para fora da cidade, o acampamento romano era preenchido rápida e abundantemente por novos recrutas, todos sem deixar sua coragem ser abatida pela perda que sofreram, mas sim extraindo de sua própria ira nova força e resolução para seguir adiante com a guerra.

Vitória pírrica | Wikipedia

Os coxinhas estão começando a acusar o golpe de terem enaltecido uma vitória de Pirro. Gente antes cheia de razão agora começa a tartamudear um discurso prudente. São verdadeiros caras-de-pau. Se não sabiam o que estava em andamento são ingênuos e até mesmo burros, que me desculpem os burros de verdade. Se sabiam também são burros e inconsequentes. Parece não haver salvação possível para um coxinha. Vale o ditado: “Quem é burro [coxinha] pede que Deus o mate e o diabo o carregue!”

A preparação para o espetáculo no congresso já ocorria na farsa montada pela media. Farsa que envolve também setores do judiciário. Podemos, em tese, afirmar que um juiz , mesmo acometido de um “bacamartismo“, pode ser corrupto sem mesmo ter recebido propina. Basta julgar de forma diferente de como se espera de um juiz. Basta tirar a “venda” e arregalar o olho da ambição. Basta se esconder no biombo do “não vem ao caso”. Basta ser “seletivo”, não em prol de descomplicar um processo, mas para botar uma pedra encima do que não interessa ao seu viés. O juiz modelo das “mãos limpas” mostrou as próprias, sujas, quando entrou na política. Provavelmente a história, se repetindo como farsa ou não, pode ser um arremedo do que ocorreu na Itália. Até mesmo no aperfeiçoamento da corrupção e não na sua desaparição. Se as forças que deram o golpe perdurarem no poder vai chegar a hora de premiar os atores do judiciário que ajudaram e foram fundamentais. Uma forma de corrupção velada e refinada é o “toma lá da cá” da politicagem.

Os bandidos não são normalmente solidários e só se cooperam no último caso se houver uma ameaça externa. Podemos talvez ter esperança de que eles comecem a se canibalizar. Há notícias de que se Cunha for abandonado vai se voltar contra Temer. Parece aquele jogo com longas carreiras de dominós sendo derrubadas. Mas aí ainda assim teremos Calheiros. Mas aí ainda assim teremos o golpe. Só serviria como um enfraquecimento para ser usado nos embates futuros, caso o golpe prossiga.

O caso de Cunha querendo o impeachment de Temer é emblemático. A população assistindo isto como se estivesse vendo um BBB político numa casa de vidro vai começar a pensar: “Como tudo isto é possível!?” Está em curso um monstruoso experimento didático sobre política. Graças à rede. Coisa inédita no passado. Ulysses Ferraz já havia alertado sobre isto (Ver abaixo). A exposição continua numa casa de vidro reflexivo onde os políticos não vem o lado de fora, toldados pela sua miopia existencial e pelo desprezo pelo resto, mas são vistos. Paredes de vidro e BBB, duas metáforas que se encaixam bem na situação e quando acharmos o telhado de vidro o teto vai desabar.

Ainda que visíveis, expostos em rede nacional, os deputados do “sim” explicitaram todo tipo de ação imoral, como se estivessem protegidos pelo anel da invisibilidade. O clima de opinião coletivo e de fraternidade mútua era tão favorável entre os congressistas do “sim” que sequer se deram conta de que estavam sob todos os holofotes, perante o tribunal implacável da opinião pública. Em tempo real.

Ulysses Ferraz

Não sei se falar da família era uma senha para ter acesso a uma mala de dinheiro como estão dizendo. Nosso gosto pelas teorias da conspiração leva a esta conclusão. Mas pelo menos era uma senha simbólica e a compra dos votos pode ser mas sutil e incerta. O espetáculo dantesco e miserável de um congresso com estatura de baixo clero, um congresso anão ainda vai continuar. Se o congresso é o nosso espelho moral estamos em grandes apuros. “Chame o ladrão” pois ele rouba a sua carteira mas não sua “vida” como estão prestes a fazer.

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A votação ridícula na câmara demonstra explicitamente em que estamos enredados. A falência da democracia representativa é flagrante. Chega mesmo a ser fragrante de tanto que cheira mal. Nada como deputados moralmente nanicos para rebaixar ainda mais a estatura de uma câmara baixa já tão mal-afamada. As barreiras conceituais, técnicas e logísticas para a democracia direta estão desaparecendo a medida que estão ficando claras as deficiências da democracia representativa. Democracias diretas já!

“Alguém devia ter caluniado Josef K., porque foi preso uma manhã, sem que ele houvesse feito alguma coisa de mal.”

(…)

“Mas na garganta de K. pousaram-se as mãos de um dos cavalheiros, enquanto o outro lhe enterrava a faca no coração e a revolvia duas vezes. Com olhos desfalecidos, K. viu ainda, muito perto do rosto, os cavalheiros encostados um ao outro, face com face, a observarem o cumprimento da sentença.
– Como um cão! – disse ele; era como se a vergonha devesse sobreviver-lhe.”

Franz Kafka. “O Processo.”

A opinião pública internacional começa a se interessar pelo que está acontecendo no Brasil. Os golpistas estão tão preocupados com isso que querem impedir a viagem da presidente a Nova Iorque para discursar na ONU pelo meio ambiente. Estão com um medo pavoroso do que pode acontecer nas entrevistas que com certeza ocorrerão.

A deputada  portuguesa Joana Rodrigues Mortágua comenta eloquentemente a votação do impeachment no vídeo abaixo.

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Nós somos o que comemos. Nada mais natural que nos chamarem pelo nome do que comemos. “E aí coxinha! Vai um tefal?” “Coxinhas, mortadelas, caviar etc uni-vos”. Voltemos para nossa vocação omnívora. Nada de repastos seletivos ou muito especializados. Para que a política desapareça sejamos todos políticos. A política está morta! Pois que viva a política!

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A ponte para o futuro

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Estava assistindo à votação do impeachment na câmara quando fiquei sabendo que os empresários estavam telefonando para os deputados. Fiquei imediatamente muito desanimado. Pois se os “eleitores” estavam telefonando para os seus representantes então não havia mais esperança nenhuma.

Podemos até imaginar um diálogo.

“Alô!”

“Alô… Quem fala?”

“Aqui é fulano.”

“Oi padrinho. A benção.”

“Soube que você anda pensando em votar não.”

“Não padrinho.”

“NÃO?!”

“Quer dizer sim! Oh… Não! Como quer que eu vote?”

“Vote SIM! E lembre-se da minha doação para a sua campanha.”

Nada como uma “democracia direta”!  Os empresários praticam a democracia direta e nomeiam e destituem “delegados” ao bel prazer. Nós também queremos isto. Isto funciona! Mas não queremos um intermediação comandada pelo poderio econômico. Uma volta velada às práticas do passado onde só votavam os proprietários. Pensando bem… Não é uma volta ao passado. Parece que nunca saímos de lá. Achamos que houve progresso. Na verdade houve “progresso” na arte de prestidigitação.

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A arte do engano cunha frases farsescas como “A ponte para o futuro”. Uma frase que por si só não significa nada de predefinido. É um slogan, se não vazio, completamente moldável. Seu apelo ˜novilinguistico˜ é calcado nas imagem de uma ponte como algo para ultrapassar um obstáculo, para transpô-lo, para superá-lo. Embora também possa ser pensado como algo para unir duas margens. Talvez de forma harmônica. Talvez não. Fiquemos com a primeira acepção que nos parece ser a preferida dos cunhadores da frase. Uma ponte para sair de uma margem, indesejável, para ir em direção ao outro lado onde está o almejado. E o que está do outro lado? O futuro! Palavra mágica da nossa civilização. A seta que para lá aponta é a do progresso. O futuro é sempre melhor. Principalmente se deixarem nas nossas mãos. Não se preocupem! Nós sabemos o que fazemos! Coloquem-se em nossas mãos e os conduziremos messianicamente para este lugar melhor. “Melhor para quem, cara pálida?”, podemos perguntar incrédulos, céticos de doer.  Imagine os judeus numa margem da “ponte para o futuro” antes dos eventos dos campos de extermínio nazistas. Não iam querer ir para o outro lado se lhes dissessem o que os esperava lá. Teriam dinamitado imediatamente aquela ponte. Ou rumado para outra ponte que fosse em outra direção. As metáforas  numa guerra de mentiras completamente “orwelliana” são todas vácuas.

A verdadeira ponte para o futuro são as novas formas de democracia que estão despontando na rede. Partidos piratas, democracia direta, futarchy etc. Os manipuladores terão que ser muito poderosos, de uma forma impossível de se imaginar, para conseguir controlar a descentralização que está em curso.

A ilegitimidade sincera de nossos congressistas

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Ainda que visíveis, expostos em rede nacional, os deputados do “sim” explicitaram todo tipo de ação imoral, como se estivessem protegidos pelo anel da invisibilidade. O clima de opinião coletivo e de fraternidade mútua era tão favorável entre os congressistas do “sim” que sequer se deram conta de que estavam sob todos os holofotes, perante o tribunal implacável da opinião pública. Em tempo real.

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Ulysses Ferraz

O massacre simbólico do golpe jurídico

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É inegável a importância do direito em uma sociedade democrática. Mas tampouco há como negar o fato de que muitas vezes o direito também pode ser uma mercadoria. E quem leva o melhor produto é quem pode pagar mais caro. A arena jurídica na maioria das vezes é disputada com base no poder econômico. E a vitória das teses jurídicas dos grupos economicamente mais poderosos tem sido a regra nessa cruzada contra um processo de impeachment instaurado sem nenhuma base factual ou jurídica.

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Ulysses Ferraz