Academia Americana de Nutrição – GUINADA histórica de 180 graus!

Ontem o blog do Dr. Souto publicou um post, com o mesmo título deste que está lendo, do qual estou reblogando excertos aqui.

Primeiro, foi o mais importante centro de pesquisa e tratamento de diabetes do mundo – o Joslin Diabetes Center, em Harvard – que anunciou que era hora de abandonar a dieta de alto carboidrato.

Os comentários entusiásticos no post que cito falam em os nutricionista low-carb saindo do armário.

Veja os notáveis realces do texto da academia:

  • Deve-se notar que NENHUM estudo incluído na revisão sobre doença cardiovascular identificou a gordura saturada como tendo associação desfavorável com doença cardiovascular”
  • “Nós sugerimos que as próximas diretrizes ajudem as pessoas a adotar dietas que não são as recomendadas até hoje, tais como uma dieta de baixo carboidrato, para ajudá-las as fazer escolhas mais saudáveis dentro deste tipo de dieta.”
  • “O consumo de carboidratos leva a um maior risco cardiovascular do que o consumo de gordura saturada. (…) As evidência de múltiplos estudos estimaram o impacto da gordura saturada  [no risco cardiovascular] como sendo próximo de ZERO.”
  • “A Academia apoia a decisão de não mais limitar o consumo máximo de colesterol a 300 mg por dia, visto que as evidências disponíveis mostram que não a relação significativa entre o consumo de colesterol na dieta e o colesterol sérico”
  • “No mesmo espírito de não mais limitar o colesterol diário, a Academia sugere que haja uma revisão semelhante no que diz respeito à gordura saturada, tirando a ênfase da mesma como nutriente digno de preocupação. Embora haja vários estudos ligando a ingestão de gordura saturada e níveis de LDL, isso é IRRELEVANTE para a questão da relação entre dieta e risco cardiovascular”
  • “Há um consenso crescente de que uma recomendação única de consumo de sódio para todos os americanos é inadequada, devido ao crescente corpo de literatura sugerindo que os baixos valores de sódio atualmente recomendados estão na verdade associados a um AUMENTO DA MORTALIDADE para indivíduos saudáveis.”

Leia o post do Dr. Souto para maiores detalhes.

Um dos critérios relevantes para a escolha de uma “dieta de emagrecimento” é saber sobre o “day after”. E agora? Emagreci! E bem rápido. Muitas dietas indicam “passar fome” (restrição calórica) e “malhar” (exercícios sistemáticos). É claro que funciona no curto prazo. Mas e depois? Jonathan Bailor explica que, dependendo da qualidade do que se come, o set point (o quanto a homeostase do seu organismo direciona o quanto você vai pesar) pode estar com um valor de peso estável alto e não importa o que você faça o seu organismo, em prol da sua sobrevivência, vai restabelecer o peso. Nenhuma “força de vontade” sua consegue vencer um mecanismo homeostático poderoso atuando 24/7, mesmo enquanto você dorme.

Recentemente uma “dieta do Ravenna” é alardeada pela mídia usando famosos (Dilma é famosa por diversas opiniões e inegavelmente pop). Há uma crítica no blog Nutrir Bem que serve para varias dietas que não se sustentam no longo prazo. A superioridade da “dietas” alinhadas com a evolução e descobertas bioquímicas, geralmente usando o termo “uma educação alimentar” para se livrar da pecha das dietas indutoras do efeito sanfona, está, basicamente, em comer de forma sustentável. Isto implica também em comer de forma prazerosa e saciável, que é o mecanismo imediato colocado em nós pela evolução para a sobrevivência.

Velejada no feriadão em abril de 2015

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No dias 19, 20 e 21 velejamos com ventos razoáveis. Andamos no máximo a uns 7 nós. O motor de 4 tempos não nos deixou na mão e é uma maravilha não sentir o cheiro do óleo misturado na gasolina (no caso de motores de dois tempos).

Dormimos dois dias no barco (eu, Mateus e Natali).

Fomos até Botinas e vimos alguns peixes e duas tartarugas no nosso mergulho em apnéia. A subida no barco barco pela popa foi dolorosa para os pés que tiveram que se apoiar no cabo de 6 mm da âncora colocado a guisa de escada. Fiquei imaginando uma queda na água e a dificuldade de embarcar de novo sem ajuda. Simulei subir pela lateral mas minhas pernas eram arrastadas para debaixo do casco. Sem uma escada e nas condições atuais da minha tendinite nos ombros e preparo físico é inviável para mim subir pela popa.

mapa-ilhas-botinas

Ilhas Botinas

Um incidente na saída pelo canal de Bracuí quase foi jocoso se não fosse o relativo perigo de abalroamento. Uma lancha estava navegando lentamente para o meio do canal em flagrante rota de colisão conosco. Olhamos para o condutor esperando que ele, que estava de costas para nós falando no celular, se virasse e nos vendo corrigisse o rumo. Um de nós teve que assoviar para chamar a sua atenção. Ele se voltou e falou alguma coisa com um sorriso amarelo. Quando o ultrapassamos tive a ideia de olhar o nome da lancha. Tive que rir. O nome era bem apropriado: “La deriva”.

Roberto Piva – O século XXI me dará razão (se tudo não explodir antes)

Publicado originalmente em Hilam A na Grama:

Foto de Piva Roberto Piva

O século XXI me dará razão, por abandonar na linguagem & na ação a civilização cristã oriental & ocidental com sua tecnologia de extermínio & ferro velho, seus computadores de controle, sua moral, seus poetas babosos, seu câncer que-ninguém-descobre-a-causa, seus foguetes nucleares caralhudos, sua explosão demográfica, seus legumes envenenados, seu sindicato policial do crime, seus ministros gangsters, seus gangsters ministros, seus partidos de esquerda fascistas, suas mulheres navios-escola, suas fardas vitoriosas, seus cassetes eletrônicos, sua gripe espanhola, sua ordem unida, sua epidemia suicida, seus literatos sedentários, seus leões-de-chácara da cultura, seus pró-Cuba, seus anti-Cuba, seus capachos do PC, seus bidês da direita, seus cérebros de água choca, suas mumunhas sempiternas, suas xícaras de chá, seus manuais de estética, sua aldeia global, seu rebanho-que-saca, suas gaiolas, seu jardinzinhos com vidro fumê, seus sonhos paralíticos de televisão, suas cocotas, seus rios cheio de latas de sardinha, suas preces, suas panquecas…

Ver original 37 mais palavras

Pérolas do Dr. Souto

Sempre que recomendava que alguém lesse o blog do Dr. Souto costumava também aconselhar que não deixasse de ler os comentários. Quando comecei a pesquisar lia obsessivamente tudo, os posts e os comentários. Os comentários longos necessitam ser expandidos no Blogspot. Depois, quando queria recuperar uma informação, fazia uma busca e quando olhava os posts retornados como resultado da busca não encontrava o que queria. É que muitas vezes os termos só apareciam nos comentários. Mas olhar os comentários longos sem expandi-los não adiantava. Agora, com o surgimento do blog Pérolas do Dr. Souto, acho que os problemas acabaram.

O cara é bom!

Publicado originalmente em Diário do Avoante:

Esse é o vídeo do M/Y Venus de 256 pés, iate do finado Steve Jobs, saindo de uma marina em St Maarten. Uma manobra ousada que demonstra a arte marinheira de um bom comandante.

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Por que engordamos?

Li o ebook do Taubes em inglês mas estimulado pelo blog do Dr. Souto (ver canto superior direito)  e por um post antigo resolvi comprar a edição em português.

Optei pela versão em papel mas há uma edição eletrônica. Ambas em promoção na época sendo a entrega rápida e o frete irrisório.

Para quem quer emagrecer ou conhece alguém que o deseja este livro é um marco por fornecer as informações valiosas e remover vários mitos sobre as razões de engordarmos.

Palestra de Daniel Quinn sobre as religiões

Religiões

Nossas religiões. São elas religiões da humanidade?
Entregue em 18 de outubro de 2000, como uma aula aberta de Religião, da Southwestern University, em Georgetown, Texas. Autor: Daniel Quinn. Traduzido por Janos Biro.Ao contrário da opinião popular, Charles Darwin não originou a idéia de evolução. O fato da evolução já existia, mas ninguém estava preocupado com uma explicação racional para isso. A Origem das espécies não anuncia o fato da evolução, apenas tenta enunciar o mecanismo inteligível por trás desse fato.Na minha juventude eu também senti este tipo de pressão. A idade moderna da ansiedade estava nascendo sob as sombras de um crescimento populacional desenfreado, destruição ambiental global e a sempre presente possibilidade de holocausto nuclear. Eu estava surpreso que a maioria das pessoas aceitava este fato, como se dissesse “Bem, o que mais você esperava?”.Ted Kaczynski, o Unabomber, parecia pensar que estava dizendo algo terrivelmente original em 1995 culpando tudo na Revolução Industrial, mas isto era somente o conhecimento convencional de 1962. Para mim, culpar todos os nossos problemas na Revolução Industrial é como culpar a queda de Hamlet por seu encontro com Laertes. Para entender porque Hamlet acaba mal, você não pode olhar apenas os dez últimos minutos da estória, você tem que ir até o começo, e eu senti uma pressão para fazer o mesmo conosco.

O começo da nossa estória não é difícil de achar. Todo estudante sabe que nossa estória começa há 10 mil anos com a Revolução Agrícola. Este não é o começo da estória humana, mas certamente o começo da nossa estória, pois foi deste começo que todas as maravilhas e horrores da nossa civilização cresceram.

Todos estão vagamente cientes de que existem duas maneiras de olhar para a revolução agrícola na nossa cultura, duas estórias contraditórias sobre sua significância. De acordo com a versão padrão – a versão ensinada nas nossas escolas – os humanos estiveram por aí por um longo tempo, três ou quatro milhões de anos, vivendo um tipo de vida miserável e desajeitada pela maior parte desse tempo, conseguindo nada e indo pra lugar algum. Mas então, cerca de 10,000 anos atrás, finalmente ocorreu para o povo vivendo no Crescente Fértil que eles não precisavam viver como animais, fazendo o que puder com qualquer comida que aparecesse; eles poderiam cultivar sua própria comida e assim controlar seu próprio destino e bem estar. A agricultura tornou possível para eles desistir da vida nômade pela vida de aldeões. A vida de aldeões encorajou a especialização do trabalho e o avanço da tecnologia em todas os aspectos. Não muito tarde; vilas se tornaram cidades, cidades se tornaram reinos, reinos se tornaram impérios. Conexões comerciais; elaborados sistemas sociais e econômicos e escrita logo se seguiram, e por aí fomos nós. Todos esses avanços foram baseados em – e impossíveis sem – agricultura, manifestadamente a maior benção da humanidade.

A outra estória, muito mais antiga, está amarrada num canto diferente da nossa herança cultural. Também se passa no Crescente Fértil e conta o nascimento da agricultura, mas nela a agricultura não está representada como uma benção, mas sim uma terrível punição por um crime cuja natureza exata sempre nos intrigou profundamente. Estou me referindo, é claro, à estória contada no terceiro capítulo do Gênesis, a Queda de Adão.

As duas estórias são conhecidas por virtualmente qualquer um que cresça em nossa cultura, incluindo todo historiador, filósofo, teólogo e antropólogo. Mas, como a maioria dos pensadores em meados do século XIX, que estavam contentes com o mero fato da evolução e não sentiram pressão para explicá-la, nossos historiadores, filósofos, teólogos e antropólogos parecem perfeitamente contentes em viver com essas duas estórias contraditórias. O conflito é manifesto, mas, para eles, não exige explicação.

Para mim, exigia. Como a evolução exigia de Darwin uma teoria que a explicasse, a estória no Gênesis exigia de mim uma teoria que a explicasse.

Existem tradicionalmente duas aproximações para o crime e castigo de Adão. O texto diz que Adão foi convidado para provar de todas as árvores do Éden, exceto uma, misteriosamente chamada de árvore do conhecimento do bem e do mal. Como sabemos, Adão sucumbiu à tentação de provar desta fruta. Numa das interpretações, o crime é visto como uma simples desobediência, em que a interdição do conhecimento do bem e do mal parece inteiramente arbitrária. Deus poderia ter proibido o conhecimento da guerra e paz, ou o conhecimento do orgulho e do preconceito. O importante era simplesmente proibir Adão de alguma coisa para testar sua lealdade. Nesta interpretação, a punição de Adão – o banimento do Éden para viver de seu próprio suor – era só uma contenção; não “encaixava no crime” de forma particular. Ele teria recebido esta punição não importa o teste em que falhasse.

A segunda interpretação tenta fazer uma conexão entre o crime e a punição de Adão. Nesta interpretação, o Éden é visto como uma metáfora para o estado de inocência, que é perdido quando Adão ganha o conhecimento do bem e do mal. Isto faz sentido, mas só se o conhecimento do bem e do mal for entendido como algo que destrói a inocência. Então, com metáforas praticamente equivalentes em cada lado, a estória é reduzida a uma tautologia banal: Adão perdeu sua inocência adquirindo um conhecimento que destruiu sua inocência.

A estória da queda está em par com uma segunda igualmente famosa e igualmente desconcertante, a de Caim e Abel. Como convencionalmente entendido, estes dois irmãos eram indivíduos. O mais velho, Caim, um lavrador do solo, e o mais jovem, Abel, um pastor. A improbabilidade de que dois membros da mesma família iriam abraçar formas de vida antitéticas deveria ser uma dica de que de fato não eram indivíduos, mas figuras emblemáticas, assim como Adão (Adão sendo meramente a palavra hebraica para Homem).

Se os entendemos como figuras emblemáticas, então a estória faz sentido. O primeiro filho da agricultura foi o lavrador do solo, assim como Caim foi dito o primeiro filho de Adão. Isto é um fato histórico indubitável. A domesticação de plantas é um processo que começa no dia em que você planta a primeira semente, mas a domesticação de animais leva gerações. Então o pastor Abel foi realmente o segundo filho por séculos de diferença, senão milênios (outra razão para ser cético à noção de que Caim e Abel eram literalmente irmãos).

Outra razão para ceticismo neste ponto é o fato que antigos lavradores e pastores do Oriente Próximo ocuparam regiões adjacentes porem distintamente diferentes. Lavoura era a ocupação dos habitantes Caucasianos do Crescente Fértil. Pastoreio era a ocupação dos habitantes Semitas da península Arábica no sul.

Outro pedaço de pano de fundo que precisa ser entendido é que lavradores e pastores muito antigos tinham modos de vida radicalmente diferentes. Lavradores eram por natureza de seu trabalho, aldeões estabelecidos, mas pastores eram (por natureza de seu trabalho) nômades, assim como muitos dos pastores de hoje em dia. O modo de vida de pastoreio era de fato mais próximo do modo de vida caçador–coletor do que do modo de vida de lavoura.

Enquanto os povos lavradores do norte expandiam, era inevitável que se confrontassem com os pastores semitas do sul, talvez abaixo do que hoje é conhecido como Iraque – com um resultado previsível. Como fizeram do começo até o presente momento, os lavradores do solo precisaram de mais terra para colocar o arado, e como fizeram do começo até hoje, eles a tomaram.

Como os semitas viram (e é, é claro, a versão deles da estória que nós temos), foi o lavrador do solo Caim que regou seus campos com o sangue de Abel, o pastor.

O fato que a versão que nós temos é a versão semita explica o mistério central da estória, em que Deus rejeita a oferenda de Caim, mas aceita a de Abel. Naturalmente, é a maneira que os semitas veriam isso. Em essência, a estória diz: “Deus está do nosso lado. Deus nos ama e ama o jeito que nós vivemos, mas odeia os lavradores do solo e o jeito que eles vivem”.

Com esses entendimentos provisórios colocados, eu estava pronto para oferecer uma teoria sobre a primeira parte da estória, a queda de Adão. O que os autores semitas sabiam era só o fato presente de que seus irmãos do norte estavam desrespeitando-os de maneira assassina. Eles não estavam fisicamente presentes no Crescente Fértil para presenciar o verdadeiro nascimento da agricultura, e de fato este foi um evento que ocorreu centenas de anos antes. Na sua estória da queda, eles estavam reconstruindo um evento antigo, não contanto um recente. Tudo que estava claro para eles é que algum estranho desenvolvimento encarregou seus irmãos no norte com um modo de vida trabalhoso e os transformou em assassinos, e isto tinha que ser uma catástrofe moral ou espiritual de algum tipo.

O que eles observaram sobre seus irmãos do norte foi esta estranha peculiaridade. Eles pareciam ter a estranha idéia de que sabiam como governar o mundo tão bem quanto Deus. Isto é o que os marca como nossos ancestrais culturais. Enquanto continuamos com o nosso negócio de governar o mundo, nós não temos dúvida que estamos fazendo um trabalho tão bom quanto o de Deus, senão melhor. Obviamente Deus colocou um monte de criaturas que são bem supérfluas e até perniciosas, e temos certa liberdade de nos livrarmos delas. Nós sabemos onde os rios devem correr, onde os pântanos devem ser drenados, onde as florestas devem ser arrasadas, onde as montanhas devem ser niveladas, onde as planícies devem ser purgadas, onde a chuva deve cair. Para nós, é perfeitamente óbvio que temos esse conhecimento.

De fato, para os autores das estórias do Gênesis , parecia que seus irmãos do norte tinham a idéia bizarra que tinham comido da árvore da sabedoria de Deus e tinham ganhado o mesmo conhecimento que Deus usa para governar o mundo. E que conhecimento é esse? É um conhecimento que apenas Deus é competente para usar, o conhecimento de que cada simples ação de Deus – não importa o que seja, não importa quão grande ou pequena – é bom para um, mas mal para outro. Se uma raposa está caçando um faisão, está nas mãos de Deus se ela irá pegar o faisão ou se o faisão irá escapar. Se Deus der o faisão à raposa, isto é bom para a raposa, mas mal para o faisão. Se Deus deixa o faisão escapar, isso é bom para o faisão, mas mal para a raposa. Não há resultado que possa ser bom para os dois. O mesmo é verdade para cada área no governo do mundo. Se Deus permite uma enchente, isso é bom para alguns e mal para outros. Etc…

Decisões desse tipo estão claramente na raiz do que significa governar o mundo, e a sabedoria para fazê-las não poderia pertencer a uma mera criatura, pois qualquer criatura fazendo essas decisões iria inevitavelmente dizer “vou fazer toda escolha de forma que seja boa pra mim e má para o resto”. E é claro, isto é precisamente como os agricultores operam, dizendo “Se eu lavrar esta planície para plantar comida para mim, isto vai ser mal para as criaturas que habitam a planície, mas será bom para mim. Se eu arrasar esta floresta para plantar comida, isto será mal para as criaturas que habitam a floresta, mas será bom para mim”.

O que os autores da estória do Gênesis perceberam foi que seus irmãos do norte pegaram em suas mãos o governo do mundo; usurparam o lugar de Deus. Aqueles que deixavam Deus governar o mundo e pegavam o que ele plantava para eles tinham uma vida simples. Mas aqueles que queriam governar o mundo precisavam plantar sua própria comida, precisavam viver do próprio suor. Com isso, a agricultura não era o crime em si, mas o resultado do crime, a punição que deveria inevitavelmente seguir este crime. Era o conhecimento do bem e do mal que transformou seus irmãos no norte em agricultores – e assassinos.

Assim como os criacionistas dizem que o evolucionismo é só uma teoria que não foi provada, minha leitura do Gênesis é só uma teoria. Porém, ausência de evidência não é evidência de ausência, e o evolucionismo é mantido até hoje por isso, porque é a melhor teoria que temos, e minha teoria deve ser avaliada da mesma forma.

Mas resolver esse enigma apenas começou a aliviar minha pressão por procurar respostas que não estavam sendo procuradas em lugar algum na nossa cultura. As fundações filosóficas e teológicas da nossa cultura foram feitas por pessoas que acreditavam que o Homem nasceu um agricultor e construtor de civilização. Como se fossem coisas tão instintivas a ele quanto caçar é para um leão ou fazer colméias é para as abelhas. Isto é, para achar a data de nascimento do Homem, tínhamos que procurar o começo da agricultura e da civilização, que não estavam muito longe no passado.

Quando em 1650 o teólogo Irlandês James Ussher anunciou que a data de criação era 23 de Outubro de 4004 antes de Cristo, ninguém riu, ou se riram, era por causa da absurda exatidão da data, não porque era absurdamente recente. De fato, 4004 antes de Cristo é uma data bem útil para o começo do que iríamos reconhecer como civilização. Neste caso, não é surpreendente que, para pessoas que admitiam que o Homem começou a construir a civilização assim que foi criado, 4004 antes de Cristo parecia perfeitamente razoável para a data de sua criação.

Mas isso logo mudou. Em meados do século XIX a evidência acumulada de muitas novas ciências empurrou todas as datas para outras magnitudes. O universo e a terra não tinham milhares, mas bilhões de anos. O passado humano se estendeu para milhões de anos antes da agricultura e da civilização (não o homo sapiens, mas o homo, homem). Apenas aqueles que interpretam a Bíblia muito literalmente não consideram essas evidências, culpando ao demônio ou a deus (para testar a fé) por essa farsa.

Isto significava que nossas fundações filosóficas e teológicas tinham sido feitas por pessoas que estavam profundamente erradas sobre nossas origens. Era urgentemente importante reexaminar essas fundações e reconstruí-las desde o começo.

Mas é claro, ninguém achou isso urgentemente importante. Então estávamos errados? Quem se importa? Nada de importante aconteceu nesses anos todos. Isto é meramente um fato para ser aceito.

Admitimos que, se o Homem não nasceu agricultor, ele certamente nasceu para ser agricultor. Este é o seu destino. É o jeito que os homens deveriam ser desde o começo. Devemos continuar assim, mesmo que isso nos mate. Havia fatos nos re-posicionando no universo físico e na história da nossa espécie e ninguém sentiu pressão para explicar isso.

Exceto por mim, e tenho que dizer que não me deu prazer algum. O conflito de Caim e Abel não acabou no Crescente Fértil, Caim ainda rega seus campos com o sangue de tribais onde quer que os encontre. Ele chegou aqui, na América, em 1492 e por três séculos regou seus campos com o sangue de milhões de nativos americanos. Hoje ele está no Brasil, apontando sua faca para os indígenas restantes neste país.

O modo de vida tribal é tão universal para a humanidade quanto qualquer outra organização social natural (a matilha, a manada, etc…). Indígenas com culturas completamente diferentes umas das outras vivem em tribos, mas nós, que na verdade somos uma única cultura, temos um modo de vida único. Apesar de nos classificarmos como se tivéssemos muitas culturas, todas elas foram assimiladas numa só cultura-mãe, que erroneamente chamamos de humanidade. E por isso podemos ir a qualquer cidade do mundo e nos sentir muito mais confortáveis do que se nos mudássemos para qualquer tribo.

A tribo é a conquista evolucionária do homem em termos de organização social. Todos os componentes dessa organização, como a lei e a religião, são produtos da seleção natural, foram testados por gerações até atingir um grau de sucesso funcional. A lei tribal é cola que une a tribo. Cada uma tem a sua e nenhuma pensa que esta lei deve valer para todas as pessoas do mundo.

A lei tribal é difícil de entender porque não funciona em termos de proibição, mas em termos de remedição. A lei tribal não diz o que não deve ser feito, mas diz o que é mais satisfatório para minimizar os efeitos de um mau comportamento e produzir uma situação em que todos se sintam recompensados. A lei tribal é tão bem aceita porque evitá-la significa apenas maior prejuízo para todos os envolvidos, pois os envolvidos não se sentem coagidos ou lesados por ela, mas sim restituídos.

A vantagem da lei tribal é que ela reconhece que as pessoas podem ser sábias ou estúpidas, gentis ou rudes, generosas ou egoístas. A lei tribal não pune as pessoas por serem diferentes, por serem elas mesmas. Ela apenas diz, “Se você quer agir assim, é melhor fazer o tem provado ser melhor nessas situações…”. O que tem provado ser melhor é conhecido através das estórias tribais. Se você coloca pessoas de tribos diferentes vivendo juntas, elas provavelmente não saberão o que fazer quando acontecer um problema, elas não saberão que lei seguir, e é isso que aconteceu toda vez que isso foi tentando.

Quando a população do Oriente Próximo começou a crescer e a englobar todas as tribos, as pessoas precisaram inventar uma nova maneira de lidar com problemas, e esquecer todas as estórias dos sucessos passados. Elas inventaram a proibição. Como era de se esperar, eles começaram pelo assassinato, roubo, etc… Como se a única solução fosse extinguir esses comportamentos. Com a invenção da escrita, elas logo manifestaram a preocupação em estabelecer leis que funcionassem para todos do mesmo jeito, mas é claro que as pessoas já se comportavam assim muito antes de Hammurabi.

Quando os israelitas escaparam do Egito, deixaram a lista de proibições egípcia para trás, e precisaram de uma nova, que foi dada por Deus. Mas, é claro, dez proibições não foram suficientes. Centenas se seguiram, e ainda não são suficientes.

E nunca serão suficientes. Nem mil, nem um milhão. E a cada ano pagamos nossos legisladores para fazer mais. Mas não importa quantas leis tenhamos, nunca será suficiente porque nenhuma lei jamais eliminou qualquer comportamento proibido. Cada vez mais criminosos são punidos para “servir de exemplo”, mas estranhamente o crime não diminui, os criminosos apenas se tornam mais preparados.

Naturalmente, consideramos isso um sistema muito avançado.

Nenhum povo tribal jamais reclamou dizendo que não sabia como viver. Nós, no entanto, tendo perdido nossas referências ancestrais, precisamos de uma nova classe de especialistas em dizer como se vive corretamente: os profetas.

Para ser um profeta você precisa saber algo que todo resto não sabe, algo que foi revelado somente a você. Qualquer coisa que não tenha sido inventada por você, usando seu próprio raciocínio e experiência pessoal (nesse caso, você seria uma farsa), mas sim uma verdade indubitável e acima de qualquer suspeita, que deve ter sido dada a você por Deus.

Religiões baseadas em revelações proféticas são únicas da nossa cultura. Só nós precisamos delas, e precisamos de cada vez mais, pois a cada dia surge uma nova. E precisamos delas porque, apesar de tudo, ainda não sabemos como viver, não sabemos como resolver questões do dia-a-dia. Nossas religiões são produtos de um povo que foi destituído de toda experiência passada com as situações comuns e com os problemas que acontecem eventualmente devido ao simples fato das pessoas serem diferentes. No entanto, acreditamos firmemente que nossas religiões são religiões reveladas à humanidade. Que todos os seres humanos deveriam se guiar por essas definições dadas pelos profetas.

Esta crença não é irracional. É razoável já que pensávamos que a humanidade tinha começado conosco, e que Deus tem nos dado leis desde o começo. Quando descobrimos que a humanidade tem milhões de anos, não ficamos surpresos com o fato de que Deus ficou calado a maior parte do tempo. Ele não falou para os homo habilis como eles deveriam viver, nem para os homo erectus. E, por 90 mil anos, nem mesmo para os homo sapiens, mas somente para nós. Deus queria falar com seres civilizados, não com selvagens, por isso ele permaneceu desdenhosamente calado por milhões de anos.

Estranhamente, reconheço que havia uma religião que poderia ser chamada de religião da humanidade. Foi a primeira religião, e a mais universal. Encontrada onde quer que se encontre humanos, permaneceu por dezenas de milhares de anos. Os missionários cristãos saíram pelo mundo para destruí-la.

É claro que ninguém diz que seja uma religião verdadeira, porque não é uma das nossas. É só uma “pré-religião”. Como poderia ser diferente, já que surgiu antes de Deus decidir que os homens eram dignos de ouvi-lo? Não foi revelada por nenhum profeta, não tem dogmas, nenhuma doutrina, liturgia, não produz nenhuma heresia. Pior ainda, ninguém foi morto por ela – que tipo de religião é essa? Considerando tudo isso, é realmente incrível que tenhamos um nome para ela.

A religião sobre a qual eu estou falando é o animismo. Este nome foi dado pelos missionários, pois tinham a impressão que os selvagens infantilmente acreditavam que coisas como pedras, árvores e rios tinham espíritos neles. Não é preciso dizer que essa religião floresceu entre pessoas tão espertas quanto eu e você. Depois de décadas tentando entender qual era a visão de mundo e de humanidade dessa religião, eu concluí que eles estavam dizendo algo muito simples, mas constantemente tachado de trivial: “o mundo é um lugar sagrado, e a humanidade pertence a esse mundo”.

É simples, mas também enganosamente simples. Em contrate com o animismo, a visão de mundo e de humanidade que está no fundamento de todas as nossas religiões não considera o mundo um local sagrado. Para os cristãos não passa de um local de testes, sem valor intrínseco. Para os budistas é um lugar de sofrimento.

Para os cristãos, o mundo não é o lugar onde os humanos pertencem. Não é nosso lar, é só uma sala de espera para nosso verdadeiro lar, o paraíso. Para os budistas, é outro tipo de sala de espera, que visitamos diversas vezes até nos libertamos no nirvana.

Se o mundo fosse o lar da humanidade para as nossas religiões, nós não pertenceríamos a ele, porque somos pecadores ou imperfeitos demais. Não somos perfeitamente humanos, não atingimos nosso grau último de humanidade.

Para os animistas, os humanos pertencem a um mundo sagrado porque eles mesmos são sagrados, assim como todos os outros animais, plantas e minerais que obviamente pertencem a esse mundo. Isso não é tudo que pode ser dito sobre o animismo, eu não sou uma autoridade no assunto, e duvido que possa existir uma autoridade nisso.

Idéias simples nem sempre são fáceis de entender. Por exemplo, a idéia que eu mais articulei nos meus trabalhos é provavelmente a menos entendida: Não há uma única maneira certa das pessoas viverem. Esta idéia vai contra as fundações da nossa própria cultura. Para nós, progresso é viver exatamente do mesmo jeito que nós vivemos. Todos deveriam viver desse jeito, porque é o único jeito correto de viver.

Quase ninguém pisca com a afirmação que não há uma única maneira certa de viver. As pessoas se engasgam numa série de coisas nos meus livros, mas engolem esse enorme e peludo camelo tão fácil quanto uma colher de mel.

Que as florestas estejam com vocês e com seus filhos.

O texto original se encontra no site: www.ishmael.org

Fonte: Tradução da palestra dada por Daniel Quinn sobre as religiões.
gorila de daniel quinn

Texto no final de Ismael

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