Arquivo do mês: fevereiro 2010

Avatar

Eu e Mateus (que volta hoje para Aracaju) fomos assistir Avatar no cinema aqui no Leblon. Quando soube que a duração seria de cerca de 2,5 horas comprei bastante pipoca e refrigerante. Quando o filme começou pensei que ia ter dor de cabeça como Natacha disse que teve. Nada. O cinema estava lotado em pleno sábado de Carnaval no Rio mesmo com o preço de R$ 28,00 pelo ingresso.

Após algumas explicações iniciais sobre o que era um avatar e rápida e óbvia descrição caricatural dos personagens e grupos de interesses (mariner cadeirante muito interessado na experiência de andar e correr de novo como avatar, cientistas conscienciosos desfensores do statu quo dos nativos de Pandora, representante dos capitalistas de empreendimento de mineração e sua equipe, força militar com seu comandante troglodita e os nativos completamente integrados com seu ambiente). Eiwa é uma espécie de divindade ou força ancestral que regula e protege Pandora mas que pouco pode fazer frente ao acachapante poderio bélico do Povo dos Céus. Há referências subliminares à hipótese Gaia de Lovelock (rejeitada como sem evidências decisivas por Ernst Mayr e evolucionistas) no comportamento do eco sistema regido por Eiwa.

O filme é deslumbrante mesmo sem os truques 3D. Imagino o trabalho que os computadores tiveram para retratar uma floresta exuberante como a de Pandora. E cheio de alegorias e citações. As montanhas flutuantes remetem a Magritte. No entanto é bem pouco “alienígena” no sentido que não explora o potencial de estranhamento ao encontrar seres que evoluíram independentemente de nós. Os alienígenas são muito “terrásqueos”. A história de Solaris, de Stanislaw Lem, é melhor nesse quesito.

Os nativos de Pandora, com suas tranças e ‘cavalos’ que mais parecem tamaduás, lembram os massacrados peles-vermelhas.

As máquinas de guerra e suas bombas incendiárias falam do Napalm e agente laranja no Vietnam e do massacre da população civil.

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O final lembrou também do enredo do Distrito 9 onde há uma cooptação do protagonista pelo alienígena.

A integração dos nativos com os animais e o ambiente natural constrata com o afastamento dos civilizados, enclausurados em suas máquinas e artefatos. Ao “animal triste” só resta destruir. Um aforismo de Nietzsche fala desse animal triste estranho para os outros animais porque esqueceu seus instintos autênticos.

Receio que os animais vejam o homem como um semelhante que perigosamente perdeu sua sadia razão animal – como o animal delirante, o animal ridente, o animal plangente, o animal infeliz.

Nietzsche, Gaia Ciência