Arquivo do mês: junho 2010

Acentuação no Mac

Já me acostumei com a acentuação no Mac no estilo clássico mas resolvi apelar para a modificação sugerida no Guia Definitivo de Acentuação no Mac (Macintosh).

No link anterior a versão do instalador é 1.1. Pegue o mais atualizado.

Ao abrir o arquivo DMG da versão 1.2 ele monta a pasta USInternational 1.2. Nela ao abrirmos o arquivo Mais instruções.webloc obtemos a página Rainer Brockerhoff disponibiliza layout de teclado USInternational 1.2; confira vídeo-aula.

Aparentemente há uma contradição entre as informações deste último link com a página do Rainer Brockerhoff e com o primeiro link a respeito de qual versão funciona no Tiger.

No final do vídeo há a recomendação para desativar o Menu de Entrada para evitar conflitos com o Spotlight. Para fazê-lo vá em Preferências do Sistema. Selecione Teclado e Mouse. Desative o checkbox de Menu de Entrada.

Instalei  então no Tiger a versão 1.2 e que está funcionando até agora sem problemas.

Anúncios

BALEIAS: FALTAM 72 HORAS

Comissão Baleeira Internacional está se reunindo agora mesmo em Agadir, Marrocos, para votar em uma proposta que legalizaria a caça comercial de baleias pela primeira vez desde 1986.

A opinião pública global é contra esta proposta, mas países a favor da caça de baleias estão defendendo-a fortemente. Vamos garantir que nossas vozes sejam ouvidas.

Fonte: http://www.avaaz.org/po/whales_72hrs_left/?cl=626236471&v=6676

Dançava um xote

Nas entranhas de um cachalote

Quando no meio de uma dança

Irrompe uma lança

Espalhando o espermacete

Mesmo dentro de sua imensa pança

E lá se foi a segurança

Nesse mundo que não se cansa

De tudo aniquilar

Saramago

Faleceu Saramago.

Na manhã do dia em que um colega soube da notícia da sua morte apressou-se em me informar. Fiquei chocado pois só recentemente comecei a ler seus escritos e já me afeiçoei dele.

É como se fosse um irmão em espírito que não tinha esperança de conhecer pessoalmente mas que era reconfortante saber que estava lá, na sua ilha de Lanzarote, nos brindando com sua verve indignada nesses tempos de conformismo bovino.

Dizem que Saramago é pessimista. Mas qual a diferença entre um otimista e um pessimista? A memória. O otimista só se lembra dos sucessos. O pessimista se lembra que os fracassos são mais numerosos. E Saramago? Devia ter boa memória para todas as atrocidades cometidas nesse mundo a título do que seja.

Não sou pessimista, o mundo que é péssimo.

Saramago

Veja também josé saramago – memorial de um génio.

O ano passado em Marienbad

Quando li A invenção de Morel, de Bioy Casares, soube do filme de Alain Resnais, O ano passado em Mariembad.

Quando surgiu a notícia de que ia passar no Cine Eva fui e arrastei minha filha Natacha para ir comigo. Tinha espectativa de que a atmosfera de sonho fantástica descrita no livro fosse espelhada no filme. Infelizmente (IMHO) deparei com um filme alegórico, compreensível apenas, eu acho, para quem já conhecesse o livro, extremamemte monótono, onde as repetições que lembram o núcleo do enredo do livro acabam maçando o espectador. Meu conselho é “fique só no livro”, que é fantástico (literalmente).

Durante o filme me chamou a atenção o uso do Jogo do Nim (aquele dos buraquinhos jogado na areia da praia e que pratiquei muito na minha juventude) em várias cenas. Se quiser experimentá-lo há uma versão na Web. No filme parecem jogar a versão em que o jogador que tira o último palito perde. Há também a versão em que ganha quem tira o último palito.

Descrevo a seguir um método prático para ganhar (baseado na teoria usando números binários) e se divertir na praia com os buraquinhos na areia.

Vamos representar quantidade de palitos em cada fileira por números decimais:

  1. 1
  2. 3
  3. 5
  4. 7

Vamos obter a “soma” decompondo os números de cada fileira em parcelas que são potências de 2 (1, 2, 4, 8, 16, …).

  1. 1
  2. 2 + 1
  3. 4 + 1
  4. 4 + 2 + 1

Isso dá para fazer “de cabeça”.

A “soma” da fileira 1 com a 2 é 1 + 3 = 1 + (2 + 1) = 2, onde “+” representa uma “soma” especial (uma soma XOR). Nessa soma duas parcelas iguais se anulam. 1 + 3 = 2.

Colocando todas as fileiras de uma vez temos: (1) + (3) +(5) + (7) = (1) + (2 + 1) + (4 + 1) + (4 + 2 +1) = 1 + 2 + 1 + 4 + 1 + 4 + 2 + 1 = (1 + 1) + (1+1) + (2 +2) + (4 + 4) = (0) + (0) + (0) + (0) = 0.

Vemos que a posição inicial tem “soma” zero. Para ganhar o jogo (fazer com que o oponente fique com o último palito) temos que deixar soma zero para o próximo a jogar. Conclusão: quem começa o jogo nessa configuração com soma zero o perde se soubermos jogar sempre deixando soma zero para o adversário.

Vamos fazer uma simulação em que aplicamos a regra e o adversário começa (entre colchetes coloquei a decomposição em potências de 2):

  1. 1 [1]
  2. 3 [2 + 1]
  3. 5 [4 + 1]
  4. 7 [4 + 2 + 1]

Soma = 0.

O adversário deixa:

  1. 1 [1]
  2. 3 [2 + 1]
  3. 5 [4 + 1]
  4. 6 [4 + 2]

Soma = 1.

Há várias jogadas possíveis. A idéia é escolher uma linha e deixar nela um número de palitos igual à soma das outras.

Se escolhermos a linha 1 vemos que a soma das restantes é zero. Logo basta retirar um palito na linha 1.

Se escolhermos a linha 2 vemos que a soma das restantes é 2. Logo basta retirar um palito na linha 2.

Se escolhermos a linha 3 vemos que a soma das restantes é 4. Logo basta retirar um palito na linha 3.

Se escolhermos a linha 4 vemos que a soma das restantes é 7. É impossível retirar palitos para igualar à 7 pois só temos 6 palitos.

Vamos então tirar 1 palito da linha 3.

  1. 1 [1]
  2. 3 [2 + 1]
  3. 4 [4]
  4. 6 [4 + 2]

Soma = 0.

O adversário deixa:

  1. 1 [1]
  2. 3 [2 + 1]
  3. 4 [4]
  4. 0 [0]

Soma = 6.

Deixamos:

  1. 1 [1]
  2. 3 [2 + 1]
  3. 2 [2]
  4. 0 [0]

Soma = 0.

O adversário deixa:

  1. 1 [1]
  2. 1 [1]
  3. 2 [2]
  4. 0 [0]

Soma = 2.

Aqui, se continuarmos a seguir o método podemos perder. Se apagarmos toda a linha 3 deixamos soma zero mas perdemos:

  1. 1 [1]
  2. 1 [1]
  3. 0 [0]
  4. 0 [0]

Devemos deixar uma soma “não zero” para ganharmos. Deixamos então:

  1. 1 [1]
  2. 1 [1]
  3. 1 [1]
  4. 0 [0]

Espero ter sido claro sobre como ganhar. A decomposição em potências de 2 é equivalente a escrever os números em forma binária e efetuar a soma XOR. Mas para os cáculos mentais me parece melhor fazer a decomposição.

Caso você tenha que começar o jogo ainda pode ganhar se o adversário der uma “bobeira” e deixar soma não zero em algum momento.

Com método aqui descrito você pode ter quantas linhas quiser com qualquer quantidade de palitos. Experimente na praia onde é fácil fazer os buraquinhos na areia.

Com a experiência você acaba decorando alguma configurações que tem soma zero e não precisa fazer as contas.

Exemplos:

  • 1, 2, 3
  • 1, 1, 1 (exceção: não tem soma zero mas você ganha se deixar para o adversário)
  • Duas linhas iguais.

GTD no iPhone

Em busca de uma aplicação onde possa praticar o método GTD no iPhone me deparei com duas que pareceram interessantes: Errands e Omnifocus.

A primeira é gratuita e a segunda é paga.

Testei Errands e gostei tanto que adotei como minha aplicação de Todo List no iPhone. No espírito do conceito de Contexto do GTD criei as seguintes categorias: Anywhere, Email, Errands, Home, Ideas, iPhone, Leisure, Mac, Phone Call, Reference, Someday, Waiting, Web, Wishlist e Work.

Errands já vem com as seguintes categorias fixas (que você não pode remover):

  • All Tasks
  • Focus
  • Completed
  • Inbox

Examinei as features da aplicação Omnifocus (existe versão para o Mac também) e achei muito atraentes. Pretendo testar o trial disponível para avaliar melhor. Uma das features mais impressionantes permite “georeferenciar” as ações:

Thanks to iPhoneʼs location awareness, OmniFocus can help you decide what to do next based on where you are. When you tap the Nearby Contexts button, OmniFocus shows you the available actions that are closest to you. For instance, if you’re out buying groceries, OmniFocus can show you the closest grocery store and create an instant shopping list.

Fonte: http://www.omnigroup.com/products/omnifocus_for_iphone/

Ortega Y Gasset, a aventura da razão

Comprei o livro Ortega Y Gasset, a aventura da razão, de Gilberto de Mello Kujawski. Achei na Feira de Livros da Carioca. Gasset já está há algum tempo no meu radar e aproveitei ter encontrado este livro para obter um primeiro contato. Agora vou procurar traduções. No próprio livro do Kujawski já encontrei comentários e citações que me atraíram:

Mais do que qualquer outro filósofo contemporâneo, Ortega radicalizou o envolvimento do homem com o cotidiano. Mas, cuidado, “cotidiano” não significa aqui a negação da aventura. Pelo contrário, no cotidiano está sempre encapsulada a aventura. Por cotidiano não se entenda a simples rotina, a monotonia do contorno e a repetição ao infinito das mesmas condutas um dia após o outro. Para quem vive alerta e autenticamente, desde o mais fundo do próprio ser, o cotidiano representa um desafio permanente no qual podemos ganhar ou perder, um enigma que ou deciframos, ou ele nos devora. Participar do cotidiano é descobrir a heterogeneidade de cada momento, o drama de cada pessoa, o sentido de cada coisa, de cada fato que nos oprime. Viver autenticamente o cotidiano é cavalgar a aventura.

Kujawski

Enquanto Unamuno queria a Espanha africana Gasset a queria européia. A Espanha depois dos tempos de afastamento e introspecção devia integrar-se preferencialmente à sua “circunstância” européia. Quando Gasset diz a sua frase “resumo”: “Eu sou eu e minha circunstância, e se não a salvo não me salvo eu.”, a frase é quase um programa sobre a sua circunstância que era a Espanha e que ele devia salvar. Uma Espanha humilhada e alijada de si mesma, sem mais ter seu império e inferior no cenário cultural da Europa. Além dessa perspectiva, digamos, histórica, há a perspectiva de encarar a frase como o núcleo de gravitação da filosofia de Gasset. Como se todo o fragmentário texto de Gasset fosse um grandioso comentário dessa frase.

Seria a ambição suprema da filosofia chegar a uma só proposição na qual dissesse toda a verdade. As mil e duzentas páginas da Lógica de Hegel são só a preparação para poder pronunciar, com toda a plenitude do significado, esta frase: “A idéia é o absoluto”. Esta frase, na aparência tão pobre, tem na realidade um sentido literalmente infinito. E, ao pensá-la devidamente, todo este tesouro de significações explode de uma vez, e de uma vez nos esclarece a enorme perspectiva do mundo. A esta iluminação máxima chamava eu compreender.

Ortega Y Gasset

Eu e meus botões, de certa feita, imaginávamos uma inversão entre o status conceitual atribuído à superfície e à profundidade como categorias que expressariam o que é imediato, ligeiro, “superficial” e o que é elaborado, só para os iniciados, “profundo”. Os que gostam como eu de fazer da exploração da “superfície” a sua “profundidade” discordamos da alegação dos “profundos”, da profundidade e dos seus apologistas. Imaginávamos que falavam mais do que não sabiam já que só a superficie nos é revelada enquanto que a profundidade era só um possibilidade exploratória. Falar do profundo seria então sempre de caráter especulativo e sem valor de realidade. O antagonismo entre essência e aparência transmutado para profundidade versus superficie e a fusão “essência e aparência são uma coisa só” para “profundidade e superficie são uma coisa só” recupera para os “superficiais”, as serpentes que descansam nas profundezas, entocadas, mas fazem da superficie e do seu rastejar de caça, a parte mais vibrante e viva, a sua profundidade. Quando no mar, eu, discípulo mais de Eolo do que de Netuno, sempre pensava que a superficie do mar era para a minha fruição enquanto Netuno, nas profundezas, esperava para o acerto final. Vi então na metáfora do bosque de Gasset uma elaboração mais ampla da “minha teoria da superfície e da profundidade”. A questão da possibilidade e da escolha dos trajetos gerando a circunstância comandanda pelo “eu” e ao mesmo tempo pelo eu ampliado em “eu e a minha circunstância” indo tudo em direção à salvação aguçaram meu interesse. A questão da salvação parece ser um cerne para o amor à filosofia pois quem não almeja a salvação? Pensa-se e se estuda filosofia para salvar-se, concordando com Gasset.

O bosque

Com quantas árvores se faz uma selva? Com quantas casas, uma cidade? Cantava o lábrego de Poitiers

La hauteur des maisons
empeche de voir la ville,

e o adágio germânico afirma que as árvores não deixam ver o bosque. Selva e cidade são duas coisas essencialmente profundas, e a profundidade está condenada de maneira fatal a converter-se em superfície se se quer manifestar.

Tenho agora ao meu redor cerca de duas dúzias de carválhos circunspectos e de freixos gentis. É isto um bosque? Certamente não. Estas são as árvores que vejo do bosque. O bosque verdadeiro se compõe das árvores que não vejo. O bosque é uma natureza invisível — por isso em todos os idiomas conserva seu nome um halo de mistério.

Posso levantar-me agora e tomar uma dessas vagas veredas por onde vejo cruzarem melros. As árvores que antes eu via serão substituídas por outras análogas. O bosque, ir-se-á decompondo, desgarrando-se numa série de trechos sucessivamente visíveis. Mas nunca o encontrarei aqui onde estou. O bosque foge dos olhos.

Ao chegarmos a uma dessas breves clareiras em meio a verdura, parece-nos que havia ali um homem sentado sobre uma pedra, os cotovelos nos joelhos, as mãos no rosto, e que, precisamente quando chegávamos, levantou-se e foi-se embora. Suspeitamos que este homem, dando pequena volta, foi colocar-se na mesma posição longe de nós. Se cedemos ao desejo de surpreendê-lo — subjugados por esse poder de atração que exerce o centro do bosque sobre quem o penetra —, a cena se repetirá indefinidamente.

O bosque está sempre um pouco mais além de onde nós estamos. De onde chegamos acaba de sair, restando somente suas pegadas ainda frescas. Os antigos, que projetavam em formas corpóreas e vivas as silhuetas de suas emoções, povoaram as selvas de ninfas fugitivas. Nada mais exato e expressivo. Conforme caminhais, volvei rapidamente o olhar para uma clareira na espessura e vereis um tremor no ar, como para preencher o oco que deixou, ao fugir, um ligeiro corpo nu.

De qualquer um de seus pontos o bosque é, a rigor, uma possibilidade. É uma vereda por onde nos poderíamos internar; é um manancial de onde nos chega um débil rumor nos braços do silêncio, e que poderíamos descobrir a poucos passos; são versículos de cantos que soltam, ao longe, pássaros em ramagens sob as quais poderíamos repousar. O bosque é uma soma de possíveis atos nossos, que, realizados, perderiam seu valor genuíno. O que do bosque se coloca perante nós de maneira imediata é só pretexto para que o demais fique oculto e distante.

Ortega Y Gasset in Meditações do Quixote

Rock Poesia e o furacão La Montone

Fui ontem ao Teatro Municipal Café Pequeno pela primeira vez. Vi o show da banda Rock Poesia. O show mistura rock e poesia como diz o nome. As letras das músicas de autoria do grupo (ou da La Montone) privilegiam o cunho poético.

Mônica Montone, a cantora da banda, dionisíaca furiosa, se esbalda no palco colocando a culpa de sua exuberância no seu alter ego ou heterônimo Princesa Franciny, seu lado fashion e uma exímia chutadora de postes. Mesmo o pé quebrado pela sua entidade incorporada num momento de fúria não consegue impedir seu rodopio de tornado. Transpirando sensualidade com seus olhos de gata no mormaço (olhos de Capitu ou da Monroe) e bocas trejeitosas fixa o olhar da platéia que num esforço consciente emerge de um mundo onírico para também ver o entorno.

Um garotinho, que quer ser músico como o pai, um guitarrista da banda, é um espetáculo singelo à parte com sua guitarra de brinquedo.

Da notícia do show tomei conhecimento no palco do evento de poesia do SESI através do apresentador, Claufe Rodrigues, que também toca na banda.