Arquivo do mês: maio 2017

O desaparecimento da política

O vídeo acima chamou minha atenção para o conceito do desaparecimento da política, segundo Baudrillard. Stoppa coloca que há um novo intermediário se interpondo entre o povo e seus representantes numa democracia formal como a nossa.

“Demonstra” que a imprensa convencional, sem tocar na questão da imprensa alternativa que viceja na Internet, é o intermediário. Com isto argumenta que este intermediário tem interesse no desaparecimento da política.

Na verdade não. A imprensa vem sendo vista como um partido de fato mesmo sem ser de jure. Sendo parte da política, desta forma, não quer que a política desapareça. Quer uma política de partido único não proletário. É clara a dedução de Stoppa de que este partido, não sendo proletário, se dirige ao capital. Ela própria, imprensa, fazendo parte do capital desde que seus donos fizeram o pacto com o mefistófeles da economia capitalista quando se tornaram grandes empreendimentos capitalistas.

O quarto poder comungando com os outros três num missa negra de contornos macabros. E o capital como títere da troika que é de quatro, como os três mosqueteiros.

O imbroglio do desaparecimento da política é como o crime perfeito de Baudrillard, onde a realidade é que desaparece.

Talvez um Baudrillard quase utópico fale no texto abaixo. Não apontando uma solução, que isso não era com ele. Mas propondo uma experimentação.

Houve, talvez, um momento em que foi possível estabelecer na mídia relações dialéticas entre o médium e a mensagem. Acabou. Impôs-se uma hegemonia que não é nem sequer política, pois o político também acaba por ser “curto-circuitado” pela mídia. Entrou na órbita da mídia. Quem aceita a lógica orbital, torna-se satélite. Claro. Aqueles que se recusam a desempenhar o papel de recondutores de informação, são excluídos ou, por conta própria, retiram-se do jogo. De certa maneira, é bom que a mídia exista e absorva tudo, pois isso, ao menos, cria uma situação radical na medida em que nada escapa ao controle e, se por acaso, alguém consegue inventar algo exterior a isso, então podemos ter certeza de que se trata de algo substancial.

Assim, defendo a experimentação radical, não do combate à mídia ou da tentativa de reduzir a sua influência ou de encontrar o seu bom uso, mas capaz de conduzi-la ao extremo, ao limite, permitindo-nos então vislumbrar um além, uma ultrapassagem desse ponto crítico. Caso seja possível…

Baudrillard

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SOBRE MACROS, CETOSE, EXERCÍCIOS E NECESSIDADE DE CARBOIDRATOS

Hoje o guest post é do coach Rafael Araújo!

macroAntes de tudo gostaria de dizer que o que será apresentado abaixo é fruto de meses de estudo, análise, bom senso e a intrépida busca pela informação real, verdadeira, sensata, que esclarece e realmente agrega valores. Uma busca que me atormentava, e nela muitas foram as referências – principalmente “The Anabolic Diet” do Dr. Di Pasquale, muitos textos do site do Dr. José Carlos Souto, o livro “Paleo for Lifters” do Justin Lascek dentre outros.

Para qualquer análise, sobre qualquer individuo, gosto de imaginar que cada pessoa está em uma esfera diferente. Cada pessoa tem uma necessidade diferente e uma relação diferente com a comida. Cada pessoa está em uma ETAPA diferente, principalmente. Em primeira instancia qualquer um que inicie uma mudança nos hábitos alimentares, normalmente terá bons resultados. Se ela iniciou uma mudança baseada em comida de verdade, possivelmente é porque as coisas não estavam legais. Logo, para uma pessoa obesa, sedentária, até mesmo medidas erradas, acabarão culminando em resultados positivos. Entretanto essa realidade não persistirá por muito tempo: em algum momento haverá estagnação ou dificuldades para chegar a um novo objetivo.

Para a maioria de nós, o melhor resultado de uma vida LCHF baseada em comida de verdade ou Paleo, foi ter se livrado da comida industrializada e principalmente das amarras do açúcar. Somente isso já valeria todo o esforço. Então, primeira parte resolvida: passamos a comer melhor, ganhamos disposição, nosso perfil lipídico possivelmente melhorou, nossos níveis glicêmicos também, nossa gordura corporal baixou. Uau, quanta coisa conquistada até aqui não é mesmo? Agora, após tantas mudanças é normal que algumas pessoas criem novas metas, passando a ver a comida com nova perspectiva; que comecem a se interessar pelo show e queiram saber o que acontece por trás das cortinas. Comer comida de verdade já é normal, então é hora de buscar alimentos ainda melhores, controlar porções, aprender sobre informações nutricionais e ir além.

O principal passo de entrada em uma nova vida, após a mudança alimentar, deve ser a saída do sedentarismo. Saindo deste estado, quase todos querem sempre a mesma coisa: Perder um pouco mais de gordura e ganhar mais músculos. Bem, são estratégias diferentes, métodos diferentes, mas de qualquer modo, o que irei apresentar abaixo será o básico que você precisa saber para qualquer um dos dois processos.

O primeiro passo é entender o que são macros e como entender essa informação sem complicar o que estava funcionando.

Então, o que são macros?

Eles são a base do seu corpo. Se você fosse um prédio, eles seriam a pedra, cimento e lajotas. Eles vêm antes do acabamento, ok? Então afirmaremos que eles são fundamentais para o organismo. Resumindo, dentre suas diversas funções, os carboidratos fornecem energia para as células executarem suas funções (que fique claro: COMER carboidratos não é essencial, já que o seu corpo consegue produzir os carboidratos de que necessita a partir dos outros nutrientes que você ingere); já as proteínas ajudam na construção dos tecidos, como pele e músculos, enzimas e hormônios; e a gordura que também é fonte de energia, também é responsável por transportar nutrientes, isolamento térmico e tem funções hormonais também. Sendo super resumido, é isso.

Esse macro nutrientes são muito importantes para o nosso funcionamento. Saber controlá-los, mesmo sem medir e pesar, possivelmente seja o caminho mais importante para uma boa saúde. Afinal, é o que você possivelmente vem fazendo desde que inciou uma dieta LCHF/Paleo. Sem perceber, reduziu os carboidratos, aumentou a proteína e a gordura.

Antes que pessoas digam que podemos viver sem carboidrato, bem… Podemos, mas não há necessidade. Há uma vida mais simples, confortável e alegre consumindo carboidratos. Lembrando que uma dieta de até 150g de carboidrato por dia é considerada uma dieta low-carb.

Para saber os valores nutricionais de um alimento, será preciso ler seu rótulo ou pesquisar alguma tabela confiável na internet. Além disso, há aplicativos que podem te ajudar. Para ser direto, usando a tabela TACO de alimentos, um OVO FRITO grande possui 240 calorias, sendo que seus macros são: 15g de proteína, 18g de gordura e 1g de carboidratos. Simples assim.

E o que são micro nutrientes?

Bem, aí então entram os minerais e vitaminas principalmente. Se o macros são a estrutura bruta de um prédio, os micros são o acabamento, fiação e encanamentos Eles são impossíveis de serem calculados por terem valores absurdamente pequenos, logo, o ideal a fazer é comer seu MACROS de fontes naturais, possuindo a maior carga de MICROS possível. Isso é o conceito de carga nutricional. Uma visão extremamente pregada pelo conceito Paleo.

Assim, carga nutricional é a quantidade de micro nutrientes por caloria. Pense, enquanto uma macarronada possui baixos nutrientes por caloria, um espinafre possui muitos nutrientes e calorias quase irrisórias. Logo, sua carga nutricional é altíssima. Quanto mais carregados de nutrientes forem nossos alimentos, mais potente será nossa alimentação.

Como disse, a intenção é ser rápido e prático, então, não irei extrapolar sobre tais assuntos. Então voltemos ao tema central: sua necessidade de macros.

Proteínas

Há muita discussão sobre a quantidade ideal do consumo de proteínas por dia. Bem, a intenção deste texto é ser simples e direto. De acordo pesquisas mais recentes, a quantidade de proteínas a ser ingerida por quem busca ganhar massa muscular deve ser de 1,2 a 2,2g/kg por dia, mas com a recomendação de manter 1,7 a 2,2g/kg. Ou seja, para a maioria das pessoas, comer entre 100 a 150g de proteína por dia será suficiente. Não é muito e não foge muito das recomendações convencionais. Logo, se você está na casa dos 80kg, isso quer dizer de 136 a 176g de proteína por dia. Se pesa 60kg, isso seria 102 a 132g. Apesar de estar bem acima do que muitas pessoas consomem, seria facilmente batido em uma dieta normocalórica com 15-30% das calorias vindas das proteínas.

Pense que as proteínas irão construir e reconstruir seus músculos, e que sem ela é praticamente impossível ganhar massa magra. Proteínas, mesmo em uma dieta low-carb, normalmente representará entre 30-40% da sua alimentação, dependendo das suas quantidades.

Gordura

Sua principal função é ajudar na saciedade, aumentar sua energia e principalmente, recuperar sua musculatura. Pense na gordura como o cimento que une os blocos (proteína) na construção da sua casa (seu corpo). Será preciso utilizar gordura sem medo, o que não é um problema para a maioria de nós aqui.

A quantidade de gordura irá variar (e muito) pois dependerá basicamente da quantidade carboidratos que você ingerirá. Uma dieta high-carb e high-fat causará obesidade, diabetes e piora do seu quadro lipídico. Afinal, não é essa a dieta que o mundo vem fazendo há décadas? Então, será preciso saber quanto de carboidratos você consumirá, para então, assumir qual será seu consumo de gordura.

Em uma dieta low carb a gordura normalmente representa entre 50-70% da sua ingestão calórica diária.

Carboidratos

Bem, aqui irei detalhar um pouco mais – afinal, é a parte mais complexa dos macros.

Vamos usar a seguinte analogia, você vai fazer uma obra na sua casa. Para isso precisa de uma quantidade X de material. Os cálculos são precisos e há certeza da quantidade. Porque você iria comprar mais ou menos material? Se faltar, a obra não será executada, se tiver a mais, será desperdício e ficará lá no quintal… uma bagunça desnecessária.

Carboidratos são parecidos. Eles devem ser consumidos apenas na quantidade que lhe permita executar suas atividades de modo confortável, sem perda de energia e com toda sua capacidade. Lembrem-se, não estamos falando de cetose, cetoadaptação ou dieta cetogênica, apenas de uma dieta low-carb convencional.

  • Uma dieta cetogênica aconselhará no máximo 0,5g de carboidrato por quilo corporal.
  • Uma dieta low-carb aconselhará no máximo 2g por quilo corporal.
  • Uma dieta convencional aconselha de 2-3 ou mais gramas por quilo corporal.
  • Atletas de resistência tendem a comer entre 6-8g e com alguns picos chegando a 10-16g por quilo corporal.

Uma coisa que é preciso salientar: Carboidratos são essenciais? Em resumo, não. Para entender por que carboidratos não são essenciais, eu preciso discutir o conceito de um nutriente essencial brevemente. Que, em resumo, é: um nutriente essencial é definido como aquele que não pode ser produzido pelo corpo.

Citando o Rapid Fat Loss Handbook:

O critério pelo qual o carboidrato não é um nutriente essencial seria porque o corpo é capaz de produzir tanta glicose quanto o cérebro e os poucos outros tecidos precisam diariamente, advinda de outras fontes. Devo mencionar que o corpo não é capaz de fornecer carboidratos suficientes para alimentar atividades de alta intensidade, como sprinting ou musculação, logo os carboidratos podem ser considerados essenciais para os indivíduos que querem fazer esse tipo de exercício.

Então, do ponto de vista da sobrevivência, a quantidade mínima de carboidratos que são necessários em uma dieta é zero gramas por dia. O corpo pode produzir o pouco que precisa de outras fontes.

Mas quais são essas outras fontes?

De onde vem a glicose feita pelo corpo?

Quando o consumo de carbos é restrito, o corpo sente falta da glicose e começa a procurar outra fonte de energia. O corpo abastece-se basicamente do metabolismo da glicose, do metabolismo da gordura ou consumindo aminoácidos. Caso você esteja em privação total, sem consumir nenhum alimento, por longo período, ele ira consumir os aminoácidos do seu corpo, ou seja, sua massa magra, principalmente. Após quebrar as primeiras partículas de aminoácidos, o cérebro mudará para o consumo de cetonas oriundas da gordura (o que diminuirá a necessidade de glicose, logo a quebra de massa magra reduz-se). Mas caso perceba que a fonte lipídica, ou seja, sua gordura, está muito baixa, ele irá consumir seus músculos. Mas lembrando que isso é uma quadro de privação total, e não de uma dieta rica em proteínas e gordura.

Estudos apontam que ao consumir abaixo de 15g de carboidrato dia, o seu corpo entende que está com fome, e por isso iniciará a degradação de aminoácidos, ou seja, comerá massa magra – se você não estiver se exercitando. Por isso, quando se inicia uma dieta cetogênica, é preciso abundância de gordura, para que o corpo entenda que tendo gordura, mesmo com baixa atividade física, não será preciso destruir músculos. Assim ela protegendo seus músculos. Nesta mesma linha, há evidências que nos fazem crer que o consumo de 50g de carboidratos são suficientes para que não haja inicio na degradação de massa magra, mesmo no sedentarismo. Essa quantidade é o suficiente para controlar a produção de cortisol e o suficiente para inibir a quebra proteica do corpo. Ou seja, comer entre 15-50g de carbo por dia será eficiente em manter sua massa magra intacta.

Falando um pouco sobre Cetose

Quando a ingestão de carboidratos é restrita, o corpo começará a usar ácidos graxos como fonte de energia e o fígado produzirá corpos cetônicos. As cetonas podem ser usadas como combustível: basicamente eles são uma fonte de energia alternativa à glicose quando esta não está disponível.

A maioria das dietas cetogênicas definem um nível de ingestão de carboidratos em cerca de 30 gramas por dia, mesmo não havendo uma palavra final sobre esse assunto. Estudos mostram que qualquer dieta com menos de 100g de carboidratos por dia fará com que a cetose se desenvolva até certo ponto (mais cetonas serão geradas quando os carboidratos forem baixados).

Voltando ao ponto, embora o requisito fisiológico para carboidratos na dieta seja zero, podemos estabelecer um mínimo prático (em termos de prevenção de perda excessiva de proteína do corpo) em 50 gramas por dia. Lembrando que nem todos funcionam bem em cetose. Alguns ficam com o raciocínio nublado, letárgicos, sentindo-se mal na maioria dos casos. Mesmo com semanas em uma dieta cetogênica, eles nunca parecem se adaptar completamente. O que não é uma boa receita para a adesão a uma dieta no longo prazo.

A observação faz crer que isso está relacionado ao quanto um individuo é sensível à insulina. Indivíduos com boa sensibilidade à insulina, ou seja, lidam bem com o carboidrato, tendem a não se sentir bem em dietas de baixo teor de carboidratos. Em contraste, indivíduos com resistência à insulina tendem a se sentir bem com quantidades menores de carboidratos. Finalmente, algumas pessoas parecem ter a flexibilidade metabólica para se sentir bem com qualquer dieta. Novamente, o principio da individualidade deve ser levado em conta.

Em geral, assumindo que estamos falando de pessoas com zero ou níveis muito baixos de atividade, uma ingestão de 100-120 gramas de carboidratos por dia irá impedir o desenvolvimento da cetose. Assim, para as pessoas que querem (ou precisam) evitar a cetose, 100-120 gramas por dia pode ser tomado como um limite prático. Novamente, isso não serve para pessoas praticantes atividade de alta intensidade, uma vez que esta consumirá quase toda a glicose disponível.

Por fim, temos duas pontas: de um lado pessoas que consomem até 50 gramas de carboidratos por dia e sentem-se bem (com possíveis níveis de cetose) e do outro, pessoas que consomem até 100-120 gramas de carboidratos por dia (pessoas que não querem sintomas de cetose).

Lembrando que não estou sendo categórico, apenas dando uma noção sobre um valor mínimo prático. Para finalizar, antes de falar de exercícios, gostaria de lembrar que os valores acima não sofrem mudanças significativas devido o tamanho do corpo. A maior parte do que é observado leva em consideração o bom funcionamento do cérebro, sendo que ele não muda massivamente com base no tamanho do corpo.

O Impacto do Exercício

Até este momento no texto, os números apresentados, não levaram em conta o volume e intensidade de atividades físicas. Logo, o tipo, quantidade e intensidade da atividade afetarão os requisitos de carboidratos.

O trabalho aeróbico/cardiovascular típico de baixa intensidade geralmente não usará muito carboidrato. Logo, uma caminhada 3-5 vezes por semana não demanda qualquer aumento acima do mínimo (ou seja, 50g). O indivíduo pode querer aumentar o carboidrato (por várias razões), mas estritamente falando, ele provavelmente não precisa.

Os requisitos de carboidratos para musculação realmente não são tão grandes. Grupos defensores da dieta cetogênca apontam que você precisará de aproximadamente 60 gramas de carboidratos para repor o glicogênio usado ao longo de uma sessão pesada de musculação. Então, tomando como base o mínimo de 50 gramas por dia e adicionando os 60 da prática da musculação, será preciso de um total de 110 gramas/dia para cobrir a demanda. Caso seja uma pessoas que não lida bem com a cetose, vamos pensar em 160-180g/dia. Logo, para um homem de peso médio que erga uma boa quantidade de peso, seria sensato calcular com 2g/k de carboidratos por dia.  Isso dependerá muito de corpo para corpo. Eu sou um homem de 1,79 de altura e 95kg com percentual de gordura na faixa do 15%, com traços endomórfícos e me sinto melhor consumindo entre 60-70g de carboidratos diariamente.

Já para um exercício cardiovascular de maior intensidade é um pouco mais difícil identificar os requisitos de carboidratos e pode variar consideravelmente dependendo das intensidades e volumes. Um corredor de velocidade executando repetições 60m não estará usando muito glicogênio, já um atleta de resistência trabalhando em alta intensidade possivelmente o depletará completamente em 1-2 horas. Mesmo em intensidades mais baixas, as sessões de 2-6 horas realizadas por atletas de resistência podem esgotar completamente as reservas de glicogênio muscular e hepático diariamente. Para esses, será preciso de 300-400g de carboidratos ou mais.  Alguns atletas do mais alto nível de preparo e aptidão consumirão até mesmo 5g por quilo.

Devo notar que as seções acima assumem que a manutenção do glicogênio muscular é a meta. Ou seja, busca-se o máximo de desempenho e recuperação. Em alguns casos, (geralmente a busca pela redução da gordura corporal), acabar com glicogênio, ou mantê-lo num nível mais baixo, é a meta. Logo, alguém que queira manter o glicogênio muscular em níveis mais baixos, os valores acima seriam muito altos, uma vez que eles são voltados para a plena reposição de glicogênio após exercício pesado.

Existe ainda outra possibilidade: quando um praticante de exercícios quer aumentar os níveis de glicogênio muscular muito acima do normal. Isso exigirá maior ingestão de carboidratos do que os valores acima.

Há então um limite para consumo de carboidratos?

Logicamente, o limite seria ingerir 100% da sua necessidade calórica exclusivamente de carboidratos. Mas isso não deixaria espaço para qualquer proteína ou gordura. Existem situações onde visa-se super-compensar seus níveis de glicogênio muscular; que nada mais é do que carregar o corpo com mais glicogênio do que ele é capaz de manter normalmente. Isso muitas vezes é feito por atletas de resistência que procuram melhorar o desempenho fazendo ciclos de alto e baixo carboidrato, visando compensar o glicogênio para fins anabolizantes (construção muscular). Como exemplos podemos citar a dieta cetogênica cíclica ou dieta anabólica do Dr. Di Pasquale.

De um modo geral, gerar níveis máximos de glicogênio requer primeiro esgotar o músculo esquelético com a combinação de treinamento pesado e uma dieta baixa em carboidratos. Dadas essas condições, a ingestão de carboidratos girando em torno de até  12-16 gramas de carboidrato por quilo de massa corporal magra pode ser tolerada durante um período de 24 horas. Isto provavelmente representa um máximo prático para a ingestão de carboidratos, mas só seria viável nesta situação muito específica.

Concluindo

Como dito no início, sua dieta deverá ser montada com base em seu objetivo: ganho de massa magra envolverá quantidade suficientes de proteína, carbos elevados e menos gordura. Uma dieta para perda moderada de gordura, envolverá proteína suficientes, carbos reduzidos e gordura elevada. Perda de peso acelerada envolverá proteínas suficientes, carboidratos restritos e muita gordura.

Ou seja, o importante é manter-se de olho no consumo primário de proteínas, depois controlar os outros dois macros com base no objetivo.

Então, a necessidade de carboidratos é algo bastante especifico. Um homem com 80kg típico tem uma ingestão diária de carboidratos variando da necessidade fisiológica (que é zero) até 1120 gramas por dia no caso de extrema atividade. Assim, não me admira que as pessoas estejam confusas…

A simples pergunta, “de quanto carboidrato você precisa?” não tem uma resposta simples e direta. Os objetivos pessoais, a quantidade e o tipo de atividade, suas necessidades individuais (por exemplo, sensível à insulina ou resistente; se funciona bem ou não em cetose), seus objetivos individuais e outros, determinam quantos carboidratos são ideais na sua dieta.

Para isso, além de procurar um profissional, ouça seu corpo. Nenhum dos profissionais poderá te ajudar se você não procurar ouvir seu corpo quando ele lhe manda os devidos sinais.

rafaelRafael Araújo é lifter, praticante de jiujitsu e muay-thai, estudioso do mundo low-carb e criador do Método MCM. O caso de sucesso dele foi contado aqui no Paleodiário um tempo atrás.

Paleo Diário

Diretas Já 28/05/2017

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Querem escolher o “povo” que vai votar na indiretas. Mas em Copacabana a opinião de 150 mil é divergente. Preferem as diretas.

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Os truques dos jornais na cobertura das Diretas Já em Copacabana

Escrito por , Postado em Luis Edmundo Araujo

Foto: Mídia Ninja

Com a exceção do vetusto, encarquilhado e, cá entre nós, já meio  esclerosado Estado de São Paulo, os outros dois maiores jornais do País registraram, sim, a noite histórica de ontem na Praia de Copacabana. Mas do jeito deles, lógico.

O Globo deu na capa a foto fechada de Caetano Veloso e Milton Nascimento, no palco, sem povo nem menção às Diretas Já no título em que, simplesmente, “MPB pede renúncia”. O título, aliás, saiu bem pequeno na primeira página, ao lado da foto dos dois artistas e embaixo do que realmente interessa para o jornal, exposto na manchete: “Crise faz governo traçar plano B para reforma”.

A Folha de São Paulo, ao contrário do concorrente carioca, deu a foto de Copacabana no alto de sua capa. Curiosamente, no entanto, a Folha não optou por nenhuma imagem como a que ilustra esse texto, do auge manifestação.

Um mar de gente calculado em mais de 100 mil pessoas se reuniu no fim da tarde, início da noite, para o show de Caetano, Milton e cia. A Folha, porém, escolheu uma foto tirada bem mais cedo na Praia, por Pablo Jacob (Globo), quando havia ainda espaços vazios à frente do palco e a concentração de bandeiras e balões vermelhos da CUT.

Em sua única página interna sobre o ato, o Globo estampou foto da mesma sequência do mesmo fotógrafo, só que mais fechada, com a informação na legenda de que “parte do público disputou selfies com artistas”.

E assim, unida à gélida cobertura que o ato histórico de ontem em Copacabana recebeu das emissoras de tevê, a grande mídia segue enganando os de sempre e sendo destrinchada, e rejeitada, por cada vez mais gente.

O Cafezinho

Cine Vitória recebe 13ª edição do Festival de Cinema Europeu em Aracaju

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Imagine viajar pela Europa por uma semana. Pense na diversidade histórica e cultural, a beleza da música e da arte, as delícias da culinária e as ricas reflexões sobre filosofia, política e economia. O Cine Vitória irá lhe proporcionar esse passeio durante a 13ª edição do Festival de Cinema Europeu que ocorrerá de 29 a 31 de junho. O Cine Vitória está situado na Rua do Turista, localizada na Rua Laranjeiras, 307, no Centro de Aracaju. A entrada é totalmente gratuita.

G1

Programação

  • 29/05 – Segunda
    • 14h – Nossa Estrangeira. Dir. Sarah Bouyain. Drama. França, Burkina Faso. 2010. 82. Livre
    • 16h – Amália – O Filme. Dir, Carlos Coelho da Silva. Drama / Biografia. Portugal. 2008. 127min. 12 anos
    • 18h – Belleville Baby. Dir. Mia Engberg. Drama. Suécia. 2013.75min. 15 anos
  • 30/05 – Terça
  • 31/05 – Quarta
    • 14h – A Excêntrica Família de Antônia. Dir. Marleen Gorris. Comédia dramática. Países Baixos.1995. 102min. Livre
    • 16h – Pânico. Dir. Barbara Zemljic. Drama/comédia. Eslovênia.2013. 103min. 15 anos
    • 18h – O Caminho de Halima. Dir. Arsen Anton Ostojic. Ficção/Drama. Croácia. 2012. 93 minutos. Livre

Jean Baudrillard: o elogio radical da parte maldita

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 PENSADOR DO RADICAL e dos fenômenos extremos, Jean Baudrillard, 69, considera-se um “paroxista indiferente”. Postura reduzida por muitos dos seus detratores a uma espécie de niilismo, de imobilismo ou mesmo de impostura. Praticante convicto da ironia e do paradoxo, Baudrillard desconcerta, pois enxerga o conformismo onde outros imaginam germinar a revolução. Para ele, quando a crítica se transforma em moralismo, somente a derrisão fatal pode gerar rebelião. Admirador de Antonin Artaud, de Holderlin, de Georges Bataille e do anarquista alemão Max Stirner, Baudrillard não faz concessões: só a “parte maldita”, o que nega o “Sistema”, interessa-lhe.

Inconformista radical e analista do hiper-realismo cotidiano, o sociólogo sofisticado tem visto a sua reflexão ser simplificada. Alguns, impregnados pelos modismos das novas tecnologias da comunicação, chegam a vê-lo como um teórico do virtual. Nada mais absurdo. O francês Jean Baudrillard é antes de tudo um derradeiro e maldito discípulo de Nietzsche, dos surrealistas, dos dadaístas e de todos os artistas e intelectuais que tentaram subverter a ordem do mundo através das palavras. Transfigurar pelo olhar que capta o real em permanente desaparição resume o percurso desse “marginal célebre” e enigmático.

Autor de grandes ensaios como A Sociedade de consumo e A Transparência do mal — ensaios sobre os fenômenos extremos, Jean Baudrillard nunca parou de mudar para melhor destruir as ilusões do paraíso. Em seu último livro publicado no Brasil, Tela total (Sulina, 1997), desarticula as fantasias da era do virtual e da imagem. Nesta entrevista exclusiva, Baudrillard mostra a sua alma. O leitor descobrirá um homem determinado a não se desviar da busca de autenticidade. Nada lhe horroriza mais do que a conversão da vida, sob qualquer dos seus aspectos, em mercadoria. A partir da análise do fenômeno da mídia, descortina-se uma visão de mundo marcada pela filosofia, pela literatura e, finalmente, pela fotografia. A linguagem ergue-se, imponente, com a última fronteira do irredutível, barreira do mistério contra a vertigem da troca. Em Baudrillard, o observador atento encontrará rastros de Rimbaud e de Mallarmé. Mas nenhuma ilusão, nenhuma receita, nenhuma utopia. Para ele, a política e o social fazem parte de uma esperança enterrada.

Impiedoso, Baudrillard é mais crítico do que os críticos e, encarnando o papel do intelectual anti-Bourdieu por excelência, denuncia a falácia dos projetos que, na tentativa de condenar o capitalismo, acabam por servi-lo, corrigindo-o, remendando-o, tornando-o mais eficaz. Baudrillard deplora os pensadores e a mídia, dita de esquerda, que publica e vende alta doses de marxismo-leninismo e de trotskismo tardios em benefício do capitalismo avançado: a vontade de uma categoria de consumidores. O intelectual radical não pode se contentar com a sedução das reformas ou com o retorno dos discursos utópicos consoladores. Buadrillard revela a impostura dos que denunciam as supostas imposturas da reflexão por analogia. Imperdível.

Revista FAMECOS: O Senhor é um impostor como querem Sokal e Bricmont?

Jean Baudrillard: Sou, pois faço teoria-ficção. Sem qualquer pretensão à Verdade. Mas eles são ainda mais impostores do que eu, dado que enunciam uma pretensão à verdade jamais realizada. Se sou impostor, eles são os únicos e verdadeiros impostores. O resto é simulação.

RF: A mídia internacional, fazendo eco ao “caso Sokal”, denuncia certas imposturas do pensamento francês pós-68. Sociólogos como Pierre Bourdieu, por sua vez, atacam a deriva comercial da mídia. Os críticos de Bourdieu, bem instalados na imprensa, condenam-no por demagogia, populismo e ultra-esquerdismo tardio. Quem tem razão? Pode-se falar do pensamento francês como um bloco?

Baudrillard: O “caso Sokal” é o resultado de um amálgama redutor. A própria idéia do livro, que poupa Bourdieu, baseado na denúncia de impostura em função do abuso de metáforas, era redutora. Não existe “o” pensamento francês. Nisso consiste o contra-senso de partida. Ou existe apenas como produto de exportação, como o perfume Chanel ou Coca-Cola. Nesse sentido, é um produto universal, que se tornou mundial apoiado no seu desaparecimento no lugar de origem. Para que um produto se torne mundial, precisa perder a sua especificidade. Não há mais pensamento específico francês, mas apenas indivíduos que desenvolvem suas idéias. Isso não significa ausência de acontecimentos. Não há, contudo, movimento representativo de idéias. Se serve de modelo, não passa de um mecanismo publicitário.

Sei que a produção intelectual francesa pode ser admirada ou detestada. No mundo anglo-saxão, as minhas idéias são, muitas vezes, consideradas ridículas, irresponsáveis e absurdas. Tidas por imposturas. Acho que os anglo-saxãos são sinceros quanto a isso. Dizem o que de fato pensam. Deixo falar. Nunca respondi. Em Nova York, questionado por alguns dos meus críticos sobre isso, defendi o bom uso da impostura. Pronto: sou um impostor, disse-lhes. Mas vocês também o são. De resto, vocês são os verdadeiros impostores, pois são sem o saber. Estou consciente de operar a partir da sedução, passível de ser considerada como impostura, e produzo teoria-ficção. Não engano ninguém, pois não apresento nada do que faço como um discurso de verdade. Vocês, ao contrário de mim, tentam impor um discurso de verdade e de objetividade, o qual, evidentemente, acaba por nunca ser confirmado. Claro, eles podem entender esse argumento como mais uma impostura.

O “caso Sokal” é interessante como sintoma de uma época em que muitos estão dispostos a tudo fazer para reconstituir e reabilitar um pensamento tranqüilizador, identitário e capaz de fornecer, a qualquer custo, provas, as quais, na maior das vezes, são simplesmente falaciosas. Busca-se um pensamento que possa ter “a” verdade como lastro. Para mim, o pensamento não pode ser caucionado nem pela Verdade nem pela Realidade. Enfim, não evoluímos no mesmo registro. Sokal e os seus representam a empreitada integrista de uma certa ciência contra os hereges. Pensar a mídia do ponto de vista de um manual de utilização não lhe interessa. Isso significa que a maioria das perguntas postas pelos sociólogos sobre o assunto são falsas questões.

RF: Existe ainda alguma interrogação legítima e inovadora sobre o funcionamento dos meios de comunicação?

Baudrillard: Deixadas de lado as soluções fáceis interessadas em estabelecer o bom uso da mídia, as quais critiquei já faz tempo, com Enzensberger, vejo, um pouco como no caso do virtual, um território extremamente profissionalizado e que adquiriu uma espécie de transcendência em relação à sociedade que pretende informar ou representar. Trata-se de um tipo de campo que se desenvolveu por si mesmo. Podemos encará-lo como uma patologia, mas ele é, antes de tudo, uma excrescência, um fenômeno total, conforme a expressão de Marcel Mauss, e sobre o qual não existe mais possibilidade de intervir enquanto sujeito. Só podemos entrar nesse terreno na condição de objetos. Quem for capaz de produzir acontecimentos dentro dessa lógica, faz parte do jogo. Não há alternativa de interação. É impossível participar como sujeito tendo algo a dizer que não esteja inscrito na dinâmica do objeto aceito.

Houve, talvez, um momento em que foi possível estabelecer na mídia relações dialéticas entre o médium e a mensagem. Acabou. Impôs-se uma hegemonia que não é nem sequer política, pois o político também acaba por ser “curto-circuitado” pela mídia. Entrou na órbita da mídia. Quem aceita a lógica orbital, torna-se satélite. Claro. Aqueles que se recusam a desempenhar o papel de recondutores de informação, são excluídos ou, por conta própria, retiram-se do jogo. De certa maneira, é bom que a mídia exista e absorva tudo, pois isso, ao menos, cria uma situação radical na medida em que nada escapa ao controle e, se por acaso, alguém consegue inventar algo exterior a isso, então podemos ter certeza de que se trata de algo substancial.

Assim, defendo a experimentação radical, não do combate à mídia ou da tentativa de reduzir a sua influência ou de encontrar o seu bom uso, mas capaz de conduzi-la ao extremo, ao limite, permitindo-nos então vislumbrar um além, uma ultrapassagem desse ponto crítico. Caso seja possível…

RF: Em se tratando da mídia, a esquerda sempre sonhou com a transparência. Reina a obscenidade. A direita, por sua vez, apostou nela como fator de moralização. Impera a crise de valores. Alimentou-se a utopia da interatividade. Vive-se a hegemonia dos reality shows e da democracia de opinião. Seria a mídia regida por uma lei de reversão: a inversão inexorável do sonho em pesadelo?

Baudrillard: Trata-se de pesadelo na medida em que todos os sonhos são realizados. Ou, dito de outra maneira, tudo o que pode depender da imaginação acaba absorvido pela imagem. Estamos de fato no domínio do visual, sendo que não há mais qualquer possibilidade de autonomia para a imaginação e a imagem. Nem vale a pena qualquer referência à palavra. Atingimos o grau zero da palavra. É um pesadelo. Voltamos à questão inicial: vivemos a realização de todos os fantasmas. O problema é que não podemos mais desenvolver anticorpos contra isso. A mídia funciona como uma situação extrema de membros transformados em fantasmas. Somos amputados de nosso próprio corpo e de nossas idéias. Em contrapartida, somos sensibilizados para o vazio, para adotar a prótese de nossas próprias convicções. Resta-nos uma sensação de deficiência coletiva.

RF: Na sua opinião, portanto, não há, paradoxalmente, comunicação no modo de funcionamento da mídia?

Baudrillard: Sim, há comunicação. Penso, entretanto, que a comunicação é um sistema de clonagem. Não está em jogo a alteridade, mas a repetição. Comunicação poderia significar que as pessoas trocam algo. Na mídia, não há troca possível. Através de todas as telas, ao contrário, funciona um sistema de duplicação do mesmo ao infinito. Assim, na mídia, só há comunicação enquanto clonagem do imutável. Passa-se do mesmo ao mesmo, nunca de um a outro. A história é sempre a mesma. Tudo comunica: os sexos comunicam-se entre eles, os sistemas de códigos comunicam-se com outros sistemas de código. Com uma língua universal se chega à solução mais fácil em relação à alteridade: a solução final. Exterminação da diferença. Tudo se esgota na comunicação. O problema não é a falta de comunicação, mas o excesso.

RF: O Senhor considera-se como um “paroxista indiferente”. Sem, portanto, a obrigação de tomar partido, de sonhar com algo ou de estabelecer um plano de ação, mas somente do ponto de vista prospectivo, o que se pode esperar da evolução da mídia?

Baudrillard: Qual será a evolução da mídia? É limitada. Como o resto, está destinada a ser engolida por seu próprio funcionamento, a desaparecer no tempo real. A mídia acabará por tornar-se imediata, ou seja, de tal modo absorvida pela vida corrente que não haverá mais fronteira entre eles. Antes, existia um domínio privado, restritivo. Hoje, mesmo quando alguém anda na rua, o celular funciona. As pessoas não se desconectam mais. Passam 24 horas por dia ligadas, mediatizadas apesar delas mesmas. Se isso significa evolução, implica então o desaparecimento da mídia como a conhecemos. O multimídia, a exemplo da multicultura, representa a desaparição da mídia específica, assim como das culturas singulares, não em função de um universal, mas de uma ordem mundial, global, uma rede universal de coisas contra a qual não haverá a alternativa de outro espaço simbólico.

Espero, contudo, que muita coisa resistirá a isso. Mesmo parte da mídia começa a questionar-se, numa espécie de arrependimento, sobre as justificativas usadas até agora. O problema é que essa reflexão sempre aparece em termos morais, políticos ou econômicos. Analisa-se a mídia a partir de outras disciplinas. Da mesma forma, tenta-se estabelecer uma política do virtual, assim como uma política, uma moral ou uma deontologia da mídia. Ora, por definição, a mídia representa a eliminação do político, tornado virtual. Logo, não se alcançará um julgamento objetivo em relação à mídia, pois o seu funcionamento circular tudo neutraliza.

Existe um futuro para a mídia? Não. O futuro da mídia consiste em tornar o presente cada vez mais presente, o tempo cada vez mais real e, portanto, de eliminar a própria questão do devir. A mídia anula todas as questões anteriores a ela, sobre a liberdade, sobre a identidade, etc. Ela desembocará num funcionamento imanente, transversalidade total, o que é, sem dúvida, um destino bastante negativo. Com a possibilidade de transcodificação de tudo, do político, do econômico, do cultural, cada elemento perde a sua singularidade. E os indivíduos também.

RF: Esse destino negativo é irreversível?

Baudrillard: Ninguém pode ser profeta quanto a isso. A lógica do sistema, com certeza, é irreversível, enquanto mecanismo. Não vejo saída fora da catástrofe do próprio sistema. Mas, não podemos esquecer, que muitas coisas resistem, permanecem irredutíveis. Por exemplo, a linguagem. Até quando? Talvez um dia se chegue a uma transfusão de todas as línguas numa linguagem digital e virtual. Em todo caso, as línguas naturais continuam irredutíveis, o que é extraordinário.

RF: A literatura, terreno por excelência da linguagem, é um campo irredutível em relação à mídia, ou o modelo literário jornalístico, baseado no marketing, vai impor a sua uniformização?

Baudrillard: É verdade que agora muitas coisas são criadas a partir da própria interface da mídia, do computador, do instrumento. Como saber? A fotografia, domínio que conheço melhor, é um médium, pois técnico. Pode-se imaginar que a fotografia nada mais é do que a operação da própria máquina. O fotógrafo se limitaria a utilizar o programa ilimitado contido em qualquer aparelho técnico. Em síntese, a escrita automática da fotografia. As possibilidades técnicas do aparelho sendo infinitas, a própria fotografia seria uma operação sem fim e, portanto, como qualquer outra. Até certo ponto, é verdade. A maioria das coisas fotografadas resulta da objetiva, sendo o objeto fotografado um mero operador. Acredito, entretanto, na possibilidade de escapar a esse fluxo de imagens gerado pelo aparelho e de obter algumas imagens excepcionais, irruptivas e fora da ordem técnica. Trata-se do salto que inverte o potencial infinito da técnica, superando essa ameaça e captando uma singularidade extraordinária.

Acho que a fotografia permite isso ou então eu não fotografaria. O mesmo vale para escrever. Mas constato a existência de uma vertigem geral no sentido de cada um se comportar como mero operador do potencial técnico disponível. Grande parte da literatura atual, por exemplo, dá a impressão de ter sido produzida por computador. O resultado é uma gama de produtos que parecem literatura, mas não o são. É possível “zaper” de um texto produzido assim a uma infinidade de variações com o mesmo o ar, o mesmo jeito, o mesmo gosto, a mesma aparência de ser sem o ser de fato. Bloqueia-se a singularidade.

RF: Pode-se ainda criticar a mídia sem repetir clichês, despencar para o moralismo e arrombar portas abertas?

Baudrillard: Bourdieu não trouxe nenhuma novidade para o terreno da discussão sobre a mídia e, além disso, tem operado, ultimamente, uma regressão teórica inacreditável. A crítica, por definição, ao ser de fato uma crítica crítica, sempre é uma proposição de objetividade, um enunciado que pressupõe um ponto de vista mais esclarecido do que o senso comum. Nesse sentido, Bourdieu está no campo da crítica: política, ideológica, etc. Hoje, porém, em termos de pensamento crítico, não há só Bourdieu. Prefiro tentar enfrentar o problema pelo avesso, no contrapé das abordagens críticas, em busca de uma alternativa radical à mídia, com base numa perspectiva paradoxal e irônica. Não se trata de combater a mídia em seu próprio campo, pois esse tipo de racionalização sempre fracassa. Acho que só resta levar, através do pensamento radical, o objeto ao extremo, de acordo com uma espécie de estratégia do pior.

Os mídia devoram-se entre si. Basta deixá-los agir. É uma loucura ver como a televisão depreda os seus próprios fundamentos, mesmo a imagem, deixando pelo caminho apenas o vazio. Não sei onde isso desembocará, mas intuo que a geração do vazio não contribui para a salvação da mídia. Assim, só creio numa política patafísica, que não se oponha termo a termo à mídia, mas invista na radicalização do absurdo que a caracteriza.

RF: A abordagem de Bourdieu, portanto, não peca por demagogia ou populismo, mas por ingenuidade, justamente por ser “crítica”?

Baudrillard: Sim, ela corresponde demasiadamente à lógica do seu objeto. Bourdieu acaba por desempenhar um papel homeopático em relação à mídia, comportando-se como o elemento negativo que ajuda a corrigir um sistema auto-suficiente. Ao colocar-se do ponto de vista do trabalho negativo clássico, próprio ao tempo em que existiam oposições de classe cristalizadas e um sujeito universal da história, Bourdieu torna-se completamente retrógrado e atinge o contrário do seu objetivo: serve à regeneração do sistema que combate. As coisas, na atualidade, funcionam de outra maneira e todo mundo é mais ou menos cúmplice da circularidade em que vivemos.

Essa análise é fácil de fazer. Basta ver o problema dos magistrados que inculpam os políticos envolvidos com corrupção. O que resulta disso? Imagina-se que desempenham um papel crítico e radical. Nada disso. Estão apenas absolvendo, “lavando”, regenerando a classe política através da acusação de uma parte dela. Com isso, estão estruturando uma suposta classe política, por exclusão, legítima, legal e capaz de continuar a exercer a sua dominação como antes, mas em melhores condições, pois expurgada. Trata-se de um processo de purificação para que o sistema de dominação possa continuar a funcionar baseado num modo mais esclarecido. Não existe real antagonismo entre o judiciário e os políticos. É idiota acreditar nisso. A crítica serve para isso.

RF: Assim, Bourdieu “lava” e regenera a mídia?

Baudrillard: Sim, ele serve à mídia, permitindo que esta expurgue uma parte do seu abcesso, ajuste o seu funcionamento e torne-se mais eficiente quanto aos seus próprios objetivos. Essa racionalização não ultrapassa o nível ideológico da mídia e não consegue atingir o seu fundamento enquanto meio, capaz de engolir tudo o mais. Por isso, Bourdieu, o crítico da mídia, acaba por ser recuperado e mesmo reverenciado pelos meios de comunicação. A mídia tem um estômago muito maior do que imagina Bourdieu com a sua pequena operação de negativo. Basta ver como a imprensa, objeto da sua crítica, corre atrás dele.

Não estamos mais no contexto das sociedades em que forças reais se enfrentam realmente. É muito pior. O jogo político encontra-se submerso numa lógica que o devora. Bourdieu não consegue compreender isso. Não o acuso de má-fé, mas identifico a sua ingenuidade. Ao mesmo tempo, Bourdieu não é ingênuo. De que se trata, então? Para mim, somente de impostura. Bourdieu vive ainda segundo uma utopia retrospectiva, a de uma sociedade onde se possa supor e identificar o adversário. Para ele, a sociedade é determinada e determinista. Ora, estamos cada vez mais num sistema indeterminista. Para uma sociedade indeterminista, precisa-se de uma análise indeterminista. Enfim, a análise determinista de Bourdieu passa ao lado do seu objeto, indeterminista. Portanto fracassa.

RF: Em outras palavras, Bourdieu crê que se pode agir na e sobre a sociedade, enquanto para o senhor isso não é mais possível?

Baudrillard: Se ainda existisse sociedade, talvez se pudesse agir sobre ela. O social não existe mais. Bourdieu vê-se como o profissional do social e da sociologia. Em conseqüência, não quer questionar o social e o político como tais. Acha que essas coisas existem como há cem anos. Seria preciso que ele se interrogasse sobre em que se transformou o social. E sobre os milhões de homens que não participam mais de nenhum sistema de representação, a base do que era o social. Essa gente não quer mais ser representada. E então? Bourdieu pensa que estamos num sistema lógico e mecânico de representação, de conflito e de contradição. Não é só o marxismo que sempre acreditou nisso, mas, antes de tudo, a sociologia. Como Bourdieu quer ser o grande mestre do sociológico, não vai minar a sua própria base.

RF: A sua preferência pela ironia e pelo paradoxo é, então, o resultado dessa visão que identifica a crítica encurralada numa lógica projetiva falsa e num papel pedagógico impossível?

Baudrillard: Já faz tempo que não creio mais em qualquer possibilidade pedagógica, terapêutica ou profilática. Para isso, seria necessário que existisse uma relação entre sujeito e objeto, um sujeito do saber, do poder, etc. E seria preciso que esse saber pudesse passar de um elemento para outro, conforme a perspectiva racional e determinada. Não penso que as coisas funcionem assim atualmente. Vivemos num período de tamanha ambivalência, transfiguração e transfusão de estatutos e de definições que  não há mais oposição enquanto tal a uma realidade objetiva.

Enquanto há relação de mão dupla entre sujeito e objeto, a racionalização é possível. Mas já não é o caso. Na economia, por exemplo, os especialistas trabalham com conceitos e instrumentos completamente arcaicos, voltados para a estabilidade, enquanto os capitais passeiam, em órbita, incontroláveis e alheios às soluções fabricadas, destinadas ao fracasso por serem o produto de modelos do século XIX. O mundo econômico, indeterminado e versátil, flutua em paralelo às análises que tentam controlá-lo sem a menor chance de sucesso. Não se trata mais de crise, mas de catástrofe das definições, dos fundamentos, dos remédios, da produção. Crê-se que estamos numa relação trabalho-capital. Ora, o trabalho tornou-se um objeto de consumo, segundo uma necessidade. O trabalho é produto e não mais produtor. O capital produz o trabalho para vendê-lo no mercado. Tudo muda, pois o trabalho não tem mais o mesmo sentido. Assim como um acontecimento, difundido pela mídia, perde a sua existência histórica em função da lógica jornalística.

RF: Do ponto de vista prático, isso significa que não há mais diferença entre esquerda e direita em termos de política econômica?

Baudrillard: Os mais ingênuos são os que crêem na crítica como superação dessa situação indeterminada. O sistema não conhece mais a negatividade, sendo inteiramente positivo, absorvendo tudo e todos. Da mesma forma, a imagem virtual não tem negativo. A ilusão da crítica possível integra o campo da ficção. Mera terapia a serviço do sistema absorvente. Esquerda e direita, já faz muito tempo, não apresentam diferença substancial. Resta uma distribuição de papéis necessária à manutenção da cena política.

RF: Ao contrário do que o senhor diz a respeito do indeterminismo, essa visão de mundo não poderia ser compreendida como um determinismo absoluto?

Baudrillard: Sim, no sentido de que tudo é funcional e absorvido, sendo que cada indivíduo se torna parte da engrenagem global, mas, em contrapartida, acredito, ao contrário do que se diz, na existência de radicalidade, ou seja, de uma exterioridade ao sistema. Algo que está fora do jogo. Sei que é difícil mostrar isso, dada a voracidade dos sistemas, mas, ainda assim, isso existe. Neste sistema, tudo deve poder ser trocado, em todos os níveis. Ora, penso que existe algo impossível de ser trocado, irredutível à lógica do valor de troca. Por exemplo, as línguas, as quais, mesmo se as traduzimos, permanecem singulares e irredutíveis umas às outras enquanto formas simbólicas. É bom sinal ver que ainda há quem lute pela preservação de uma língua. De direita ou de esquerda, tanto faz. De toda maneira, não escapará ao epíteto de reacionário. Devemos, logo, preservar o irredutível à troca.

RF: A arte?

Baudrillard: No estado em que as artes plásticas se encontram, não. A arte, hoje, em geral, faz parte da lógica da multimídia e da troca total. É performativa, operacional e comercial. Tornou-se um valor, mesmo estético, definido por museus e outras instituições. Resta saber se, como forma, ela poderá ainda ser irredutível. O que se troca é da ordem do valor. O irredutível é irredutível à troca, portanto ao valor. O exterior ao sistema não é um corpus a ser organizado em termos políticos. Impalpável, novo ou presente, o irredutível é uma forma e uma atitude. Escrever pode ser uma forma irredutível. Nem sempre o é. Em geral, não o é. As idéias, não. Estas são sempre trocadas. O que é a forma? Talvez a “parte maldita”, retomando a expressão de Bataille. Irredutível à troca, esta deve ser destruída ou sacrificada, impondo-se por estar fadada a desaparecer.

A fotografia, sem cair na obsessão, pode ser irredutível, pois o seu objeto desaparece, eliminado como presença real. O sujeito da fotografia também desaparece. Dessa dupla desaparição, surge a foto. Não interessa uma lógica crítica, racional ou produtiva, mas um jogo de eliminação recíproca.

RF: A fotografia é uma forma de arte radical?

Baudrillard: Sim. Afinal, por que a fotografia teria um tal privilégio? Outras formas, evidentemente, fazem o mesmo. O que é a arte? O que encontramos nas galerias? Estou disposto a ver tudo, mas constato que mesmo a maioria das fotos feitas são imediatamente convertidas em valor estético, comercial, sentimental, patético. Consumimos fotos de massacres, de epidemias, da fome… Pouca coisa na arte escapa à significação forçada.

RF: Na literatura, como arte radical, o senhor engaja-se ao lado de Mallarmé?

Baudrillard: Admirei Mallarmé. Passou um pouco. Não creio que a radicalidade esteja necessariamente no obscuro. É uma forma possível. Por que não o seria? Mallarmé é hermético e comporta uma forma de segredo. Gosto disso. Mas para mim existem outras coisas dotadas de magia maior. Rimbaud, por exemplo. Ou Holderlin, que é muito mais estranho. Citar nomes não adianta muito. Em todo caso, Mallarmé para mim já desapareceu. Sempre estive mais com Rimbaud, Artaud, Holderlin. Não se trata de uma questão de estilo, de modelagem da linguagem. Um objeto banal pode tornar-se singular. Mallarmé não pode simbolizar a singularidade absoluta. Pode até mesmo ser convertido em valor. Mallarmé inspirou muita gente, inclusive Lacan, mas disso não resultou nada formalmente importante. Valéry já foi uma vulgarização de Mallarmé. Lacan usou um artifício interessante, mas não original. Mallarmé foi saqueado inutilmente por muitos. Sou elitista: no oceano de imagens, apenas algumas podem elevar-se à radicalidade. Ora, isso já é um acontecimento extraordinário.

RF: Seria possível imaginar, no mundo capitalista, uma mídia capaz de ser bem-sucedida sem corresponder rigorosamente à lógica do mercado?

Baudrillard: O sonho de uma mídia fora da lógica do mercado é sempre um sonho proto ou pós-capitalista, mesmo quando esboçado como uma crítica no interior do sistema. Tudo é elaborado em termos de mercado, mas o essencial está em outro lugar, fora da ordem da vontade: a mercadoria absoluta, com seu equivalente geral, pode assumir de tal maneira a sua condição de mercadoria, ser tão venal, tão obscena, a ponto de não poder mais ser trocada. Volta a ser uma espécie de objeto puro, um fetiche, uma presença total. A arte, segundo Baudelaire, assumiu, em certo momento, tal condição. A arte moderna não deveria ser mercadoria, mas, através do superlativo, ser mais mercadoria do que a mercadoria para reencontrar a singularidade num além-mercado. Essa é a experiência do limite. Para isso não existe fórmula, receita, método, manual.

RF: Alguns dos seus críticos acham que o seu pensamento está cada vez mais abstrato e imobilista. Os intelectuais nada mais têm a oferecer como salvação à humanidade extraviada ou se espera incorretamente que cada pensador estabeleça um dever-ser para as sociedades?

Baudrillard: Não há solução ou salvação a esperar da parte dos intelectuais. O mesmo vale para os políticos. As pessoas foram adestradas para esperar um remédio milagroso fornecido pelos mestres do saber ou do poder. O sistema funciona assim. Se os intelectuais confessassem que nada têm a oferecer, a situação ficaria mais clara. Eles, claro, não o farão. Sou cúmplice disso, mesmo se vivo retirado na abstração e na solidão. Ainda assim, faço, até certo ponto, parte do jogo. Não tenho nenhuma ilusão quanto ao papel de consciência crítica dos intelectuais. Não pretendo inventar mais nada. Contento-me em dizer de várias maneiras a idéia que tenho desenvolvido sem me preocupar com uma prova improvável ou impossível. Do ponto de vista dos intelectuais, estou convencido de que a minha “mercadoria” não tem grande valor. Quem crê e fala da parte maldita, entretanto, deve fazer parte dela. É o meu caso.

RF: A morte de Diana e o “Monicagate” relançaram o problema da construção da realidade pela mídia. Mesmo se não se fala mais em 32 Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 10 • junho 1999 • semestral 

aparelhos ideológicos de Estado, como no tempo de Althusser, denuncia-se a hegemonia da mídia no imaginário social. Afinal, a mídia produz esse imaginário ou é produzida por ele?

Baudrillard: É preciso desconstruir a questão. Não existe resposta para isso. Pode-se dizer que a mídia cria os acontecimentos, mas, por outro lado, o contrário também é válido. No limite, a mídia, que fabrica o real, serve apenas de transmissor. Afirma-se que a morte de Diana não teria acontecido sem os paparazzi e sem a imprensa sensacionalista. A morte da princesa se justificaria pela espiral jornalística que transformou a vida de uma mulher em mito precoce. Inculpar a mídia, claro, contém um sinal negativo. A mídia como cúmplice de um assassinato.

Na verdade, todo mundo, de certa maneira, desejava essa morte. E todos, nesse mesmo sentido, ficaram contentes quando ela aconteceu. Não me refiro ao sadismo coletivo nem à pulsão de morte, mas de uma bela morte, de um obscuro desejo de acontecimento. Por quê? Pelo fato de que na vida de todo mundo, tal qual ela é na atualidade, não acontece nada. Absolutamente nada. Coletivamente, desejamos ardentemente que aconteça alguma coisa. Sonhamos com algo terrível, grandioso, extraordinário, excepcional, algo que venha do além, sei lá. Um destino. Um acontecimento que quebre a rotina do não-acontecimento. A morte de Diana representou isso.

A mídia colocou em cena uma exigência da sociedade, na qual não há mais responsabilidade, onde os atos políticos não têm mais conseqüências. Mesmo a corrupção acaba por ser integrada. As coisas não atingem mais o extremo das suas significações. Em função disso, cresce o desejo de um acontecimento no qual as conseqüências sejam totais, fatais, máximas, com efeitos superiores às suas causas. A morte de Diana representou um efeito prodigioso, caótico, mundial, a partir de uma condição minimal, derrisória. No caso Clinton/Mônica, o mesmo ocorre. A mídia serve de condutor para o caótico: com o mínimo se faz o máximo. Sociedade sacrificial na qual a responsabilidade desaparece, cedendo lugar ao analógico. Diana, princesa do povo, o luto e tudo mais, isso vem depois, como invólucro. A exigência inicial era o fato bruto capaz de romper a cadeia da banalidade. A mídia faz parte disso sem ser a criadora da exigência social de acontecimento, mas a catalisadora. Todos somos cúmplices. Assim, a morte de Diana não está destituída de positividade.

RF: E quanto às causas?

Baudrillard: Não coloco isso em termos de acusação, dado que somos todos de fato cúmplices. A busca das causas desemboca na condenação, numa negatividade de bom-tom, quando se trata de uma reação visceral das pessoas a uma sociedade onde as coisas não têm mais nenhuma conse-qüência, razão, sanção, como disse antes. Não há lógica de causa e efeito. Daí a vontade de compensação através de acontecimentos extraordinários baseados em fatos minimais. A morte de Diana absorveu toda essa frustração, o que não quer dizer que todos sejam voyeurs, mórbidos ou dominados por uma pulsão de morte. Exigem, somente, o restabelecimento, ainda que metafórico, da ordem do sentido.

Diana, o “Monicagate” e a crise financeira, enquanto o ano 2000 não chega, são três acontecimentos mundiais resultantes do alcance da mídia e da sua proliferação caótica. Como se fosse por acaso, envolvem morte, sexo e dinheiro. Em resumo, as três coisas essenciais. Acontecimentos mundializados, certo, mas referentes a um terreno onde a insatisfação é permanente. Os três atendem ao desejo de acontecimento neste mundo onde nada mais acontece.

RF: A sua recusa ao dever-ser é uma confissão de impotência, uma demonstração de humildade intelectual ou uma prova de respeito pela ação instituinte da sociedade?

Baudrillard: Não respeito a sociedade. Nem sei mais o que ela é. Não sou de natureza humilde. De jeito nenhum. E se me situo fora do jogo, é por estratégia, não por confissão de impotência. Faço a diferença, como outros, entre poder e potência: não quero nenhum tipo de poder, apago-me enquanto sujeito de poder e de saber, mas não renuncio à potência. Penso que o exercício desta, em nome da eficácia silenciosa e simbólica, exige a desaparição do sujeito do pensamento. O texto e as idéias devem prevalecer, não o autor. É preciso criar um vazio, uma radicalidade negativa, mesmo ínfima, que sirva de armadilha ao próprio poder. Faço isso por orgulho, não por humildade. Fora disso, só vejo operações de marketing.

RF: Como o senhor define a relação dos intelectuais com a mídia neste final de milênio?

Baudrillard: O intelectual converte-se em político e vice-versa. O jornalista transforma-se em intelectual e vice-versa. Um serve de elevador para o outro. Vale o regime de trocas táticas. Existe um domínio reservado ao intelectual? Não. Há singularidade de pensamento, de imagem, de ação, a qual não é necessariamente apanágio dos intelectuais. A singularidade não se submete a uma disciplina ou a um estatuto. A tentação intelectual corresponde à cegueira herdada do século XIX.

RF: O senhor é, portanto, um anarquista?

Baudrillard: Sim e não. Não do ponto de vista da definição histórica. Sim, eu me reconheço em Max Stirner: não tenho que prestar contas a ninguém. Anarquista de personalidade. Faço o que faço, sou o que sou, não me aborreçam, não me explico diante da sociedade ■

Nota

Esta entrevista foi publicada em parte na Ilustrada da Folha de S.Paulo, 25/11/1998.

Fazer cartel

O vídeos musicados com humor estão dando de dez a zero mesmo nas narrativas mais indignadas com um mar de lama pior do que o de Mariana. Um mar de lama “repleto de metais pesados”.

Tautismo?

[…] o pesquisador francês Lucien Sfez chama de “tautismo”: um processo de comunicação sem personagens que só leva em conta a si mesmo, resultando em uma situação simultânea de autismo e tautologia. Isso seria o resultado final de todo sistema complexo que começa a fechar-se em si mesmo, tornando-se cego ao ambiente externo. Sem conseguir estabelecer a diferença entre “dentro” e “fora”, “ficção” e “realidade”, o sistema torna-se autofágico.

Cinegnose

O tautismo na política está se tornando comum, conforme a previsão em Cinegnose. Lá já se falou no tautismo da Globo quase que exclusivamente. Que é o mesmo que falar do tautismo na política já que há o partido da imprensa como realidade. No vídeo acima  há uma “clareza” que reforça a tese. A “verdade” e sua vontade fazem sua estréia, talvez retumbante em manifestações como a do vídeo. Que os eleitores são os financiadores privados de campanhas eleitoreiras já ficou claro antes. Que os EEUU são grandes interessados na entrega das nossas riquezas também. E confirmado por notícias recentes.