Aprender a Viver, Luc Ferry

baixar-livro-aprender-a-viver-luc-ferry-em-pdf-epub-e-mobi-ou-ler-online-370x494

Prólogo

Nos meses que se seguiram à publicação de meu livro O que É uma Vida Bem-sucedida?, várias pessoas me abordaram espontaneamente na rua para me dizer mais ou menos o seguinte: “Um dia, ouvi o senhor falar sobre sua obra… foi claríssimo, mas, quando tentei lê-lo, não compreendi mais nada…” A observação era direta, mas não agressiva. O que me causou constrangimento maior! Prometi a mim mesmo encontrar uma solução, sem saber exatamente como agir, de modo a, um dia, ser tão claro na escrita quanto afirmavam que eu era na fala…

Uma circunstância proporcionou-me a oportunidade de voltar a pensar no assunto. De férias num país onde a noite cai às seis horas, alguns amigos pediram que eu improvisasse um curso de filosofia para pais e filhos. O exercício obrigou-me a ir diretamente ao essencial, como até então eu nunca pudera fazer, sem recorrer a palavras complicadas, a citações eruditas ou alusões a teorias desconhecidas pelos meus ouvintes. À medida que eu avançava na narração da história das ideias, dei-me conta de que não existia nas livrarias um curso equivalente ao que eu estava construindo, bem ou mal, sem o auxílio de minha biblioteca. Encontram-se, naturalmente, inúmeras histórias da filosofia. Algumas são mesmo excelentes, mas as melhores são áridas demais para alguém saído da universidade, e ainda mais para quem ainda não entrou nela; outras não são interessantes.

Este pequeno livro é resultado daquelas reuniões amigáveis. Embora reescrito e completado, conserva ainda o estilo oral. Seu objetivo é modesto e ambicioso. Modesto, porque se dirige a um público de não especialistas, à semelhança dos jovens com os quais conversei naquele período de férias. Ambicioso, pois me recusei a aceitar a menor concessão às exigências da simplificação, caso deformasse a apresentação dos grandes pensamentos. Respeito tanto as obras maiores da filosofia que não aceito caricaturá-las por razões pseudopedagógicas. A clareza consta do caderno de encargos de uma obra que se dirige a iniciantes, mas pode ser obtida sem que se destrua seu objeto; do contrário, de nada vale.

Procurei, então, apresentar uma iniciação que, por mais simples que fosse, não abdicasse da riqueza e da profundidade das ideias filosóficas. Seu objetivo não é apenas oferecer um antegozo, um verniz superficial ou um resumo desfigurado pelos imperativos da vulgarização, mas também levar a descobrir essas obras, tais como são, a fim de atender a duas exigências: a de um adulto que quer saber o que é a filosofia, mas não pretende ir necessariamente além; a de um adolescente que deseja eventualmente estudá-la mais a fundo, embora ainda não disponha dos conhecimentos necessários para começar a ler por conta própria autores difíceis.

Por isso, tentei inserir aqui tudo o que hoje considero verdadeiramente essencial na história do pensamento, tudo o que gostaria de legar àqueles que considero, no sentido antigo, incluindo a família, meus amigos.

“Por que esta tentativa?

Para começar, por egoísmo, porque o mais sublime espetáculo pode tornar-se um sofrimento se não temos a sorte de ter alguém com quem partilhá-lo. Ora, ainda é pouco — e disso me dou conta a cada dia que passa — dizer que a filosofia não faz parte do que se chama comumente de “cultura geral”. Um “homem culto” presumivelmente conhece a história da França, algumas importantes referências literárias e artísticas, até mesmo alguma coisa de biologia ou de física, mas ninguém o reprovará por ignorar tudo a respeito de Epicteto, Spinoza ou Kant. Entretanto, adquiri, ao longo dos anos, a convicção de que para todo indivíduo, inclusive para os que não a veem como uma vocação, é valioso estudar ao menos um pouco de filosofia, nem que seja por dois motivos bem simples.

O primeiro é que, sem ela, nada podemos compreender do mundo em que vivemos. É uma formação das mais esclarecedoras, mais ainda do que a das ciências históricas. Por quê? Simplesmente porque a quase totalidade de nossos pensamentos, de nossas convicções, e também de nossos valores, se inscreve, sem que o saibamos, nas grandes visões do mundo já elaboradas e estruturadas ao longo da história das ideias. É indispensável compreendê-las para apreender sua lógica, seu alcance e suas implicações…

Algumas pessoas passam grande parte da vida antecipando a infelicidade, preparando-se para a catástrofe — a perda de um emprego, um acidente, uma doença, a morte de uma pessoa próxima etc. Outras, ao contrário, vivem aparentemente na mais total despreocupação. Elas até consideram que questões desse tipo não têm espaço na existência cotidiana, que provêm do gosto pelo mórbido que beira a patologia. Sabem elas que as duas atitudes mergulham suas raízes em visões do mundo cujas circunstâncias já foram exploradas com profundidade extraordinária pelos filósofos da Antiguidade grega?

A escolha de uma ética antes igualitária que aristocrática, de uma estética antes romântica que clássica, de uma atitude de apego ou desapego às coisas e aos seres em face da morte, a adesão a ideologias políticas autoritárias ou liberais, o amor pela natureza e pelos animais mais do que pelos homens, pelo mundo selvagem mais do que pela civilização, todas essas opções e muitas outras foram inicialmente construções metafísicas antes de se tornarem opiniões oferecidas, como num mercado, ao consumo dos cidadãos. As clivagens, os conflitos, as implicações que elas sugeriam desde a origem continuam, quer o saibamos ou não, a dirigir nossas reflexões e nossos propósitos. Estudá-los em seu melhor nível, captar-lhes as fontes profundas é se oferecer os meios de ser não apenas mais inteligente, mas também mais livre. Não consigo ver em nome de que deveríamos nos privar disso.

Além do que se ganha em compreensão, conhecimento de si e dos outros por intermédio das grandes obras da tradição, é preciso saber que elas podem simplesmente ajudar a viver melhor e mais livremente. Como dizem, cada um a seu modo, vários pensadores contemporâneos, não se filosofa por divertimento, nem mesmo apenas para compreender o mundo e conhecer melhor a si mesmo, mas, às vezes, para “salvar a pele”. Há na filosofia elementos para vencermos os medos que paralisam a vida, e é um erro acreditar que a psicologia poderia, nos dias de hoje, substituí-la.

Aprender a viver, aprender a não mais temer em vão as diferentes faces da morte, ou, simplesmente, a superar a banalidade da vida cotidiana, o tédio, o tempo que passa, já era o principal objetivo das escolas da Antiguidade grega. A mensagem delas merece ser ouvida, pois, diferentemente do que acontece na história das ciências, as filosofias do passado ainda nos falam. Eis um ponto importante que por si só merece reflexão.

Quando uma teoria científica se revela falsa, quando é refutada por outra visivelmente mais verdadeira, cai em desuso e não interessa a mais ninguém — à exceção de alguns eruditos. As grandes respostas filosóficas dadas desde os primórdios à interrogação sobre como se aprende a viver continuam, ao contrário, presentes. Desse ponto de vista seria preferível comparar a história da filosofia com a das artes, e não com a das ciências: assim como as obras de Braque e Kandinsky não são “mais belas” do que as de Vermeer ou Manet, as reflexões de Kant ou Nietzsche sobre o sentido ou não sentido da vida não são superiores — nem, aliás, inferiores — às de Epicteto, Epicuro ou Buda. Nelas existem proposições de vida, atitudes em face da existência, que continuam a se dirigir a nós através dos séculos e que nada pode tornar obsoletas. As teorias científicas de Ptolomeu ou de Descartes estão radicalmente “ultrapassadas” e não têm outro interesse senão histórico, ao passo que ainda podemos absorver as sabedorias antigas, assim como podemos gostar de um templo grego ou de uma caligrafia chinesa, mesmo vivendo em pleno século XXI.

A exemplo do primeiro manual de filosofia escrito na história, o de Epicteto, este pequeno livro trata o seu leitor por você. Porque ele se dirige, em primeiro lugar, a um aluno ao mesmo tempo ideal e real que está no limiar da idade adulta, mas pertence ainda, devido a muitos laços, ao mundo da infância. Que não se veja nisso nenhuma familiaridade de baixo quilate, mas tão somente uma forma de amizade, ou de cumplicidade, às quais só o tratamento íntimo convém.

Luc Ferry

Uma fábula para começar

6ae6dc08bba2f9f33fe3fb4d15e917c5

Há muito, muito tempo, a vida evoluiu num certo planeta, produzindo muitas organizações sociais — alcatéias, matilhas, cardumes, manadas, bandos, rebanhos, e assim por diante. Uma espécie cujos membros eram particularmente inteligentes desenvolveu uma organização social singular chamada “tribo”. O tribalismo funcionou bem para eles durante milhões de anos, mas chegou um momento em que decidiram experimentar uma nova organização social (chamada “civilização”), que era hierárquica e não-igualitária. Não se passou muito tempo e aqueles que ficavam no topo começaram a ter uma vida de grande luxo, usufruindo de um lazer perfeito e tendo o melhor de todas as coisas. Abaixo deles, uma classe formada por um número maior de pessoas vivia muito bem e não tinha do que queixar. Mas as massas que viviam na base da hierarquia não gostavam nem um pouco daquilo. Trabalhavam e viviam como animais de carga, lutando só para continuarem vivos.

“Isso não está dando certo”, disseram as massas. “O modo de vida tribal era melhor. Deveríamos voltar a viver daquela forma”.

Mas o chefe, que ficava no ponto mais alto da hierarquia, disse:

“Abandonamos para sempre aquela vida primitiva. Não podemos voltar a ela”. “Se não podemos voltar”, responderam as massas, “então vamos em frente — na direção de algo diferente”.

“Não, não pode ser”, disse o chefe, “porque nada diferente é possível. Nada pode existir além da civilização. A civilização é um invento final, insuperável”.

“Mas nenhum invento é insuperável para sempre. A máquina a vapor foi suplantada pelo motor a gasolina. O rádio foi suplantado pela televisão. A calculadora foi suplantada pelo computador. Por que seria diferente com a civilização?”

“Não sei por que é diferente”, disse o chefe, “mas é”.

Mas as massas não acreditaram — nem eu.

Além da civilização, Daniel Quinn 

ProfStef: Sintaxe da mensagem: Cascata

pharo

Tutorial do Pharo.

Abra o tutorial em português do ProfStef na lição Sintaxe da mensagem: Cascata.

pharo6-pharo-tutorials-submenu

pharotut-profstef-cascading-lesson

 

Nota:

Nesta lição será usado o Transcript, uma espécie de área de saída para exibição de resultados, que pode ser aberto programaticamente com Transcript open ou através do menu World.

pharotut-world-transcript-open

Já abordamos antes o efeito da colocação de um ; (ponto e vírgula) entre duas mensagens em uma lição anterior (quando usamos a mensagem #at:put:). Vamos detalhar mais um pouco aqui.

Abra um Playground e um Transcript. Digite o que vê abaixo, selecione e Do it.

pharotut-transcript-cascading

No primeiro grupo não se usa cascata.

Na segundo se usa o operador ; de cascata e desta forma as mensagens #show: são enviadas para o Transcript sem precisar repetir o receptor.

No terceiro se usa parênteses e as mensagens #show: são enviadas ao objeto retornado. Neste último caso a segunda e terceira mensagem #show é enviada ao objeto Transcript porque ele é o retorno da expressão Transcript show: ‘cinco’ e também da expressão (Transcript show: ‘ cinco ‘) show: ‘ seis ‘.

Como veremos mais adiante no tutorial o retorno default de uma mensagem é o próprio objeto receptor a não ser que seja especificado outro retorno como acontece com a mensagem #at:put:, que retorna o segundo argumento.

Se você experimentar remover os parênteses do último grupo obterá um erro.

pharotut-show-show-show-no-understand

A mensagem com palavras chaves #show:show:show: “não é entendida” pelo objeto Transcript. Veremos mais sobre isto no futuro.

Voltar à página do tutorial.

Vergonha alheia?

Vergonha alheia é um sentimento que pode ser muito bem ilustrado pelo vídeo acima. E fruto as vezes de uma empatia. Outras, de uma antipatia. Neste último caso a vergonha alheia pode vir de um mal estar de pertencer a uma mesma humanidade. Ou pseudo-humanidade. De se parecer com pessoas merecedoras do prêmio Darwin, por exemplo. Ou por coxopatas berrando impropérios ao microfone da rede “xocial” e enlaçando com o fio uma torre de pizza frágil e que não fizeram. Já não inventaram o microfone sem fio?

Nossos neurônios não-espelhos tem tido muito trabalho ultimamente. Para conter os neurônios-espelho. Ases da imitação. Para não imitarmos os energúmenos que andam povoando nossas plagas.

O artigo de Luis Felipe Miguel, que cito abaixo, nos faz sentir vergonha alheia por antipatia.

A vergonha de ser brasileiro


Luis Felipe Miguel

A aprovação de Temer é a pior de um ocupante da presidência desde 1989, diz o DataFolha. Apenas 7%, percentual que, diante do que é esse desgoverno, me parece assustadoramente alto. Mais de três quartos dos entrevistados acham que ele devia renunciar; mais de quatro quintos querem impeachment e eleições diretas.

A Folha destacou outro dado na capa: a “vergonha de ser brasileiro” cresceu de 34% para 47% dos entrevistados. Essa é uma informação que me intriga. Como eu responderia a uma questão assim?

Lembro de um exemplo que costumo usar em sala de aula, quando vou discutir os problemas dos índices baseados em proxies e também dos surveys de opinião pública. Hans-Dieter Klingemann, apoiando-se no World Values Survey, mede o apoio à comunidade política (isto é, se as pessoas julgam que o Estado e a comunidade nacional imaginada à qual pertencem se sobrepõem adequadamente) a partir das respostas a duas perguntas: o quanto o entrevistado se sente orgulhoso de seu país e se estaria disposto a lutar por ele numa guerra.

As duas questões parecem misturar apoio à comunidade política com certo tipo de nacionalismo. Eu, por exemplo, não tenho nenhum desacordo com as fronteiras nacionais brasileiras – não defendo a separação de uma região ou estado, por exemplo, tampouco a anexação de qualquer território. Nem por isso estou oferecendo apoio a priori para qualquer guerra hipotética, só porque é “o meu país”. Não torço nem pela seleção de futebol!

E eu tenho orgulho ou vergonha de ser brasileiro? Como não ter orgulho de ser da terra de Pixinguinha, Cartola e Villa-Lobos, sem falar do queijo minas, da feijoada e da paçoca? Por outro lado, como não ter vergonha não só da elite política nos três poderes, mas também da nossa fraca, fraquíssima capacidade de reação?

Em suma, é uma questão que aplaina múltiplas dimensões e que tenta apreender um sentimento complexo e multifacetado numa escala simples. É muitíssimo discutível se a resposta a ela diz alguma coisa e ainda mais se pode servir de indicador para outro tipo de julgamento.

A vergonha de ser brasileiro

Geoge Carlin

b633995beabdf00eb15b9701e6d96266

Ridendo castigat mores.

George Carlin é mesmo excelente stand up comedy man. Claro que não sou eu que o digo pois o conheci recentemente. Assim como Nietzsche, parece portar um martelinho irônico, não uma marreta para destruir os ídolos (aqui as idéias estapafúrdias da humanidade), com que asculta para ver como devolve em som a sua vanidade. Se é oco, o que na maioria das vezes é, ou se é sólido, o que na maioria das vezes não é.

Assista o vídeo abaixo e depois se deixe levar pelo Youtube. É diversão garantida. E reflexão lúdica como sempre deveria ser. Nada de abdicar do humor, esta corrosiva arte de ridicularizar o ridículo, para ajudá-lo mesmo a se realizar como ridículo, explorar mais o seu potencial, como se se pudesse chover no molhado. E cuidado para não escorregar!

E Nietzsche seria também um bom comediante com uma tirada mais ou menos assim: “Um deus barbudo e ranzinza se disse único. E todos os deuses caíram na risada.” Ou algo como: “Eu só acreditaria num deus que pudesse dançar. E com passinhos leves. Talvez de bailarina. Talvez atabalhoado como um clown. Ah, aí eu poderia acreditar. Se tivesse muitos braços e acenasse em busca de minha atenção, como um shiva

ProfStef: Precedência matemática

pharo

Tutorial do Pharo.

Abra o tutorial em português do ProfStef na lição Precedência matemática.

pharo6-pharo-tutorials-submenu

pharotut-math-precedence-lesson

A ordem de execução das mensagens das expressões matemáticas é por default sempre da esquerda para a direita.

Nota:

A expressões matemáticas são construídas somente com mensagens binárias. Embora se pareça com uma regra estritamente sintática a ser reforçada pelo compilador esta ordem é, na verdade, uma consequência de um encadeamento de mensagens enviadas aos números, que são objetos, e aos objetos retornados da avaliação da mensagem precedente. É o que acontece no exemplo desta lição com a primeira expressão 2 * 10 + 2. A avaliação da expressão pode ser descrita da seguinte forma: 2 recebe a mensagem binária * com o argumento 10 e retorna 20 (um objeto). Agora 20 recebe a mensagem + com o argumento 2 e retorna 22.

A introdução de parênteses muda esta mecânica conforme já foi explicado antes num contexto mais amplo do que o de expressões composta exclusivamente de mensagens binárias.

Não deixe de experimentar todas as expressões e sinta se livre para alterá-las à vontade para ver os efeitos.

 

Voltar à página do tutorial.

O flagelo da agricultura

harvest-5

Há algum tempo citei o Manning e agora encontrei uma excelente entrevista com o autor (em abril de 2004). Inicialmente colocarei aqui uma tradução automática que aos poucos irei burilando. [Atualização: revisão completada].

Vejo uma relação de afinidade com o filme Demain no que toca à agricultura. Manning não propões abandonar a agricultura. Mas imprimir uma direção correta. Como também é feito no filme, que não critica a agricultura em geral mas a forma atual com ênfase na monocultura, antagônica da diversidade, chave para a sustentabilidade. Ao escrever este post em paralelo com o relativo ao filme Demain [a publicar] notei uma afinidade imensa, como se o que está na entrevista, e talvez no livro [que ainda não li], fosse precursor do filme. Nos post sobre o filme Demain (de 2015) exploro mais esta, suposta por mim, afinidade.

O flagelo da agricultura

Richard Manning argumenta que olhar para o que a “natureza já imaginou” poderia ser a solução para um mundo devastado pela agricultura.

O conceito do selvagem nobre existe há algum tempo na nomenclatura da civilização ocidental. Na cultura popular, a frase pode conjurar imagens de índios americanos de filmes como Dances with Wolves , ou aborígenes de The Gods Must Be Crazy . Um nativo escassamente vestido corre ao redor da mata com um arco e flecha, vivendo uma vida simples que é melhor descrita como “próxima à natureza”. Mas de onde exatamente nossa concepção de povos tribais como inerentemente “nobre” veio? E isto é exato?

Richard Manning, que escreveu extensivamente sobre cultura, agricultura e meio ambiente, acredita que “o selvagem nobre” não é uma maneira particularmente satisfatória de descrever os povos tribais. “É mais complicado do que isso”, diz ele. No entanto, em seu novo livro, Contra o Grão: Como a Agricultura seqüestrou a civilização , ele cita o caso de tribos – particularmente tribos caçadoras-coletoras – que vivem de forma fundamentalmente sustentável, considerando que o sistema social que se desenvolveu com o advento da agricultura gerou desigualdade e fome, e teve um imenso impacto ambiental em um período de tempo (cerca de 10.000 anos) que contrasta com a história da vida humana no planeta (cerca de 4 milhões de anos). Enquanto os argumentos contra a agricultura ganharam força nas últimas décadas, centraram-se principalmente no debate sobre os desenvolvimentos do século XX, como a Revolução Verde ou as culturas geneticamente modificadas. O escopo da Manning é muito mais amplo do que isso, e se estende à própria origem das sociedades agrícolas. Ele argumenta que ocorreu uma grande mudança entre os seres humanos quando descobrimos a agricultura – e começamos a avançar em direção a um ethos de domínio baseado na prática da domesticação.

“A domesticação é uma evolução humana”, escreve Manning, “uma mudança fundamental na qual a seleção humana exerce pressão suficiente sobre a planta selvagem que é visivelmente e irreversivelmente alterada, seus genes são alterados”. Paradoxalmente, Manning explica que a domesticação ajudou a criar uma sociedade que foi ainda mais afetada pelos caprichos da natureza do que pelas sociedades caçadoras e coletoras. Isso ocorre porque o tipo de agricultura que viemos praticar estava vinculada a uma relação catastrófica com a Terra: o desmatamento de grandes extensões de terra para colocar uma única planta. Essa prática começou a destruir a diversidade – a força fundamental de todos os sistemas naturais.

Em Contra o Grão , Manning olha além dos efeitos ambientais da agricultura e da civilização, que já foram bem documentados, e explora o que essas invenções têm feito para a qualidade da vida humana no planeta. A agricultura nos deu o excedente, o excedente nos deu riqueza, e a riqueza nos deu hierarquias que necessariamente criaram uma subclasse. “Se quisermos buscar maneiras pelas quais os seres humanos diferem de todas as outras espécies, essa dicotomia [entre ricos e pobres] lideraria a lista”, escreve Manning. “A evolução não nos capacita para lidar com a abundância”. A agricultura industrial mostrada na América do século XX – alimentada por subsídios do governo e o “dumping” de grãos excedentes em mercados estrangeiros e caracterizada pela mudança para alimentos processados ​​- resultou na obesidade do mundo desenvolvido e na desnutrição dos em desenvolvimento. Os leitores podem achar as soluções propostas por Manning para os problemas causados ​​pela agricultura surpreendentes. Embora se possa esperar que ele encoraje a civilização a abandonar a agricultura em favor de algo mais “nobre”, nesta entrevista ele sugere que devemos abraçá-la. Na verdade, a chave para combater os problemas que criamos através da agricultura consiste em utilizar as manipulações ambientais que nós confiamos para domesticar nosso ambiente – mas de maneiras diferentes.

Manning é o autor de Last Stand, A Good House, Grassland, One Round River, e Food’s Frontier. Ele mora em Montana. Falamos por telefone em 5 de março de 2004.

Author photo

Richard Manning

Achei seu subtítulo, “Como a agricultura seqüestrou a civilização”, um pouco confuso, já que você parece dizer que a agricultura e a civilização são basicamente sinônimas. Você pode explicar o que você quis dizer?

Na verdade, eu concordo com você. No entanto, há uma ressalva interessante para isso: sempre pensamos que a agricultura permitiu o sedentarismo, o que deu às pessoas tempo para criar civilização e arte. Mas a evidência que está emergindo do registro arqueológico sugere que o sedentarismo veio primeiro, e depois a agricultura. Isso ocorreu perto das foz dos rios, onde as pessoas dependiam de frutos do mar, especialmente o salmão. Estas foram provavelmente culturas extremamente abundantes que tiveram uma enorme quantidade de tempo de lazer – eles apenas tiveram que esperar que as corridas de salmão ocorressem. Existem alguns bons registros dessas comunidades, e dos restos de esqueleto podemos ver que eles conseguiram até 95 por cento de seus nutrientes de fontes de salmão e derivados do oceano. Ao longo do caminho, eles desenvolveram arte altamente refinada – algo que sempre associamos à agricultura.

A descoberta da agricultura, você escreve, levou a uma mudança na forma como interagimos com o nosso ambiente, em direção a um ethos de “dominância”. É difícil não imaginar a agricultura como algo que reflete um impulso inerente dentro do homem para derrotar, ou pelo menos, domar a natureza. Mas você também argumenta que o desenvolvimento da agricultura foi apenas “oportunismo”. A agricultura vem do desejo de dominar, ou foi apenas uma grande coincidência?

Podemos abordar isso com cerca de cinquenta ângulos diferentes e não apresentar uma resposta satisfatória. Mas acho que é realmente importante pensar nesses termos. Uma visão é dizer que todo o dano que vemos no planeta é o resultado de nossos números e da natureza humana – e que a agricultura é o pior sintoma da condição humana, porque tem o maior impacto no planeta. Nesta análise, não culpamos a agricultura – culpamos os humanos.

Mas não acho que seja essa a explicação completa. Isso fica muito mais rico quando você olha a co-evolução: não são apenas genes humanos no trabalho aqui. São genes de trigo e genes de milho – e como eles têm uma influência sobre nós. Eles aproveitaram nossa capacidade de viajar, nossa inventividade, nossa capacidade de usar ferramentas, viver em um amplo número de ambientes e nossa enorme necessidade de carboidratos. Devido à capacidade dos nossos cérebros, fomos capazes de espalhar não só nossos genes, mas também os genes do trigo. É por isso que faço o argumento de que você tem que ver isso em termos do trigo que nos domina também. Esse processo co-evolutivo entre humanos e nossas culturas primárias de alimentos é o que criou a agricultura que vemos hoje.

O maior problema com a agricultura – e a civilização – parece ser o excedente que ela cria. Você faz questão de dizer que os seres humanos ainda não desenvolveram uma forma de lidar com o excedente. Você acha que algum dia iremos?

Desde que a civilização começou, o excedente esteve conosco. Uma espécie de “necessidade cega de excesso” tem conduzido nossa cultura exatamente na direção errada. Ele cria sociedades estratificadas. O CEO de uma empresa ganha mil vezes mais do que um de seus trabalhadores. Esse tipo de disparidade não existe em nenhum outro tipo de espécie. E isso sugeriria que não conseguimos melhorar o consumo do excedente – na verdade, ficamos piores nisso.

Lidar com excedentes é uma tarefa difícil. O problema começa com o fato de que, assim como o desejo sexual, o impulso alimentar aumentou na evolução. Se você tem uma necessidade profunda e ansiosa de comida, você vai se dar bem melhor do que seu vizinho, e ao longo dos anos esse gene será transmitido. Então você obtém essa criatura que ficou bem ajustada para realmente precisar de comida, especialmente carboidratos. O que nos leva à questão mais fundamental: podemos lidar com o açúcar? Ao fazer formas mais concentradas de carboidratos, estamos jogando em algo que é bastante viciante e poderoso. É por isso que somos tão obesos. Temos acesso a todo esse açucar, e simplesmente não podemos controlar a nossa necessidade, é genética.

Agora, podemos ganhar a capacidade de superar isso? Não tenho certeza. Você tem que adicionar a isso o fato de que há muito dinheiro a ser ganho por pessoas que sabem como concentrar o açúcar. Eles têm um interesse real em perceber que não superamos esses tipos de vícios. Na verdade, é assim que você controla as sociedades – você explora esse impulso básico para a alimentação. É assim que treinamos cães – se você quer fazer um cachorro se comportar corretamente, você o priva ou dá comida. Os seres humanos não são tão diferentes. Nós simplesmente gostamos de pensar que somos. Assim, como elemento de controle político, os alimentos e as imagens de alimentos são extremamente importantes.

E quanto ao controle religioso? Se a agricultura cria o excedente, o que cria hierarquias sociais, então, como a religião afetou isso?

O controle de um enorme suprimento de alimentos foi tecido na observância religiosa. No início da agricultura, foi o sacerdote que decidiu quando o plantio ocorreria, e todas as observações religiosas estavam voltadas para mudanças sazonais. Tudo é tecido em uma história muito rica – é mesmo em nossas orações: “Dê-nos hoje o nosso pão de cada dia”.

Mas a religião também entra em comportamento exibicionista. Parte disso é a abnegação que acompanha a observância religiosa. As pessoas são rápidas porque é o oposto do que as pessoas normais fariam, então é uma exibição de fidelidade. E embora eu não pretenda desprezar os vegetarianos, todos nós também vimos esse tipo de comportamento exibicionista: o vegetariano, por exemplo, que faz o pedido em voz muito alta em um restaurante para que todos saibam que ele é moralmente superior de alguma forma.

Isso é interessante. Você acha que o vegetarianismo tanto não é socialmente responsável como está falido?

Depende de como é feito. Nos EUA, usamos alimentos altamente processados ​​como substituições. Você sabe, creme de arroz e hambúrgueres de soja e tudo isso. Uma vez que você está nesse tipo de processo, então os ganhos de energia do vegetarianismo são removidos quase imediatamente. Mas além disso, você tem que olhar para a maneira como fazemos a agricultura nos EUA. Nós eliminamos enormes áreas de habitat. Iowa tem algo menos de 1% de seu habitat nativo. Bem, esse habitat sustentava animais selvagens. Então, você tem dificuldade em argumentar a favor do vegetarianismo como uma espécie de “bondade para com os animais” quando você está destruindo todo o habitat desse forma.

Se a agricultura e a civilização causaram tantos problemas, e os caçadores-coletores? O seu modo de vida funciona melhor?

Vamos considerar o que aconteceu na América. Quando os colonos europeus vieram aqui, tornou-se uma política muito ativa do governo tentar fazer com que os índios começassem a cultivar. Thomas Jefferson era explícito nisso, e ele não estava sozinho. Mas os índios simplesmente fugiram – e não só deixaram a agricultura branca, mas deixaram sua própria agricultura. Uma vez que eles tinham cavalos, eles tinham a opção de caçar muito mais efetivamente. Eles depuseram suas enxadas, e foram em seus cavalos, adentraram nas planícies ocidentais e tornaram-se nômades em lugares que não se via ninguém há anos. Eles se tornaram caçadores. Eles “descobriram algo”, ou eles conseguiram um acordo com a natureza que de alguma forma era sustentável? Não, é mais complicado do que isso, porque assim que o mercado de carne de caça entrou na área e permitiu que eles vendessem vestes de bisonte aos brancos, eles realmente participaram da extinção do bisonte – mesmo antes que os caçadores brancos entrassem em cena.

Mas mesmo essa prática foi resultado do contato com a civilização.

E habilidade. Assim, uma vez dada a tecnologia, o mercado e a capacidade de explorar esse recurso de uma maneira diferente, eles simplesmente aproveitaram.

Então, há algo que a civilização pode aprender com o modo de vida tribal?

Sim, acho que há algo realmente importante que as culturas caçadoras e coletoras aprenderam de que poderíamos nos beneficiar. É a ideia fundamental da insegurança. Nós negociamos uma enorme quantidade de liberdade em nossa sociedade por segurança. Esse é sempre o trade-off. É nossa incapacidade de lidar com nossa falta de controle sobre como e quando morremos, que é fundamentalmente responsável por tudo isso. Então, desistimos de muita liberdade para as falsas garantias de que não vamos morrer dessa ou daquela maneira. Eu acho que podemos aprender com os caçadores-coletores que é realmente uma ilusão. Esse tipo de segurança não pode ser obtido em um sistema natural – e estamos em um sistema natural e sempre estaremos. Portanto, precisamos aceitar uma boa parte dessa instabilidade e ameaça e perigo em nossas vidas.

Parece uma venda difícil.

Sim. É absolutamente uma venda difícil. Quero dizer, você olha como as pessoas vendem carros hoje, algo assim, “Este carro não vai matar você” – eles não se importam com mais nada. Esqueça os quilômetros por litro. E olhe o que estamos dispostos a desistir neste país em termos de liberdades civis, por exemplo, apenas por causa da ameaça do terrorismo. Você não pode mudar a realidade de que o mundo é um lugar perigoso. Então, é uma ilusão pensar que podemos estar seguros. Seria muito melhor se simplesmente abandonássemos essa ilusão e dissessemos: “Eu vou morrer, eu poderia morrer a qualquer momento – agora vou continuar a aproveitar a vida”.

Eu me pergunto o quanto poderia demorar para retornarmos a essa visão de mundo? Na natureza, quando uma espécie adota uma prática insustentável, a natureza eventualmente morde de volta com uma catástrofe, como um acidente populacional. É isso o que vai levar os humanos a mudar a forma como produzem alimentos?

As pessoas sempre dizem: “Bem, se houver alguma catástrofe terrível, então aprenderemos”. Mas a catástrofe já está aqui. A África é uma catástrofe. Ásia, América Latina … Os lugares mais pobres do mundo estão constantemente experimentando essas coisas que imaginamos serem desastrosas.

Mas não na América.

Não, não na América. Até agora, estamos confortavelmente capacitados em manter isso fora da vista. É por isso que não lemos notícias internacionais neste país, é por isso que não aparece nos nossos aparelhos de televisão – porque somos capazes de manter uma espécie de negação sobre o fato de que um terço da humanidade vive com menos de um dólar um dia. Nós nos separamos. Está ao nosso redor – nós simplesmente ignoramos isso.

De que forma o Primeiro Mundo “sentirá na própria carne” os problemas que decorrem da agricultura industrial?

Eu acho que os efeitos do aquecimento global vão crescer nos próximos quinze a vinte anos. Haverá falhas generalizadas por causa do aquecimento global, isso é bem claro. E haverá  enormes mudanças climáticas e cada vez mais incêndios florestais.

Alguns podem afirmar que o capitalismo de livre mercado é a melhor maneira de criar civilizações mais igualitárias. É tentador ver o mercado livre como o reflexo societal mais próximo da “sobrevivência do mais apto” da natureza. O que você acha?

O capitalismo é um processo muito linear – nós construímos fábricas com ele. Não pensa em termos de complexidade, e certamente não aceita insegurança. Isso nos leva de volta aos fundamentos da agricultura. É um sistema de fábrica, um sistema linear. Pensamos em insumos, saídas e uma única planta de cada vez.

A natureza não funciona assim. A promessa da natureza é algo chamado de “excesso de rendimento”, sendo o todo maior que a soma de suas partes. É por isso que eu valorizo ​​muito os sistemas naturais. Eles trabalham em combinação com muitas coisas diferentes, e quando essas coisas estão juntas e finamente sintonizadas, elas tendem a produzir mais do que qualquer coisa com que possamos substituí-las. Por exemplo, as pradarias fornecem seu próprio fertilizante.

A co-evolução traz soluções para os problemas que são muito melhores do que o que podemos encontrar. Então, dessa forma, é diferente do que concebemos a partir do capitalismo.

Você escreve que as soluções para os problemas da agricultura industrial não virão do governo, já que a própria idéia de governo brotou das civilizações agrícolas. Existem maneiras de aplicar nossa compreensão da natureza à sociedade atual?

Bem, existem algumas coisas esperançosas lá fora. Já estamos começando a acomodar nossa compreensão da natureza na tecnologia da informação. Quando começamos a brincar com coisas como a inteligência artificial, por exemplo, sabemos que temos que lidar com a complexidade e que temos que projetar esses sistemas orgânicos que se parecem com a natureza.

Mas os grandes passos provêm da compreensão do genoma. Isso nos dá uma incrível apreciação da natureza, e também a capacidade de aproveitar a produtividade da natureza de maneiras únicas.

Tipo, como?

Por exemplo, quando você vai à sua loja local de alimentos saudáveis, você vê dois tipos de beterraba – dourados e listrados. Isso aconteceu porque algumas pessoas estavam observando alguns parentes selvagens e mutações naturais em beterraba, e descobriram que havia dois genes que criavam a cor vermelha nas beterrabas e se trocavam de um lado para o outro (não usando engenharia genética, mas um simples “knock-out“), ela se tornava listrada. Acontece que esta variação codifica um produto químico chamado betalin, que é um agente de combate ao câncer. Então, ao entender a manipulação desse gene, e ao colocar mais betalin na beterraba, eles aumentaram a capacidade de combater câncer. Se olharmos mais em culturas “esquecidas” e também em parentes selvagens de culturas, todos esses pigmentos são codificados em genes. E esses genes têm muitas capacidades de combate à doença que criamos fora de nossas plantas. Nós podemos trazer esses de volta às nossas colheitas com bastante facilidade e rapidez com a tecnologia que temos.

Ao mesmo custo para o consumidor?

Sim, absolutamente o mesmo. O criador que conheço que fez isso em Wisconsin diz que é tão fácil que ele não precisa lidar com companhias de sementes. No “velho mundo” você tinha que trabalhar com empresas de sementes, e a empresa de sementes tinha que recuperar seu investimento – portanto, as coisas eram caras. Mas ele pode fazê-lo muito rapidamente, liberá-lo para os agricultores orgânicos, e depois continuar crescendo, e é uma semente grátis.

Isso é interessante. Acho que a minha primeira reação sempre que ouço sobre manipulações da natureza é negativa. No seu livro, você ressalta que mesmo algo tão básico quanto o uso do fogo – algo que as sociedades tribais fizeram e ainda fazem – é uma manipulação da natureza. E aqui você parece estar pressionando por mais manipulação.

Eles são apenas manipulações mais sábias. Um dos princípios fundamentais aqui é que essas manipulações não são guiadas tanto por nossa imaginação como pelo que existia antes – a sabedoria coletiva da natureza. Então, estamos voltando e olhando para os genes mais amplos e complexos que ignoramos antes e dizendo: “O que há aqui que não sabíamos?” O princípio aqui é a humildade. Não somos capazes de imaginar as soluções definitivas: temos que ver o que a natureza já imaginou e imitar isso.

As soluções de que você fala parecem ter muito a ver com agricultura orgânica e alternativa. Isso é bom para o hipster em Manhattan, que pode pagar toda a loja de alimentos, ou o fazendeiro em Minnesota, que pode cultivar milho orgânico em solo fértil, e quanto a quem vive na pobreza? Em seu livro, você desenvolve a crônica da opressão dos pobres pelas civilizações agrícolas. Que esperança existe para eles agora?

Eu conheço um projeto na Índia, que é um caso interessante porque a Índia, como a maioria dos países pobres, é tão fortemente dependente do arroz. Mas na Índia, verifica-se que os mais pobres dos pobres dependem do arroz seco. É um tipo de conceito estranho; Não é irrigado. Algo como 40 por cento da área terrestre dada ao arroz no mundo é arroz seco. Os pobres dependem disso por um motivo: eles não podem pagar as melhores terras, não podem pagar a irrigação, de modo que eles se aproximam das coisas muito marginais, e há milhares de anos.

Claro, a ciência nos últimos trinta ou quarenta anos tem procurado intensamente o arroz irrigado, porque esse arroz oferece mais lucro. Mas há alguns pesquisadores em Bangalore, na Índia, que vem coletando as variedades locais de arroz seco que as pessoas crescem nas comunidades pobres. Em seguida, compararam-nos contra as melhores variedades “melhoradas” do melhor da ciência, e descobriram que as variedades locais eram melhores. Elas sempre floresceram – não importa o quão ruim as condições – e elas tinham certos valores nutricionais que as outras variedades não possuíam.

Então eles estão catalogando os genomas de todas essas variedades selvagens e criando essas variedades com as melhores características em uma variedade de arroz que, embora muito próximo das locais, também possui algumas das capacidades resistentes a doenças e resistentes a insetos das variedades melhoradas. Em outras palavras, eles estão fazendo uma variedade “super local”. E então eles estão devolvendo para essas pessoas pobres de graça. É um caso interessante em que as pessoas estão pensando em maneiras de usar a tecnologia para intervir a favor dos pobres.

Mas melhorar o rendimento apenas criando mais alimentos, o que, por sua vez, não cria mais pessoas?

Essa é uma questão fascinante – se você olhar para o crescimento da população no mundo, ocorre não apenas nos lugares mais agrícolas do globo, mas também nos lugares mais pobres. O crescimento populacional está ficando louco em lugares como Índia, África e Sudeste Asiático. Você precisa encontrar maneiras de acelerar a renda dos mais pobres apenas um pouco, porque o registro é muito claro que, se pudermos melhorar sua renda, sua taxa de natalidade diminui drasticamente. Eu vi isso. Eu estava em uma aldeia no México, onde um fazendeiro estava fazendo algo como 15 por cento mais do que seu vizinho, e ele tinha dois filhos enquanto o vizinho tinha treze. Isso é muito comum no mundo em desenvolvimento. A taxa de natalidade está mais intimamente relacionada com o rendimento da família – e isso é verdade em todo o mundo. Quanto melhor for sua renda, menos crianças você tende a ter. A educação também é importante, especialmente entre as mulheres. Se você pode educar as mulheres, então o controle de natalidade entra em jogo muito mais facilmente, e elas têm opções para se exercitar. Uma boa agricultura é extremamente importante para que isso aconteça – mas não a agricultura industrial, o que apenas piora. Se pudermos intervir, temos que entender que, se cultivarmos bem a agricultura, melhoraremos a vida. Mas se o fizermos mal, vamos piorar.