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Diretas Já 28/05/2017

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Querem escolher o “povo” que vai votar na indiretas. Mas em Copacabana a opinião de 150 mil é divergente. Preferem as diretas.

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Os truques dos jornais na cobertura das Diretas Já em Copacabana

Escrito por , Postado em Luis Edmundo Araujo

Foto: Mídia Ninja

Com a exceção do vetusto, encarquilhado e, cá entre nós, já meio  esclerosado Estado de São Paulo, os outros dois maiores jornais do País registraram, sim, a noite histórica de ontem na Praia de Copacabana. Mas do jeito deles, lógico.

O Globo deu na capa a foto fechada de Caetano Veloso e Milton Nascimento, no palco, sem povo nem menção às Diretas Já no título em que, simplesmente, “MPB pede renúncia”. O título, aliás, saiu bem pequeno na primeira página, ao lado da foto dos dois artistas e embaixo do que realmente interessa para o jornal, exposto na manchete: “Crise faz governo traçar plano B para reforma”.

A Folha de São Paulo, ao contrário do concorrente carioca, deu a foto de Copacabana no alto de sua capa. Curiosamente, no entanto, a Folha não optou por nenhuma imagem como a que ilustra esse texto, do auge manifestação.

Um mar de gente calculado em mais de 100 mil pessoas se reuniu no fim da tarde, início da noite, para o show de Caetano, Milton e cia. A Folha, porém, escolheu uma foto tirada bem mais cedo na Praia, por Pablo Jacob (Globo), quando havia ainda espaços vazios à frente do palco e a concentração de bandeiras e balões vermelhos da CUT.

Em sua única página interna sobre o ato, o Globo estampou foto da mesma sequência do mesmo fotógrafo, só que mais fechada, com a informação na legenda de que “parte do público disputou selfies com artistas”.

E assim, unida à gélida cobertura que o ato histórico de ontem em Copacabana recebeu das emissoras de tevê, a grande mídia segue enganando os de sempre e sendo destrinchada, e rejeitada, por cada vez mais gente.

O Cafezinho

Os dias eram assim

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“Assim como a criança repete as palavras da mãe, e os mais jovens repetem as maneiras grosseiras dos mais velhos que os submetem, assim o alto-falante gigantesco da cultura industrial, berrando através da recreação comercializada e dos anúncios populares – que cada vez menos se distinguem uns dos outros – replicam infinitamente a superfície da realidade. Todos os engenhosos artifícios da indústria de diversão reproduzem continuamente cenas banais da vida, que são ilusórias, contudo, pois a exatidão técnica da reprodução mascara a falsificação do conteúdo.

Essa reprodução nada tem em comum com a grande arte realista, que retrata a realidade a fim de julgá-la. A moderna cultura de massas, embora sugando livremente cediços valores culturais, glorifica o mundo como ele é. Os filmes, o rádio, as biografias e os romances populares têm todos o mesmo refrão: esta é a nossa trilha, a rota do que é grande e do que pretende ser grande – esta é a realidade como ela é, como deve ser, e será.” (Panacéias em conflito, Horkheimer: 1976, p.69)

[…]

“Os produtos da indústria cultural podem ter a certeza de que até mesmo os distraídos vão consumi-los alertamente. Cada qual é um modelo da gigantesca maquinaria econômica que, desde o início, não dá folga a ninguém, tanto no trabalho, quanto no descanso, que tanto se assemelha ao trabalho. É possível depreender de qualquer filme sonoro, de qualquer emissão de rádio, o impacto que não se poderia atribuir a nenhum deles isoladamente, mas só a todos em conjunto na sociedade. Inevitavelmente, cada manifestação da indústria cultural reproduz as pessoas tais como as modelou a indústria em seu todo” (Adorno & Horkheimer: 2006, p. 105).

Tecnologia e dominação ideológica na Escola de Frankfurt

A Globo brande o título de sua série como uma corroboração. “Os dias eram assim”. Ou seria melhor “Os dias eram assim mesmo”? Não poderiam ter sido diferentes aqueles dias. O passado congelado e, tal como gravado na pedra, não pode ser mudado. Mas de sua pétrea perspectiva lança um anátema ao presente e aos futuro. Sem tocar no que poderia ter sido ou desejado mostra uma banalização lateral ao principal tema de uma ditadura: tornar a vida bem estreita, como um tapa olho das bestas, os antolhos, para ver o mundo só em uma direção, que interessa aos que querem fazer da sua dominação a única opção. E naturalizá-la. Impingida e fragilizante da vida que se quer como algo além da sobrevivência.

Darcy Ribeiro e Rubem Alves (Debate sobre Utopia)

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Muitas vezes, em meio a uma conversa, em qualquer esfera de diálogo sobre política e transformação social, chega-se a importuna necessidade de se “debater” sobre a utopia. Utopia é um termo moderno que no entendimento contemporâneo comum significa “não-lugar” ou “lugar inalcançável”. Geralmente este termo é empregado em dois sentidos distintos.

De forma pejorativa, os realistas[1] para utilizar o termo ‘utopia’ como sinônimo de impossível, uma condição ou situação que, estando além de qualquer alcance, precisa ser abandonada em nome de algo mais palpável no alcance da situação.

Utopia, geralmente entre a esquerda, é também um termo utilizado no sentido de horizonte imaginativo, de postulados orientadores da prática, este lugar, ainda que inalcançável serve de marco de orientação e ideal a ser buscado na caminhada. E aqui, talvez, a referência máxima é a famosa colocação de Eduardo Galeano:

«Utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminha jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso, para que eu não deixe de caminhar.»

Inalcançável é a qualidade mais pungente de ambas as leituras que marcam o entendimento do termo “utopia”. Realista ou não, ele exige que aceitemos que o que buscamos está permanentemente fora do nosso alcance, como a eternidade ou as estrelas do céu.

Mas, antes destes entendimentos, Utopia – tal qual foi utilizada por Tomas Morus no livro homônimo de 1516 – foi um neologismo criado por este autor para denominar uma nova ilha, espaço de existência da sociedade ficcional que imaginou. E é através desta ficção e de sua comparação com a “realidade”, que Morus sugere como a política, a religião e os costumes poderiam ser. Morus tinha perfeito conhecimento de que em sua composição ‘Utopia’ do grego possuía outro significado além daquele que conhecemos hoje. “Utopia” deriva das palavras gregas ‘eu'(ευ), “bom”, ou (οὐ), “não”, e topos (τόπος), “lugar”. Em inglês e em francês existe uma confusão no que se refere à pronúncia do ‘eu’ e ‘ou’, tendo este último difícil sonoridade.[2]

A intenção de Morus ao propor o termo “Utopia” estava voltada para o sentido de “bom lugar”, e não o sentido de “lugar inalcançável” ou “não lugar”. O próprio autor afirmou isso num adendo do livro, o nome correto da ilha seria Eutopia, que traduz como o “lugar da felicidade.[3] Portanto, utopia originalmente tem o sentido de “bom lugar”, ou “local da felicidade”.

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Halvening do BitCoin

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Er ist wieder da (Ele está de volta)

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No filme A sombra do vampiro um ator encarna o personagem de tal forma que paira a dúvida. Não se pode acreditar que é um vampiro e ao mesmo tempo acreditar que vampiros não existem.

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Hitler não existe mais. Morreu em seu bunker. Mas vive em cada facista obrigado a se esconder  sob a máscara de um democrata. No filme “Ele está de volta“, baseado no livro de  Timur Vermes, Hitler é visto como um ator histriônico. É confundido com os personagens de atores que o encarnaram. A comédia suplanta a tragédia. E é mais séria do que ela. Antes foram os judeus. Agora temos os árabes e os imigrantes em geral no processo de colonização reversa da Europa. Hitler ainda tem material para compor a sua sinfonia macabra. Para construir o seu “piano”. E tocar e manipular as teclas que representam o povo. Seu volks. Inclusive as teclas pretas, como afirma no filme. E a TV é sua grande arma de “propaganda”. Vendo a TV vomitando “lixo” Hitler, no filme, vê uma grande oportunidade. Parece visionário mas é apenas uma constatação. Uma vidência do passado.

O século XXI recepciona o fascismo de braços abertos. Não como uma piada macabra. Não como um farsa. Seriamente. No Brasil testemunhamos seu espectro. A TV, citada no filme já vomita seu lixo fascista diuturnamente, e não é no mundo da ficção. A Europa acuada se refugia dos refugiados que ela mesma engendrou com seu colonialismo que abandonou carcaças para trás. Os EEUU ressuscitará a sua invenção. A eugenia. A maré geopolítica, abraçada com o que há de mais negro das entranhas do século XX, o totalitarismo, quer tragar tudo para o bem dos novos estados: as irmãs do ouro negro.

A violência contida extravasa, de modo preocupante, durante a filmagem, conforme a citação abaixo:

Uma mulher confessa a Hitler que todos os problemas da Alemanha estão com a chegada de estrangeiros. Outro homem diz que a chegada de imigrantes africanos está rebaixando o QI do alemão em 20%. E em uma cena particularmente preocupante, Hitler facilmente convence um grupo de torcedores de futebol a atacar um ator que fazia comentários anti-alemães. Para o diretor, a produção não esperava que o Hitler de Masucci convencesse tão rapidamente aquele grupo, colocando em risco a vida do ator e obrigando técnicos e câmeras intervirem imediatamente.

Em “Ele Está de Volta” o século XXI recebe Hitler de braços abertos

O mal é banal.

[Atualização] Li também o livro. Acho que este é, talvez, um caso raro de que o filme supera o livro. No livro você é levado bastante para dentro da cabeça do Hitler “ressucitado”. Mas no filme, embora haja disto também, o visual expõe melhor o nazismo como uma peça de “propaganda” que ele é. Eles inventaram isto. E estamos acostumados com isto. É o seu maior legado. E com isso não o estranhamos devidamente como deveríamos.

[Atualização] Lendo o livro Auto-engano do Giannetti descobri que Goebbels é o autor da metáfora do “povo-piano”:

Con­si­de­re, por exem­plo, o la­bi­rin­to de en­ga­nos da­que­la que foi tal­vez a mais te­ne­bro­sa ex­pe­ri­ên­cia co­le­ti­va até hoje vi­vi­da por uma co­mu­ni­da­de hu­ma­na — o na­zis­mo ale­mão. En­quan­to Hi­tler con­fi­den­ci­a­va a um co­la­bo­ra­dor ín­ti­mo o seu “es­pe­ci­al pra­zer se­cre­to de ver como as pes­so­as ao nos­so re­dor não con­se­guem per­ce­ber o que está re­al­men­te acon­te­cen­do a elas”, o me­fis­to­fé­li­co Go­eb­bels, mi­nis­tro da Cul­tu­ra do Rei­ch, jac­ta­va-se de de­di­lhar na psi­que do povo ale­mão “como num pi­a­no”.

Auto-engano, Giannetti

E mais adiante, no mesmo livro, Giannetti fala da composição parcelar que engendra o movimentos das massas em apoio aos delírios totalitários salvacionistas:

O todo pode ser igual, mai­or ou me­nor que a soma das par­tes; mas ele é in­con­ce­bí­vel sem elas. O co­le­ti­vo não exis­te por si: ele é a re­sul­tan­te agre­ga­da — mui­tas ve­zes com pro­pri­e­da­des no­vas — da in­te­ra­ção en­tre um gran­de nú­me­ro de gru­pos me­no­res e in­di­ví­duos. O auto-en­ga­no co­le­ti­vo de gran­des pro­por­ções, como a In­qui­si­ção ibé­ri­ca, o na­zis­mo e o co­mu­nis­mo so­vi­é­ti­co, é a sín­te­se de uma mi­rí­a­de de auto-en­ga­nos in­di­vi­du­ais sin­cro­ni­za­dos en­tre si. O de­lí­rio do todo é o re­sul­ta­do da con­flu­ên­cia dos de­lí­ri­os das par­tes. É no mi­cro­cos­mo do in­di­ví­duo que en­con­tra­mos o ber­ço e o lo­cus do re­per­tó­rio do auto-en­ga­no em sua es­pan­to­sa di­ver­si­da­de.

Auto-engano, Giannetti

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Complô contra o Brasil

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Phillip Roth escreveu o livro Complô contra a América onde, qual num labirinto de Borges, a história se bifurca na sua ficção e nos coloca, mesmo vivendo em uma das vias, espectadores de um plausível cenário de evolução da política nos EUA. para configurar um estado totalitário. O ovo da serpente nos EUA poderia ter eclodido facilmente bastando lembrar que uma das inspirações para o holocausto nazista foi fermentada na eugenia, uma teoria racista popularizada nos Estados Unidos.

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O Brasil encontra-se atualmente em uma situação de não ter uma escolha diante da bifurcação do atual labirinto político.

 

 

 

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Michel Temer é o nosso Charles Lindbergh sem nunca ter sido um herói para os brasileiros.

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Temer e o grupo que representa poderá nos levar para uma Idade Média de escuridão num passo atrás assombroso para dentro do labirinto sem que nenhum fio de Ariadne nos possa guiar para a saída, mesmo que vençamos o Minotauro plantado nas profundezas.

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Teremos que rolar a pedra, como Sísifo, montanha acima mais uma vez?

O Brasil está incluído na agenda neoliberal para a nova ordem mundial. A guerra híbrida é um de seus instrumentos.

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E o componente principal é a manipulação dos corações e mentes. Principalmente da classe média que vem sofrendo o mantra encantantório da “mágica do mercado” e que se considera excluída do paraíso que não comporta, segundo ela, “a classe operária”. A sanha do lucro fácil já vem engendrando “marianas”, potencialmente uma tendência nefasta do desprezo ao meio ambiente. Qual um vício que não suporta um pulmão sem fumaça torna tóxico tudo que toca.

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Para complicar uma guerra nuclear, hipótese que parecia descartada pelo “fim da guerra fria”, parece não estar fora de questão atualmente segundo alguns analistas geopolíticos. Vislumbra-se “uma continuação da guerra híbrida por outros meios”. O culto à bomba, uma seita que não desapareceu, fará os vivos, se houver, invejarem os mortos.

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O culto à bomba talvez nos transforme em escravos de gorilas no curto prazo da barbárie que vai se instalar. Os darwinistas sociais, dos seus bunkers atômicos, comemorarão com o seu estoque de champanha.

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“O macaco é nossa essência!”, dirão fagueiros.

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Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A antirrosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.

Vinicius

O alienista

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Não. Não é sobre Machado de Assis. O título deste post coincide com a obra do “bruxo” que eu admiro muito. Teria muito que comentar sobre esta obra em particular. Falar sobre minhas percepções sobre ela. Mas fica, talvez, para depois. Um texto muito bom (abaixo) , inspirado na obra citada, despontou recentemente.

Itaguahy é aqui e agora, diria talvez Machado de Assis, ao observar o ponto ao qual chegamos. Ao inventar Simão Bacamarte, o protagonista de “O alienista”, Machado mobilizou sem dúvida referências diversas, tanto literárias quanto políticas. Parece certo que se inspirou também em personagens históricas concretas, ou em situações de sua época que produziam tais personagens.

Na década de 1880, habitante da Corte imperial, ele assistia havia décadas à ciranda infindável de epidemias de febre amarela, varíola, cólera, etc. e a luta inglória dos governos contra tais flagelos.

O pior da experiência era que o fracasso contínuo das políticas de saúde pública, ou da higiene pública, como se dizia com mais frequência, provocava, paradoxalmente, o aumento do poder de médicos higienistas e engenheiros. Esses profissionais se encastelavam no poder público munidos da “ciência” e da técnica que poderiam renovar o espaço urbano de modo radical e “sanear” a sociedade.

Demoliam-se casas populares, expulsavam-se moradores de certas regiões, reprimiam-se modos de vida tradicionais, regulava-se muita cousa sob o manto do burocratismo cientificista. E as epidemias continuavam.

Machado de Assis refere-se a esse quadro como “despotismo científico”, em “O alienista” mesmo, ao descrever “o terror” que tomara conta de Itaguahy diante das ações de Bacamarte. Havia inspetor de higiene e engenheiro da fiscalização sanitária a agir com convicção de Messias, cheios de autoridade, inebriados de seus pequenos poderes.

Simão Bacamarte, portanto, é desenhado d’après nature, para usar a expressão daquele tempo meio afrancesado, por mais caricatural que a personagem possa parecer. A arte imita a vida, segundo Machado de Assis, quem sabe. A estória que contou é conhecida por todos, talvez uma das referências intelectuais clássicas mais compartilhadas nesta nossa república da bruzundanga.

Por isso é uma estória boa para pensar a nossa condição coletiva, Brasil, março de 2016. Bacamarte queria estabelecer de maneira objetiva e irrefutável os limites entre razão e loucura. Conseguiu amplos poderes da câmara municipal, dinheiro para construir a Casa Verde, seu hospício de alienados, e passou a atuar como que ungido por suas convicções científicas.

Ao contrário do que imaginara inicialmente, encontrou uma diversidade assombrosa de loucos. Se o eram mesmo, continuam conosco, como os impagáveis loucos “ferozes”, definidos apenas como sujeitos grotescos que se levavam muito a sério. A galeria de loucos que tinha a mania das grandezas é quiçá a mais relevante em nossa situação atual. Havia o cara que passava o dia narrando a própria genealogia para as paredes, aquele pé rapado que se imaginava mordomo do rei, e outro, chamado João de Deus, propalava que era o deus João.

O deus João prometia o reino do céu a quem o adorasse, e as penas do inferno aos outros. Ainda hoje em dia Simão Bacamarte acharia material humano de sobra para encher a Casa Verde. Se ampliasse a pesquisa para a internet, ele teria de investigar a hipótese de a loucura engolfar o planeta inteiro.

Afinal, segundo ele, “a razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, insânia, e só insânia”. Ou talvez não. Se Bacamarte lesse e visse a grande mídia brasileira, é possível que concebesse um conceito mais circunscrito de alienação mental. Sem a cacofonia virtual estaríamos expostos apenas à monomania de uns poucos, e a diversidade de opiniões é sacrossanta nesta nossa hora. Bendita internet.

O messianismo cientificista de Bacamarte se foi. Mas o curioso é que a ficção dele criou raízes na história brasileira, virou realidade. Muitos dentre nós, de cabelo bem grisalho ou até nem tanto, lembrarão da situação do país no final dos anos 1980 e no início da década seguinte, a viver a passagem sem ponte da ditadura para a hiperinflação.

Em retrospecto, penso que havia um quê de continuação da ditadura naqueles planos econômicos todos que produziram até uma nova caricatura de Messias, o caçador de Marajás. Agora a população não era mais culpada de viver na imundície e nos maus costumes, a causar epidemias de febre amarela.

No entanto, estava inoculada pelo vírus da cultura inflacionária. Daí vieram os czares da Economia ou ministros da Fazenda, ou que nome tivesse aquela desgraceira. As “autoridades” daquela ciência cabalística confiscavam poupança, congelavam preços, nomeavam “fiscais” populares dos abusos econômicos, podiam fazer o que lhes desse na veneta. Mas dava errado.

A inflação voltava, os caras não acertavam. Vinha outro plano, mais confisco, mais arrocho salarial, e nada. Viveu-se assim por uma década, ou mais. Cada ministro era um pequeno deus, cujo poder tinha relação direta com a sua profunda ignorância sobre o que fazer para dar jeito na bruzundanga.

Os higienistas do final do século XIX e os economistas do final do século XX tinham muito em comum. Em algum momento, o despotismo econômico se foi. Tinha de passar, passou. Tivemos democracia por algum tempo, com todos os seus rolos, mas sem salvadores da pátria, o que era um alívio. Livres, ainda que sob a batuta do deus Mercado, uma espécie de messianismo sem Messias, ou sem endereço conhecido.
Eis que surge, leve e fagueiro, o messianismo judiciário.

De onde menos se esperava, a cousa veio. Simão Bacamarte encarnou de novo, vive-se a história como a realização radical da ficção, hiper-ficção. As operações de despolitização do mundo são as mesmas –no despotismo científico do XIX, no despotismo econômico do XX, no despotismo judiciário do século XXI.

De repente, num processo que historiadores decerto explicarão no futuro, com a pachorra e a paciência daqueles que não vivem o presente às tontas, pois não sabem esquecer o passado, um determinado poder da república se emancipa dos outros, se desgarra, engole tudo à sua volta. Em nome da imparcialidade, da equidade, da prerrogativa do conhecimento (tudo igualzinho aos higienistas e aos economistas de outrora), eles provincializam a nação inteira, e negam, a cada passo, o que professam em suas perorações retóricas: agem de forma partidarizada, perseguem determinados indivíduos e organizações, transformam a sua profunda ignorância histórica num poder avassalador.

Todos sabemos como terminou a estória de Simão Bacamarte. Depois de testar tantas hipóteses, de achar que a loucura poderia quiçá abarcar a humanidade inteira, ele concluiu que o único exemplar da espécie em perfeito equilíbrio de suas faculdades mentais era ele próprio.

Por conseguinte, o anormal era ele, alienado só podia ser quem não tinha desequilíbrio algum em suas faculdades mentais. Bacamarte trancou-se na Casa Verde para pesquisar a si próprio e lá morreu alguns meses depois. Pode ser que haja aí um bom exemplo. Alguém saberia dizer, por favor, onde Machado de Assis deixou a chave da Casa Verde?

Sidney Chalhoub