Exquerda

Este post é uma adaptação de um comentário no DE de 13/5/2019 com enxertos de outros.

Há alguma coisas estranhas acontecendo quando começamos a ver uma esquerda que se diz mais autêntica esbravejar e mimetizar um discurso que nos levou para o “buraco negro altamente massivo.” que nos atrai cada vez mais para o vórtice do abandono do discurso de esquerda. Botamos a culpa neste discurso, com razão, quando notamos que o falante é uma impostura. Devemos atacar o impostor e denunciar a sua incoerência e usurpação de algo em que ele não acredita. Isto deve ser feito contando sobre as suas verdadeiras ações. É mais fácil denunciar a ações do que fazer uma batalha semi-ótica de antemão já perdida. Posso estar enganado mas uma “deriva” para a direita, em função de uma “adaptação à realidade”, se parece com o que acontece, e já foi diagnosticado em algum lugar, com a esquerda em geral no mundo. Parece até que estão “jogando a toalha”. E o povo é sempre o culpado. Eu digo como Dostoievsky, parafraseando: “Se alguém me provar que a esquerda está fora da verdade, e que na realidade a verdade está fora da esquerda, então eu preferiria ficar com a esquerda a ficar com a verdade.” (Ver a frase correta na Wikipedia).

Miniatura

Mas antes que me entendam mal falo de uma esquerda que estuda e contrói um discurso coerente e sem ilusões.

Quero complementar que embora eu tenha extrema simpatia pelo PDT, sigla fruto do roubo da sigla PTB por Ivete Vargas, como me lembro que era nos tempos do Darcy Ribeiro e do Brizola não é o caso do atual PDT que pare uma Tábata “RenovaBR” Amaral e um Ciro “Mangabeira Unger” Gomes.

Andei pensando que precisamos de um nome melhor para a esquerda. Não um novo nome para esquerda de verdade, socialista e revolucionária, mas para a atual esquerda pequeno-burguesa usurpadora do que significa ser de esquerda e completamente despreparada para um práxis de ruptura. Alguns apelidos ela já tem. Gosto de chamá-la de “exquerda”. Há outros nome e adjetivos com “cirandeira” e “identitária”. Mas falta um epíteto “arrasador”, diríamos.

Mas não podemos abandonar a coerência do discurso de esquerda em nome de adaptações eleitoreiras. É claro que também não estou falando de um discurso teórico autista que não atinge o papel de esclarecer a condição objetiva de expoliação. Por não acreditar que o povo compreenda. Uma ignorância muito mais real e maior do que aquela que tentam “colar” no povo. Dizer que o povo é a favor de algumas teses da direita é não saber a diferença entre os verbos “ser” e “estar”. É esquecer que o povo está como está através de intensa propaganda da direita. Muitas vezes subliminar. E é também fruto de um descaso da esquerda com a propaganda. Talvez por associar propaganda com publicidade enganosa ou por desprezá-la pela associação com o Goebbels nazista.

Miniatura

Por mais que, como Magritte, digamos “isto não é um cachimbo” não podemos esquecer do cachimbo real que entorta a boca. De tanto mimetizar o discurso da direita nada garante que este “cachimbo” pesado e tétrico não irá também moldar as mentes. Tal como um “novilíngua” que encerrará numa camisa de força uma esquerda que não sabe mais elevar os anseios do povo à um patamar exequível. Isto é uma pura charlatanice. Talvez devêssemos cunhar o termo “esquerda charlatã”, rimando com a tal “esquerda cidadã ulysseana”, como o buscado epíteto “arrasador” para esta “nova” esquerda.

O “ad hominem” contra o Foucault de uma esquerda que, com razão, reclama da sua ala identitária precisa de melhores explicações. Se não fica parecido com alguns ataques da direita ao Karl Marx, Engel, Gramsci, Rosa Luxemburgo etc, taxando os de irrelevantes ou totalmente errados. Mesmo subscrevendo algumas crítcas do Marshal Sahlins ao Foucault em Esperando Foucault, ainda não acho que se deveria desancá-lo sem dizer porque.

O fato de São Gonçalo (contíguo de Niterói-RJ) e outro lugares, que antes votavam na esquerda, terem votado agora na direita, excetuando-se a hipótese de fraude maciça, mostra o grau de despolitização da população ou de uma politização míope sem vistas para o médio e longo prazo. Despolitização causada pelo descaso da esquerda com o assunto. Alguém poderia, equivocadamente, arguir que há uma politização desfavoravél â esquerda. Mas isto não se coaduna com as medidas favoráveis a despolitização que a direita sempre toma.

Compreendo. E concordo que rotular de direita e esquerda apenas para separar ‘nós os bons” de “vocês os maus” é uma avaliação moral, moralista, patrulheira e muito limitada.

Nisso me filio a Nietzsche no seu imoralismo.

Penso que o uso de direita e esquerda como categorias político-sociológicas com objetivo de comunicação é sempre válido, ou ainda é. Creio que, apesar de alguma nebulosidade e validade de uma crítica que acuse o defeito do conceito esquerda-direita ser linear enquanto que as coisas poderiam ser colocadas num plano, geometricamente falando, é uma ferramenta que também carrega uma certa clareza e poder classificatório inicial para um começo de discussão das nuances.

Negar o valor do uso de uma ferramenta que tem sido valiosa na discussão política moderna é querer uma novilíngua e um ministério da verdade que desapareça com as palavras para inibir o pensamento.

A dicotomia reacionário-revolucionário pode ser esvaziada da mesma forma. Qualquer par de conceito pode ser acusado de maniqueísmo. Ying-Yang, positivo-negativo, bom-mau, bem-mal. Discutir o ser e o devir para realçar a deriva das opiniões ao sabor das influências é importante. Que tudo se move. E que por isso não se deveria congelar ninguém num rótulo simplificador. Com tudo isso eu concordo. Mas tem que se adequar ao contexto em cada momento. Como acontece com alguém que, equivocadamente, segundo algumas opiniões, acusa Nietzsche de misoginia com base em alguns de seus aforismas, sem conhecer bem as sua obra e como ele usa a mulher como um tipo e um tipo do “fraco”, embora haja mulheres fortes. Nesse momento é preciso o contexto de toda a obra de Nietzsche para não resvalar no equívoco. Nietzsche é fácil de ler mas nem tanto de entender. Nietzsche fala de tipos psicológicos também quando fala do Cristo.

A citação bíblica “Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente; quem dera foras frio ou quente! Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.” mostra que o uso de categorias aparentemente simplistas escondem uma riqueza que é desvelada pelo entendimento do contexto. Para um crente significa uma admoestação aos que titubeiam na fé. Para o contexto da nossa discussão que reivindicar as nuances é uma forma de buscar o amornamento e apaziguamento desvalorizando de forma radical as bases imaginadas. É chamar para o ‘jogo de tênis’ em lugar do ‘frescobol’.

Miniatura

É comum que se responda à frase “nem esquerda, nem direita” com o adágio: “mostre-me alguém que não acredita em esquerda e direita, e eu lhe mostrarei alguém de direita”. 

[…]

O uso de “nem esquerda, nem direita” é perigoso, portanto, porque um de seus sentidos – o principal – consiste em negar a existência de divisões. Se eu e meu adversário usamos a mesma frase, mas ele tem mais poder que eu para definir seu sentido, é hora de eu começar a usar outras.

(Orango Quango)

Respondendo àqueles que dizem que “a cultura capitalista e religiosa e patriarcal que a torna individualista, conservadora e refratária a muitas teses da esquerda” é a causa de o povo estar num estado de inação pergunto: “Não é uma espécie de propaganda que permeia nossa cultura e sistema educacional? Que conseguimos desviar do seu viés como muito esforço e vigilância ao longo da vida? E isso somente se não paramos de estudar e/ou não congelamos nossa mente em estados anteriores oriundos de nossa defeituosa educação? E como a maioria do povo que mal consegue sobreviver pode fazer o mesmo trajeto a não ser pelo contato com essa “insurreição” educacional?” Não fazer propaganda no sentido de doutrinação mas para mostrar que há outras perspectivas e deixar também o povo “filosofar” é a tarefa descomunal, dado o tempo perdido, e inarredável.

E a ruptura não significa destruição pura e simples. Ruptura com o capitalismo significa destruição do capitalismo mas não destruição da cultura ou das inovações realmente úteis e socializáveis conquistadas no trajeto do próprio capitalismo, mas que não podemos esquecer que são frutos de um trabalhador coletivo, que inclui o próprio capitalista, mas que não deve ser pensado como um contribuidor mais privilegiado ou importante pois só é visto assim porque está no seu meio e regime que o privilegia artificialmente. O capitalismo é novo e já se mostrou muito limitado. Não acredito mesmo no “fim da história” ou mesmo “num fim da história”.

Não podemos deixar de concordar que a corrupção é constitutiva do capitalismo. É um aspecto menor da fundamental corrupção na base enganosa da transformação do trabalho em mercadoria. E uma mercadoria que nega o seu fundamento ao ser comprada não por um valor maior do que o da sua reprodução pois é comprada por um valor menor com raras exceções. Mas esperar o capitalismo atingir seu ápice, com querem alguns reformistas de plantão, é uma tarefa inglória e de difícil diagnóstico porque o capitalismo é uma montanha russa em eterno vai e vem entre crises. As crises é que o sustentam. E lhe são benéficas porque são uma espécie de mecanismo de controle. Quando vai em direção ao “ápice” coopta os trabalhadores, que são os que promovem a prosperidade, deixando escorregar para baixo um parcela não prejudicial da abundância. Quando o vagão da montanha russa começa a descer, nas periódicas e inexoráveis crises, mantém os trabalhadores reféns por ter-lhes negado autonomia como parte da estratégia de dominação. Então penso que acirrar as crises do capitalismo em direção a uma ruptura é a melhor direção pois quando o vagão começa a subir a vertigem e o desconforto passam fazendo extinguir a luta. A oportunidade está na crise. A crise é uma oportunidade. Porque a crise do capitalismo é a oportunidade dos trabalhadores romperem com a exploração. Traumático mas inevitável.

Criar expectativas de que a ruptura é uma boa estratégia tem argumentos a favor embora reconheçamos as dificuldades.

A divisão do trabalho que os capitalistas engendram para organizar a produção é também útil para a divisão dos trabalhadores. Hoje temos operários, classe média especializada, precariado e terceiro setor etc, que dificultam uma unidade. É preciso um trabalho muito eficaz para organizar tudo isso.

Aos que dizem que há muito tempo que a reação popular não vem nem ela parece ter moto própria para vir sozinha podemos responder que ela nunca veio sozinha. A manifestação expontânea, quando ocorre diante de um descalabro muito grande, vem acompanhada de muita desorganização. Seria preciso haver uma certa prontidão estratégica para aproveitar as oportunidades. Uma esquerda de vanguarda, não apenas reativa, teria que estar a postos. E disposta a ser retaguarda útil caso o povo se alce para a vanguarda. E que se regozije com isto. Que não veja na ultrapassagem um retrocesso pois estaria negando o seu próprio discurso em prol da ação coletiva. A massa dos explorados é seu moto para agir mas também é seu único exército. Querer fazer a guerra somente com generais com foco em eleição e algaravia parlamentar é esquecer que, usando uma metáfora da guerra no ‘seculo XX, quem ganha a guerra é a infantaria que ocupa o território. Uma esquerda que esquece porque e por quem luta é um grupo avançado por trás das linhas inimigas que não se comunica. Isolado e inócuo.

E para aqueles que acham que não há perspectiva do povo despertar para as oportunidades de mudança nos próximos cinquenta anos e que esperam (Godot?) ainda que as crises no mundo capitalista sejam cada vez mais profundas e enseje uma substancial transformação são arautos do “fim da história’. A crise já está posta. A pressão para extrair mais dos explorados é sintoma da crise.

Uma esquerda parlamentar não está à altura de liderar uma ruptura. Cito Lênin num post quando diz:

(…) a verdadeira tarefa “governamental” é feita por detrás dos bastidores, e são os ministérios, as secretárias, os estados-maiores que a fazem. Nos parlamentos, só se faz tagarelar, com o único intuito de enganar a “plebe” [Grifos nossos]. Tanto isso é verdade que, mesmo na república burguesa democrática, todos esses pecados do parlamentarismo já se fazem sentir, antes mesmo que a república tenha conseguido criar um verdadeiro parlamento. (…)

Lênin, em O Estado e a Revolução

Uma esquerda que quer restringir a luta à arena jurídica, por achar que é técnica, isenta, e imparcial está alinhada mais com as ideias de que uma social democracia é melhor. Uma opinião um tanto colonizada e, numa contradição, se imaginando na posição dos colonizadores (antigos e indiretos nos dias de hoje).

A analogia da produção capitalista com uma montanha russa tem, como toda analogia, suas limitações próprias por ser uma abstração, não dando conta de alguns detalhes. A montanha russa foi usada para expressar o ciclo de crises gerados pela superprodução e períodos de estagnação quando o capital ocioso se torna um problema. Não serve para quem pensa que o progresso do capitalismo, numa perspectiva reformista, pode melhorar as coisas. Para quem não acredita que o capitalismo pode ser reformado a ruptura é a única possibilidade de melhoria.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s