A entrevista

Este post se baseia em comentários feito no site do Duplo Expresso em 30/4/2019.

Não endeusar nem mitificar um Lula, que é falho segundo várias opiniões, penso estar correto mas mudar a palavra de ordem de ‘Lula Livre’ para um ‘Lula Injustiçado’, por mais correto que seja o diagnóstico é do ponto de vista tático, pelo menos, um desastre. ‘Triste é o povo que precisa de heróis’ podemos concordar mas o nosso triste povo, no estágio educacional impingido pela media e ambiente cultural/educacional a que é obrigado a se submeter, infelizmente, ainda precisa de alguém que seja a sua cara, mesmo que já tenha ascendido a outros patamares, para uma mínima mobilização. Precisamos compreender que não se trata de Lula mas de uma representação mínima, mesmo que defeituosa, do povo tendo algum portal de diálogo, contato ou algum grau de desvelamento com as inacessíveis altas esferas do poder. Até para começar ver melhor que “o rei está nu”. Lula é aquele que não cabe na masmorra que lhe reservaram, é maior do que ela e exerce uma pressão imensa, a ponto de terem que permitir que extravase um pouco para reduzi-la. A entrevista é um sintoma de fraqueza do regime que controladamente abriu um pouco a válvula de escape.

Pois “Em Curitiba jaz um preso. Encerrado num pan-óptico todos o veem. Políticos, amigos, falsos amigos, religiosos, carcereiros etc. Como soe adequado a um pan-óptico todos o veem mas ele não vê ninguém. É cego, pois, como é cegado no pan-óptico o preso que é observado sem observar. Até a iluminação excessiva transforma a luz, portadora da visão, em escuridão. Luz e escuridão em excesso. Visão que se prejudica em ambas.” (O panóptico de Curitiba).

Infelizmente há “[…] [uma] “exquerda” quer fazer autocrítica pública e rever sua comunicação. Reaprender a se aproximar do povo está fora de cogitação. Há desesperados até advogando adotar a mesma estratégia usada pela extrema direita nas redes sociais e distribuir mentiras também. Com isso abandona o seu discurso crítico, tido como muito sofisticado para o povo entender. Em vez de aprender a ser mais concreto esse discurso abandona a tarefa de educar o povo politicamente e naturaliza a tese da estupidez do povo. E, assim, quer ser o espelho da direita, como se fosse um animal que não se reconhece no espelho, se tornará uma esquerda espectral, sem substância, anti-revolucionaria, reformista e reacionária mesmo.” (O animal e o espelho). Mas há também um povo, que expremido e acuado, tornando-se se uma maré bravia, pode inverter o jogo e passar a educar a esquerda para fazer o que realmente importa, salvar o seu povo porque não pode se salvar (ou safar-se, se for o caso) sozinha.

A parábola de Victor Giudice pode muito nos ensinar e vale mais que qualquer conto cristão quando lembra que “O rei mata os enxadristas mas não mata o xadrez. E eu digo isso porque a coisa aconteceu de verdade, e foi o que acabou de uma vez por todas com a Sétima Monarquia, a pior que já se viu por aqui. Felizmente não é do meu tempo, mas minha avó me contava. Perto daquele rei, o diabo era uma velha fritando peixe.” (Parábola do jogo de xadrez ).

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