Tem que prender o guri ou elimino à distância?

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Tem que prender o guri ou elimino à distância?

“Quantos eu preciso para a Rocinha? Não sei. Como você vai prevenir aquela multidão entrando e saindo de todas as 700 favelas? Tem 1,1 milhão de cariocas morando em zonas de favelas, de perigo. Desse 1,1 milhão, como saber quem é do seu time e quem é contra? Não sabe. Você vê uma criança bonitinha, de 12 anos de idade, entrando em uma escola pública, não sabe o que ela vai fazer depois da escola. É muito complicado.”

A entrevista do ministro da Justiça Torquato Jardim ao Correio Braziliense é de uma limpidez assustadora. Além de deixar claro que o governo está jogando tropas em áreas onde vivem 1,1 milhão de pessoas sem ideia do que fazer, escancara a visão do ministro sobre os moradores de favelas: todos, a princípio, são inimigos. Até as crianças bonitinhas.

E o que faz o combatente quando diante do inimigo?

O ministro esclarece: “Você está no posto, mirando a distância, na alça da mira aquele guri que já saiu quatro, cinco vezes, está com a arma e já matou uns quatro. E agora? Tem que esperar ele pegar a arma para prender em flagrante ou elimino a distância? Ele é um cidadão sob suspeita porque não está praticando o ato naquele momento ou é um combatente inimigo? Os EUA enfrentaram esse tema como um inimigo combatente.”

Não é à toa que os militares estão preocupados com a intervenção – sem projeto e sem recursos. Querem garantias de que não sofrerão processos – nem mesmo na Justiça Militar – se optarem por se comportar como o ministro sugere. Prerrogativa da qual gozavam quando o Exército Brasileiro comandava a Minustah, as tropas da ONU, no Haiti. Até hoje não se sabe quantos civis foram mortos nas operações nas favelas de Porto Príncipe mas o general Augusto Heleno, primeiro comandante da Minustah, defende que cá como lá, nem os crimes intencionais sejam punidos.

Nada muito diferente do canto de guerra do Bope, a tropa de intervenção tática da PM do Rio que matou 65 pessoas em apenas 8 meses no ano passado. “Homem de preto qual é sua missão? Entrar pela favela e deixar corpos no chão”.

Marina Amaral, co-diretora da Agência Pública

A lógica de combate permeia a tentativa canhestra, concedo, e talvez mal intencionada, desconfio beirando à certeza, da intervenção militar no Rio. Num combate, numa guerra moderna, elimino o inimigo em reação a uma sua iniciativa ou, preventivamente, atiro num soldado que mostrou onde se encontrava pela brasa do cigarro. É uma guerra e soldados estão engajados mesmo quando de folga. Mas a menos que consideremos a população como inimiga não faz sentido matar preventivamente. Numa sociedade civil todos são inocentes até prova em contrário. Podem rir… Sabemos que no Brasil os tempos são outros. Mas continua o Estado de Direito como uma referência. A barbárie do Estado é justificada por uma barbárie em que a população é considerada culpada ou conivente apesar de sofrer mais com a violência e não ter nenhum interesse nela. Mas temem uma violência fruto da revolta e querem deter esta como se estivessem detendo a outra.

O mapa e a análise encontrada no artigo O crime que você vê por aqui mostra bem as distorções na percepção do papel do crime (des)organizado no Rio.

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Tudo isso se dá num caldo que tem o medo como ingrediente principal.

Medo que se cozinha no caldeirão dos meios de comunicação, regidos pelo Império Globo.

O povo simples e trabalhador, com prazer, entregaria os nomes, o paradeiro, todos os esquemas da criminalidade que o oprime.

Se tivesse em quem confiar.

Mas não pode confiar em quem o humilha, quem o põe contra a parede, para quem desconfia dele só por ser povo e por ser pobre.

Quando poder estatal criminaliza o pobre, porque o pobre entenderia que o Estado lhe pertence?

Fernando Brito

E, como uma voz do além, profética, se encarna no vídeo citado em VÍDEO – Brizola, visionário: “O que o Exército está fazendo colocando jovens contra um paredão, tratando como bandido?”.

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