Votar para quê?

voto-nulo

Leonardo Valente

Muita gente cujas opiniões respeito começou a declarar que não pretende votar nas próximas eleições. Consigo entender perfeitamente a decisão. A ideia de que a negação do direito de votar abre espaço para que outras forças e segmentos decidam quem chega ao poder é perfeitamente lógica quando as instituições estão funcionando. Ora, a inelegibilidade do principal candidato à Presidência por meio de uma decisão judicial claramente política foi mais uma prova de que estas instituições não funcionam mais e que o Estado de Exceção vigora. Cientista Político que insistir no contrário, inclusive, jogará sua trajetória no lixo.
Se as instituições não funcionam, e se o Estado de Exceção manipula as candidaturas, como em qualquer regime autocrático, para interferir nos resultados sem precisar de fraude na contagem do votos, é perfeitamente plausível a ideia de que qualquer que seja o resultado, este não será legítimo. A partir deste raciocínio, votar perde sua função. Entramos, portanto, no campo da desobediência civil. Vejam a que ponto chegamos.
Aos poucos as esquerdas estão convergindo para as teses anarquistas do voto nulo. Só que os anarquistas consideravam os sistema ilegítimo há muito enquanto que a esquerda ortodoxa ainda sonhava com as instituições democráticas no seio do capitalismo. Capitalismo em que no âmbito interno das empresas campeia o fascismo. Democracia de verdade cerceia os negócios.
Já escrevi vários posts abordando o dilema.
Em Escala versus complexidade cito Bar-Yam que diz:
Precisamos de um novo tipo de democracia.
Nossa democracia usa o voto para agregar a capacidade de decisão da população. Isso não é eficiente, porque reduz uma grande quantidade de informação (o conhecimento de todos os cidadãos) a um pequeno número de respostas (os seus representantes). Faria mais sentido imaginar um sistema político mais imunológico, no qual cada cidadão reage com autonomia às ameaças que enxerga, como um glóbulo branco.

Mas essa questão logística de comunicação é apenas o sintoma: os jovens na rua estão expressando um profundo mal estar em relação não apenas à política (o jogo partidário), mas principalmente à Política – o questionamento da própria ideologia política como representação de qualquer demanda social. Em outras palavras, os jovens desconfiam que por trás da Política ou da ideologia não existe nada e que tudo é um ardil, uma simulação, um blefe.

A essa desconfiança que parece estar latente em cada voto nulo ou em branco o pensador francês Jean Baudrillard chamava de “grau zero da política”. Para ele o Poder teria perdido a sua correspondência objetiva no real. Ele subsistiria apenas no campo midiático da simulação da vontade política das autoridades, das suas declarações, das suas “canetadas” em projetos e promulgação de leis, nas intrigas palacianas, nos boatos metodicamente “vazados” para as mídias. Diante do Capital, o Poder subsistiria como mero gerenciador da manutenção macroeconômica. Dito de outro modo, o Poder não mais produz a Política, ele apenas reproduz políticas econômicas, financeiras, sociais etc.

Em Nulo, branco ou o que? escrevo:

A campanha pelo voto nulo tem suscitado a campanha pelo voto consciente pelas autoridades e meios de comunicação num engajamento que pode até levantar uma suspeição: se o voto nulo não anula a eleição (a nulidade e o voto nulo só têm em comum o radical conforme atesta a lei eleitoral) de que têm medo as autoridades e afins? Têm medo da tese anarquista do esvaziamento moral do ato de votar e talvez mais das suas consequências no imaginário do eleitor. Se a democracia se restringe a votar e não permite (a não ser de forma extremamente dificultosa) grandes controles posteriores o eleitor a cada dia se descobre como “vaca de presépio” que não muge e nem dá leite. O eleitor talvez comece a reivindicar mais poder no processo todo do que apenas dar carta-branca periodicamente. Os anarquistas sonham com mais. Que uma destruição criativa surja daí. Alguém colocou de forma pragmática e cristalina seu dilema: não tinha nenhum candidato que merecesse sua confiança ou que tivesse minimamente propostas factíveis ou mesmo interessantes e, por isso, não queria votar em nenhum deles. Votar no menos pior, nestes tempos de nivelamento dos políticos a uma canalha, era também uma tarefa dificílima, as diferenças parecendo ser infinitesimais. Uma minoria de “andorinhas” que “não podem fazer o verão” também não representa uma solução contra uma revoada de abutres. E o que dizer do eleitor que não acredita mais no sistema?

Escrevo também em Eleições e democracia:
Primeiro o “eleitor” é comprado de forma direta e indiretamente. Quando é pobre recebe telhas para concluir o seu barraco. Quando é empregado no governo vota naquele que não vai abalar o seu “status quo” empregatício. Quando é um pequeno empresário ou autônomo vota naquele que promete melhorar os seus lucros com isenção ou redução de impostos. Num nível aparentemente mais elevado os rumos da política econômica interessam àqueles que tem mais capital, os grandes empresários, que agem e influenciam de forma estratégica. Estes são os verdadeiros eleitores e, em vez de se venderem, compram os políticos com financiamento de campanhas cujo dinheiro vai para os desvios e bolsos dos corruptos e, principalmente, para a compra dos votos e consciência dos “eleitores”.
E no mais antigo Promessa é dívida… Caligaris:
A retórica eleitoral parece implicar inelutavelmente duas formas de desrespeito, paradoxais por serem ambas inimigas da invenção democrática. Há o desrespeito aos eleitores, que é implícito na simplificação sistemática da realidade. Tanto as promessas quanto a crítica às promessas dos adversários se alimentam numa insultuosa infantilização dos votantes: “Nós temos razão, o outro está errado; solucionaremos tudo, não há dúvidas nem complexidade; entusiasmem-se”. E há o desrespeito recíproco entre os candidatos. As reuniões de moradores de vila ou de condomínio não poderiam funcionar se os participantes se tratassem como candidatos a um mesmo cargo eleitoral. Paradoxo: o processo eleitoral parece ser o contra-exemplo da humildade necessária para o exercício da democracia que importa e que deveria regrar as relações básicas entre cidadãos – a democracia concreta.

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