64 anos

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Abrindo um antigo caderno foi que eu descobri: Antigamente eu era eterno.

Paulo Leminski

Acordei hoje com 64 anos. Não sei a hora em que nasci para uma determinação mais precisa. Em posts antigos “comemorei” escrevendo coisas filosóficas, românticas, sonhadoras, misto de esperança, pessimismo e ceticismo etc sobre envelhecer.  Já são dois aniversários e mais de um ano desde que me aposentei. O primeiro dia livre do emprego foi 24 de outubro do ano passado.

O “ano sabático” já passou. E a vida ainda não se ordenou. O estar livre do peso de trabalhar para os outros, um sonho acalentado, ainda está por dar frutos. Mas este é o destino de um sonhador: sonhar muito e realizar pouco.

O sonho é uma quimera exigente. Que às vezes nos esmaga. Uma inquietude “caracolando como um cavalo em liberdade, cria […] cem vezes maiores preocupações do que quando tinha um alvo preciso fora de si mesmo.” também assolou Montaigne.

E só uma aventura, mesmo que moderada, prudente, epicurista, pode suprir a tranquilidade ao espírito.

Para relembrar um pouco o que escrevi no passado e como forma de passar a limpo meus anseios cito trechos de posts passados sobre a passagem do tempo. Talvez uma forma de expressar um pouco o vazio atual que impede que eu escreva algo de valor para este momento.

Viagem de mudança para Aracaju

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Ainda no Rio o Waze selecionou uma rota que não passava pela Ponte Rio Niterói. E não percebi de imediato. Iane alertou que a entrada da ponte tinha ficado para trás. Desviei a rota para o Galeão para fazer um retorno. Iane apontou o Waze para Niterói para garantir que atravessaríamos a ponte. Depois refizemos a rota para Vitória colocando Rio Bonito como ponto intermediário. Chegamos em Vitória quando começava a escurecer.

Rio – Aracaju: trecho Rio – Vitória

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Mas a vista do mar era linda. Paramos numa falésia onde saltavam de parapente. Muito bonito. O calor de 30 graus com o alísios soprando incessantemente a cerca de 13 nós mantinha os parapentes flutuando sobre a falésia. Deu uma vontade danada de voar sobre aquele mar de um azul suave e estonteante.

Rio – Aracaju: trecho Vitória – Cumuruxatiba

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Aluguei um Laser e fui ver a entrada da barra perto do farol. Sai e entrei seguindo as instruções do Aldo. Na entrada deixar o farol por boreste entre 30 a 50 m de distância. Não afastar mais pois pode bater nos arrecifes.

[…]

[…] saí para dar outra velejada. Explorei o lado sul do píer. Esta parte tem mais arrecifes a flor da água. As sombras dos mesmos assombrava-me. O receio de uma colisão me deixou tenso. Cheguei a passar por cima de um. Vi as suas “garras” a cerca de 1 m de profundidade. Preferi então ir para o lado norte do píer (na verdade as estacas de madeira negra que restaram do antigo píer). Lá passei deixando a noroeste a “pedra do francês”, batizada em memória de um veleiro de um francês bateu nos arrecifes que ficam quase em frente à entrada da barra e que deve ser deixado por bombordo. É uma área boa para um futuro fundeio.

Rio – Aracaju: um dia livre em Cumuruxatiba

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Tomamos sorvete muito bom na sorveteria Capim Santo (também nome de um sabor deles). Era no lugar de uma antiga sorveteria que mudou de dono. O sorvete é muito bom e sem aditivos. Derrete um pouco rápido. Por coincidência fica na entrada da pousada.

Rio – Aracaju: trecho Cumuruxatiba – Itacaré

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O que vou dizer abaixo não aconteceu nesta viagem, mas em uma ida anterior à Itacaré. Daquela vez fizemos rafting e andamos numa tirolesa sobre um rio. Havia uma “pizza a metro” retangular que era uma delícia. Desapareceu. Soube, sem muita certeza, que a massa era a mesma de um pastel. Da outra vez não tive a impressão que me passou pela cabeça agora. De que Itacaré é um diversificado parque de diversões e, ao mesmo tempo, de uma beleza espalhada pelo seu litoral próximo à mata atlântica que convida à contemplação e ao hedonismo relaxado na sua rebentação.

Rio – Aracaju: um dia livre em Itacaré

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Fomos logo tomar café. Hoje é o dia do cuscuz de tapioca. Teve até pudim de leite.

Rio – Aracaju: Itacaré – Aracaju

O tempo

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No nosso aniversário, este contraditório acontecimento, merecemos parabéns por que? Nada fiz a não ser viver. Heróicos, todos atravessamos a vida qual num sonho. Esvai-se o sentido a cada ano que passa. Como se o sentido fosse dado pela quantidade de anos que ainda falta viver. Mas esta falta de sentido é mesmo um sentido mais autêntico se pudermos trocar as coerções externas e inexoráveis pelas nossa volúvel vontade interna. Nada traçado na pedra. Um voo mais sinuoso do que os das borboletas. Gostaria de buscar a leveza de um “flâneur”.

63 anos…

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Era uma vez um pássaro que morava numa gaiola de ouro. Com o tempo descobriu que seu dono, Max, o tinha numa gaiola de ferro quando descascou a fina camada dourada.

Um dia Max morreu. Sua casa ladrões e espoliadores devastaram e, não interessados no pássaro, deixaram aberta a porta de ferro.

Diante da porta aberta o pássaro se intimidou. Mas a brisa tépida e o céu límpido o cativaram. Voou sobre as copas. Volteou explorando as cercanias com voluptuosidade. Nem percebeu um mancha escura que se avolumava no solo.

Garras aduncas o elevaram a altura das montanhas. Inebriado por este voo, muito além de suas parcas capacidades e fôlego, regozijava. Mesmo quando adunco bico o transformou em informe massa de penas e carne sangrenta não se achou fora da vida.

A retirada…

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Meu inimagináveis 61 anos ocorrem hoje. Muitos sonhos de grandeza ainda me percorrem. Mas de uma grandeza pequena e individualística, sem coro. Saúde, aventura, vida, tudo ainda parece possível. Talvez…

61 anos

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Um número redondo na idade pode ter algum significado? Talvez na lei que o define agora como idoso. Eufemismos como “melhor idade”, “boa idade” etc agora podem rotular a sua nova fase na vida. A sociedade quer compensá-lo na letra da lei. A civilização o faz viver mais salvando-o com seu aparato tecnológico. Outorgando-lhe mais anos onde a qualidade é transformada em quantidade. Engordando as estatísticas. Mas nada disto importa muito. Estou mesmo na “melhor idade” há algum tempo. Na idade do “condor” também. Desesperado e desiludido com os decréscimo das minhas capacidades físicas e psicológicas já começava a repetir os mantras da velhice que afirmam que não há muito a fazer. A espera começa a ser a tônica. Filas onde nos botam na frente ou à parte dos jovens podem ser mais lentas porque frequentadas pelos mais lentos. Em outras filas só povoadas por idosos preferíamos não estar lá. Fisioterapias, filas para atendimento, médicos etc agora começam a ser parte importante da vida. Afundar no cotidiano das mazelas da velhice com conformação nunca me atraiu muito. Até hoje me espanto quando me chamam de “senhor”. Como reflexo penso em procurar atrás de mim a pessoa assim tratada. Ainda habita em mim o jovem ingênuo e tímido em espírito renegado pelo invólucro desgastado pelos anos. Acredito que cada velhice pode ser única desde que você tome as rédeas. Eu resolvi tomar na medida do que é possível. E não me importar com o que está fora do meu controle.

60 anos!?

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Aniversário em 2010

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Andei pensando que envelhecer sem sabedoria é impensável se se deseja imprimir algum valor a este envelhecer. O que vale um velho sem sabedoria se não há mais o viço e nem a energia da juventude que parece desafiar a própria vida. A exuberância da juventude é a principal qualidade que lhe dá o direito de estar no mundo e conquistá-lo. Por isso os “excessos” são “tolerados”. Mas o velho, deve exibir na sua forma de viver a que veio. Esse mostrar é mais para si, muitas vezes, que para os outros. A sabedoria, da forma que penso, também é mais para si. Não existe sabedoria “para os outros” pois toda sabedoria de um indivíduo é também particular. O caráter universal da sabedoria só advém, ou é atribuido, pelo olhar externo. A sabedoria, nestes termos, é livrar-se do supérfluo arrebanhado pela via da ciranda conhecimento. É saber o que é essencial sem abdicar do aparente ou melhor, tornar o aparente essencial. Um dos problemas para esta liberdade do espírito está nas exigências do corpo que já exibe algum cansaço e impõe cada vez mais limites. Recentemente acabei de ler o livro “Humana, Demasiado Humana”, de Luzilá Gonçalves Ferreira, sobre Lou Salomé e encontrei uma citação (p.212) que descreve bem o que é o corpo para quem ainda quer muito participar intensamente da vida:

“Encontramos ninhos por toda parte, colocamos ovos por toda parte, aceitamos as coisas mais facilmente e finalmente voamos para longe. É verdade que em tudo isso o corpo, que em nossa juventude ajudou a construir as pontes do amor, torna-se cada vez mais incômodo, e assim continua até o fim, como uma parte estranha de nós mesmos – raios o partam!”

Envelhecer

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