Vergonha alheia?

Vergonha alheia é um sentimento que pode ser muito bem ilustrado pelo vídeo acima. E fruto as vezes de uma empatia. Outras, de uma antipatia. Neste último caso a vergonha alheia pode vir de um mal estar de pertencer a uma mesma humanidade. Ou pseudo-humanidade. De se parecer com pessoas merecedoras do prêmio Darwin, por exemplo. Ou por coxopatas berrando impropérios ao microfone da rede “xocial” e enlaçando com o fio uma torre de pizza frágil e que não fizeram. Já não inventaram o microfone sem fio?

Nossos neurônios não-espelhos tem tido muito trabalho ultimamente. Para conter os neurônios-espelho. Ases da imitação. Para não imitarmos os energúmenos que andam povoando nossas plagas.

O artigo de Luis Felipe Miguel, que cito abaixo, nos faz sentir vergonha alheia por antipatia.

A vergonha de ser brasileiro


Luis Felipe Miguel

A aprovação de Temer é a pior de um ocupante da presidência desde 1989, diz o DataFolha. Apenas 7%, percentual que, diante do que é esse desgoverno, me parece assustadoramente alto. Mais de três quartos dos entrevistados acham que ele devia renunciar; mais de quatro quintos querem impeachment e eleições diretas.

A Folha destacou outro dado na capa: a “vergonha de ser brasileiro” cresceu de 34% para 47% dos entrevistados. Essa é uma informação que me intriga. Como eu responderia a uma questão assim?

Lembro de um exemplo que costumo usar em sala de aula, quando vou discutir os problemas dos índices baseados em proxies e também dos surveys de opinião pública. Hans-Dieter Klingemann, apoiando-se no World Values Survey, mede o apoio à comunidade política (isto é, se as pessoas julgam que o Estado e a comunidade nacional imaginada à qual pertencem se sobrepõem adequadamente) a partir das respostas a duas perguntas: o quanto o entrevistado se sente orgulhoso de seu país e se estaria disposto a lutar por ele numa guerra.

As duas questões parecem misturar apoio à comunidade política com certo tipo de nacionalismo. Eu, por exemplo, não tenho nenhum desacordo com as fronteiras nacionais brasileiras – não defendo a separação de uma região ou estado, por exemplo, tampouco a anexação de qualquer território. Nem por isso estou oferecendo apoio a priori para qualquer guerra hipotética, só porque é “o meu país”. Não torço nem pela seleção de futebol!

E eu tenho orgulho ou vergonha de ser brasileiro? Como não ter orgulho de ser da terra de Pixinguinha, Cartola e Villa-Lobos, sem falar do queijo minas, da feijoada e da paçoca? Por outro lado, como não ter vergonha não só da elite política nos três poderes, mas também da nossa fraca, fraquíssima capacidade de reação?

Em suma, é uma questão que aplaina múltiplas dimensões e que tenta apreender um sentimento complexo e multifacetado numa escala simples. É muitíssimo discutível se a resposta a ela diz alguma coisa e ainda mais se pode servir de indicador para outro tipo de julgamento.

A vergonha de ser brasileiro

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