O inimigo unânime

tumblr_mbwu4q0pck1rajav2o1_500-2

Onde nada está no seu lugar é a desordem

Onde no lugar pretendido não há nada, é a ordem

Brecht

As manifestações do Okupa Brasília mostram claramente quem é o inimigo mais subversivo. Tanto do ponto de vista da direita como da esquerda. Ambas querem o controle da narrativa e das massas. A repercussão reiterada da palavra “vândalo” na imprensa controlada pela direita em uníssono com os veículos de propaganda da esquerda têm um alvo unânime: “os vândalos”.

A encenação espetacular dos anarquistas é confundida ,de propósito, na mente da massa que não consegue ver o aspecto simbólico do ataque inócuo aos patrimônios de fachada do capitalismo.

Os anarquistas sabem muito bem que nem arranham o núcleo patrimonial do capitalismo. Disciplinam-se em propagar uma mensagem contida e sutil. Não atacam as pessoas mas a propriedade capitalista, que por estar no “front end”, as “vitrines” do capitalismo, são os veículos aparentes e mais fáceis de entender, pelas massas, como instrumento de manipulação.

Os anarquistas no máximo encenam também uma reação aos ataques das forças de repressão.  Forças que caem sempre na armadilha de expor a sua truculência, mesmo sem precisar do pretexto do vandalismo, e que embarcam alegremente encantadas com a “deixa” e apoiadas à direta e à esquerda, esta última sempre indignada apenas com a indiscriminada distribuição da violência. Mesmo com as infiltrações oportunistas visando justificar a repressão alegando defesa do patrimônio o efeito é o mesmo, pois toda a culpa ainda é imputada aos anarquistas e vândalos e não aos camuflados grupos de direita “participando” do quebra-quebra. Os anarquistas não esperam benevolências do sistema mas assestam sua mensagem como um projétil semiótico em direção às massas. Não para manipulá-la, algo que viola o princípio libertário anarquista, mas confiando que ela, desde que livre de ilusões, só pode se mover na direção certa.

A desproporção entre os recursos da repressão e o do “inimigo unânime” também faz parte da mensagem. Os anarquistas mostram às massas, pelo exemplo da ação direta, o que poderia ser feito por quem tem um poder muito maior de mover o mundo: a massa revolta se disposta a virá-lo de cabeça para baixo e sacudi-lo para esvaziá-lo de seu pseudo-conteúdo.

Ao mover o mundo as massas precisam também aprender uma autonomia que os tornem infensos às cantigas dos titereiros à direita e à esquerda.

Baudrillard sobre o hiper-realismo

“…de aparência democrática e dialética não é a síntese que esmaga a tese a antítese, a síntese redutora, mas a síntese eclética, a síntese fechada, que não permite a criação de uma nova tese [Grifo nosso]. Por isso, Baudrillard no final deste livro [Simulacros e simulação] elogia o terrorismo anti estatal e anti capitalista como a solução digna dos oprimidos e explorados: a democracia formalmente instituída é uma farsa, um cenário de pluralismo controlado pela classe dominante.” [In Jean Baudrillard: o hiper-realismo e a simulação ou o papel perverso da síntese fechada e eclética]

sugere uma dúvida atroz: estariam as ações dos anarquistas fora do campo das simulações? Serviriam como denúncia delas ou estariam circunscritas também? Cabe aos anarquistas sempre evitar esta armadilha não se afastando do conceito do espetáculo debordiano e reforçando este aspecto claramente na sua propaganda. Sob pena de praticar uma coerção esquerdista sobre as massas. As massas compreendem muito bem os aspectos autênticos de uma ação direta muito mais do que discursos vazios e ambíguos. Tal aconteceu na greve dos professores do Rio quando reconheceram que os anarquistas os defendiam da ação repressiva arbitrária da polícia.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s