Arquivo do dia: maio 8, 2017

Porque os EUA Precisavam Neutralizar a Coréia do Norte

 

heroes_acre_1Ao contrário da maioria, e à semelhança de Nélson Rodrigues, eu tenho uma certa aversão à unanimidade. Não porque ela seja burra, mas porque enquanto todos estão concordando, não sobra tempo para se analisar o lado oposto, o que significa que, se a unanimidade estiver errada, e ela pode estar, não há ninguém preparando um plano B. É muito importante duvidar, mesmo daquilo que parece certo. Duvidar não é descartar, duvidar é especular alternativas, é tentar chegar mais perto da verdade mesmo quando todos insistem que já estamos o mais perto possível. Só que não existe um horizonte de eventos para verdade, e geralmente as unanimidades são construídas através do efeito de manada.

Este post é ilustrado por uma foto do “Bosque dos Heróis”, um monumento em Windhoek, na Namíbia. Este é um dos vários monumentos comemorativos construídos pelo mundo por uma empresa chamada Mansudae Overseas Projects, da Coreia do Norte. Somente em 2011 esta empresa, apesar do bloqueio econômico a que o país de brinquedo de Kim Jong-Un está submetido, trouxe mais de US$ 160 milhões em divisas para Pyongyang. A MOP é uma das mais de cem empresas criadas pelo governo da Coreia do Norte nos últimos dez anos em vários ramos da indústria pesada (construção civil, aço) e leve (componentes eletrônicos, plástico, processamento de pesca, etc.). Será que isso parece com um país morto de fome a ponto de seus habitantes estarem supostamente comendo uns aos outros?

Quando você terminar de ler este artigo, eu espero ter conseguido abrir seus olhos para muita coisa que não vem à tona do debate sobre a Disneylândia dos comunistas.

A primeira destas coisas é o estado real da economia norte coreana. A julgar pelas notícias veiculadas pela imprensa alinhada com os interesses americanos, a Coreia do Norte vive desde 1992 em um estágio pré falimentar, caracterizado pela fome generalizada, a obsolescência de toda a infraestrutura e a corrupção desenfreada do governo. Em suma, um país tão pronto para se liquefazer amanhã quanto Jesus está pronto para voltar.

1200px-ryugyong_hotel_-_august_272c_2011_28cropped29Mas um país em tal estado não conseguiria dar mostras de vigor industrial e econômico, não conseguiria retomar e terminar a construção do mais famoso prédio inacabado do mundo. Não conseguiria fazer três testes nucleares e vários lançamentos de foguetes em um curto espaço tempo.

É verdade que esses triunfos devem estar sendo conseguidos à custa do sofrimento do povo, mas não há muito leite para se ordenhar em uma pedra: se o país não estivesse recuperado da crise de meados da década de 1990, não haveria nada para roubar do povo e destinar à megalomania de seu governo. É preciso ter a cabeça firmemente enterrada na areia para conseguir acreditar que um país que só piora economicamente teria capacidade para criar novas indústrias, desenvolver tecnologia bélica e começar a prestar consultoria a outros países. Sim, a Coreia do Norte presta consultoria em engenharia e administração de sistemas. Só não tem mais fregueses por causa do embargo, e do fato de que não há muito mercado para computadores em coreano.

Então fica evidente que o discurso da Coreia combalida deve ser só uma mentira a mais contada pelos americanos para criar empatia na comunidade internacional, assim as pessoas ficam com peninha dos coreanos mortinhos de fome e apoiam que sejam bombardeados de volta à Idade da Pedra, como no Iraque.

A verdade deve ser que os americanos receiam que esse relativo ressurgimento da Coreia do Norte vai dar fôlego  aos tiranetes de lá para continuarem brincando por mais algumas décadas, especialmente depois que a transição de poder do descabelado para o gorduchinho parece ter se consolidado, ao contrário do que esperavam os analistas ianques.

A segunda coisa parte justamente desta transição: parece haver consenso de que o novo tiranete consegue ser mais ridículo que seu pai (que já fora ridículo a ponto de sequestrar um diretor de cinema e forçá-lo para fazer uma paródia socialista de Godzilla, pentear o cabelo para cima para parecer mais alto e mandar construir pelo país auto-estradas de oito pistas em cada direção, que ficam vazias quase todo o tempo). Ora, se um óbvio idiota conseguiu ficar no poder de uma ditadura cruel, isso deve significar que ele não tem poder nenhum, deve ser só um fantoche, uma face humana do jogo de poder dos bastidores, um Grande Irmão vivo. Vocês já devem ter reparado que ele está quase sempre acompanhado de alguns generais com quepes altos e dólmãs tão condecorados que é preciso usar a calça para exibir o resto das insígnias. Se isto for verdade, não adianta esperar pela morte dele, não adianta nem matar ele. Sempre haverá um outro rosto para pôr no lugar e o regime ficará de pé.

Então, as tentativas americanas de agredir a Coréia do Norte revelam o desespero de quem já percebeu que não adianta esperar pela combustão espontânea do regime de Pionguiangue. A Coréia do Norte está aí para ficar, incomodando os Estados Unidos durante ainda algumas décadas. E agora que o Irã e a Síria caíram debaixo da asa amiga da Rússia, o mundo está começando a ficar salpicado de lugares onde Tio Sam não põe o pé. Uma nova cortina de ferro está se formando devagarinho.

Arapucas Libertárias

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Olhos dirigidos ao paraíso gelado

389518-r_640_600-b_1_d6d6d6-f_jpg-q_x-xxyxxO filme Kfraftidioten (2014) não pode ser resenhado por incultos. Pois no máximo eles dirão que se trata de um “gênero Tarantino”. Tem lances de humor e sangue que de fato seguem o estilo de Tarantino, mas a película norueguesa e sueca, do diretor Hans Petter Moland, traduzida por “O cidadão do ano” (procure traduzir você mesmo “Kfraftidioten”), é uma peça original e uma boa crítica do presente. Uma ficção mais próxima do chão (!), digamos assim.  

Escrevi esses dias que nos Estados Unidos de hoje há um candidato socialista que fustiga Hilary Clinton (artigo aqui). Ele diz que gostaria de ver os Estados Unidos antes como uma social-democracia nórdica que como um centro do liberalismo avançado socialmente. Ao mesmo tempo, uma das melhores séries de gansters do momento, produzida em associação americana e norueguesa, é a Lilyhammer (de Eilif SkodvinAnne Bjørnstad, 2012), que diz respeito à Noruega atual (com um fantástico capítulo no Brasil). Nos dois casos, do filme Kfraftidioten e da série, o que observamos? Que há americanos olhando para os países ricos do Atlântico Norte, e que o candidato Bernie Sanders, que fustiga Hilary, não fala algo que não está no ar.

Entre políticos, intelectuais e diretores de cinema, há os que estão mostrando que os Estados Unidos já deveriam estar naquela situação nórdica, civilizados e sem pobres, outros estão apontando para o fato de que, naquela paraíso, alguns problemas permanecem, e até estão sendo importados da América, Europa e até do Brasil. O paraíso social-democrata não é o de Adão. Bom sinal: o paraíso, ainda que desejável, está sendo visto com senso crítico e humor. É um sinal de que podemos sonhar e ao mesmo tempo sem sermos ingênuos?

O que existe nas democracias ricas nórdicas é o Welfare State efetivamente alcançado, e como algo diferente de outros que, até bem pouco tempo, pareciam poder funcionar fora do gelo, como o da França, Itália, Inglaterra ou até mesmo o do esboço americano. É mais estável que outros. Funciona segundo uma social democracia que absorveu padrões do “politicamente correto” sem que este tenha se deteriorado na versão criticada até por tolos (ou melhor, criticada mais por tolos) no Brasil, uma vez que não serve para garantir só os que estão livres, mas também os que vão presos. Todavia, em meio ao paraíso, como a série e o filme citados mostram, alguns problemas do mundo moderno permanecem vivos: frustrações típicas do nosso tempo envolvido em burocracias aparentemente sem rosto, crimes não puníveis, homossexualismo reprimido, solidão da mulher, maridos isolados, famílias passivas, pequenos e grandes Al Capones soltos dividindo territórios, drogas em uso assustadoramente alto e segundo um comércio que se autoprotege de modo sofisticado.

A série e o filme mostram que a social-democracia pode mesmo realizar o que prometeu, mas que se tenha na cabeça que um regime político, de esquematização do estado, não tem poder para fazer da terra dos homens uma terra de bondade, sem problemas. Não estou usando aqui do cliché “o mundo dos mortais é sempre o mesmo”. Nada disso. Estou dizendo que os problemas postos pela modernidade se mostram presentes no Estado de Bem Estar Social que funciona. O que vale dizer que talvez a filosofia política tenha menos a dizer agora, mas a filosofia de um modo geral não disse tudo.

images-31Tanto a série quanto o filme mostram que o gangsterismo dos anos trinta, imortalizado pelo cinema americano, não é uma ficção reposta desterritorializada nesse novo cinema atual, mas que ele efetivamente existe, na realidade, e isso porque há situações que perderam suas raízes e, afastadas de seus rituais, atingiram a condição separada, alienada, que torna tudo perigoso. A droga e os seus problemas derivados tem a ver com isso. Não há mais ritual para a droga, nem religioso e nem hippie, nem místico e nem “produtivo”. A droga aparece em uma situação moderna típica do que deve ocorrer com aquilo que Hannah Arendt chamou de elemento de consumo, não elemento de uso. É a droga pela droga para quem a consome. Para quem a trafica, é a droga pelo dinheiro. Mas isso em uma situação em que ambos já são equivalentes universais do mercado. Desse modo, tanto faz o dinheiro pelo dinheiro ou a droga pela droga. Ninguém mais sabe o se faz com o que se tem.

Claro, na sociedade em que, como Debord disse, o ser e o ter não precisam mais se oporem, porque tudo é da ordem do aparecer e parecer, pode-se ter dinheiro para aparecer e ter a droga para aparecer de modo melhor, isto é, feliz. A felicidade, ou melhor, sua aparência, se tornou uma obrigação. Mas a questão é que esse é o consumo que consome o consumidor. Não existe usuário de droga. Ninguém usa a droga, nem a droga usa alguém. A droga e o mundo produzido por ela consomem suas vítimas e heróis.

Mas, não é a droga o problema moderno. Ele é pedaço pequeno dele. O problema moderno que essas películas das séries de TV-internet e cinema mostram, que está vigente na social democracia rica, é que os ritos todos perderam o sentido no mundo, e que no território gelado isso se mostra de maneira muito mais escancarada. O homem moderno não tem expediente, não tem procedimentos que se devam obedecer por mais de um mês. Tratados podem ser desfeitos, ordens podem ser cumpridas ou não, palavras empenhadas não valem e ao mesmo tempo valem um assassinato ou vários. Há uma extrema passividade no interior de um frenesi para se manter a passividade. O gangsterismo dos filmes mostra bem o funcionamento do entretenimento moderno, o celular cheio de joguinhos e ligado ao Facebook e ao WhatsApp e coisas do gênero, onde todos simulam estar na adrenalina máxima; é um globo da morte em alta velocidade, mas como todo globo da morte, tendo as motos girando no mesmo círculo. No mundo da novidade, nada é realmente novo.

Há certo tédio gelado no mundo gelado de tipo norueguês, uma cena alegórica para o resto do mundo, como se a mensagem fosse a seguinte: o paraíso, aguardem os que acham que vão chegar nele, é frio.

Paulo Ghiraldelli