Arquivo do dia: maio 4, 2017

O horror, o horror

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A terra não parecia terrestre. Habituámo-nos à forma algemada de um monstro vencido, mas ali – ali podia ver-se qualquer coisa monstruosa e livre. Não parecia terrestre e os homens… não, desumanos não eram. Bem pior do que isso – era a suspeita de não serem desumanos. Aos poucos se chegava a tê-la. E eles gritavam, saltavam, rodopiavam e faziam caretas que eram um horror; embora nos assustasse a sensação de terem uma humanidade – igual à nossa -, a ideia de termos um parentesco remoto com aquela selvagem e apaixonada refrega. Feia. Muito feia, sim; mas fôssemos bastante homens e não deixaríamos de admitir intimamente que existe em nós um traço de simpatia embora diluído pela terrível franqueza daquele barulho, a obscura suspeita de conter um significado que nós – tão afastados, já, da noite das primitivas idades – podemos compreender. E porque não? O espírito humano de tudo é capaz – porque dentro dele há tudo, não só o passado como o futuro. E ali, ao fim e ao cabo o que havia? Contentamento, dor, devoção, coragem, raiva – sei lá! – mas principalmente verdade – verdade despida da sua máscara de tempo. Deixemos o louco abrir a boca e tremer – pois o homem compreende e pode ver sem pestanejar.

Joseph Conrad

em O coração das trevas

No coração das trevas em que se está transformando o Brasil, resvalando para se tornar o antigo Congo Belga, os policiais humilham e violentam ad nausean um morador de rua. A postura revela e traduz o desejo de parte da sociedade de tirar as condições dos sem teto de sobreviverem nas ruas. Fazê-los desaparecer. Da invisibilidade psicológica para a invisibilidade física. Para a morte… Isto me lembra, na contracorrente, o texto de Daniel Quinn, que cito abaixo, do seu livro Além da civilização:

Deixe meu povo ir embora!

Os moradores de rua estão “além da civilização” porque estão além do alcance da hierarquia da civilização, que tem-se mostrado incapaz de criar uma extensão estrutural que os inclua. O máximo que consegue fazer é oprimi-los, atormentá-los e obstruí-los. Para entrar em acordo com os moradores de rua seria necessário “deixá-los ir embora”, de forma bem parecida com o faraó bíblico que deixou os israelitas irem embora.

Estou dizendo que, na verdade, os moradores de rua querem ser moradores de rua? Não exatamente. Alguns são “temporários”: aterrissaram nas ruas depois de uma maré de azar e tudo quanto querem é voltar à estrada do sucesso da classe média. Nenhuma de minhas propostas atrapalharia isso. O resto deles está nas ruas não necessariamente porque adoram ser moradores de rua, mas porque as alternativas são piores do que ser morador de rua — internamento, infindáveis maus-tratos familiares, envolvimento com sistemas de assistência social cegos ou indiferentes às suas necessidades, e labuta num mercado de trabalho que não oferece nenhuma esperança real de mobilidade ascendente.

Mas persiste o fato de que muitos que se tornam moradores de rua inicialmente contra a vontade mais tarde adquirem uma nova perspectiva da situação.

“Gosto do jeito que a minha vida é agora”

Foi isso o que um morador de galerias subterrâneas disse à repórter Jennifer Toth. E explicou: “Sou independente e faço o que quero. Não que eu seja preguiçoso ou não queira trabalhar. Ando por toda a cidade quase todos os dias para catar latas. É a vida que eu quero”. Outro morador de galerias subterrâneas contou ter sido perseguido por um irmão que queria que ele voltasse a ter uma vida normal: “Ele me ofereceu dez mil dólares. Ele não entende! É aqui que eu quero estar agora. Talvez não para sempre, mas agora, sim”.

Um dos sujeitos de David Wagner, que fugiu de espancamentos constantes que recebia em casa, descobriu que a vida nas ruas “era legal, eu dormia quando queria, saía com as pessoas, bebia. Era livre como um passarinho”. Outro, que fugiu de um lar abusivo aos doze anos de idade, disse: “Era ótimo. Eu viajava, descia até o litoral, até o sul. Era maravilhoso, e eu não voltava nunca, acontecesse o que acontecesse”.

Mesmo quando a rua seja apenas a alternativa menos ruim, as pessoas sentem muitas vezes que tem mais apoio aqui do que tinham em casa. Um garoto que fugiu de casa, ao descrever seus amigos da rua para Katherine Coleman Lundy, disse: “Se eles precisavam de comida, precisavam de uns dólares, eu dava uns dólares pra eles… Sempre que eu precisava de alguma coisa, se eu precisasse, e eles tivessem, eles me davam”. Outro garoto que fugiu de casa disse a Jennifer Toth: “Temos apoio de verdade uns dos outros, não de um assistente social por uma hora só, mas de pessoas que gostam de você pra valer e te entendem”.

Que vai resultar disso?

Se deixarmos os moradores de rua encontrarem seus próprios refúgios e os ajudarmos a tornar esses lugares habitáveis (em vez de afugentá-los sempre que se estabelecerem), se os dirigirmos para as enormes quantidades de comida que são jogadas fora diariamente (em vez de obrigá-los a mendigar comida nos abrigos), se os auxiliarmos ativamente a se sustentar de acordo com seus próprios termos (e não de acordo com os nossos), pense bem: os moradores de rua deixarão de existir em grande medida como “um problema”. Seriam pessoas com quem sempre estaríamos trabalhando nas cidades, como a manutenção das ruas. As ruas de nossas cidades nunca vão ficar “em perfeito estado”. Sempre vão precisar de reparos — e nós sempre vamos cuidar de sua manutenção. Não pensamos na manutenção das ruas como “um problema” porque é algo com que entramos em acordo.

Se quisermos entrar em acordo com os moradores de rua, nós e eles (para variar) vamos trabalhar juntos em vez de entrarmos em desavença. Manter as pessoas abrigadas, alimentadas e protegidas se tornaria uma preocupação comum e uma tarefa comum.

Entrar em acordo com os moradores de rua não significa que os mendigos, as mulheres sem teto que andam com todos os seus pertences numa sacola e os bêbedos vão desaparecer — assim como a manutenção das ruas não significa que os buracos, as filas duplas e os engarrafamentos vão desaparecer. Entrar em acordo com os moradores de rua (como entrar em acordo com os terremotos) significa enfrentar a realidade, não significa eliminá-la.

Não estou COMPLETAMENTE sozinho!

Quase ao final de seu estudo notável sobre moradores de rua, Checkerboard Square: Culture and resistance in a homeless community, David Wagner escreve:

“E se os moradores de rua… tivessem a oportunidade de ter mobilidade coletiva e recursos coletivos em vez de fiscalização, vigilância e tratamento individual? E se as redes sociais densas e as sub-culturas coesas que constituem as comunidades de moradores de rua fossem utilizadas por advogados, assistentes sociais e outros? E se fosse oferecida moradia perto das áreas geográficas em que os grupos de moradores de rua se reúnem, moradias decentes que não exijam abandonar o grupo, mas que pudessem ser partilhadas com os amigos da rua… E se os benefícios sociais fossem distribuídos, não individual, mas coletivamente, de modo que a renda de manutenção ou recursos para comida, abrigo e outros bens fossem dados a um grupo inteiro de pessoas, não a indivíduos? Isto é, não seria necessário uma pessoa esperar horas a fio, fazer um relatório detalhado de todos os aspectos de sua vida pessoal e ir constantemente ao escritório de um assistente social para receber um novo atestado — bastaria obter um subsídio coletivo como parte de um grupo de moradores de rua (ou qualquer outro grupo de pessoas pobres)”.

Todas essas sugestões (que até Wagner concorda que são radicais) representam entrar em acordo com as realidades dos moradores de rua. Pretendem ajudá-los a viver decentemente enquanto são moradores de rua — e viver da maneira que eles querem viver (e não como os funcionários do governo pensam que eles devem viver).

Objeções

A idéia de entrar em acordo com os moradores de rua vai levantar objeções de todos os lados. Os liberais vão entendê-la como “desistir” de resolver o problema dos moradores de rua, mas isso seria o mesmo que dizer que entrar em acordo com a deterioração das ruas significa desistir de resolver o problema das ruas. Entrar em acordo com os moradores de rua significa ouvir os pobres, que acreditam ter condições de cuidar de si mesmos — com a ajuda que desejam em vez da ajuda que os habitantes de casas respeitáveis pensam que eles “devem ter”.

Na outra extremidade do leque político, os conservadores vão interpretar a proposta de entrar em acordo com os moradores de rua como passar a mão na cabeça dos que vivem de graça e que devem ser disciplinados e punidos até “arranjarem um emprego”. Vão acabar entendendo que é o mesmo que ajudar um pescador pobre a conseguir um equipamento de pesca em vez de lhe dar um peixe para comer.

No entanto, as objeções das autoridades do governo serão muito ruidosas porque sua questão com os moradores de rua vai além de meros princípios. Muita gente vive “combatendo” o problema dos moradores de rua e vêem seu desaparecimento como ameaça ao seu ganha-pão (embora seja evidente que não são bobos para colocar a questão dessa forma).

Na Los Angeles de 1998, roubar um carrinho de supermercado custava uma multa de mil dólares e cem dias atrás das grades. Quando um doador anônimo distribuiu “legalmente” cem carrinhos de supermercado a moradores de rua, as autoridades amarraram a cara e denunciaram a atitude como “bem intencionada, mas equivocada”.

A mais forte de todas as objeções

Entrar em acordo com os moradores de rua — permitir realmente que os pobres ganhem a vida nas ruas — abriria as portas da prisão da nossa cultura. Os excluídos e os insatisfeitos viriam todos para fora. Seria o primeiro grande movimento de pessoas para aquela terra de ninguém social e econômica que chamo de “além da civilização”.

A Tribo do Corvo, deixando de ser reprimida, cresceria — talvez explosivamente.

Não queremos que isso aconteça, queremos? Deus do céu, não. Seria caótico. Poderia até ser excitante.

Carlos, um garoto que fugiu de casa e vivia num bueiro do Riverside Park de Manhattan, disse a Jennifer Toth: “Eu mudaria o mundo para haver um lugar para nós. Um lugar bom onde a gente pudesse ter liberdade mesmo, e não viver num buraco”.

Algumas idéias perigosas aqui… um lugar para os moradores de rua… um lugar bom… liberdade mesmo… não num buraco…

Ponham mais guardas vigiando os muros. Reforcem os portões.

Daniel Quinn