Balaenoptera musculus

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O animal que tem ptera no nome não tomou red bull, mas nem por isso deixa de ter asas. Verdadeiras ou aparentes. Luis Dolhnikoff afirma, e isto ainda nada tem haver com as baleias, em Instruções para bem se matar, uma espécie de decálogo sarcástico do suicídio:

A internet é, enfim, uma grande cloaca virtual que ecoa, duplica e espelha o grande esgoto do mundo. Como disse Borges, os espelhos são cruéis porque dobram o número dos homens (apesar de também dobrarem o das mulheres). A internet é o grande espelho do mundo, com a única vantagem, afinal não desprezível, de a merda virtual não ter cheiro. Ainda assim, merda inodora não é ouro. Se o futuro existe, ele está no instrumento que opera na direção contrária ao espelho borgeano, o desduplicador de gente que é o suicídio, morte, além disso, tão inteligente que chega a ser filosófica, na insuspeitada opinião do grande Camus. Por isso mesmo, sou apesar de tudo cético quanto à sua possível e desejável adoção pela grande massa. A massificação do suicídio, derradeira utopia social depois da morte ou do suicídio de todas as utopias políticas, pode, porém, apesar de meu ceticismo, como toda boa utopia, ser difícil de implementar, mas não necessariamente impossível.

Como a querer desmentir Dolhnikoff a Internet, isso mesmo, essa “cloaca virtual”, engendra uma homenagem macabra a um animal que resvala ladeira abaixo em direção à extinção. Talvez a ameaça de uma adoção pela grande massa do suicídio não seja uma hipótese remota. O decálogo de Dolhnikoff esqueceu desta possibilidade que rege as massas hoje em dia, a Internet. A Wikipedia, sensível com é, já incluiu na sua página de desambiguação a entrada para o game Baleia Azul. As chaves são a palavra viral e uma interpretação polêmica sobre as baleias se suicidarem no raso perto das praias.

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Talvez o suicídio não seja privilégio dos Yanomamis em seu desenraizamento. A sociedade ocidental também está se desenraizando. Magriteanamente. Como rochas flutuantes desconectadas do solo, da vida.

Mas abandonando o viés literário recomendo o vídeo abaixo, do Felipe Neto, que vai ao ponto correto. O momento mais importante naqueles que jogam o jogo com fidelidade acontece antes do primeiro passo em direção ao game. Não sabemos se uma atitude individual generalizada tem o potencial de resolver o problema sem uma política pública séria. Mas se você detectou o problema no seu entorno o vídeo abaixo dá bons conselhos e é muito bem feito. A “dramatização” perpretada pelo youtuber me pareceu eficaz. Bem melhor que a montanha de conselhos beirando ao pueril, as vezes vindo de quem “conseguiu se salvar”, que proliferam na Internet.

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Fonte do gráfico: OMS: Suicídio já mata mais jovens que o HIV em todo o mundo

O gráfico acima corrobora que há mais suicídios entre jovens e em países de baixa renda. Como termômetro, embora talvez medindo a ponta o iceberg, da epidemia de depressão, este “mal do século” (de qual mesmo?), mostra que os adolescentes são mais vulneráveis nos países de baixa renda. Nos países de renda melhor o “vazio” ocorre mais tarde. Talvez a explicação da discrepância esteja em que o jovem nos países pobres vê mais incertezas no futuro. Nos mais ricos o passado é que deve ser decepcionante ou impactante. A competição desenfreada e o consumismo poderiam levar o crédito a medida que o seu potencial nilismo vem à tona. Reconheço que tudo isso é especulativo da minha parte neste momento.

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