A esposa de Gogol – Parte 8

Ver parte 1.

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Na verdade, a verdadeira razão de eu querer ver era porque já tinha entrevisto. Mas só vi rapidamente, e talvez você não deva permitir-me apresentar mesmo o menor elemento de incerteza nesta história verdadeira. E, no entanto, um testemunho ocular destes eventos não está completo sem a menção de tudo o que a testemunha sabe incluindo aquilo de que não tem certeza absoluta. Para resumir, esse algo era um bebê. Não de carne e sangue, é claro, mas algo como um boneco de borracha. Algo, em suma, que poderíamos julgar pela sua aparência, como o filho de Caracas.

Estava eu louco também? Isso eu não sei, mas o que eu sei é isso que vi, não claramente, mas com meus próprios olhos. E eu me pergunto por que foi que enquanto eu estava escrevendo isso, agora, não mencionei que quando Nikolai Vasilyevich voltava da parte de trás do seu quarto murmurava algo entre dentes: “Ele também! Ele também!”.

E isso é tudo que eu sei sobre a esposa de Nikolai Vasilyevich. No próximo capítulo, vou narrar o que aconteceu em seguida, e que é o último capítulo de sua vida. Mas para dar uma interpretação de seus sentimentos por sua esposa, ou a qualquer outra coisa, é outra tarefa mais difícil, apesar de eu ter tentado em outras partes deste volume e remeto o leitor para este esforço modesto. Espero ter lançado luz suficiente sobre a questão mais controversa e já desvelado o mistério, embora não sobre Gogol, seja sobre sua esposa. No decorrer desta escrita eu contradisse implicitamente a acusação sem sentido que ele abusou ou bateu em sua esposa, assim como outros absurdos. E qual outro pode ser o objetivo de um biógrafo humilde do que servir de memória deste gênio altaneiro que é o objecto do nosso estudo?

Tommaso Landolfi (Pico, Frosinone, 9 de agosto de 1908 – Roma, 1979) foi um escritor italiano e tradutor. Em adição à sua obra narrativa singular, ele destacou-se especialmente para suas traduções de russo. Embora pouco conhecido pela público em geral, talvez por causa de sua linguagem preciosista e barroca, bem como por manter-se a distância das principais tendências literárias italianas do período pós-guerra, é considerado um dos maiores escritores italianos do século XX.

Traduzido de LA ESPOSA DE GOGOL, DE TOMMASO LANDOLFI

Nota:

Harold Bloom inspirou Scliar para escrever “A mulher que escreveu a Bíblia” a partir do texto:

Em Jerusalém, há quase três mil anos, alguém escreveu um trabalho que, desde então, tem formado a consciência espiritualde boa parte do nosso mundo […].

Não era um escriba profissional, mas antes uma pessoa altamente sofisticada, culta e irônica, destacada figura da elite do rei Salomão […]; ua ma mulher, que escreveu para seus contemporâneos como mulher.

Harold Bloom, The Book of J (apud Scliar em A mulher que escreveu a Bíblia)

Por sua vez, ao ler o livro “Como e porque ler” do Bloom, resolvi empreender a tradução no topo impressionado pelo comentário sobre esta obra do Tommaso Landolfi:

Tommaso Landolfi

São célebres as palavras de Dostoiévski: “Todos saímos debaixo do ‘Capote’ de Gogol”, referindo-se ao conto que versa sobre um infeliz escrivão cujo capote novo é roubado. Desprezado pelas autoridades, às quais apresenta a queixa do roubo, o miserável acaba morrendo, e seu fantasma perambula, em vão, em busca de justiça. Ainda que muito bom, esse não é o melhor conto de Gogol, mas, talvez, “Senhorios do Velho Mundo”, ou o insano “O Nariz”, este último sobre um barbeiro que, ao tomar o café da manhã, descobre o nariz de um cliente dentro de um pão que a esposa lhe acabara de assar. O espírito de Gogol, sutilmente presente em muito do que Nabokov escreveu, atinge verdadeira apoteose na excelente obra do escritor italiano contemporâneo Tommaso Landolfi “A Esposa de Gogol”, talvez o conto mais engraçado e mais desconcertante que conheço.

O narrador, amigo e biógrafo de Gogol, “muito a contragosto”, relata a vida da esposa do escritor russo. Na vida real, Gogol, religioso fanático, jamais se casou, e, quando estava com cerca de quarenta e três anos, tomou a decisão de definhar até a morte, depois de queimar seus escritos inéditos. Mas o Gogol de Landolfi (que poderia ter sido inventado por Kafka ou por Borges) casa-se com um balão de borracha, uma esplêndida boneca de inflar, capaz de assumir formas e proporções segundo os caprichos do marido. Apaixonado pela mulher, quando esta assume uma determinada forma, Gogol mantém com ela relações sexuais, e lhe atribui o nome Caracas, em homenagem à capital da Venezuela, por motivos que só o louco do autor conhece.

Durante alguns anos, tudo vai bem, até que Gogol contrai sífilis, de cujo contágio ele, injustamente, culpa Caracas. Com o passar do tempo, cresce o sentimento de ambivalência de Gogol com relação à esposa. Ele acusa Caracas de comodismo, e até de traição, enquanto ela se torna cada vez mais amargurada e carola. Afinal, Gogol, enfurecido, propositadamente, bombeia ar em Caracas até ela explodir e voar pelos ares. Após recolher os restos de Madame Gogol, o eminente escritor os incinera na lareira, onde tem o mesmo fim dos manuscritos inéditos. Ao mesmo fogo, Gogol atira um boneco de borracha, filho de Caracas. Depois da catástrofe final, o biógrafo defende Gogol contra a acusação de espancar a esposa, e saúda a memória do autor genial.

O melhor prelúdio (ou poslúdio) a “A Esposa de Gogol” são alguns contos do próprio Gogol, que nos levarão a acreditar no ocorrido com a infeliz Caracas. Como possível amante de Gogol (seja por ele, de fato, encontrada, ou mesmo inventada), Caracas é perfeitamente viável. Landolfi jamais poderia ter escrito a mesma história e a intitulado “A Esposa de Maupassant”, muito menos “A Esposa de Turgenev”. Não, essa esposa só pode ser de Gogol, de mais ninguém, e eu raramente duvido da história de Landolfi, especialmente nos instantes que sucedem a cada releitura. Caracas tem uma realidade que Borges não busca — e nem consegue alcançar — em Tlön. Como a única noiva possível para Gogol, Caracas é, a meu ver, a paródia máxima da idéia de Frank O’Connor, de que a voz solitária que se faz ouvir no conto moderno é a da População Marginalizada. Quem haveria de ser mais marginalizada do que a esposa de Gogol?

Como e porque ler, Harold Bloom

Ver também:

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Uma resposta para “A esposa de Gogol – Parte 8

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