Não-acontecimentos…

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O não-acontecimento é o complemento metafísico do acontecimento. A metafísica baixou à terra de suas alturas celestes, onde um milhão de anjos podem dançar na ponta de uma agulha. Agora é instância prática da nova manipulação das massas. E sua máquina de guerra é o não-acontecimento, como o conceitua Baudrillard.

[Excertos]

O filósofo e sociólogo Jean Baudrillard, 73, é um singular personagem da paisagem intelectual francesa contemporânea. Pensador inquieto e irrequieto, provocador e radical, irônico e paradoxal, ele exige daqueles que desejam acompanhar suas idéias o abandono de lógicas clássicas e raciocínios lineares.

Para Baudrillard, o terrorismo é o suicídio do Ocidente, agente e metáfora da desintegração interna de uma superpotência mundial sem inimigos visíveis no front de combate. Essa é, segundo ele, a quarta guerra mundial que estamos vivendo. Um conflito alimentado por uma nova Guerra Fria, provocada pela obsessão de seguridade imposta pela ameaça terrorista.

O único e verdadeiro acontecimento foi o 11 de setembro, e a guerra é o não-acontecimento, algo que foi feito para eliminar o primeiro. A relação entre os dois não é lógica, mas é uma contratransferência. A guerra é uma reação, um meio de vencer um desafio. É uma guerra à imagem do conflito do Golfo, são quase guerras clonadas. Elas não têm sentido, são injustificáveis, mas isso já é outra coisa. A questão não é “a favor ou contra”, mas saber o que significa essa guerra.

Derrida dizia que os mortos iraquianos, o petróleo, tudo isso não é virtual, é real. Acho um erro. Se começamos a debater baseados no argumento das vítimas etc, não há discussão, não há mais nada a dizer. Mas o que eu quero é compreender – é ainda um direito do homem, não? Não quero ser enganado. E nesse caso há um mistificação.
Também sou contra essa superpotência mundial, mas não nessa forma antiglobalização. Sou radicalmente contra, mas quero saber de que ponto de vista podemos realmente combatê-la. Se deploramos as vítimas do World Trade Center, do Iraque e nos detemos nessa moralização, acabou. O problema, infelizmente, se tornou muito mais simples, mais violento e mais radical. E minha teoria é a de que a análise seja também mais violenta e mais radical. E nesse momento, evidentemente, ela se torna tão inaceitável quanto o acontecimento. Mas, num sentido, ela faz parte do acontecimento, como as imagens. Ela participa um pouco do mal.

Hoje, os movimentos antiglobalização, no fundo, querem ser mais moralistas do que o sistema, mais humanos. Tudo muito respeitável, mas creio que estrategicamente, politicamente não serve. Hoje, não há nada mais a fazer senão colocar o problema a partir do terrorismo. É o único contraponto. E o terrorismo não é forçosamente violento. Certamente, há formas violentas. Mas há um terrorismo “soft”, mesmo no nível dos indivíduos e dos grupos. Ainda precisa ser feita uma genealogia da violência. Há a violência nos subúrbios, os carros incendiados e tudo mais. Pode-se dizer que, se eles tivessem o que comer, tudo seria tranqüilo. Não é verdade. Há os que têm o que comer, o conforto absoluto, mas, numa determinada hora, há um tipo de recusa, de negação de uma situação que se tornou insuportável. Se vamos longe demais no conforto, na superabundância, num dado momento ocorre algo de perverso.

Há, inclusive, essa história sobre a estátua de Saddam derrubada na praça no centro de Bagdá: foi dito que era a estátua de um sósia de Saddam. Gosto muito dessa história, pois é a imagem de todo o resto, tudo é sósia, tudo é artefato. Foi um acontecimento truncado. O 11 de setembro foi algo simbólico no sentido mais forte. Já a guerra é algo no qual tudo foi encenado, programado e mesmo vencido de antemão. Foi um acontecimento sem surpresa. Mesmo assim, houve um pequeno momento no qual se pensou que o Iraque iria resistir, e o não-acontecimento estava quase se tornando um acontecimento.

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Entrevista da 2ª Jean Baudrillard, por Fernando Eichenberg

E eis-nos envolvidos numa guerra híbrida, midiática em sua substância, etérea em sua essência, fumaça difícil de apreender. O não-acontecimento no Brasil foi o recente golpe de estado soft.

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[Excertos]

Comparam a consumação do impeachment de Dilma Rousseff com as circunstâncias do golpe militar de 1964. Lá estavam a força de armas e coturnos. Aqui em 2016, todas as “data venias” dos rapapés de juízes, juristas e parlamentares. Mas os eventos são incomparáveis: lá em 1964 tivemos a tragédia de um evento histórico. Hoje, assistimos ao vivo pela TV a farsa de um “não-acontecimento” que simulou ser um evento histórico. Desde a seminal Guerra do Golfo em 1992, os não-acontecimentos dominam o horizonte de eventos das sociedades, seja por guerras, atentados terroristas ou golpes parlamentares. Em todos eles, um complexo jurídico-midiático inverte as relações de causa-efeito: não se trata mais de acontecimentos que geram informação, mas o inverso – a História transforma-se em “Psico-História”, para usar uma expressão de Isaac Asimov. Compreender os mecanismos dos não-acontecimentos é fundamental para uma ação política que vise não apenas ocupar as ruas. É urgente também ocupar o contínuo midiático que compreende a zona virtual de interface entre a mídia e a realidade. Lá estão estão os “agentes Smiths”  (repórteres e editores) a serem enfrentados por guerrilhas midiáticas.

“Golpe branco”, “golpe frio”, “golpe parlamentar”, “golpe paraguaio”, “golpe constitucional”. Uma variedade de termos e designações correm através da mídia para tentar nomear o processo de impeachment contra Dilma Rousseff consumado em 31 de agosto.

É claro que isso se deveu a camadas e mais camadas de discursos e estratégias retóricas para justificar a constitucionalidade de todo o processo. No final, a figura aquilina do ministro do STF Lewandowski presidindo a votação final deu o verniz jurídico necessário para o último ato.

Porém, tirando essas camadas de manipulação da informação, retórica e ideologia, há um fenômeno curioso: no final, a banalidade, a previsibilidade – o tic-tac das etapas do processo transcorreram de forma perfeita, sem glórias ou tragédias – a não ser, claro, a tragédia das consequências futuras para a Democracia.

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Lá no passado o Exército, caminhões, tanques nas ruas e soldados. Aqui, a fina sintonia do complexo jurídico-midiático. Enquanto em 1964 pessoas nas ruas foram pegas de surpresas ao verem tanques de guerras e caminhões carregando soldados armados, agora todo o enredo do impeachment estava previsto e o resultado mais do que esperado.

Os dois eventos distante 52 anos no tempo são incomparáveis, foram de natureza diversa: em 1964, um fato histórico; hoje, a banalidade de um não-acontecimento.

Há um ironia objetiva no processo político do impeachment: não foi um acontecimento que produziu informações, mas, ao contrário, as informações midiáticas que determinaram acelerações e desacelerações, ditou o timing dos acontecimentos e editou a atenção da opinião pública.

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Guardada as devidas diferenças, o atual impeachment somente pode ser comparado com outros não-acontecimentos como a seminal Guerra do Golfo de 1992: as transmissões ao vivo da CNN é que ditavam o timing e extensão dos acontecimentos – enquanto dava audiência, a guerra era estendida para ajudar uma possível reeleição do presidente George Bush pai. De repente, as areias do deserto se transformaram em um gigantesco estúdio em live action para a CNN.

Hoje, esses perfeitos estúdios foram os Supremos Tribunais e as plenárias do Congresso Nacional.

O golpe militar de 1964 trazia o ardil tradicional dos eventos históricos: fazer acontecer mudanças essenciais sem darem a ideia de que aconteciam. Por isso, todo evento histórico sempre apresentou um descompasso entre essência e aparência: na aparência, a glória de atos heroicos, as tragédias dos gestos errados e a fatalidade de destinos. Eventos inaugurais, divisores de águas, separação de épocas. E na essência, as mudanças profundas e silenciosas, lentas, que de repente podem explodir, como em um golpe militar sangrento.

Essa tensão entre essência e aparência é o que sempre permitiu a existência do ofício do historiador e do pensamento crítico – mostrar que a História é escrita pelos vencedores, tentar descobrir o ardil do tempo histórico, as leis dos acontecimentos.

Nos atuais não-acontecimentos tudo isso deixou de existir com a hipertrofia das mídias que deixaram de ser testemunhas oculares da História – doravante, a “História” transformou-se em “psico-história”, para usar uma expressão do escritor sci-fi Isaac Asimov: a mídia molda a percepção da realidade ao transmitir certas informações que se transformam em profecias autorrealizáveis – crises políticas e econômicas.

No caso brasileiro, era evidente o esgotamento de todas as forças de oposição aos governos petistas – figuras politica e pessoalmente medíocres como Aécio Neves, Alckmin, José Serra e todo o chamado baixo clero do Congresso. Por si mesmas, incapazes de criar acontecimentos históricos como propostas, mobilizações populares, incendiar as ruas e assim por diante.

Vazamentos diário das denúncias premiadas através da grande mídia se transformaram no cotidiano dos brasileiros, re-injetando energia em um sistema político exaurido pela inércia dos acontecimentos. O que colocou multidões nas ruas que apenas replicavam slogans da publicidade (“O Gigante Acordou”, por exemplo) ou simulacros de obras de artistas plásticos como o gigantesco pato da FIESP.

Mesmo acompanhando os argumentos pró-impeachment nas redes sociais, é possível perceber esse, por assim dizer, DNA da psico-história autorrealizável: os textos são apenas pastiches ou mal ajambradas colchas de retalhos de slogans, palavras de ordem ou frases prontas como “programas sociais inúteis”, “os protestos começaram nas ruas”, “golpe constitucional” etc.

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O que criou um gigantesco Efeito Dunning-Kruger: indivíduos com pouco conhecimento sobre o assunto acreditam saber mais do que especialistas por estarem constantemente abastecidos midiaticamente por clichês, sofismas e frases prontas. O que reforça ainda mais a ignorância, ao ponto de se tornar incapaz em reconhecer o próprio erro, como demonstraram pesquisas na Universidade de Cornell em 1999 –clique aqui.

Os acontecimentos históricos seguem uma linha euclidiana e acumulativa em direção ao futuro. Enquanto os não-acontecimentos seguem em movimento helicoidal – movem-se em uma sobreposição circular mas em movimento helicoide onde os acontecimento se repetem como farsa mas ainda assim se movimentam no tempo.

“Se repetem como farsa” quer dizer a habilidade do continuo midiático inverter as relações causa-efeito produzindo pseudo-eventos que simulam ser históricos.

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Grau zero da política, o paroxismo do niilismo: Esquerda e Direita se equivalem no Estado em nada mais fazer do que adiar a catástrofe econômica e social, procurando enviar a dívida para um espaço virtual, uma economia fictícia onde papéis e títulos se transformam em riqueza negativa para a especulação.

Por vezes esse niilismo assusta o sistema político como um fantasma entrópico, necessitando do input do escândalo insuflado pelos vazamentos seletivamente editados – os não-acontecimentos.

Atualmente a única diferença entre Esquerda e Direita é essa: enquanto as esquerdas querem que uma parte dessa riqueza negativa seja convertida em alguma concreção nos programas sociais e de emprego, a Direita abomina tudo isso, fiel que está à agenda do controle populacional forçado pelas agências financeira internacionais – acabar com a pobreza deixando os pobres à mingua até o genocídio final.

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Por outro lado, compreender os mecanismo dos não-acontecimentos é de importância estratégica em uma necessária trans-política à esquerda.   De nada adianta tomar as ruas, como declarou Dilma Rousseff em seu discurso após a consumação do impeachment, se o contínuo midiático continua simulando a História em uma infernal sobreposição circular.

Portanto, ocupar as ruas por si só não é o suficiente. É urgente ocupar o contínuo midiático que compreende essa zona virtual de interface entre a mídia e a realidade – atrair os “agentes Smith” (repórteres da grande mídia) em ciladas semióticas.

A ação política tradicional é inócua diante da simulação dos não-acontecimentos. A simulação somente pode ser combatida com uma nova simulação: as estratégias irônicas das guerrilhas semióticas.

Impeachment, o não-acontecimento e a psico-história

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