A invenção do eterno retorno

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O maior dos pesos – E se um dia, ou uma noite, um demônio lhe aparecesse furtivamente em sua mais desolada solidão e dissesse: ‘Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspiro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terão de lhe suceder novamente, tudo na mesma sequência e ordem  – e assim também essa aranha e esse luar entre as árvores, e também esse instante e eu mesmo. A perene ampulheta do existir será sempre virada novamente – e você com ela, partícula de poeira!’.  – Você não se prostraria e rangeria os dentes e amaldiçoaria o demônio que assim falou? Ou você já experimentou um instante imenso, no qual lhe responderia: “Você é um deus e jamais ouvi coisa tão divina!”. Se esse pensamento tomasse conta de você, tal como você é, ele o transformaria e o esmagaria talvez; a questão em tudo e em cada coisa, “Você quer isso mais uma vez e por incontáveis vezes?‟, pesaria sobre os seus atos como o maior dos pesos! Ou o quanto você teria de estar bem consigo mesmo e com a vida, para não desejar nada além dessa última, eterna confirmação e chancela” – Friedrich Nietzsche, Gaia Ciência, 341

Razão Inadequada

ouroboros

Stevenson, por volta de 1882, apontou que os leitores britânicos menosprezavam um pouco as peripécias e consideravam uma grande habilidade escrever um romance sem argumento, ou de argumento infinitesimal, atrofiado. José Ortega y Gasset — A desumanização da arte, 1925 — tenta justificar o menosprezo apontado por Stevenson e decreta, na página 96, ser “muito difícil que hoje se possa inventar uma aventura capaz de interessar nossa sensibilidade superior” e, na 97, que essa invenção “é praticamente impossível”. Em outras páginas, em quase todas as outras páginas, advoga pelo romance “psicológico” e opina que o prazer das aventuras é inexistente ou pueril. É esse, sem dúvida, o comum parecer de 1882, de 1925 e até de 1940. Alguns escritores (entre os quais tenho o prazer de incluir Adolfo Bioy Casares) entendem que é razoável discordar. Resumirei, aqui, os motivos dessa discordância.

O primeiro (cujo ar de paradoxo não quero ressaltar nem atenuar) é o intrínseco rigor do romance de peripécias. O romance típico, “psicológico”, tende a ser informe. Os russos e os discípulos dos russos provaram até o cansaço que ninguém é impossível: suicidas por felicidade, assassinos por benevolência, pessoas que se adoram até o ponto de se separarem para sempre, delatores por fervor ou por humildade… Essa plena liberdade acaba equivalendo à plena desordem. Por outro lado, o romance “psicológico” pretende ser também romance “realista”: prefere que esqueçamos seu cará ter de artifício verbal e faz de toda vã precisão (ou de toda lânguida vagueza) um novo toque de verossimilhança. Há páginas, há capítulos de Marcel Proust que são inaceitáveis como invenções: sem saber, resignamo-nos a eles como a tudo que de insípido e ocioso há no dia a dia. O romance de aventuras, ao contrário, não se apresenta como uma transcrição da realidade: é um objeto artificial que não comporta nenhuma parte injustificada. O temor de incorrer na mera variedade sucessiva de O asno de ouro, das sete viagens de Simbad ou de D. Quixote impõe-lhe um rigoroso argumento.

Aleguei um motivo de ordem intelectual; há outros de caráter empírico. Todos murmuram tristemente que nosso século é incapaz de tecer tramas interessantes; ninguém se atreve a verificar que, se alguma primazia tem este século sobre os anteriores, essa primazia é a das tramas. Stevenson é mais apaixonado, mais diverso, mais lúcido, talvez mais digno de nossa absoluta amizade que Chesterton; mas os argumentos que governa são inferiores. De Quincey, em noites de minucioso terror, penetrou no coração de labirintos feitos de labirintos, mas não plasmou seu timbre de unutterable and self-repeating infinities em fábulas comparáveis às da Kafka. Ortega y Gasset aponta com justiça que a “psicologia” de Balzac não nos satisfaz; a mesma observação vale para seus argumentos. Shakespeare, Cervantes apreciavam a antinômica ideia de uma moça que, sem prejuízo de sua beleza, consegue passar por homem; esse móvel não funciona entre nós… Considero-me livre de toda superstição de modernidade, de qualquer ilusão de que ontem difere intimamente de hoje ou diferirá de amanhã; mas penso que nenhuma outra época possui romances de tão admirável argumento como The Invisible Man, como The Turn of the Screw, como Der Prozess, como Le Voyageur sur la Terre, como este que logrou, em Buenos Aires, Adolfo Bioy Casares.

As ficções de índole policial — outro gênero típico deste século que não consegue inventar argumentos — relatam fatos misteriosos que um fato razoável depois justifica e ilustra; Adolfo Bioy Casares, nestas páginas, resolve com felicidade um problema talvez mais difícil. Desfia uma Odisseia de prodígios que não parecem admitir outra chave de leitura afora a alucinação ou o símbolo e decifra-os plenamente por meio de um único postulado fantástico, mas não sobrenatural. O temor de incorrer em prematuras ou parciais revelações me proíbe a análise do argumento e das muitas delicadas sabedorias da execução. Baste-me declarar que Bioy renova literariamente um conceito que Santo Agostinho e Orígenes refutaram, que Louis-Auguste Blanqui ponderou e que Dante Gabriel Rossetti disse com música memorável:

I have been here before,
But when or how I cannot tell:
I know the grass beyond the door,
The sweet keen smell,
The sighing sound, the lights around the shore…

Em espanhol, são infrequentes e até raríssimas as obras de imaginação racional. Os clássicos exerceram a alegoria, os exageros da sátira e, vez por outra, a mera incoerência verbal; de datas recentes não recordo nada afora algum conto de As forças estranhas e algum de Santiago Dabove: injustamente esquecido. A invenção de Morel (cujo título alude filialmente a outro inventor ilhéu, Moreau) traslada um gênero novo para nossas terras e nosso idioma.

Discuti com seu autor os pormenores de sua trama, que acabo de reler; não me parece impreciso ou hiperbólico qualificá-la de perfeita.

jorge luis borges
Buenos Aires, 2 de novembro de 1940.

Ao ler pela primeira vez o livro “A invenção de Morel” me senti imerso numa atmosfera onírica.

Estou relendo agora. E a fascinação se manteve como da primeira vez.

No post sobre o filme de Resnais comento sobre o filme e o livro após a primeira leitura. Li recentemente no artigo O enigma Morel-Marienbad que o filme do Resnais pode ser uma continuação do livro e não uma adaptação direta do mesmo. Penso em rever o filme com esta nova ótica.

Procurando uma imagem para este post descobri o filme L’invenzione di Morel (1976) e o curta La invención de Morel (2006), ambos sobre o livro de Casares.

Leve spoil a seguir:

Embora a aventura sugira um pesadelo terrível, fruto de uma invenção, cujo inventor não interpretava o pesadelo como tal mas como uma esperança do eterno retorno do mesmo oriundo de uma agradável experiência em sua maior parte, ainda assim o sonho se insinua.

Quem não gostaria de ter esta repetição por toda eternidade. Seria o paraíso celeste. O inventor concebe gravar a própria vida. Os melhores momentos. Planejados para serem assim. E reproduzi-los à perfeição. Mas para o deleite garantido a alma teria que ser gravada. A própria consciência que, agora também aprisionada no simulacro, reverbera a vida e as boas experiências. Ama de novo e mais uma vez, sentindo todas as benesses de uma experiência bem sucedida.

Os simulacros de Morel tem dois lados. Um externo, testemunhado pelo náufrago na ilha. E um presumido, interno. A própria alma. Isto terá influenciado a decisão do náufrago fugitivo. Agora também se imolaria numa auto gravação para poder ficar para sempre ao lado de Faustine. Mesmo que ela não o sentisse por ser um simulacro de um tempo anterior. A Faustine que o náufrago solicitará será um simulacro do simulacro. Para sempre.

Nota: O livro se chamou também “Máquina fantástica”no Brasil, num estilo a lá Portugal de spoiler nos títulos de filmes.

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