Nosedive

nosedive-208x300As vezes precisamos do fracasso para achar o nosso centro. O fracasso, sendo relativo, pode representar o sucesso em tomar as rédeas do nosso destino. Assim como Nietzsche dizia que nunca fora tão saudável quanto na doença poderíamos encarar o fracasso como uma cura. Uma outra face da moeda. Oposta àquela do nosso conformismo às coerções externas que nada tem a ver conosco.

O episódio “Nosedive” da série “Black Mirror” mostra claramente o que nós é oculto pela nossa imersão atual nas redes sociais e nos vários sistemas que tomam conta de nossa reputação das mais variadas formas. Numa hiperbólica escalada apoiada pela tecnologia mais invasiva e totalitária que já surgiu no planeta vivemos uma nova versão do “big brother” de Orwell. Uma versão “peer to peer”, de muitos para muitos e ao mesmo tempo centralizada numa ética da fama em vez da honra. Cada vez mais ˜famosos˜, e ainda anônimos, tornarmos-nos cada vez mais hamsters girando furiosamente nossa gaiola circular. Desonramos-nos pela fama agora ubíqua e acessível nas redes sociais e mediada pelo também ubíquo celular.

Charlie Brooker explicou o título da série ao The Guardian, dizendo que “se a tecnologia é uma droga – e parece mesmo ser uma – então quais são precisamente os efeitos colaterais? Este espaço – entre apreciação e desconforto – é onde Black Mirror, minha nova série de televisão, está localizada. O ‘espelho negro’ do título é um que você encontrará em todas as paredes, em todas as mesas, na palma de toda mão: a fria e brilhante tela de uma TV, um monitor ou um smartphone.”

Wikipedia

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Shopenhauer realça a diferença entre a ribalta e a honra:

Se as pessoas insistem que honra é mais cara que a própria vida, o que elas querem dizer é que a existência e o bem-estar são insignificantes se comparados com as opiniões dos outros. É claro que isto pode ser uma forma exagerada de exprimir a verdade prosaica de que a reputação – a opinião que os outros têm de nós – é indispensável se desejamos fazer algum progresso no mundo.

Nada na vida dá ao homem tanta coragem como a renovada convicção de que os outros o olham simpaticamente. Isso significa que todos se aliam para dar-lhe a ajuda e proteção que constituem um bastião infinitamente mais vigoroso contra as incertezas da vida do que qualquer outra coisa. Os fundamentos últimos da honra residem na convicção de que o caráter moral é inalterado: uma única má-ação implica no reconhecimento de que futuras ações do mesmo gênero, sob as mesmas circunstâncias, serão igualmente ruins. Fama é algo que deve ser conquistado; honra é apenas algo que não deve ser perdido. A ausência de fama é a obscuridade que é apenas uma negação, mas a quebra da honra é uma vergonha, que é algo concreto e positivo.

A honra concerne apenas àquelas qualidades que se espera encontrar em qualquer um em circunstâncias similares. A fama concerne apenas às qualidades que não se podem exigir em todos os homens. Qualquer um pode atribuir-se a honradez. A fama só pode ser atribuída por outros. Enquanto nossa honorabilidade se estende tão longe quanto o conhecimento que as pessoas têm de nós, a fama se antecipa correndo e faz-nos conhecidos entre gente que não nos conhece. Qualquer um pode considerar-se apto à honra, poucos porém podem considerar-se capacitados para a fama obtida somente diante de conquistas extraordinárias. Nenhuma diferença de classe, posição ou nascimento é tão grande quanto o abismo que separa os incontáveis milhões de criaturas que usam suas cabeças como instrumentos de seus estômagos e aqueles poucos e raros indivíduos que têm a coragem de dizer: “não!”

Comparados com os respectivos períodos de vida, os homens de grande intelecto assemelham-se a altos edifícios construídos num pequeno lote de terreno – o tamanho da construção não poder ser avaliado por ninguém que esteja no terreno. Por razões análogas, a grandeza dos gênios ou heróis não pode ser estimada enquanto vivem. Passado um século, o mundo reconhece os valores, mas é tarde demais.

Todo herói é um Sansão. O homem forte sucumbe à intriga e às artimanhas dos fracos e se no fim ele perde a paciência, esmaga os miúdos e se soterra. Ou então ele é como Gulliver em Liliput – um poderoso gigante dominado por um enxame de homens minúsculos.

É natural que grandes mentes – os verdadeiros mestres da humanidade menosprezem a companhia de grupos. Como o professor que não se inclina a participar da zoada dos alunos. A missão destas grandes almas é guiar seus semelhantes do mar de erros ao porto da verdade, tirá-los do abismo da vulgaridade para a luz do refinamento. Os seres de grande intelecto vivem no mundo sem contudo pertencer a ele. Desde cedo percebem uma diferença entre eles e o resto da humanidade, mas é só com o passar dos anos que compreendem suas posições: seu isolamento intelectual é uma necessidade criadora e sua vida reclusa uma imposição para salvá-la do desgaste.

Shopenhauer

Shopenhauer compara a fama e a honra opinando que poucos podem obter a fama genuína com base em feitos extraordinários de valor para a humanidade. Nos confina, assim, à fama sem valor que conserva apenas a aura da verdadeira fama mas que, ainda assim, age como um lume que atrai e, ao mesmo tempo, queima nossas asas de mariposas.

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Outro episódio de Black Mirror começa onde este termina. Em Fifteen Million Merits quase todos estão confinados enquanto que em Nosedive há uma aparente liberdade exuberante com gosto de sabonete. A prisão real e a liberdade virtual são faces da mesma moeda que girando velozmente não nos permite distinguir  conscientemente uma imagem da nossa verdadeira indigência. Há somente uma crescente restrição da liberdade. Não há mais dentro e fora desta prisão. Só dentro. Segundo Foucault a mais cruel invenção recente foi a pena pela restrição da liberdade, antes apanágio exclusivo dos poderosos que prendiam seus inimigos nos calabouços privados nas profundezas das fortalezas. Hoje o Estado é o leviatã em que todos somos seus inimigos declarados ou latentes e, por isso, mantidos sobre estrito controle através de lianas invisíveis.

6jw6vl_dA série Black Mirror, um espelho distópico e negro como nosso futuro que já é presente com seus mecanismos sendo gradativamente engendrados, está se revelando um excelente meio de reflexão, como sugere a metáfora do espelho. Uma negra reflexão.  De um espelho negro como as profundezas abissais nos olhando de volta, como uma órbita escura num crânio vazio. Com um abissal esvaimento do sentido. A pergunta “Para quê estamos vivendo?” martelando insistentemente nos bastidores.

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