Hypernormalisation

hypernormalisation

Acabo de assistir o filme. A manipulação da percepção citada no filme como a nova técnica do poder me lembrou do romance “Memórias encontradas numa banheira”, do Stanisław Lem,  onde a verdade era indicernível da mentira. Como no filme do Curtis.

Vivemos uma época estranha.
Acontecem continuamente, eventos que minam e desestabilizam nosso mundo.
Bombas suicidas, ondas de refugiados,
Donald Trump, Vladimir Putin, até o Brexit.

E apesar das pessoas no controle parecerem incapazes de lidar com estes eventos…ninguém tem uma visão clara de um tipo de futuro diferente, ou melhor.
Este filme contará como chegamos a esta situação estranha.
É sobre como, nos ultimos 40 anos,
políticos, financistas, e visionarios tecnólogicos;
em vez de enfrentar as verdadeiras complexidades do mundo… fugiram.
Preferiram construir uma versão mais simples do mundo, para manter o poder.
E enquanto este mundo falso cresce, nós acompanhamos, pois a simplicidade vai se reafirmando.
Mesmo aqueles que pensaram estar atacando o sistema – Os radicais, os artistas, os músicos…
e toda nossa contracultura…
na verdade se tornaram parte do truque.
Porque eles, também, fugiram para o mundo do faz-de-conta.
Por isso sua oposição não tem efeito… e nada muda.
Mas esta fuga para um mundo de sonho, permitiu que forças obscuras e destrutivas crescessem e se fortalecessem, do lado de fora.
Forças que agora retornam, para furar a frágil superfície de nosso mundo falso, cuidadosamente construído.

HyperNormalisation (2016)

O texto acima, extraído das legendas em português, dá o tom do argumento do filme. A manipulação da percepção aparece como uma espécie de balé sincronizado entre os que manipulam e os que são manipulados. Num acordo tácito entre os que não acreditam mais em resolver os problemas do mundo e os que desistiram de esperar que os mesmos problemas sejam algum dia, se não resolvidos, pelo menos endereçados com seriedade. Cheirando a mais uma teoria da conspiração ou a realidade passou a ser substituída por uma ubíqua conspiração de verdade (contrapondo ao conceito vulgar de teoria), um novo modus operandi para a humanidade, talvez em busca do caos, do derradeiro caos que a todos finalmente vai engolir, como um buraco negro? A idéia é que um problema ou é resolvido ou tornado irrelevante para poder ser vendido como solução. A percepção dominante resultante dessa ciranda de sinais contraditórios num oceano de desinformação é de completa anomia no interesse da estabilidade do sistema. Mas ao centrar na idéia de que há uma cortina de fumaça encobrindo propósitos que não podem se revelar o próprio filme se enreda na própria teia que tece e pode gerar uma suspeita sobre a sua capacidade de desvelamento. Decreta, talvez, o fim da história, pelo menos como obra humana. Nos tornamos o que sempre fomos, uma força da natureza, a-teleológica, cujo caos é sua característica fundadora. Alguns textos comentando o filme denunciam-no como uma metalinguagem, ele próprio manipulando de forma poderosa nossa percepção, provando a sua tese ao implantar uma nova percepção, dentre muitas possíveis. O fato de gostarmos do filme corrobora a teoria do reflexo de que ele fala. Que gostamos de ver nossa imagem refletida nas interpretações simplificadas da realidade. O filme pode, como um espelho, estar refletindo nossa imagem: desesperançada e apática.

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