A retirada…

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Se me esqueceres, só uma coisa, esquece-me bem devagarinho.

Mario Quintana

Colecionei aqui textos relacionados a estar deste ontem em “retirement”, como dizem os anglófonos.

Nietzsche fala das três idades na vida: o camelo, o leão e a criança.

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Três transmutações vos cito do espírito: como o espírito se torna em camelo, e em leão o camelo, e em criança, por fim, o leão.

Muito de pesado há para o espírito, para o espírito forte, que suporta carga, em que reside o respeito: pelo pesado e pelo pesadíssimo reclama sua força.

O que é pesado? assim pergunta o espírito de carga, assim ele se ajoelha, igual ao camelo, e quer ser bem carregado.

O que é o pesadíssimo, ó heróis? assim pergunta o espírito de carga, para que eu o tome sobre mim e me alegre de minha força.

Não é isto: abaixar-se, para fazer mal a sua altivez? Deixar brilhar sua tolice, para zombar de sua sabedoria?

Ou é isto: apartar-nos de nossa causa, quando ela festeja sua vitória? Galgar altas montanhas, para tentar o tentador?

Ou é isto: nutrir-se de bolotas e grama do conhecimento e por amor à verdade sofrer fome na alma?

Ou é isto: estar doente e mandar embora os consoladores e fazer amizade com surdos, que nunca ouvem o que tu queres?

Ou é isto: entrar em água suja, se for a água da verdade, e não afastar de si frias rãs e sapos que queimam?

Ou é isto: amar aqueles que nos desprezam e estender a mão ao espectro quando ele nos quer fazer medo?

Todo esse pesadíssimo o espírito de carga toma sobre si: igual ao camelo, que carregado corre para o deserto, assim ele corre para seu deserto.

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Mas no mais solitário deserto ocorre a segunda transmutação: em leão se torna aqui o espírito, liberdade quer ele conquistar, e ser senhor de seu próprio deserto.

Seu último senhor ele procura aqui: quer tornar-se inimigo dele e de seu último deus, pela vitória quer lutar com o grande dragão.

Qual é o grande dragão, a que o espírito não quer mais chamar de senhor e deus? ”Tu-deves” se chama o grande dragão. Mas o espírito do leão diz “eu quero”.

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”Tu-deves” está em seu caminho, cintilante de ouro, um animal de escamas, e em cada escama resplandece em dourado: ‘Tu deves!”

Valores milenares resplandecem nessas escamas, e assim fala o mais poderoso de todos os dragões: “todo o valor das coisas – resplandece em mim”.

“Todo o valor já foi criado, e todo valor criado- sou eu. Em verdade, não deve haver mais nenhum ‘Eu quero’!” Assim fala o dragão.

Meu irmãos, para que é preciso o leão no espírito? Em que não basta o animal de carga, que renuncia e é respeitoso?

Criar novos valores – disso nem mesmo o leão ainda é capaz: mas criar liberdade para nova criação – disso é capaz a potência do leão.

Criar liberdade e um sagrado Não, mesmo diante do dever: para isso, meus irmãos, é preciso o leão.

Tomar para si o direito a novos valores – eis o mais terrível tomar, para um espírito de carga e respeitoso. Em verdade, para ele é uma rapina, e coisa de animal de rapina.

Como seu mais sagrado amava ele outrora o “Tu-deves”: agora tem de encontrar ilusão e arbítrio até mesmo no mais sagrado, para conquistar sua liberdade desse amor: é preciso o leão para essa rapina.

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Mas dizei, meus irmãos, de que ainda é capaz a criança, de que nem mesmo o leão foi capaz? Em que o leão rapidamente tem ainda de se tornar em criança? Inocência é a criança, e esquecimento, um começar de-novo, um jogo, uma roda rodando por si mesma, um primeiro movimento, um sagrado dizer-sim.

Sim, para o jogo do criar, meus irmãos, é preciso um sagrado dizer sim: sua vontade quer agora o espírito, seu mundo ganha para si o perdido do mundo.

Três transmutações vos citei do espírito: como o espírito se tomou em camelo, e em leão o camelo, e o leão, por fim, em criança.

Nietzsche

Não sei direito em qual fase estou entrando. Mas do camelo que se ajoelha e pede fardos cada vez mais pesados não quero saber mais.

Para descrever meus sentimentos também inventei uma alegoria:

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Era uma vez um pássaro que morava numa gaiola de ouro. Com o tempo descobriu que seu dono, Max, o tinha numa gaiola de ferro quando descascou a fina camada dourada.

Um dia Max morreu. Sua casa ladrões e espoliadores devastaram e, não interessados no pássaro, deixaram aberta a porta de ferro.

Diante da porta aberta o pássaro se intimidou. Mas a brisa tépida e o céu límpido o cativaram. Voou sobre as copas. Volteou explorando as cercanias com voluptuosidade. Nem percebeu um mancha escura que se avolumava no solo.

Garras aduncas o elevaram a altura das montanhas. Inebriado por este voo, muito além de suas parcas capacidades e fôlego, regozijava. Mesmo quando adunco bico o transformou em informe massa de penas e carne sangrenta não se achou fora da vida.

Sinto-me como um pássaro numa gaiola. A porta vai ser aberta. Será que sairei por ela? A liberdade pode ser tóxica para quem sempre viveu preso. Um pequeno pássaro sem experiência da liberdade pode não pressentir a sombra do gavião a tempo. Pode mesmo, sendo pequeno, se enredar mortalmente na teia de uma aranha. Mas nunca dantes teve a embriaguez de voar numa ampla atmosfera de liberdade, um céu azul, límpido e vibrante de energia solar. Pode valer muito a pena. E que a alma não seja pequena. E que o pequeno pássaro se metamorfoseie num gigante. Com a cabeça nas nuvens e os pés no chão. É o que desejo e espero…

Espero também entrar em Pasárgada como preconiza Bandeira:

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Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Bandeira

Mas o mestre mesmo em estabelecer as condições do retiro foi para mim Montaigne. A tendência ao desvario do excesso de tempo com o qual ainda se tem que aprender a lidar é descrita magistralmente por Montaigne:

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Retirei-me há tempos para as minhas terras, resolvido, na medida do possível, a não me preocupar com nada, a não ser o repouso, e viver na solidão os dias que me restam. Parecia-me que não podia dar maior satisfação a meu espírito senão a ociosidade, para que se concentrasse em si mesmo, à vontade, o que esperava pudesse ocorrer porquanto, com o tempo, adquiria mais peso e maturidade. Mas percebo que:

“Variam semper dant otia mentem”

”Vã ociosidade, o espírito se dispersa em mil pensamentos diversos” [Lucano]

, e ao contrário do que imaginava, caracolando como um cavalo em liberdade, cria ele cem vezes maiores preocupações do que quando tinha um alvo preciso fora de si mesmo. E engendra tantas quimeras e idéias estranhas, sem ordem nem propósito, que para perceber-lhe melhor a inépcia e o absurdo, as vou consignando por escrito, na esperança de, com o correr do tempo, lhe infundir vergonha.

Montaigne

E como o excesso de tempo também leva a estar mais tempo consigo mesmo na solidão esta é um ingrediente importante. Montaigne novamente é imbatível na sua percepção:

Sobre a solidão

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Deixemos de lado qualquer comparação, por demasiado longa, entre a vida solitária e a vida mundana; e quanto a esta bela frase que dissimula a ambição e a avareza: não nascemos para nossa própria satisfação e sim para a de todos, apelemos para os que estão na dança e que após cuidadoso exame de consciência nos respondam se os trabalhos, os encargos e os aborrecimentos da vida na coletividade são procurados e aceitos por outros motivos que não o proveito pessoal ambicionado. Os meios pouco confessáveis que empregamos em nosso século para avançar, bem demonstram o nenhum valor do objetivo fixado. Se para combater nossa tendência para a solidão a atribuírem à ambição, responderemos que é precisamente esta que nos inspira, pois quem mais do que a ambição foge da sociedade, e que deseja mais senão a inteira liberdade?

Praticar o bem ou o mal é possível em toda parte, entretanto se o que diz Bias é certo, ”que a maioria dos homens é também a pior”, ou o que se escreve no Eclesiastes, ”que sobre mil não há um que preste”, ou ainda o poeta,

“Rari quippe boni: numero vix sunt totidem quot Thebarum portae, vel divitis ostia Nili,”

”Raros são os bons, apenas se achariam tantos quantas as portas de Tebas ou as embocaduras do Nilo” [Juvenal]

, grande é o contágio do mal para quem vive na sociedade. É preciso imitar os viciados ou odiá-los, alternativas igualmente perigosas. Imitá-los porque são muitos; odiá-los porque são diversos. Por isso os negociantes que viajam por mar evitam que subam a seus navios pessoas dissolutas, blasfemadoras ou más, porquanto um tal aglomerado de gente só pode ter péssimas conseqüências. Por isso, também, dizia Bias àqueles em cuja companhia enfrentava violenta tempestade e que invocavam a proteção divina: ”Calai, que Deus não perceba que estais aqui comigo”. O exemplo de Albuquerque, vice-rei da Índia, é mais típico ainda. Correndo o risco de morrer em acidente marítimo, tomou uma criança pequena aos ombros, a fim de que, no perigo comum, sua inocência lhe servisse de garantia.

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Não é que o homem sábio não possa viver satisfeito onde quer que seja e isolar-se no meio dos cortesãos que entopem o palácio; mas se lhe for dado escolher, evitará até o simples espetáculo deles, dizem os filósofos. Se necessário resignar-se-á a ficar; se puder, escolherá outra situação. Não lhe parecerá suficiente libertar-se dos próprios vícios, se tiver ainda de lutar contra os dos outros. Charondas punia como maus os que comprovadamente andavam em más companhias. Não há ser mais sociável ou menos sociável do que o homem; é ele uma coisa pela sua própria natureza e outra em conseqüência de seus vícios. Antístenes não foi a meu ver judicioso quando, a alguém que lhe censurava as más companhias, respondeu: ”os médicos também vivem com os doentes”. Em verdade os médicos cuidam da saúde dos doentes, mas comprometem a sua, pelo contágio e a influência perniciosa da presença contínua da doença.

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O fim que visamos quando procuramos a solidão é, creio, viver mais à vontade e como nos agrada; mas nem sempre acertamos com o caminho. Amiúde imaginamos ter abandonado quaisquer ocupações e não fazemos senão mudar de atividade. O governo de uma família não causa menos aborrecimentos que o de um Estado. Ao que quer que se entregue, o espírito entrega-se por inteiro, e em sendo as ocupações domésticas menos importantes nem por isso são menos importunas. Mais ainda: podemos retirar-nos da Corte, renunciar aos negócios, não estaremos contudo ao abrigo dos principais tormentos da vida:

“Ratio et prudentia curas,

Non locus effusi late maris arbiter, aufert;”

”São a razão e a prudência, e não essas praias de onde se vê a imensidade do mar, que dissipam a tristeza” [Horácio].

A ambição, a avareza, a indecisão, o medo, a concupiscência não nos abandonam tão-somente porque mudamos de lugar:

“Et Post equitem sedet atra cura;”

”A preocupação monta na garupa e galopa com eles” [Horácio].

Acompanham-nos até nos claustros e nas escolas de filosofia. Não há desertos, cavernas nos rochedos, mortificações e jejuns que nos libertem:

“Haeret lateri lethalis arundo.”

”A seta mortal continua presa a seus flancos” [Virgílio].

Diziam a Sócrates de alguém que de nenhum defeito se corrigira durante a longa viagem que realizara: ”bem o creio”, retrucou o filósofo, ”ele se levara a si mesmo em sua companhia”.

“Quid terras alio calentes Sole mutamus? patriae quis exsul Se quoque fugit?”

”Por que procurar países iluminados por outros sóis? Bastaria então fugir da pátria para fugir de si mesmo?” [Horácio].

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Se preliminarmente não descarregamos a alma do peso que a oprime, mais se machucará com o movimento; assim o navio se estraga menos se a carga é bem distribuída. Mais mal do que bem faz-se ao doente em o mudando de lugar. Com o movimento, o mal acumula-se no fundo dele, como o conteúdo de um saco quando sacudido, e como a estaca afunda e se solidifica quanto mais a tentam abalar. Não basta pois deslocar-se, evitar a multidão; é preciso ainda afastar de nós as idéias que nos são comuns, a ela e a nós. É preciso que nos seqüestremos e tomemos posse de nós mesmos:

“Rupi jam vincula, dicas Nam luctata canis nodum arripit; attamen illi, Quum fugit, a collo trahitur pars longa catenae.”

”Quebrei os ferros, dizeis? Sim; o cão, depois de ter puxado a corrente e a ter partido, foge mas arrastando uma parte ao pescoço” [Pérsio].

Carregamos nossos ferros conosco, nossa liberdade não é completa. Volvemos o olhar para o que deixamos e que nos emprenha a imaginação:

“Nisi purgatum est pectus, quae praelia nobis

Atque pericula tunc ingratis insinuandum?

Quantae connscindunt hominem cupedinis acres

Sollicitum curae? quantique perinde timores?

Quidve superbia, spurcitia, ac petulantia, quantas

Efficiunt clades? quid luxus desidiesque?”

”Se a alma não é pura, quantos riscos corremos! Quantas lutas sem proveito contra nós mesmos! Quantas preocupações amargas, quantos temores, quantas inquietações roem o homem prisioneiro de paixões! Que devastações produzem em nosso espírito o orgulho, a luxúria, a cólera, o luxo, a moleza, a preguiça!” [Lucrécio].

“In culpa est animus, qui se non effugit unquam.”

”Nosso mal está dentro da alma e esta não pode fugir de si mesma” [Horácio].

É necessário, pois, extirpá-lo dela e então nos concentrarmos em nós mesmos. Nisso consiste a verdadeira solidão, a que podemos gozar na cidade e na Corte, mas que gozamos melhor no isolamento. Se projetamos viver sozinhos, longe de todos, façamos com que nossa satisfação só dependa de nós; destruamos tudo o que nos amarra aos outros, arranjemo-nos de maneira a viver efetivamente sós, e, nesta condição, sem mais preocupações.

Estílpon escapara do incêndio de sua cidade natal, mas perdera a mulher, os filhos e tudo o que possuía. Vendo-o sereno em tão sombria situação, perguntou-lhe Demétrio Poliorcetes se não tivera prejuízos. ”Ao que ele respondeu que, mercê de Deus, nada perdera de seu”. É o que exprimia de modo jocoso o filósofo Antístenes: ”O homem deve abastecer-se de provisões suscetíveis de flutuar, a fim de que possa, em caso de naufrágio, salvá-las a nado”. E, com efeito, o sábio nada perde em conservando a posse de si mesmo.

Quando a cidade de Nola foi saqueada pelos bárbaros, Paulino, bispo do lugar, perdeu todos os seus bens e foi feito prisioneiro. Nem por isso deixou de endereçar diariamente a Deus esta prece: ”Preservai-me, Senhor, de sentir esta desgraça, pois o que está em mim, bem o sabeis, não foi até agora atingido”. As riquezas que o faziam realmente rico, os bens que o faziam bom, continuavam intactos. Cumpre, pois, selecionar os tesouros que podem ser preservados de quaisquer danos e escondidos em lugar fora do alcance de qualquer um e que só nós mesmos podemos revelar. É preciso ter, se possível, mulher, filhos, fortuna e principalmente saúde, mas não se prender a isso a ponto de prejudicar nossa felicidade. É preciso ter como reserva um recanto pessoal, independente, em que sejamos livres em toda a acepção da palavra, que seja nosso principal retiro e onde estejamos absolutamente sozinhos. Aí nos entreteremos de nós com nós mesmos, e a essa conversa, que não versará nenhum outro assunto, ninguém será admitido. Aí nos abandonaremos a nossos pensamentos sérios ou divertidos, como se não tivéssemos mulher nem filhos, nem bens, nem casa, nem criadagem, de maneira que se um dia eles nos faltarem não nos custe demasiado a carência. Temos uma alma suscetível de se recolher, de se bastar em sua própria companhia, de atacar e defender-se, de dar e receber; não nos arreceemos, portanto, nesse diálogo com nós mesmos, de vegetar em uma aborrecida ociosidade.

“In solis sis tibi turba locis.”

”Na tua solidão, sê para ti mesmo o mundo” [Tibulo].

A virtude satisfaz-se com ser, sem necessidade de regras, palavras, conseqüências.

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Em nossas ocupações habituais não há uma entre mil que nos diga respeito. Este, que vês furioso e fora de si, escalar as ruínas do forte, em meio à fuzilaria; e o outro que, cadavérico, esfomeado, coberto de cicatrizes e decidido antes a morrer do que a deixar passar o inimigo, imaginas que agem por conta própria? Pois é por conta de fulano e beltrano, que nunca viram, fulano e beltrano que não se preocupam sequer com seus feitos e mergulham no ócio e nos prazeres enquanto eles se matam. Aquele que vês sair depois da meia-noite de seu gabinete de estudo, tomado de pituíta, olhos doentes, miseravelmente vestido, pensas que passou seu tempo a buscar nos livros o que lhe cumpre fazer para se aperfeiçoar no bem, para se satisfazer com a sorte e progredir em sabedoria? Nada disso! Morrerá na tarefa ou acabará revelando à posteridade o ritmo em que se escreveram os versos de Plauto ou a verdadeira ortografia de certa palavra latina. Quem não troca deliberadamente a saúde, o repouso, a vida, pela reputação e a glória, as mais inúteis e vãs, e falsas, das moedas correntes? Como se nossa própria morte já não nos inspirasse suficiente terror, interessamo-nos pela de nossas mulheres, filhos e servidores! Como se não tivéssemos bastantes aborrecimentos, acrescentamos aos nossos os dos nossos vizinhos e amigos!

“Vah! quemquamne hominem in animum instituere, aut Parare, quod sit carius, quam ipse est sibi?”
”Como pode um homem pretender amar mais a alguma coisa do que a si mesmo?” [Terêncio].

A solidão parece-me em particular indicada, e necessária, àqueles que consagraram à humanidade a mais bela parte de sua vida, a mais ativa e produtiva, como o fez Tales. Já vivemos bastante para os outros, vivamos para nós ao menos durante o pouco tempo que nos resta. Isolemo-nos, e na calma, rememoremos nossos pensamentos e nossas intenções. Não é nada fácil um retiro consciencioso; isso nos preocupará suficientemente para que não procuremos atrelar-nos a outros empreendimentos. Desde que Deus nos dá lazeres a fim de nos prepararmos para deixar este mundo, mãos à obra, arrumemos nossas bagagens. Com antecedência digamos adeus a todos; libertemo-nos desses compromissos que nos amarram a outrem e nos distraem de nós mesmos.

É preciso romper com quaisquer obrigações imperativas. Talvez ainda gostemos disto ou daquilo, mas só a nós mesmos poderemos desposar. Em outras palavras, o que está fora de nós pode não nos ser indiferente, mas não a ponto de se colar a nós de modo que não se arranque sem nos esfolar e sem levar alguma parcela de nós. A coisa mais importante do mundo é saber pertencermos-nos.

Já é tempo de nos retirarmos da sociedade, porquanto nada mais lhe podemos dar e quem não está em condições de emprestar não deve pedir emprestado. Se nos faltam forças, recuemos e nos recolhamos. Quem puder então emprestar a si próprio os serviços que de costume se esperam da amizade e da sociedade, preste-os. Mas nessa queda que o torna inútil, importuno e pesado a outrem, evite tornar-se inútil, importuno e pesado a si próprio. Que se elogie e se trate, mas se domine; que respeite e tema sua razão e sua consciência para que não dê, sem se envergonhar, um passo em falso diante delas:

“Rarum est enim, ut satis se quisque vereatur.”

”É raro, com efeito, que alguém saiba respeitar-se suficientemente” [Quintiliano].

Diz Sócrates que os jovens devem instruir-se; os homens feitos procurar agir acertadamente; os velhos abandonar toda ocupação civil ou militar e viver para sua idéia, sem obrigações precisas. Há temperamentos mais ou menos predispostos a se conformarem com tais princípios. Os tímidos, os fracos, cujos sentimentos e vontade não se dobram (e sou desses tanto por tendência natural como pelo raciocínio) aceitam-nos mais facilmente do que aqueles cuja atividade e necessidade de ação levam a se meter em tudo, a se apaixonar por tudo, aqueles que se oferecem, se apresentam e se dão em quaisquer circunstâncias.

É preciso valermos-nos das vantagens que porventura encontramos em torno de nós, mas na medida em que nos convêm e sem fazer delas um alicerce essencial. Não o seriam, pois a razão e a natureza não o aprovam. Por que, desobedecendo às suas leis, nos colocaríamos, no que respeita à nossa comodidade, sob a dependência de outrem Antecipar-se aos acidentes que pode provocar a má sorte, não é coisa de se fazer. Privar-se voluntariamente das satisfações ao nosso alcance, como o fazem alguns por devoção e certos filósofos por convicção; dispensar criados; dormir ao relento; vazar os próprios olhos; deitar fora riquezas; procurar a dor, como o fazem muitos na. esperança de que os sofrimentos em vida lhe acarretem a eterna beatitude no outro mundo; ou como fazem outros que pensam, em descendo ao degrau mais baixo da sociedade, garantir-se contra queda maior, são coisas que resultam de exagerada virtude. Que as naturezas particularmente severas e resolutas assim se defendam contra os vendavais deste mundo é coisa que as honra e vale como exemplo:

“Tuta et parvula laudo,

Quum res deficiunt, satis inter vilia fortis

Verum, ubi quid melius contingit et unctius, idem

Hos sapere et solos aio bene vivere, quorum

Conspicitur nitidis fundata pecunia villis.”

”Quanto a mim, se não posso ter muito, contento-me com pouco e louvo a possível mediocridade; se minha fortuna melhora, proclamo que não há sábios e homens felizes senão entre aqueles cuja renda provém de boas terras” [Horácio].

Creio que muito se pode fazer sem ir tão longe. Basta-me a mim, quando a sorte me sorri, preparar-me para suas infidelidades, e representar-me, enquanto tenho o espírito livre, o mal que me pode ocorrer; assim em plena paz nos entregamos às justas e aos torneios, a fim de nos exercitarmos para a guerra. Não considero o filósofo Agesilau menos digno, só porque usava baixela de ouro e prata, de acordo com sua fortuna; estimo-o mais por tê-la usado com moderação e liberalidade do que se dela se houvesse desfeito.

Procuro verificar até onde podem ir as necessidades a que estamos expostos. Quando  um pobre mendigar à minha porta, tento fazer com que meu pensamento se amolde ao seu. E passando dele a outros em idênticas condições, sou impelido a pensar na morte, na pobreza, na perda de consideração, na doença, que podem ocasionalmente acontecer-me. A apreensão que experimento atenua-se à idéia da paciência com que outros, em piores situações, acatam suas desventuras, pois não posso acreditar que a fraqueza de espírito seja, em semelhante ocorrência, mais eficiente que a firmeza de ânimo, ou que a razão não possa conduzir aos mesmos resultados que o hábito. Sabendo quanto essas comodidades da vida, tão supérfluas, são frágeis, ao gozá-las não deixo de pedir a Deus a mercê de fazer com que me sinta satisfeito comigo mesmo e com o que possuo. Vejo pessoas ainda jovens e em perfeita saúde ter sempre em casa quantidade de pílulas para o caso de sobrevir um resfriado, o qual tanto menos receiam quanto imaginam ter o remédio à mão. É preciso agir de maneira idêntica; e se nos sentimos expostos a alguma doença séria devemos prover-nos de drogas que acalmem e adormeçam o órgão ameaçado.

A ocupação que cumpre escolher quem procura a solidão, não deverá ser nem cansativa nem aborrecida, pois de outro modo não valeria a pena isolar-se no intuito de encontrar o repouso. Depende ela da predileção natural de cada um. A minha tendência não me induz a valorizar minhas propriedades; os que apreciam uma tal atividade a ela se entreguem pois, mas com moderação: ”que busquem colocar-se acima das coisas, em vez de se sujeitar a elas” [Horácio], sem o que a ocupação se transformará em servidão, como diz Salústio.

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Entre as ocupações que comporta a exploração de uma propriedade, algumas há que eu compreendo e desculpo. Cuidar do jardim, por exemplo, o que, segundo Xenofonte, fazia Ciro. E é possível encontrar um meio-termo entre o trabalho grosseiro, pesado, exigente de atenção que se impõe a quem se dedica por inteiro a ele e a displicência profunda, excessiva dos que deixam tudo ao abandono:

“Democriti pecus edit agellos

Cultaque, dum peregre est animus sine corpore velox.”

”O gado dos vizinhos vinha comer as colheitas de Demócrito enquanto, liberto do corpo, seu espírito viajava pelo espaço” [Horácio].

Ouçamos o conselho de Plínio, o Jovem, a seu amigo Canínio Rufo a respeito da vida solitária: ”No retiro absoluto que criaste, e onde tens a possibilidade de viver como entendes, aconselho-te a abandonares a teus servidores as tarefas penosas e humilhantes, e te entregares ao estudo das letras, a fim de chegares a produzir alguma coisa pessoal”. Plínio quer dizer com isso que aplicasse seus lazeres em criar um nome. É o que pensava Cícero, que dizia querer empregar a solidão e o repouso que lhe deixariam os negócios públicos em conquistar com seus escritos uma glória imortal:

“Usque adeone

Scire tuum, nihil est, nisi to scire hoc, sciat alter?”

”Teu saber nada valerá se não souberem que tens saber” [Pérsio].

Seria normal, a meu ver, que olhasse para fora do mundo quem dele quer retirar-se. Plínio e Cícero só o fazem entretanto por metade; tudo dispõem para o momento em que se hão de retirar, mas por uma ridícula contradição, embora separados do mundo, deste é que pretendem tirar sua satisfação.

Os que por devoção procuram a solidão, e se animam na certeza de outra vida acenada pelas promessas divinas, são mais coerentes. Aspiram a Deus, infinitamente bom e poderoso, e sua alma, livre, encontra à saciedade a satisfação dos desejos que concebe no retiro. Aflições e dores são-lhes vantajosas, porquanto constituem créditos a mais para um dia possuírem a saúde e a felicidade eternas. A morte se lhes afigura desejável porque os introduzirá na perfeição. O rigor das regras que se impõem é atenuado desde o início pelo hábito, e os apetites da carne, repelidos sem cessar, adormecem afinal, pois nada os entretém melhor do que o uso e os exercícios. Essa outra vida feliz e imortal que se lhes promete, merece, sozinha, que renunciem sem restrições às comodidades e doçuras da nossa. Quem pode abrasar a alma com a chama dessa fé que nada abala e dessa esperança que engendra uma convicção real e constante, leva na solidão uma existência cheia de volúpias e de delícias, que deixa muito distantes todas as satisfações outorgadas por qualquer outro gênero de vida.

Nem o objetivo que aponta Plínio, nem o meio que propõe satisfazem portanto. Vamos assim de mal a pior. Dedicar-se às letras é trabalho tão penoso como outro qualquer e igualmente perigoso para a saúde, o que é o ponto essencial a ser considerado. E não nos devemos deixar encantar pelo prazer que tiramos dele, pois é sempre o prazer excessivo, que o homem aufere da satisfação do que mais aprecia, que o perde, seja ele avarento, voluptuoso ou ambicioso. Os sábios advertem-nos assaz contra a traição de nossos apetites; ensinam-nos a discernir, entre os prazeres que se nos oferecem, os verdadeiros e não suscetíveis de amargor dos que não são sem mistura e dos quais cumpre esperar mais fadiga do que satisfação. A maior parte dos prazeres, dizem, acaricia-nos e nos abraça para nos estrangular, como faziam os bandidos a que os egípcios chamavam filistas. Se a dor de cabeça da embriaguez ocorresse antes e não depois, evitaríamos beber demais; pois a volúpia age como a embriaguez: para melhor nos enganar vai à frente, escondendo-nos as conseqüências que acarreta. As letras são um agradável passatempo, mas se nos devemos absorver nelas a ponto de perdermos a alegria e a saúde, o que em suma nos é mais precioso, renunciemos. Sou de opinião que as vantagens que elas nos oferecem não compensam tais prejuízos. Os homens enfraquecidos por alguma enfermidade prolongada acabam por se entregar ao médico e se submetem a determinadas regras de vida a que não devem desobedecer; ora, quem, por desgosto ou aborrecimento, se retira da vida na sociedade deve guiar-se pelas regras da razão, e ordenar a nova existência com prudência e sensatez.

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Deverá renunciar a qualquer trabalho, como quer que se apresente, e também de um modo geral evitar as paixões que perturbam a tranqüilidade do corpo e do espírito, e ”escolher o caminho mais adequado a seu temperamento” [Propércio].

Que se dedique ao governo da casa, ao estudo, à caça ou a outro exercício se nisso se compraz, mas que não vá além do prazer porque então começa a fadiga. É preciso não inventar tarefas nem ocupações senão dentro dos limites em que se impõem para nos manter em forma e preservar dos incômodos que acarreta o exagero contrário, a ociosidade que amolece e embota. Há ciências estéreis e árduas que em sua maioria interessam principalmente a sociedade. Que as estudem os que estão a serviço desta. Quanto a mim, só aprecio os livros agradáveis e fáceis, que me distraem, cuja leitura é agradável, ou então os que me consolam e me fornecem regras para orientar a vida e preparar-me para a morte,

“Tacitum sylvas inter reptare salubres,

Curantem, quidquid dignum sapienti bonoque est.”

”Passeando em silêncio pelos bosques e ocupando-me de tudo o que é digno de um homem bem ordenado e virtuoso” [Horácio].

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As pessoas mais sábias do que eu, de alma mais forte e elevada, podem criar para si um repouso inteiramente espiritual. Eu, que a tenho como todo mundo, preciso que as comodidades do corpo me ajudem. E, tendo chegado à idade de perder as que mais me apeteciam, procuro as que me permite ainda esta época da vida, e arranjo-me para as aproveitar. É preciso, por todos os meios possíveis, inclusive unhas e dentes se necessário, que conservemos o gozo das satisfações da vida que os anos nos arrancam aos poucos, umas após outras, das mãos:

“Carpamus dulcia; nostrum est,

Quod vivis; cinis, et manes, et fabula fies.”

”Gozemos; somente os dias que damos ao prazer são nossos; brevemente não serás mais que cinza, sombra, fábula” [Pérsio].

Plínio e Cícero sugerem-nos como objetivo a glória. Não me interessa nem de longe. A disposição de espírito mais contrária à vida solitária está na ambição. Glória e repouso são incompatíveis entre si. Plínio e Cícero somente livraram o corpo da multidão; mais do que nunca a ela se prenderam pelo espírito e a intenção:

“Tun’, vetule, auriculis alienis colligis escas?”

”Velho pândego, então só trabalhas para divertir o povo?” [Pérsio]

; recuaram para melhor saltar e mediante violento impulso caíram em cheio no rebanho.

Quereis ver a que ponto estão errados? Comparemos sua opinião com as de Epicuro e Sêneca, filósofos pertencentes a escolas diversas e escrevendo um a Idomeneu e outro a Lucílio, seus amigos, a fim de induzi-los a abandonarem a vida pública, com suas grandezas, e a se retirarem: ”Vivestes até agora – dizem eles – nadando e flutuando pelos mares; voltai ao porto para morrerdes. Passastes a vida em plena luz, vivei à sombra o tempo que vos resta. Não vos libertaríeis de vossas ocupações se ao mesmo tempo não renunciásseis aos benefícios que vos outorgam; eis por que é preciso que abandoneis qualquer idéia de glória e renome. Seria prejudicial para vosso repouso que a irradiação de vossos feitos do passado vos acompanhasse em vosso refúgio, pondo vos demasiado em evidência. Com os outros prazeres renunciai ao que emana do aplauso dos homens. Quanto a vosso saber e a vossas capacidades, não vos preocupeis; não estarão perdidos se vós mesmos valerdes mais. Lembrai-vos daquele sujeito a quem perguntavam por que se esforçava tanto por adquirir um saber de que poucas pessoas teriam conhecimento; respondeu ele: ‘Contento-me com poucos; contento me com um; contento-me com nenhum.’ Estava certo. Vós e mais um já vos bastareis neste teatro da vida, em vos servindo mutuamente de público; e se estais só, sede a um tempo ator e espectador. Que o público seja para vós uma só pessoa e que uma só pessoa tenha a importância de um grande público. É covarde ambição querer auferir glória e renome da ociosidade e da solidão; fazei como os animais que apagam suas pegadas à entrada de seu covil. Não vos deveis esforçar para que o mundo fale de vós; só vos deveis preocupar com o que dizeis a vós mesmos. Recolheivos em vós, mas antes preparai-vos para vos receber. Pois seria loucura confiardes em vós se não sabeis governar-vos. Pode-se errar na vida solitária como quando se vive na sociedade. Enquanto não puderdes mostrar uma atitude irrepreensível, enquanto não inspirardes a vós mesmos respeito e pudor,

“Obversentur species honestae animo.”

“Oferecei a vosso espírito nobres imagens” [Cícero]

; tende sempre presentes à imaginação Catão, Fócion, Aristides, diante dos quais os próprios loucos esconderiam seus erros; e fazei-vos juízes de vossas intenções. Se estas não forem o que deveriam ser, a deferência que por eles tendes vos indicará o caminho certo. Eles vos ajudarão a vos bastardes, a nada pedirdes senão a vós mesmos, a fazerdes com que vosso espírito se atenha às meditações em que possa comprazer-se. Assim compreendereis quais os verdadeiros bens, de que gozamos na medida em que os vamos entendendo, e assim sereis felizes, sem desejar que vossa vida se prolongue e vosso nome se torne famoso”.

Eis um conselho de verdadeira e natural filosofia, e não de uma filosofia de ostentação e verborragia como a de Plínio e Cícero.

Montaigne é um gentleman (ou gentilhomen) a ponto de nos emocionar. Vale a pena lê-lo. Elogiado por Nietzsche, que não elogiava ninguém, que numa frase, que é uma magnífica apologia, escreveu “O fato de esse homem ter escrito realmente aumentou a alegria de viver nesta terra… Se me fosse dada a tarefa, eu poderia me esforçar para ficar à vontade no mundo como ele“.

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