Licença para matar

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Muitos falam barbaridades por conta da política e acham que estão desculpados de serem energúmenos quando o assunto é este.

Vemos o caso de defenderem e votarem em apologistas de torturadores como se nada fosse e é citado no vídeo abaixo:

São como “james bonds” com licença para matar estes que nas suas “conversas” só querem subir num púlpito e deitar peroração raivosa, hidrófoba mesmo. Não esperam réplicas ou ponderações. Não as desejam. Suas intervenções são uni-direcionais. O grau de autismo, com perdão dos autistas, é grande e interpretam o silêncio perplexo como sua vitória. Como resultado de sua acachapante “verdade”. Se jogarmos água acho que estrebucham e se descadeiram.

O texto de Ruth Manus acerta na mosca e expressa algo que muitas vezes nos indigna mas não consegue aflorar de forma consciente em relação “cães” citados no parágrafo supra. Mas quando alguém expressa com um grau de precisão como este da Ruth então nosso inconsciente se funde com o consciente e brilha uma nova compreensão do que nos incomodava.

Amizades acabam por causa de política?

Ou acabam porque percebemos que algumas pessoas não são quem pensávamos que eram? 

Ruth Manus

Eu sou uma daquelas pessoas cujas mãos começam a coçar, cuja língua tenta fugir de dentro da boca, cujo peito não lida nada bem com o silêncio em época de eleições. Aliás, não apenas em época de eleições, mas sempre que algum tema relevante- acerca do qual eu tenha opinião formada- vem à tona.

Sou daquelas chatas que vai estudar, vai ler 20 reportagens de veículos de comunicação diferentes e depois conversa com 8 amigos, 5 parentes e 3 desconhecidos de opiniões diversas sobre esses assuntos polêmicos, tentando embasar o que pensa.

Pertenço a uma espécie que sofre: a que julga que silenciar é compactuar com o que está acontecendo, independente de sua posição política. Por isso nós nos manifestamos, discutimos, nos chateamos, chateamos os outros e nos desiludimos com o mundo. Não tenho dúvidas de que a minha vida seria mais fácil se eu me interessasse apenas sobre cores de batom e campeonato brasileiro.

Mas, enfim, cada um sente o que sente, cada um luta pelas suas razões.

Mas em meio a tantas razões e tanto sentimento, começam os embates. Opiniões divergentes, respostas ácidas, questionamentos, provocações. Pessoas queridas nos frustram, pessoas às quais somos indiferentes mostram-se necessárias. Arame farpado, rosas cheias de espinhos. E surge a polêmica pergunta: vai deixar que a amizade de vocês acabe por política?

Não. As amizades não acabam por política. Amizade de verdade, com gente boa, não acaba por pensarmos igual, muito menos por pensarmos diferente. Isso nunca. Não se rompe amizade por causa do número da legenda partidária, nem por visões distintas da economia, nem por prioridades políticas diferentes. O que pode acontecer é descobrirmos que certas pessoas simplesmente não são quem nós pensávamos que eram.

No momento em que nós descobrimos que pessoas que nos cercam utilizam argumentos racistas, a amizade realmente precisa acabar. Quando fica claro que alguns amigos se orgulham do próprio machismo, é preciso deixá-los para trás. Quando aquele velho conhecido do prédio revela seu discurso homofóbico de ódio, vá embora. Quando a amiga da sua mãe disser que pobre não devia ter direito a voto, corte relações.

Piadas com violência sexual. Ode à ditadura. Incitação à violência. Tratar animais melhor do que trata os empregados. Novas versões do fascismo. Xenofobia. Nós não podemos relativizar essas coisas. A gente precisa se posicionar, por mais dolorido que seja.

As amizades não acabam por causa de política, acabam porque a gente descobre que tem gente que era querida, mas que se revela nojenta. E quando elas se mostram assim, o afeto pega suas malas vai embora. Porque o afeto não se engana. Ele sabe que permanecer ao lado delas, conhecendo-as assim, seria uma nítida forma de compactuar com o ódio, a pequeneza e a miserabilidade dentro da qual residem as piores formas de segregação e violência.

As amizades não acabam por causa de política. Acabam porque a discussão política muitas vezes revela a verdadeira cara de muita gente. E essas caras não são, nem nunca serão caras amigas.

As conversas não são mais prazerosas e liberadas para qualquer assunto como aconselha Georg Simmel (Veja o texto mais abaixo). Agora, discutir política, na verdade politicagem ou fla-flu político, é sempre como uma partida de tênis em vez de frescobol.

A conversa

Além da sociabilidade, são importantes, em termos de conteúdo, outras formas sociológicas de interação. A sociabilidade abstrai essas formas —que giram em tomo de si mesmas — e fornece a elas uma existência nebulosa. Isso se revela, finalmente, no suporte mais difundido de toda comunidade humana: a conversa. Aqui, o decisivo se expressa como a experiência mais banal: se, na seriedade da vida, os seres humanos conversam a respeito de um tema do qual partilham ou sobre o qual querem se entender, na vida sociável, o discurso se toma um fim em si mesmo — mas não no sentido naturalista, como no palavrório, e sim como arte de conversar, com suas próprias leis artísticas. Na conversa puramente sociável o assunto é somente o suporte indispensável do estímulo desenvolvido pelo intercâmbio vivo do discurso enquanto tal.

Todas as formas pelas quais essa troca se realiza — como o conflito e o apelo a ambas as partes para que atendam às normas reconhecidas, o acordo de amizade por meio do compromisso e a descoberta de convicções comuns, o acolhimento de bom grado do que é novo e a recusa daquilo sobre o qual não se pode esperar nenhum entendimento —, todas essas formas de interação da conversa, que de resto estão a serviço de inúmeros assuntos e finalidades das relações humanas, têm aqui seu significado em si mesmas, quer dizer, no estímulo do jogo da relação que elas estabelecem entre indivíduos que se unem ou se separam, que vencem ou subjugam-se, recebem ou dão. O sentido duplo de “entreter-se” (sich interhalten)* aparece aqui com toda a sua justeza.

Para que esse jogo preserve sua suficiência na mera forma, o conteúdo não pode receber um peso próprio: logo que a discussão se torna objetiva, não é mais sociável. Ela muda o eixo de sua diretriz teleológica logo que a fundamentação de uma verdade — que constitui plenamente seu conteúdo —toma-se seu fim. Com isso ela destrói o seu caráter de entretenimento sociável da mesma maneira que ocorre quando dela surge uma briga séria. A forma da busca comum da verdade pode manter-se, e também a forma da briga. Mas ela não pode deixar que a seriedade de seu conteúdo se converta em sua substância, da mesma maneira que uma pintura em perspectiva não pode conter um pedaço da realidade efetiva e tridimensional de seu objeto.

Não que o conteúdo da conversa sociável seja indiferente: ele deve ser totalmente interessante, cativante e até mesmo significativo. Mas não pode se tomar a finalidade da conversa. Pode-se dizer que esta não deve valer pelo resultado objetivo, pelo ideal que existiria para além da conversa. Superficialmente, duas conversas podem transcorrer da mesma maneira, mas uma conversa só é sociável, de acordo com o sentido interno, se o conteúdo, com todo o seu valor e estimulo, encontra sua legitimidade, seu lugar e sua finalidade no jogo funcional da conversa enquanto tal, na forma de troca de ideias, com seu significado especifico e autorregulador. Por isso é que pertence à essência da conversa sociável o fato de seu objeto se alterar fácil e rapidamente. Uma vez que o objeto aqui é apenas um meio, ocorre-lhe ser tão variável e ocasional como o são em geral os meios frente às finalidades estabelecidas.

Desse modo, como foi dito, a sociabilidade oferece um caso possivelmente único no qual o falar se toma legitimamente um fim em si mesmo. Por ser puramente bilateral — e, talvez com a exceção da “troca de olhares”, a forma de bilateralidade mais pura e sublime entre todos os fenômenos sociológicos —, ela se toma o preenchimento de uma relação que nada quer ser além de uma relação, na qual também aquilo que de resto é apenas forma de interação torna-se seu conteúdo mais significativo.

Resulta do conjunto desses contextos o fato de que também o ato de contar histórias, piadas, anedotas — por mais que frequentemente seja algo que preenche os vazios e dê provas de pobreza espiritual — possa exibir um tato sutil, no qual soam todos os motivos da sociabilidade. Porque a conversa, em primeiro lugar, se dá em uma base que está para além de toda intimidade individual, situando-se além daquele elemento puramente pessoal que não se quer incluir na categoria da sociabilidade. Mas esse elemento objetivo não é produzido por seu conteúdo, e sim no interesse da própria sociabilidade.

O fato de que esse conteúdo seja dito e ouvido não é um fim em si mesmo, e sim um puro meio para a vivacidade, para a compreensão mútua e para a consciência comum do círculo social. Com isso não se realiza somente um conteúdo do qual todos podem participar de maneira igual, mas também a doação de um indivíduo à comunidade. Porém, essa é uma doação por trás da qual o doador se toma, por assim dizer, invisível: a história mais requintada, mais sociável, é aquela na qual o narrador esconde sua personalidade; a história perfeitamente contada se mantém no feliz ponto de equilíbrio da ética sociável, no qual tanto o individual subjetivo como o conteúdo objetivo se dissolvem totalmente em prol da forma pura de sociabilidade.

Georg Simmel

in Questões fundamentais da sociologia

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