Black Blocs, os corpos e as coisas

1473693538_681813_1473696971_noticia_normal_recorte1

Reproduzo fragmentos abaixo do excelente artigo de Eliane Brum (inspirado em Foucault, me parece):

Ao quebrarem patrimônio material como forma de protesto e serem transformados numa espécie de inimigos públicos, aponta-se onde está o valor e também a disputa. Enquanto a destruição dos corpos de manifestantes pela Polícia Militar é naturalizada, a dos bens é criminalizada.

Ao subverter o objeto direto do verbo “quebrar”, quebrando o que não pode ser quebrado, os mascarados desmascaram o projeto que pode ser chamado de “mais um direito a menos”.

Como já aconteceu nos protestos de junho de 2013, e também nos protestos contra a Copa, em 2014, a repressão da polícia tem sido violenta. E, seguindo o mesmo roteiro viciado, é justificada pelas autoridades – e por parte da imprensa – como resultado da ação dos manifestantes que usam a tática black bloc. De imediato a narrativa nas redes e a cobertura da imprensa são tomadas pela falsa oposição: a PM reage aos black blocs. Não fosse a violência de um, não haveria a do outro.

A falsificação é evidente, já que não deveriam ser forças em oposição. A PM deveria atuar nas manifestações para proteger os manifestantes – e não para quebrá-los. Deveria atuar nestas manifestações como atuou nos protestos contra a corrupção e pelo impeachment. Na manifestação “Fora, Temer” e “Diretas Já” do domingo, 4 de Setembro, os black blocs foram obrigados pelos organizadores a tirar as máscaras ou deixar a manifestação. O protesto ocorreu sem incidentes até o fim. O que aconteceu então? A PM começou a jogar bombas quando as pessoas tentavam entrar numa estação de metrô para voltar para suas casas. E, assim, provocou o que parte da imprensa chama de “confronto”. Ficou explícito ali que a PM age de forma ideológica: algumas manifestações precisam acabar bem, outras não.

Se o conteúdo das manifestações pelo impeachment e “contra a corrupção” era amplamente discutido, seguidamente em tempo real nas TVs, as manifestações pelo “Fora Temer” e pelas “Diretas Já” têm o conteúdo obscurecido literal e simbolicamente pelas bombas de gás da PM. Tudo vira fumaça.

Se a PM, agindo ideologicamente, fabrica incidentes quando não há, é mais prudente fabricar incidentes quando há garotos mascarados quebrando vidraças de prédios. Joga bomba em todo mundo, até em quem está passando ou só tentando chegar em casa, e vira reação.

É compreensível que muitos temam se manifestar se o risco é acabar com um olho a menos. É essa ideia que move organizadores de manifestações a impedir black blocs de agir – ou ao obrigá-los a tirar as máscaras. Ao não agirem no protesto de 4 de Setembro, em São Paulo, ficou evidente que a PM age violentamente mesmo quando não há ação de black blocs. E isso marcou um ponto.

Mas os black blocs são bem mais do que isso. Eles são também os mascarados que desmascaram.

Os black blocs, atacados à direita e também à esquerda, são os que costumam trazer uma novidade à composição socioeconômica das manifestações. Para a esquerda tradicional, rechaçá-los deveria ser um motivo de constrangimento. Como black bloc não é um grupo, mas uma tática, é mais difícil afirmar quem são as pessoas que a usam nos protestos deste momento. Nas manifestações de 2013 e 2014, ocorridas em São Paulo, uma extensa pesquisa publicada no livro Mascarados (Geração Editorial) por Esther Solano, professora de Relações Internacionais da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), mostrou que a maioria dos que a usavam eram jovens que viviam nas periferias.

Nas narrativas destes jovens surgiam duas questões muito ligadas à classe: 1) muitos se definiam como a famosa classe C, que, com poder de consumo maior do que seus pais, pode estudar na universidade, mas ainda está exposta a múltiplas precariedades cotidianas; 2) por serem de periferia, a maioria tinha experiência direta com a violência policial nessas regiões, experiência que articula um discurso de raiva contra a corporação. Esta relação com a polícia é fundamental para entender o Black Bloc no Brasil. A origem periférica deles é um elemento essencial, porque o jovem de classe média não tem esta experiência tão dura com a PM. Alguns jovens me diziam: ‘Professora, na periferia a gente não tem como enfrentar eles, porque lá é bala mesmo, e a imprensa não está nem aí. Mas aqui, no centro, a gente desconta a raiva e pode enfrentar os abusos deles porque a bala é de borracha e a imprensa está aqui’. Portanto, eu [Esther Solano] diria que o estrato social de black blocs e policiais é muito parecido”.

Como 20 garotos – ou mesmo se forem algumas dezenas – movem uma fantasmagoria tão potente? Onde eles atingem, ou o que desmascaram?

“O objetivo (da destruição seletiva de propriedade privada) era duplo: por um lado, resgatar a atenção dos meios de comunicação de massa; por outro, transmitir por meio dessa ação de destruição de propriedade uma mensagem de oposição à liberalização econômica e aos acordos de livre comércio. Ao contrário do que normalmente se pensa, essa ação não apenas não é violenta como é predominantemente simbólica. Ela deve ser entendida mais na interface da política com a arte do que da política com o crime. Isso porque a destruição de propriedade a que se dedica não busca causar dano econômico significativo, mas apenas demonstrar simbolicamente a insatisfação com o sistema econômico.

Concorde ou não com a tática, eles apontam o dedo para o sistema político e econômico que acreditam promover a real violência, aquela que atinge os corpos e os mastiga na aridez da vida cotidiana.

É significativo que a prioridade das forças de segurança, como já se tornou evidente, seja proteger as coisas e não os corpos. É também de corpos e de coisas que se trata a atual disputa.

Quando os black blocs voltam ao palco da disputa, discordando ou não de sua tática, é preciso olhar para quais são as vidraças que quebram. E desconfiar de por que o rompimento destas vidraças têm causado tanto barulho e mobilizado tanta fumaça.

O que está em jogo neste momento é quantos direitos a menos os corpos dos quebrados conseguirão suportar sem reagir. E por quanto tempo boa parte dos brasileiros continuará a lamentar mais a destruição das coisas do que dos corpos.

Os black blocs têm apanhado à direita e também à esquerda. Tal unanimidade deve gerar, no mínimo, curiosidade. Há que se compreender que, concordando ou não com a tática, eles apontam para o impasse incontornável do Brasil, ontem e hoje: aquele que se dá entre os corpos e as coisas.

Black Blocs, os corpos e as coisas

O artigo  Black Blocs: A origem da tática que causa polêmica na esquerda, de 2013, também representa uma boa leitura sobre o tema.

Anúncios

Uma resposta para “Black Blocs, os corpos e as coisas

  1. Pingback: Retrospectiva 2016 | Crab Log

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s