Eles estão de volta

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No entanto, parte da extrema esquerda reprova os Black Blocs precisamente por se contentarem com a postura de forma estética de rebelde, sem que as suas ações prejudiquem o capitalismo de forma significativa. Para o anarquista Tammy Kovich, essa crítica

… desconsidera completamente as características prefigurativas do bloco. É absolutamente verdade que quebrar uma vidraça não chega perto dos atos necessários para criar uma nova sociedade; porém, um Black Bloc faz muito mais do que quebrar vidraças. O bloco, enquanto corpo pulsante na rua, é organizado de maneira horizontal. As decisões são tomadas na hora por todos os participantes […] A imagem fora do bloco é muito diferente da realidade e da experiência de dentro; o ethos do Black Bloc é de solidariedade e cuidado coletivo. […] Fundamental para o projeto de criar uma nova sociedade é criar novas maneiras de ser, interagir e se organizar uns com os outros.

 The Black Bloc and the New Society

apud Francis Dupuis-Déri 

in Black Blocs

Os blac blocs estão de volta. Fatos e mitos se misturam novamente na imprensa para confundir a opinião pública. Da série de posts Rebelião das massas sobre os blac blocs repito alguns trechos abaixo. São aqui fragmentários mas mais consistentes no bojo da série de posts citada acima. Boa parte da discussão no livro citado na série de posts (Urgência das Ruas) contrasta o ativismo político hierarquizado com a atuação em bloco nas táticas de ação direta dos blac blocs onde a relação horizontal entre os participantes que permite uma união para a ação, mesmo que temporária, evitando as hesitações o mais das vezes oriundas de conflitos teóricos ou de poder no interior de uma massa heterogênea mas que já adquiriu clareza sobre alguns atos espetaculares que devem ser postos para criar uma insurgência emergente. A conscientização é fruto da ação em vez do contrário. A ação move forças em ambos os lados embate que, do contrário, permaneceriam ocultas nos bastidores parte dela articulando sub-repticiamente a manutenção do status quo. Há limitações para esta tática que a tornam inaplicável, como panacéia, em outros contextos.

E fica claro que a esquerda se une à direita quando se trata dos blac blocs porque a forma “incompreensível” da atuação deles retira o sentido tanto da “montanha” quanto da “planície” conforme vemos na matéria Movimentos de esquerda se dizem contrários a tática ‘black bloc’.

A percepção instintiva imediata era de que eles eram agitadores oportunistas ou mesmo vândalos gratuitos que só ajudariam a justificar a repressão e atrapalhariam por retirar o foco das reinvidicações das massas pacificamene manifestadas.

 

Eles foram os primeiros a levar a sério aquilo que, bem depois, iríamos começar a observar segundo nossas teorias sociológicas e filosóficas: a ideia do mundo moderno como o abrigo da “sociedade do espetáculo”. Os libertários cultivaram antes as imagens da violência que a própria violência. Mesmo quando aderiam a atos tidos como violentos, buscavam exibir uma violência simbólica, que deveria funcionar como ícone, e não a violência propriamente dita.

 

O sistema econômico fundado no isolamento é uma produção circular do isolamento. O isolamento fundamenta a técnica, e, em retorno, o processo técnico isola. Do automóvel à televisão, todos os bens selecionados pelo sistema espetacular são também as suas armas para o reforço constante das condições de isolamento das «multidões solitárias». O espetáculo reencontra cada vez mais concretamente os seus próprios pressupostos.

A origem do espetáculo é a perda da unidade do mundo, e a expansão gigantesca do espetáculo moderno exprime a totalidade desta perda: a abstração de todo o trabalho particular e a abstração geral da produção traduzem-se perfeitamente no espetáculo, cujo modo de ser concreto é justamente a abstração. No espetáculo, uma parte do mundo representa-se perante o mundo, e é-lhe superior. O espetáculo não é mais do que a linguagem comum desta separação. O que une os espectadores não é mais do que uma relação irreversível com o próprio centro que mantém o seu isolamento. O espetáculo reúne o separado, mas reúne-o enquanto separado.

O texto acima pode nos fazer imaginar que as manifestações, além do seu cunho prático de expressar reivindicações com veemência e reforçar a necessidade de encaminhar soluções, também expressam o desejo de ultrapassar o isolamento, a separação cotidiana imposta pela sociedade do espetáculo, e mediar isto também com um como espetáculo, mas feito de coesão em bloco, sem muita ideologia, visceralmente, fisicamente, nas ruas.

 

[…] a contestação praticada nas ruas, organizada basicamente por grupos de afinidade de forma autogestionária, isto é, não-hierárquica, não burocrática e autônoma, naturalmente tenta ser capitalizada na forma de dividendos políticos pela esquerda capitalista: representada por ONGs (Organizações Não Governamentais) e partidos que buscam maior espaço na gestão do capitalismo. Certamente categorias tão carregadas de peso moral como violência e não-violência têm tudo para se tornarem artifício retórico reacionário no contexto de levantes populares. Todas as “greves selvagens” e insurreições populares, dos communards aos zapatistas, sempre foram pelo menos em algum momento – até quando os defensores da ordem estabelecida puderam sustentar seus discursos – descritas como irrupções de violência, na tentativa de isolá-Ias, criminalizá-Ias e desqualificá-Ias moralmente. Se levarmos em conta que as ações dos Black Blocks nessas manifestações-bloqueio feriram sem gravidade no máximo apenas alguns poucos policiais, enquanto milhares de manifestantes saíram feridos pelas investidas policiais, tachá-Ios de “violentos” deveria ser algo risível, que só demonstra o quanto àqueles que assim os rotulam ainda se encontram imersos e devedores da moral e da ordem burguesa. Dessa forma, os Black Blocks têm levantado e explicitado certos conflitos que aparecem também no Sul, onde muito freqüentemente os burocratas de esquerda são os primeiros a isolar, criminalizar e condenar indiscriminadamente as “minorias violentas”, os “provocadores”, aqueles que “não têm nada a dizer”. E nem sequer são capazes de reconhecer um fato que deveria ser lugar-comum, expressado nas palavras de um manifestante durante a reunião do G-8 em Gênova (Itália):

Nenhum político e nenhum grande banqueiro ficará impressionado com 500 mil manifestantes pacíficos, uma vez que não haja dúvida de que eles irão permanecer não-violentos todo o tempo. Somente a possibilidade de radicalização torna um movimento ameaçador e por conseqüência forte”.

A questão que se coloca é por que sempre foi preciso a “agitação das massas” para que os donos do poder cedam, para que sintam alguma ameaça? Em outras palavras: o que na “agitação das massas” traz um medo ao status quo causando-lhe uma pressão que a expressão verbal, entre outras, não causa? Foucault salientava que a disciplina que mantém e define um determinado ordenamento social é uma técnica de operação sobre os corpos de modo a obter um resultado concreto. A disciplina dos corpos exprime a estabilidade de um sistema. Uma sala de aula só “funciona” porque os corpos dos alunos, isto é, os alunos, estão disciplinados a se disporem de uma determinada maneira. E assim é em todos os espaço-tempos na sociedade, de um teatro, passando por um exército, um show de rock ou a locomoção pelas ruas. A indisciplina do corpo em um determinado espaço-tempo, ordenado sob uma disciplina específica, pode levar o sujeito muitas vezes à prisão ou ao hospício. O “delito” e a “loucura” são algumas das criações que a nossa sociedade reservou para os corpos indisciplinados. Manifestantes que transformam seus corpos em catapultas, que atiram pedras em barreiras num espaço que exige uma outra disciplina (ou uma disciplina), quebrando a rotina e a tranqüilidade dos que dirigem e comandam a economia e a política, demonstram (pelo menos em certo período e espaço) a ausência daquilo que mantém as coisas em ordem e o capitalismo em vigor: a disciplina. As ruas não são o local determinado no capitalismo para corpos atirarem pedras e nem serem barricadas, e não são o local para enfrentamentos econômicos e políticos: as mesas de “negociações” e o parlamento são os espaços na nossa sociedade para isso. Uma vez que os Reclaim The Streets e os Black Blocks são formações voltadas à ação e não à produção teórica – podendo até mesmo serem compreendidos como formas de ação nas ruas -, os artigos e declarações produzidos por seus integrantes perdem o sentido se destacados das próprias ações a que se referem.

 

A atividade supostamente revolucionária do ativista é uma rotina cega e estéril – uma constante repetição de poucas ações sem potencial para a mudança. Ativistas provavelmente resistiriam à mudança caso ela viesse, uma vez que ela destruiria as fáceis certezas de seu papel e o agradável pequeno nicho que eles cavaram para si mesmos. Da mesma forma que chefes de sindicatos, ativistas são eternos representantes e mediadores. Da mesma forma que líderes sindicais seriam contra o  sucesso de seus trabalhadores na sua luta, porque isto provavelmente acabaria com seu emprego, o papel do ativista também é ameaçado pela mudança. De fato a revolução, ou mesmo algumas mudanças reais nessa direção, desagradariam profundamente ativistas por destitui-Ios de seus papéis. Se todos resolvem tomar-se revolucionários, então você não é mais tão especial, nâo é?

Então, por que nos comportamos como ativistas Simplesmente porque é a opção fácil dos covardes? É fácil cair no papel de ativista uma vez que ele se adapta a essa sociedade e não a desafia – ativismo é uma forma aceita de dissidência -, mesmo se como ativistas fazemos coisas que não são aceitas e são ilegais. A forma de ativismo em si é da mesma espécie de um emprego significa que ela se adapta em nossa psicologia e em nossa formação. Ela causa uma certa atração precisamente porque não é revolucionária.

 

Na antiga cosmologia da religião, o mártir bem sucedido ia para o céu. Na visão de mundo moderna, mártires bem-sucedidos procuraram entrar para a história. Quanto maior o auto-sacrifício, quanto maior o sucesso em criar um papel (ou ainda melhor, em deixar um papel completamente novo para as pessoas seguirem: isto é, o ecoguerreiro), mais se merece uma recompensa na história: o céu burguês.

 

A velha esquerda era muito clara na sua chamada pelo sacrifício heróico: “Autosacrifiquem- se com prazer, irmãos e irmãs pela causa, pela Ordem Estabelecida, pelo Partido, pela Unidade, pelo Feijão com Arroz”. Mas nos dias de hoje é muito mais velado: Vaneigem acusa jovens radicais de esquerda. de entrar[em] para o serviço da Causa – a ‘melhor’ de todas as Causas. O tempo que têm para a atividade criativa eles destroem entregando panfletos, colando cartazes, participando em manifestações públicas ou falando mal de políticos. Eles se tomam militantes, fetichizando a ação uma vez que outros pensam por eles.”

 

O papel de ativista é um isolamento auto-imposto de todas as pessoas nas quais deveriamos estar ligados. Incorporando o papel de ativista, você será separado do resto da raça humana como alguém especial e diferente. As pessoas tendem a pensar nelas mesmas na primeira pessoa do plural (a quem você está se referindo quando diz “nós”?), como se estivessem se referindo a alguma comunidade de ativistas, ao invés de uma classe. Por exemplo, há algum tempo no meio ativista tem sido comum defender “que não haja mais temas isolados” e a importância de “fazer contatos”. Porém, para essas pessoas, muitas vezes o significado disso se limitava a “fazer contatos” com outros ativistas e outros grupos de campanhas. […]

[…]  Não é suficiente apenas procurar manter contato com todos os ativistas do mundo, nem é suficiente procurar transformar mais pessoas em ativistas. Contrariamente ao que algumas pessoas possam achar, não estaremos mais próximos de uma revolução se cada vez mais pessoas se tornarem ativistas. Algumas pessoas parecem ter a estranha idéia de que é preciso que todos sejam de alguma forma persuadidos a se tornarem ativistas como nós, e conseqüentemente teremos a revolução. Vaneigem diz: “A Revolução é feita todo dia, apesar de e em oposição aos especialistas da revolução”.

 

O militante ou ativista é um especialista em transformação social ou revolução. O especialista recruta outros para a sua pequena área de especialidade de maneira a aumentar seu próprio poder, deste modo dissipando a percepção de sua própria impotência. “O especialista… alista a si próprio de maneira a alistar os outros”. Como num jogo de pirâmide, a hierarquia é auto-replicante você é recrutado de maneira a ficar na base da pirâmide, e tem que recrutar mais pessoas para estarem abaixo de você, que farão então exatamente o mesmo. A reprodução da sociedade alienada de papéis e funções é efetuada através de especialistas.

 

Jacques Camatte, em seu ensaio “On Organization (1969), aponta muito bem que grupos políticos muitas vezes acabam se tornando “gangues”, definindo-se por exclusão – a primeira lealdade dos membros do grupo passa a ser o próprio grupo ao invés de ser a luta. Sua crítica se aplica especialmente para a miríade dos setores de esquerda e pequenos grupos aos quais ela foi direcionada, mas se aplica em menor proporção para a mentalidade ativista.

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