Er ist wieder da (Ele está de volta)

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No filme A sombra do vampiro um ator encarna o personagem de tal forma que paira a dúvida. Não se pode acreditar que é um vampiro e ao mesmo tempo acreditar que vampiros não existem.

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Hitler não existe mais. Morreu em seu bunker. Mas vive em cada facista obrigado a se esconder  sob a máscara de um democrata. No filme “Ele está de volta“, baseado no livro de  Timur Vermes, Hitler é visto como um ator histriônico. É confundido com os personagens de atores que o encarnaram. A comédia suplanta a tragédia. E é mais séria do que ela. Antes foram os judeus. Agora temos os árabes e os imigrantes em geral no processo de colonização reversa da Europa. Hitler ainda tem material para compor a sua sinfonia macabra. Para construir o seu “piano”. E tocar e manipular as teclas que representam o povo. Seu volks. Inclusive as teclas pretas, como afirma no filme. E a TV é sua grande arma de “propaganda”. Vendo a TV vomitando “lixo” Hitler, no filme, vê uma grande oportunidade. Parece visionário mas é apenas uma constatação. Uma vidência do passado.

O século XXI recepciona o fascismo de braços abertos. Não como uma piada macabra. Não como um farsa. Seriamente. No Brasil testemunhamos seu espectro. A TV, citada no filme já vomita seu lixo fascista diuturnamente, e não é no mundo da ficção. A Europa acuada se refugia dos refugiados que ela mesma engendrou com seu colonialismo que abandonou carcaças para trás. Os EEUU ressuscitará a sua invenção. A eugenia. A maré geopolítica, abraçada com o que há de mais negro das entranhas do século XX, o totalitarismo, quer tragar tudo para o bem dos novos estados: as irmãs do ouro negro.

A violência contida extravasa, de modo preocupante, durante a filmagem, conforme a citação abaixo:

Uma mulher confessa a Hitler que todos os problemas da Alemanha estão com a chegada de estrangeiros. Outro homem diz que a chegada de imigrantes africanos está rebaixando o QI do alemão em 20%. E em uma cena particularmente preocupante, Hitler facilmente convence um grupo de torcedores de futebol a atacar um ator que fazia comentários anti-alemães. Para o diretor, a produção não esperava que o Hitler de Masucci convencesse tão rapidamente aquele grupo, colocando em risco a vida do ator e obrigando técnicos e câmeras intervirem imediatamente.

Em “Ele Está de Volta” o século XXI recebe Hitler de braços abertos

O mal é banal.

[Atualização] Li também o livro. Acho que este é, talvez, um caso raro de que o filme supera o livro. No livro você é levado bastante para dentro da cabeça do Hitler “ressucitado”. Mas no filme, embora haja disto também, o visual expõe melhor o nazismo como uma peça de “propaganda” que ele é. Eles inventaram isto. E estamos acostumados com isto. É o seu maior legado. E com isso não o estranhamos devidamente como deveríamos.

[Atualização] Lendo o livro Auto-engano do Giannetti descobri que Goebbels é o autor da metáfora do “povo-piano”:

Con­si­de­re, por exem­plo, o la­bi­rin­to de en­ga­nos da­que­la que foi tal­vez a mais te­ne­bro­sa ex­pe­ri­ên­cia co­le­ti­va até hoje vi­vi­da por uma co­mu­ni­da­de hu­ma­na — o na­zis­mo ale­mão. En­quan­to Hi­tler con­fi­den­ci­a­va a um co­la­bo­ra­dor ín­ti­mo o seu “es­pe­ci­al pra­zer se­cre­to de ver como as pes­so­as ao nos­so re­dor não con­se­guem per­ce­ber o que está re­al­men­te acon­te­cen­do a elas”, o me­fis­to­fé­li­co Go­eb­bels, mi­nis­tro da Cul­tu­ra do Rei­ch, jac­ta­va-se de de­di­lhar na psi­que do povo ale­mão “como num pi­a­no”.

Auto-engano, Giannetti

E mais adiante, no mesmo livro, Giannetti fala da composição parcelar que engendra o movimentos das massas em apoio aos delírios totalitários salvacionistas:

O todo pode ser igual, mai­or ou me­nor que a soma das par­tes; mas ele é in­con­ce­bí­vel sem elas. O co­le­ti­vo não exis­te por si: ele é a re­sul­tan­te agre­ga­da — mui­tas ve­zes com pro­pri­e­da­des no­vas — da in­te­ra­ção en­tre um gran­de nú­me­ro de gru­pos me­no­res e in­di­ví­duos. O auto-en­ga­no co­le­ti­vo de gran­des pro­por­ções, como a In­qui­si­ção ibé­ri­ca, o na­zis­mo e o co­mu­nis­mo so­vi­é­ti­co, é a sín­te­se de uma mi­rí­a­de de auto-en­ga­nos in­di­vi­du­ais sin­cro­ni­za­dos en­tre si. O de­lí­rio do todo é o re­sul­ta­do da con­flu­ên­cia dos de­lí­ri­os das par­tes. É no mi­cro­cos­mo do in­di­ví­duo que en­con­tra­mos o ber­ço e o lo­cus do re­per­tó­rio do auto-en­ga­no em sua es­pan­to­sa di­ver­si­da­de.

Auto-engano, Giannetti

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Spoiler a seguir:

Mais para o final do filme, quando o “descobridor” do Hitler já anda meio desconfiado de que ele é mesmo o verdadeiro, ocorre uma cena interessante e sutil. Hitler está contemplando a “natureza”, em acordo com o mito nazista da natureza, com um copo de plástico na mão de onde tinha acabado de consumir o conteúdo. Neste momento é observado atentamente pelo seu agente descobridor. De repente se vira, abandonando a sua contemplação, lançando o copo ao chão sem a mínima preocupação. Gesto impensável em nossos tempos “ecologicamente corretos”. Uma comprovação flagrante de que ele não era do nosso tempo.

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2 comentários

  1. […] Quando um artista fala da política do seio da sua arte, da sua poética, do excelente pensamento metafórico, com Alceu Valença falou percebe-se que os artistas, “antenas da sociedade”, nunca deviam abandonar esse seu “lugar de fala”. São superiores quando não colocam seus “saberes artísticos” a serviço da instrumentação da pequena política. Quando fazem a grande política. Quando são anti-políticos, e não apolíticos, coisa que parece uma contradição em termos. Uma anti-política, assim concebida, é uma forma de ser político além da política. “Hitler está renascendo das cinzas” é uma metáfora mais concreta do que parece como foi mostrado recentemente numa obra de arte cinematográfica. […]

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