A colonização britânica na perspectiva de um comediante sul-africano

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Vi este vídeo no blog Esquerda Caviar.

É mesmo imperdível.

Dá uma boa perspectiva em paralaxe do fenômeno da colonização do ponto de vista dos colonizados, mas com uma cavalar dose de humor. E dá no que pensar. Muito bom!

A colonização reversa da metrópole é barrada pelos mesmos argumentos racistas que chancelou a colonização da periferia. A xenofobia contra os imigrantes insuflada pela direita grassa pelo mundo.

Recentemente, lendo Diários de Bicicleta, de David Byrne, topei com um texto que toca exatamente na questão alvo do humor de Noah. A frase “Beleza, vamos esquecer tudo o que aconteceu e vamos jogar uns jogos juntos.” é emblema do que realmente acontece quando a injustiça passada começa a perder significado para ambos os lados e se dissolve nas brumas dos tempos.

Qual é o limite da justiça?

As pessoas que tiveram suas vidas arruinadas pela Stasi, ou qualquer outra agência semelhante de outros governos, deveriam ter direito a reparações financeiras? Elas ou seus herdeiros deveriam receber seus imóveis de volta? Seria possível ao menos criar uma comissão de verdade e reconciliação, como aconteceu na África do Sul para fazer uma faxina e permitir que o país e seus cidadãos sigam em frente? (Na versão sul-africana, não eram previstas punições ou reparações, apenas se a verdade fosse exposta por completo.)

Nos últimos anos, a população do Zimbábue, a antiga Rodésia, vem tentando reclamar a posse das fazendas que foram tomadas de seus ancestrais muitas décadas atrás pelos colonos brancos. Algumas famílias brancas já vivem há três gerações ou mais nessas terras e, naturalmente, enxergam essas fazendas como algo que é delas por direito e também tratam esse lugar como sua terra natal agora. Os brancos concordam — até onde sabemos — que o país não deve e não pode mais ser governado por estrangeiros, ou nem mesmo pela pequena minoria branca, mas enxergam essas casas e fazendas como propriedade deles. Eles criaram seus filhos, construíram toda a infraestrutura local e aprimoraram os campos. Mas isso não se resume às fazendas. Até certo ponto, eles construíram as estruturas que permitiram o funcionamento do país como um todo. Mas como a maré política mudou recentemente e os brancos não são mais os chefes políticos, hoje o direito dessas pessoas a manterem 80% das terras aráveis só porque seus ancestrais as roubaram anos atrás nos parece um argumento menos viável e que dificilmente continuará a se sustentar. O presidente Mugabe, que foi eleito mostrando promessas de que um país africano autorregulado abundante em recursos e com sistemas em bom funcionamento poderia avançar, infelizmente acabou se tornando mais um déspota corrupto e violento, desesperado para se manter no poder a qualquer custo. Os descendentes dos habitantes originais da era pré-colonial e os representantes autonomeados de Mugabe, gananciosos e oportunistas, começaram a retomar as fazendas por meio da força.

Isso é justo? Não exatamente, mas a expropriação dessas terras anos atrás pelos brancos também não foi. Alguém poderia dizer que a justiça apenas chegou atrasada. Se eu posso roubar suas posses e terras e você não tem como se defender, mesmo que por várias gerações, elas podem se tornar legal e moralmente minhas em algum momento? Com o tempo, o direito a essas propriedades seria transferido para mim? Em quanto tempo? Dez anos? Cem? Mil?

É mais provável que qualquer tentativa de se chegar à justiça agora seja bastante distorcida. Talvez a justiça absoluta, como qualquer tipo de coisa absoluta, dificilmente exista a não ser na matemática. No Zimbábue, os brancos serão expulsos, algumas terras produtivas infelizmente ficarão abandonadas e muitas fazendas expropriadas poderão ser subutilizadas pelos seus novos proprietários por não terem o costume de administrar esse tipo de recurso. Com certeza haverá casos de expropriações inescrupulosas de terras e disputas entre os novos proprietários. Mas talvez, depois de algum tempo, se as coisas não fugirem totalmente de controle, uma espécie de equilíbrio poderá ser alcançado. Algumas pessoas podem argumentar que nenhum branco deveria estar nesse país, e isso pode até ser verdade. Mas com um pouco de compaixão e clemência, talvez alguns dos descendentes dos ladrões originais possam conseguir manter seus lares e até um pouco de honra e respeito. Quase todos nós, de qualquer raça, temos algum motivo de vergonha em nossa história. Pode ser algo recente, ainda vivo em nossa memória, um lembrete constante. Mas pode ser algo que aconteceu há muitas gerações, algum evento pelo qual nós não sentimos nenhuma ligação ou culpa, mas as coisas podem mudar, trazendo o que estava esquecido e enterrado de volta à tona.

Acredito que atualmente é cada vez mais difícil que alguém, em qualquer parte do mundo, possa dizer algo como, “Eu deveria estar aqui e você não”. As migrações humanas nunca terminaram, elas são infinitas, e a miscigenação é um processo complicado, mas que pode ser muito proveitoso — uma fonte de inovação e criatividade.

Será que algum dia veremos uma sangrenta disputa por aquelas lindas casas modernistas dos anos 50 no distrito de Vedado em Havana? Israel, Palestina, Dakota do Sul, Tibet — todos esses lugares passaram por apropriações indevidas de terras por um grupo ou por outro. O roubo de terras ou posses profetiza inevitavelmente um roubo de reciprocidade tempos depois? A justiça tardia é inevitável? Isso pode ser chamado de justiça?

Alguém é nativo de algum lugar? Acho que na maioria dos casos, não. E talvez, de alguma forma, essa possa ser a resposta para essas indagações.

Diários de bicicleta, David Byrne

Acho que David Byrne é um tanto otimista quanto à resolução dos conflitos deixados pelas usurpações do passado. Uma justiça metafísica não existe e somente o equilíbrio das forças antagônicas com seus argumentos morais e imperativos sócio-econômicos podem definir quais serão os rumos da convivência ou rupturas.

Veja outro vídeo do Noah:

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