Sexo envenenado

fotorviolenciamulher

Um comentário anônimo no artigo que cita o vídeo do Karnal sobre a cultura do estupro o associa à repressão sexual.

Em primeiro lugar, a obstrução mais óbvia tem sido oposição ao sexo. Todas as culturas, todas as religiões, todos os gurus, todos os profetas e videntes , e o clamor publico sempre disse que o sexo é um pecado, que é irreligioso, o sexo é veneno.
Nietzsche disse algo que é um indicativo. Ele disse que, embora a religião tentou envenenar o sexo para matá-lo , o sexo não morreu, e segue vivo , mas cheio de veneno. Teria sido melhor se tivesse morrido, mas não morreu. Está envenenado, e ainda vivo … O plano falhou. A sexualidade que se vê ao redor é a representação do sexo envenenado.

Comentário de anônimo

em Leandro Karnal: cultura do estupro

Mas um estupro coletivo foge à possível lógica explicativa para um estupro individual. Neste a repressão ou tara pode representar um papel explicativo preponderante. Mas no caso do “trem” que massacrou uma única menina não. Um massacre que também é coletivo do lado da vítima, um vítima tipológica que se concretiza a cada 11 minutos no Brasil. Por isso todo estupro é coletivo, no final.

No “trem” alguns vagões devem ter seguido covardemente a manada. Estuprou para não ser estuprado. Estuprou para entrar na esfera do consumo. Do sexo como consumo, martelado incessantemente na nossa cultura. Discordo um pouco do comentário por ter sido um estupro coletivo mais característico do rebanho e do efeito manada. Nietzsche descreve o homem do rebanho muito bem como o ressentido que se abriga no anonimato do grupo para exercitar a sua covardia e ressentimento.

Poderíamos entrar no âmbito da nutrição e da emergência do simbólico que antropólogos também sugerem que engendram a violência. Até a domesticação dos animais traz uma centelha ao pensamento da domesticação do homem. O homem massa, na sua rebelião, mais numérica do que outra coisa, de homens sem qualidades, segundo Gasset, fruto da explosão populacional depois da industrialização começada no século XIX, que é bárbara além da barbárie, vai se tornando inimigo do próprio homem. Daniel Quinn explica que todo animal reproduz mais quando há abundância de comida. O homem não é indiferente a este macro princípio que paira sobre a espuma dos movimentos intestinos da massa. Uma massa compacta sem nenhum espaço vital saudável. Embora a comida barata e abundante permita o crescimento desvairado da nossa espécie é tóxica e a ela já foi atribuída ser também raiz da violência. Os homens são alimentados com farinha e sementes de ódio vegetarianas. Se as plantas querem nos matar, e vão conseguir, é através da nossa escolha nutricional que o farão.

Podemos buscar as raízes do mal em várias direções mas ele está instalado em nossas vísceras. É intestino. E não parece fácil de ser extirpado por causa do estripamento que seria mortal. Mortal para o modo de vida tóxico que adotamos.

Darcy Ribeiro fala sobre as índias e índios terem sexo cedo. Como folguedo. E de como isto não lhes causa nenhum problema sério. Ao contrário, o sexo e o erotismo se tornam não problemáticos.

Nossa sociedade faz sexo e é anti erótica. Por isso sexo é veneno assim como todo o consumo. O consumo é o meio e o meio é o consumo, uma paródia luhaniana.

Há vários ângulos para se olhar um estupro coletivo. Nenhum para desculpá-lo. Um único motivo é visualizar o horror da vítima de uma violência sem chance de defesa. Explicá-lo é urgente para vislumbrar um antídoto. Mas é cousa difícil de se obter, a explicação. E mesmo as mais razoáveis e simplistas explicações são um pântano intrincado onde não se pode determinar para onde vai a correnteza subterrânea de podridão. A solução teria que ser tão profunda que abalaria as bases doentias em que a sociedade se alicerça. Ao paladar custa a distinguir os ingredientes desta paella nauseabunda. São muitos ingredientes e todos nauseantes. Mas seguremos o vomito. Os últimos tempos nos tem treinado nisso. Tentemos uma análise distante sem esquecer o horror. Estamos no coração das trevas.

A violência contra a mulher, que tem, neotenicamente, rosto pueril, se parece com a violência contra indefesa criança. Nardonis já nos expuseram a este horror. Em “A mulher nua” Demond Morris fala da neotenia. Nada na mulher, normalmente mais fraca que o homem e com certeza mais do que as 30 bestas que a estupraram, justifica seu suplício.

Embora criticada, a tese do bom selvagem e sua pureza parece resistir a toda a nossa argumentação civilizada e civilizatória que visa desmoralizar a vida aparentemente menos complexa do que a da nossa cultura. Para dominar. Para uniformizar. Para que um dia não haja mais nenhum testemunho de como as coisas já foram e poderiam ser, um dia, em um futuro primitivo.

E Marshall Sahlins desmorona a teste de que os primitivos viviam na penúria e na violência.

 

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Uma resposta para “Sexo envenenado

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