Vitória de Pirro

congressonacional

Os exércitos se separaram; e, diz-se, Pirro teria respondido a um indivíduo que lhe demonstrou alegria pela vitória que “uma outra vitória como esta o arruinaria completamente”. Pois ele havia perdido uma parte enorme das forças que trouxera consigo, e quase todos os seus amigos íntimos e principais comandantes; não havia outros homens para formar novos recrutas, e encontrou seus aliados na Itália recuando. Por outro lado, como que numa fonte constantemente fluindo para fora da cidade, o acampamento romano era preenchido rápida e abundantemente por novos recrutas, todos sem deixar sua coragem ser abatida pela perda que sofreram, mas sim extraindo de sua própria ira nova força e resolução para seguir adiante com a guerra.

Vitória pírrica | Wikipedia

Os coxinhas estão começando a acusar o golpe de terem enaltecido uma vitória de Pirro. Gente antes cheia de razão agora começa a tartamudear um discurso prudente. São verdadeiros caras-de-pau. Se não sabiam o que estava em andamento são ingênuos e até mesmo burros, que me desculpem os burros de verdade. Se sabiam também são burros e inconsequentes. Parece não haver salvação possível para um coxinha. Vale o ditado: “Quem é burro [coxinha] pede que Deus o mate e o diabo o carregue!”

A preparação para o espetáculo no congresso já ocorria na farsa montada pela media. Farsa que envolve também setores do judiciário. Podemos, em tese, afirmar que um juiz , mesmo acometido de um “bacamartismo“, pode ser corrupto sem mesmo ter recebido propina. Basta julgar de forma diferente de como se espera de um juiz. Basta tirar a “venda” e arregalar o olho da ambição. Basta se esconder no biombo do “não vem ao caso”. Basta ser “seletivo”, não em prol de descomplicar um processo, mas para botar uma pedra encima do que não interessa ao seu viés. O juiz modelo das “mãos limpas” mostrou as próprias, sujas, quando entrou na política. Provavelmente a história, se repetindo como farsa ou não, pode ser um arremedo do que ocorreu na Itália. Até mesmo no aperfeiçoamento da corrupção e não na sua desaparição. Se as forças que deram o golpe perdurarem no poder vai chegar a hora de premiar os atores do judiciário que ajudaram e foram fundamentais. Uma forma de corrupção velada e refinada é o “toma lá da cá” da politicagem.

Os bandidos não são normalmente solidários e só se cooperam no último caso se houver uma ameaça externa. Podemos talvez ter esperança de que eles comecem a se canibalizar. Há notícias de que se Cunha for abandonado vai se voltar contra Temer. Parece aquele jogo com longas carreiras de dominós sendo derrubadas. Mas aí ainda assim teremos Calheiros. Mas aí ainda assim teremos o golpe. Só serviria como um enfraquecimento para ser usado nos embates futuros, caso o golpe prossiga.

O caso de Cunha querendo o impeachment de Temer é emblemático. A população assistindo isto como se estivesse vendo um BBB político numa casa de vidro vai começar a pensar: “Como tudo isto é possível!?” Está em curso um monstruoso experimento didático sobre política. Graças à rede. Coisa inédita no passado. Ulysses Ferraz já havia alertado sobre isto (Ver abaixo). A exposição continua numa casa de vidro reflexivo onde os políticos não vem o lado de fora, toldados pela sua miopia existencial e pelo desprezo pelo resto, mas são vistos. Paredes de vidro e BBB, duas metáforas que se encaixam bem na situação e quando acharmos o telhado de vidro o teto vai desabar.

Ainda que visíveis, expostos em rede nacional, os deputados do “sim” explicitaram todo tipo de ação imoral, como se estivessem protegidos pelo anel da invisibilidade. O clima de opinião coletivo e de fraternidade mútua era tão favorável entre os congressistas do “sim” que sequer se deram conta de que estavam sob todos os holofotes, perante o tribunal implacável da opinião pública. Em tempo real.

Ulysses Ferraz

Não sei se falar da família era uma senha para ter acesso a uma mala de dinheiro como estão dizendo. Nosso gosto pelas teorias da conspiração leva a esta conclusão. Mas pelo menos era uma senha simbólica e a compra dos votos pode ser mas sutil e incerta. O espetáculo dantesco e miserável de um congresso com estatura de baixo clero, um congresso anão ainda vai continuar. Se o congresso é o nosso espelho moral estamos em grandes apuros. “Chame o ladrão” pois ele rouba a sua carteira mas não sua “vida” como estão prestes a fazer.

Deputados fazendo escola.png

A votação ridícula na câmara demonstra explicitamente em que estamos enredados. A falência da democracia representativa é flagrante. Chega mesmo a ser fragrante de tanto que cheira mal. Nada como deputados moralmente nanicos para rebaixar ainda mais a estatura de uma câmara baixa já tão mal-afamada. As barreiras conceituais, técnicas e logísticas para a democracia direta estão desaparecendo a medida que estão ficando claras as deficiências da democracia representativa. Democracias diretas já!

“Alguém devia ter caluniado Josef K., porque foi preso uma manhã, sem que ele houvesse feito alguma coisa de mal.”

(…)

“Mas na garganta de K. pousaram-se as mãos de um dos cavalheiros, enquanto o outro lhe enterrava a faca no coração e a revolvia duas vezes. Com olhos desfalecidos, K. viu ainda, muito perto do rosto, os cavalheiros encostados um ao outro, face com face, a observarem o cumprimento da sentença.
– Como um cão! – disse ele; era como se a vergonha devesse sobreviver-lhe.”

Franz Kafka. “O Processo.”

A opinião pública internacional começa a se interessar pelo que está acontecendo no Brasil. Os golpistas estão tão preocupados com isso que querem impedir a viagem da presidente a Nova Iorque para discursar na ONU pelo meio ambiente. Estão com um medo pavoroso do que pode acontecer nas entrevistas que com certeza ocorrerão.

A deputada  portuguesa Joana Rodrigues Mortágua comenta eloquentemente a votação do impeachment no vídeo abaixo.

ls

Nós somos o que comemos. Nada mais natural que nos chamarem pelo nome do que comemos. “E aí coxinha! Vai um tefal?” “Coxinhas, mortadelas, caviar etc uni-vos”. Voltemos para nossa vocação omnívora. Nada de repastos seletivos ou muito especializados. Para que a política desapareça sejamos todos políticos. A política está morta! Pois que viva a política!

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