O ornitorrinco

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Juntar um filósofo e uma animal quimérico num mesmo título, esta é a façanha de um semiótico. Muito de sua obra é desconhecida ou pouco conhecida por alguns. “O pêndulo de Foucault” é uma delas onde mostra que se pode inventar de forma desbragada e mesmo assim encontrar crédulos. A credulidade é mais comum do que o ceticismo. Embora todos se jactem de ser “realistas” e antenados, não acreditando em qualquer balela. Mas o homem é um animal crédulo por excelência na mesma medida que se afastou dos animais, estes desconfiados mas ingênuos, o homem, também desconfiado, seu lado animal, mas crédulo, seu lado civilizado. Afinal o crédito incondicional é sua civilizada invenção. Que o faz negar até a mais cética de suas “aberrações”: a ciência.

“Quem tenta penetrar no Rosal dos Filósofos sem possuir a chave, lembra o homem que procura caminhar sem pés.”

(Michael Maier, Atalanta Fugiens, Oppenheim, De Bry, 1618, emblema XXVII)

A descoberto, só havia isto. O resto tinha de procurar nos disquetes do word processor. Estavam dispostos em ordem numérica e pensei que tanto fazia começar pelo primeiro, já que Belbo havia mencionado a senha. Sempre fora cioso dos segredos de Abu.

Com efeito, mal premi a máquina, apareceu uma mensagem que me solicitava: “Tens a senha?” Fórmula não imperativa, Belbo era uma pessoa educada.

A máquina não colabora, sabe que deve receber a palavra, não a recebe, fecha-se. Como se acaso me dissesse: “Ouve lá, tudo o que queres saber eu trago aqui na minha pança, mas cava cava, velha toupeira, jamais o encontrarás.” Vire-se, disse para mim, gostavas tanto de jogar permutações com Diotallevi, eras o Sam Spade da editora, como disse Jacopo Belbo, trata de encontrar o falcão.

A senha de Abulafia podia ser de sete letras. Quantas permutações de sete letras se poderiam fazer com as vinte e cinco letras do alfabeto, calculando ainda as repetições, pois nada impedia que a palavra fosse “cadabra”? Existe a fórmula em alguma parte, e o resultado deve dar seis bilhões e pouco. Se tivesse um computador gigante, capaz de encontrar seis bilhões de permutações a um milhão por segundo, teria mesmo assim de comunicar uma por uma a Abulafia, para experimentá-las, e sabia que ele precisava de cerca de dez segundos para perguntar e em seguida checar a password. Logo, sessenta bilhões de segundos. Visto que num ano há pouco mais de trinta e um milhões, digamos trinta para arredondar, o tempo de trabalho seria algo como dois mil anos. Nada mau.

Era necessário proceder por conjecturas. Em que palavra poderia ter pensado Belbo? Antes de mais nada, seria uma palavra que tivesse encontrado ao princípio, quando começou a usar a máquina, ou que havia descoberto, e mudado, nos últimos dias, ao se dar conta de que os disquetes continham material explosivo e o jogo, pelo menos para ele, já não era mais um jogo? Seria aliás muito diverso.

Melhor optar pela segunda hipótese. Belbo sente-se perseguido pelo Plano, leva o Plano a sério (porquanto assim me havia deixado perceber pelo telefone), e pensa então em algum termo que tem relação com a nossa história.”

Ou talvez não: um termo ligado à Tradição podia da mesma forma ocorrer à mente deles. Por um momento pensei que talvez Eles tivessem entrado no apartamento, copiado os disquetes, e naquele instante mesmo estariam provando todas as combinações possíveis em algum sítio remoto. O calculador máximo num castelo dos Cárpatos.

Que tolice, admiti comigo, aquilo não era gente de calculador, antes teriam procedido com o Notarikon, a Gematria, a Temurah, tratando os disquetes como se fosse a Torah. E teriam gasto tanto tempo nisto quanto gastaram na redação do Sefer Ietzirah. Contudo, a conjectura não era de desprezar. Se Eles existissem, certamente haveriam de seguir uma inspiração cabalística, e se Belbo estava convencido de que, de fato existiam, possivelmente teria seguido a mesma via.

Por desencargo de consciência, tentei com as dez sefirot: Keter, Hokmah, Binah, Hesed, Geburah, Tiferet, Nezah, Hod, Jesod, Malkut, e ainda introduzi a Shekinah de lambujem… Não funcionava, é claro, era a primeira ideia que poderia ocorrer à mente de qualquer um.

Contudo, a palavra devia ser qualquer coisa de óbvio, que vem à mente por força das circunstâncias, pois quando trabalhas num texto, de maneira obsessiva, como devia ter trabalhado Belbo nos últimos dias, não te podes esquivar do universo do discurso em que vives. Seria desumano pensar que ele tivesse enlouquecido por causa do Plano e que lhe viesse à mente apenas, sei lá, Lincoln ou Mombasa. Deveria ser algo relacionado com o Plano. Mas o quê?

Busquei identificar-me com os processos mentais de Belbo, que havia escrito fumando compulsivamente, bebendo e olhando à sua volta. Fui à cozinha e despejei o último gole de uísque no último copo limpo que encontrei, voltei para o console, as costas contra o espaldar, as pernas sobre a mesa, bebendo a curtos goles (não era assim que fazia Sam Spade — ou talvez fosse o Marlowe?) e girando o olhar em torno. Os livros estavam distantes demais e não lhes podia ler os títulos nas lombadas.

Tomei a última gota de uísque, fechei os olhos, reabri-os. Diante de mim a estampa seiscentista. Era uma típica alegoria rosa cruciana daquele período, tão rico de mensagens em código, destinada aos membros da Fraternidade. Representava evidentemente o Templo dos Rosa-Cruzes, onde aparecia uma torre da qual ascendia uma cúpula, segundo o modelo iconográfico renascentista, cristão e hebraico, no qual o Templo de Jerusalém aparecia reconstruído segundo o modelo da Mesquita de Omar.

A paisagem em torno à torre era incôngrua e incongruamente povoada, como ocorre naqueles rébus onde se veem um palácio, uma rã em primeiro plano, um mulo com a albarda e um rei que recebe a dádiva de um pajem. Neste, à esquerda, embaixo, um cavaleiro, seguro a uma roldana presa a um perno, saía de um poço por força de estranhos cabrestantes puxados para um ponto no interior da torre, através de uma janela circular. No centro um cavaleiro e um viandante, à direita um peregrino ajoelhado que segura uma âncora à guisa de bordão. Do lado direito, quase em frente, um pico, uma rocha da qual se precipita um personagem com espada, e, do lado oposto, em perspectiva, o Ararat, com a Arca encalhada no topo. Ao alto, nos ângulos, duas nuvens, cada qual iluminada por uma estrela, irradiando sobre a torre os seus raios oblíquos, ao longo dos quais levitam duas figuras, um homem nu envolvido por uma serpente, e um cisne. No alto, ao centro, um nimbo sobre o qual havia a palavra “oriens” em caracteres hebraicos, donde despontava a mão de Deus que sustinha a torre por meio de um fio.

A torre movia-se sobre rodas, tinha uma primeira elevação quadrangular, com janelas, uma porta, uma ponte levadiça, na ala direita, depois uma espécie de balaustrada com quatro torreões de observação, cada qual guardado por um soldado tendo numa das mãos um escudo (gravado com caracteres hebraicos), e agitando uma palma com a outra. Mas só três dos quatro soldados eram visíveis, sendo que o quarto se adivinhava apenas, oculto pela mole da cúpula octogonal, sobre a qual se elevava um tibúrio, da mesma forma octogonal, e deste despontava um grande par de asas. Por cima, havia outra cúpula menor, com uma torrezinha quadrangular que, aberta em grandes arcos suspensos por delgadas colunas, deixava ver no próprio interior um sino. Depois uma cupulazinha final, de quatro gomos, acima da qual se estendia o fio mantido no alto pela mão divina. Dos lados da cupulazinha, a palavra “Fa/ma”, e sobre a cúpula um friso: “Collegium Fraternitatis”.

Não acabavam aí as bizarrices, porque das outras duas janelas redondas da torre despontavam, à esquerda, um braço enorme, desproporcional em relação às outras figuras, empunhando uma espada, como se pertencesse ao ser alado inserido na torre, e à direita uma imensa corneta. A corneta, por sua vez…

Comecei a suspeitar do número de aberturas da torre: rigorosamente regulares nos tibúrios, casuais no entanto nos lados da base. A torre era vista apenas de dois quartos, em perspectiva ortogonal, e era possível imaginar-se que por motivos de simetria as portas, as janelas e a vigia que se viam de um lado, embaixo, estivessem reproduzidas igualmente do lado oposto na mesma ordem. Portanto, quatro arcos
no tibúrio do sino, oito janelas no tibúrio inferior, quatro torrezinhas, seis aberturas entre a fachada oriental e a ocidental, quatorze entre a fachada setentrional e a meridional. Fiz os cálculos: trinta e seis aberturas.

Trinta e seis. Há mais de dez anos que esse número me obceca. E também o cento e vinte. Os Rosa-Cruzes. Cento e vinte dividido por trinta e seis dava —mantendo sete dígitos — 3,333333. Exageradamente perfeito, mas talvez valesse a pena experimentar. Sem resultado.

Ocorreu-me que aquela cifra, multiplicada por dois, dava aproximadamente o número da Besta, 666. Mas essa conjectura também se revelou por demais fantasiosa.

Impressionou-me de repente o nimbo central, sede divina. Eram muito evidentes as letras hebraicas, que eu podia ver até mesmo da cadeira onde estava. Mas Belbo não podia escrever letras hebraicas no Abulafia. Observei melhor: eu as conhecia, sem dúvida, da direita para a esquerda, jod, he, waw, he. Iahveh, o nome de Deus.

Com as vinte e duas letras fundamentais que gravou, piasniou, combinou, sopeaou e permutou, ele deu forma a todo o criado e ao que se há de formar no futuro.

(Sefer Jetzirah, 2.2)”

O nome de Deus… É claro. Lembrei-me do primeiro diálogo entre Belbo e Diotallevi, no dia em que instalaram Abulafia no escritório.

(…)

Judá Leon deu-se a permutações

De letras e a complexas variações

E o nome pronunciou enfim que é a Chave,

A Porta, o Eco, o Hóspede e o Palácio…

(J.L. Borges, El Golem)

Agora, por ódio a Abulafia, diante da enésima obtusa pergunta (“Tens a senha?”) respondi: “Não.”

A tela começou a encher-se de palavras, de linhas, de índices, de uma enxurrada de frases.

Conseguira violar o segredo de Abulafia.

O Pêndulo de Foucault, Umberto Eco

“Kant e o ornitorrinco “é um tratado semiótico. Mas não um tratado qualquer. Não se escrito por um Umberto Eco. Que também escreveu “Como se faz uma tese” que foge do esperado num texto destes. E o inusitado e fabuloso romance nominalista (está cifrado no próprio título): “O nome da rosa”. Que parece uma citação de Shakespeare:

O que é que há, pois, num nome? Aquilo a que chamamos rosa, mesmo com outro nome, cheiraria igualmente bem.

Umberto Eco morreu anteontem. Eu, dietético consumidor de notícias, só soube hoje e me cobri de luto interno por alguém que me proporcionou grandes prazeres de uma opinião esclarecedora e uma verve literária esplêndida (desculpem desfazer-me em elogios, se é que há alguém lendo, como é comum até para os mortos sem valor, e também pelo maus aspecto de frases repletas de adjetivos). Este é meu adeus ao Umberto Eco de Alexandria, o que nos remete a bibliotecas, um dos seus personagens.

Acredito que algumas obras qua citei acima não sejam tão desconhecidas mas a que junta um animal de um continente que parece ter caído do céu montado num meteoro e com toda a sua fauna diferente quase grotesca quando comparada com as de outros continentes, quase alienígena, ao filósofo metódico de Königsberg. Quanto ao primeiro animal, nada que Darwin não explique mas ao mesmo tempo cutucando nosso pendor pelo maravilhoso. Somos crédulos, lembra?. Mas “Kant e o ornitorrinco”, um filósofo quimérico e um animal  quimérico, na minha opinião, cabem bem numa mesma frase. Aqui desminto o propósito semiótico admirável do Umberto Eco. Mas só de brincadeira. O livro, um pouco árido quando mostra esquemas semióticos, é incrível em alguma passagens excelentes (os elogios de novo!). Para encurtar vou citar alguns trechos do ornitorrinco Umberto Eco, um mamífero com veneno, mas também com um simpático bico de pato.

[Kant] Teria tratado de imaginar o seu esquema, partindo de impressões sensíveis, mas estas impressões sensíveis não se adaptavam a algum esquema precedente (como poderíamos colocar junto o bico e as patas espalmadas com o pelo e a cauda de castor, ou a idéia de castor com aquela de um animal ovíparo, como poderíamos ver um pássaro lá onde aparecia um quadrúpede, e um quadrúpede onde aparecia um pássaro?). Kant se encontraria na mesma situação de Aristóteles quando, traçando cada regra possível para distinguir os ruminantes dos outros animais, não conseguia nunca colocar o camelo, que fugia a qualquer definição por gênero e diferença, não obstante se movesse, e se adequava alguma regra a ele, expulsava daquele mesmo espaço definidor o boi, que também rumina.

Kant e ornitorrinco, Umberto Eco

Montezuma e os cavalos

Os primeiros astecas percebidos na costa assistiram ao desembarque do conquistadores. Apesar de restarem pouquíssimos traços das suas primeiras reações, e o melhor que sabemos depende das relações dos espanhóis e das crônicas indígenas escritas posteriormente, sabemos com certeza que várias coisas devem ter-lhes maravilhado muito: os navios, as medonhas e majestosas barbas dos espanhóis, as armaduras de ferro que tornavam terríveis aqueles “estranhos” catafractários, de pele de um branco que era inatural, as espingardas e os canhões; e, por fim, monstros nunca vistos, além de cães muito raivosos, cavalos, em terrífica simbiose com seus cavaleiros.

Kant e ornitorrinco, Umberto Ecoontezuma

Nota:

As citações acima foram adequadas à norma ortográfica vigente.

E agora vamos conhecer “Número zero”, sua obra póstuma sobre a “máquina de lama”. Sobre um jornalismo que fabrica uma “lama” mais insidiosa do que a que saiu de Mariana.

— Não nego, mas meu pai me acostumou a não acreditar em todas as notícias. Os jornais mentem, os historiadores mentem, a televisão hoje mente. Você não viu nos telejornais há um ano, com a Guerra do Golfo, o pelicano coberto de óleo, agonizando no golfo Pérsico? Depois foi apurado que naquela estação era impossível haver pelicanos no Golfo, e as imagens eram de oito anos antes, no tempo da Guerra Irã-Iraque. Ou então, como disseram outros, pegaram uns pelicanos no zoológico e lambuzaram de petróleo. O mesmo devem ter feito com os crimes fascistas. Veja bem, não é que me afeiçoei às ideias do meu pai ou do meu avô, nem quero fazer de conta que não houve massacre de judeus. Por outro lado alguns dos meus melhores amigos são judeus, imagine. Mas não confio em mais nada. Os americanos foram mesmo até a Lua? Não é impossível que tenham construído tudo num estúdio, se você observar as sombras dos astronautas depois da alunissagem não são verossímeis. E a Guerra do Golfo aconteceu mesmo ou nos mostraram só trechos de velhos repertórios? Vivemos na mentira e, se você sabe que lhe estão mentindo, precisa viver desconfiado. Eu desconfio, desconfio sempre. A única coisa verdadeira da qual posso dar testemunho é essa Milão de tantas décadas atrás. Os bombardeios existiram de verdade e, entre outras coisas, quem bombardeava eram os ingleses, ou os americanos.

(…)

Não são as notícias que fazem o jornal, e sim o jornal que faz as notícias.

Número Zero, Umberto Eco

 

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