Carta aberta a um gringo que fala do brasileiro

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“Eis que um gringo, sabe-se lá quem é, escreveu sobre o “brasileiro”.

E a análise do forasteiro está se propagando nas redes sociais. O texto, em resumo, afirma que o Brasil é um país simpático e só não é uma grande nação porque seu povo tem uma mentalidade atrasada e periférica. Em outras palavras, o brasileiro não possui os altos valores da cultura do “centro” civilizado.

Visão ingênua, etnocêntrica e comete o erro grave de avaliar “o brasileiro” como se houvesse, de fato, um tipo único que pudesse ser classificado como tal, sem levar em conta a estrutura de classes do país, a desigualdade social, os processos históricos e, portanto, as vicissitudes inerentes a um país tão heterogêneo geográfica e socialmente.

Parte de um suposto indivíduo, “o brasileiro”, definido por ele a partir de suas experiências pessoais, para inferir sobre as características da sociedade brasileira como um todo. Um atentado a qualquer método de investigação social.

Em relação à economia, o autor volta ao ideal de uma ética capitalista, baseada no trabalho duro, no esforço pessoal e na capacidade de poupar, que, se um dia já foi pressuposto das condições iniciais do capitalismo primitivo (ver O capitalismo e a ética protestante, de Max Weber), já não corresponde mais à dinâmica do funcionamento de uma economia de mercado, nem no Brasil, nem no resto do mundo, cuja força motriz é justamente o consumo e o endividamento. Público e privado.

E sobre a vaidade, apontada como uma falha tipicamente “nossa”, mas que desde a tradição do Antigo Testamento é citada como uma categoria universal da humanidade: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade” (Eclesiastes). A quem ele se refere? A vaidade do catador de lixo? Do ambulante? Do bancário? Do Neymar? Ou do Eike Batista? E quanto aos vaidosos do resto do mundo. O que dizer de Donald Trump, dos astros de Hollywood, dos magnatas do mercado financeiro e da vaidade do próprio autor, que se julga tão moralmente superior a ponto de discorrer sobre a moralidade de um povo que absolutamente desconhece.

Depois afirma que o brasileiro vive de emoções fabricadas artificialmente. E desde quando a “selfie” é um fenômeno particular do brasileiro, que substitui a experiência real pela artificial das imagens? É só caminhar pela orla de Ipanema para ver turistas do mundo inteiro deixando o belo pôr do sol no Arpoador passar incólume porque estão absorvidos pelos seus Smartphones.

Interessante que em dado momento ele pega emprestado alguns clássicos da sociologia e da antropologia brasileira para transformá-los em receita de auto-ajuda para tornar o brasileiro um povo melhor. Utiliza-se, superficialmente, das teses de Sérgio Buarque, para afirmar que o brasileiro age com o coração em vez da razão, e de Roberto DaMatta, para decretar que aqui é o país do “jeitinho”. Teses de fato interessantes, mas que já foram devidamente relativizadas e criticadas por estudos científicos recentes, baseados em pesquisas empíricas, cujas conclusões apontam para uma total falta de evidência que dê suporte às conclusões de nossos cientistas sociais clássicos e rejeitam qualquer tentativa de se generalizar o comportamento do brasileiro em uma única categoria ou tipo (ver Jessé Souza, A tolice da inteligência brasileira).

Em um determinado momento, o sujeito se defende de uma possível acusação de parcialidade, alegando que já escreveu também sobre os EUA, como se isso lhe desse, automaticamente, o álibi da objetividade e o absolvesse de todas as aberrações metodológicas que comete em seu texto sobre o “Brasil”.

O autor continua seu arrazoado com uma previsão sombria, de que a crise política e econômica enfrentada pelo país só tenderia a piorar, já que nós, brasileiros, não fizemos nosso dever de casa e agimos de forma perdulária e irresponsável. De acordo com esse ilustre “brasilianista”, somente com uma mudança na Constituição Federal é que o país poderia sair da situação “insustentável” em que se encontra. Embora não explicite no texto, conclui-se que nosso amigo americano está se referindo ao fato de o Brasil ter uma Constituição que trata das políticas sociais como um dever intransferível do Estado e um direito universal de cada cidadão, o que tornaria o país, na opinião ortodoxa do autor, pouco eficiente e com baixos índices de produtividade. Visão obtusa que já vem sendo rejeitada, sistematicamente, até por entidades conservadoras como o FMI e o Banco Mundial. Nas principais universidades do mundo, aí incluídas Harvard, MIT, Columbia, Princeton, London School of Economics, e até mesmo a Universiade de Chicago, já se considera seriamente que a desigualdade é um dos mais graves fatores de ineficiência econômica (ver Joseph Stiglitz, O preço da desigualdade).

Enfim, daria para continuar a crítica, parágrafo a parágrafo, mas acredito que o essencial já esteja dito aqui.

O melhor indício de que o texto do estrangeiro é intelectualmente frágil é o fato de Rodrigo Constantino, ex-blogueiro da Revista Veja, tê-lo compartilhado em sua página pessoal. Incrível como a superficialidade encontra seu duplo instantaneamente.

P.S.

Post Sriptum

 “A vaidade dos outros só vai contra o nosso gosto quando vai contra a nossa vaidade.” (Friedrich Nietzsche)
Será que Zygmunt Bauman escreveu seu livro “Vida para consumo” pensando em nós brasileiros, consumistas e perdulários? E a “Fogueira das vaidades” de Tom Wolfe? Também foi escrito em nossa homenagem, um povo que acha bonito ser vaidoso?
Francis Bacon, grande filósofo e ensaísta, também corrupto histórico, provavelmente deve ter praticado atos ilícitos na Inglaterra do século XVI inspirado em um país do futuro chamado Brasil.
O cardeal Richelieu, virtual governante da França no século XVII, conhecido por distribuir cargos para familiares e amigos próximos, também deve ter sido influenciado pelas práticas de apadrinhamento de um certo país da América Latina, cuja certidão de nascimento data de 1822.
Certamente Woody Allen escreveu o roteiro de “Celebridades” pensando na futilidade do povo brasileiro.
Será que as falcatruas financeiras, as maquiagens de balanços, as fraudes aos pequenos poupadores e os desfalques à economia popular, chancelados pelas agências de risco internacionais, causados por empresas como a Enron e o Lehman Brothers, saíram de cérebros brasileiros infiltrados nas grandes corporações da América do Norte?
Provavelmente os países do Hemisfério Norte, como EUA, Inglaterra, França, Itália, Espanha, Grécia, todos com uma dívida pública superior a 70% em relação ao PIB também devem ter sido mal influenciados por um país tropical, endividado por Deus, cuja débito imoral atualmente está em torno de 59% do PIB. Tragédia. Talvez também sejamos culpados pelo colonialismo, escravismo, imperialismo, nazismo, fascismo, stalinismo, neoliberalismo. Por Auschwitz, Guernica, Hiroshima, Nagazaki, Chernobyl. Pela bomba de hidrogênio, o Napalm, a Coca-cola, o DDT, a Disneylândia, o Botóx, o SUV, a Ku Klux Klan.
Seremos os inventores da sociedade de consumo, da publicidade, do crediário, dos juros sobre juros, do cartão de crédito, do cartão de ponto? Os pais do individualismo, do utilitarismo e da mão invisível do mercado?
Quem sabe não somos a causa das crises de 1929, de 2008, das maiores emissões de gases de efeito estufa na atmosfera, do aquecimento global e do culto à celebridade? Hora de assumirmos nossas culpas. Nós brasileiros, do catador de lixo ao presidente da maior empresa nacional, somos todos vaidosos, ineficientes, improdutivos, perdulários, injustos, irracionais, corruptos, egoístas, impontuais e preguiçosos (exceto no carnaval).
Ainda bem.
Basta olhar o mundo ao redor e perceber que nada disso nos particulariza. Serve apenas para confirmar o fato de que somos parte incontestável da espécie mais imperfeita e contraditória do planeta Terra. A única espécie moralista: a humana.

Blog do Ulysses Ferraz

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