O carniceiro de Lyon

Ao saber da “carta” imediatamente me veio à lembrança um personagem histórico 055525para o qual comentários de Balzac despertaram a atenção de Zweig. Balzac dizia que Fouché era um gênio ao qual o mais intenso desprezo obnubilou sua importância e sagacidade.

Juntando o nome Fouché ao do autor da carta numa busca na Internet para ver se alguém já tinha feito a mesma associação vim a conhecer o artigo da Fernanda Torres.

No prefácio da sua biografia sobre Fouché Zweig diz:

Sei que uma descrição de um homem sem nenhuma moral, de alguém tão singular e importante como Joseph Fouché, vai de encontro ao desejo evidente de nosso tempo. Nossa época quer e ama biografias heróicas, pois, diante da carência de  lideranças políticas criativas, busca no passado exemplos mais elevados. Não desconheço o poder das biografias heroicas de elevar as almas, intensificar as forças, levantar o espírito. Desde os dias de Plutarco, são necessárias para cada geração em ascensão, para cada nova juventude. Mas é precisamente no âmbito político que elas correm o risco de falsear a História, ao levar a crer que – naquela época e sempre – os verdadeiros líderes de fato determinam o destino do mundo. Sem dúvida, por sua própria existência, uma natureza heroica domina a vida intelectual durante décadas e séculos, mas apenas a intelectual. Na vida real, verdadeira, na esfera de poder da política – e isto deve ser frisado como alerta contra toda credulidade neste âmbito –, raramente são as figuras superiores, as pessoas das ideias puras, que determinam os acontecimentos, e sim uma categoria muito inferior, porém mais hábil: os personagens dos bastidores.

Em 1914 e 1918, vimos como as decisões de importância histórica universal sobre guerra e paz foram tomadas não conforme a razão ou a responsabilidade, mas por indivíduos ocultos, de caráter duvidoso e capacidade de discernimento limitada. A cada dia verificamos que, no jogo ambíguo e muitas vezes leviano da política, ao qual os povos ainda confiam cegamente seus filhos e seu futuro, não são os homens de visão ética e de convicções inabaláveis que vencem, mas sim aqueles aventureiros profissionais que chamamos diplomatas, esses artistas de mãos gatunas, palavras ocas e nervos gélidos. Se, como já disse Napoleão há cem anos, a política realmente se tornou “la fatalité moderne”, a fatalidade moderna, tentemos reconhecer, em nossa defesa, os homens que estão por trás do poder e, com isso, o segredo perigoso da sua força. Que esta biografia de Joseph Fouché seja uma contribuição para o estudo da psicologia do homem político.

Salzburgo, outono de 1929

Nota:

Em Lyon Fouché executava usando um canhão e enfileirava os prisioneiros para economizar bala.

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