Por Que o Mundo Existe? – Jim Holt

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Quem combate monstruosidades deve cuidar para que não se torne um monstro. E se você olhar longamente para um abismo, o abismo também olha para dentro de você.

Nietzsche em Além do bem e do mal

O que é o nada? Macbeth respondeu a essa pergunta com admirável elegância:

“Nada é, exceto o que não é.”

Meu dicionário a enuncia de forma algo mais paradoxal:

“nada (s.): uma coisa que não existe”.

Embora Parmênides, o antigo sábio eleata, afirmasse que era impossível falar do que não é — desrespeitando assim seu próprio preceito —, o homem comum sabe que não se trata apenas disso. O senso comum dita que o nada é melhor que um dry martini, mas pior que uma cama suja de areia. É algo que o pobre tem, de que o rico precisa, e, se for tudo que você comer por muito tempo, acabará morrendo. Às vezes, nada pode estar mais longe da verdade, mas não se sabe quão mais longe. Pode ser completamente preto e completamente branco ao mesmo tempo. Nada é impossível para Deus, mas moleza para o maior dos incompetentes. Seja qual for o par de propriedades contraditórias escolhido, nada parece capaz de abrangê-las. Seria possível deduzir daí que nada é misterioso. Mas isso significaria apenas que tudo é óbvio — inclusive, presume-se, o nada.

Será, talvez, por isso que não faltam no mundo pessoas que sabem, entendem e acreditam em nada. Mas cuidado ao falar com blasfêmia sobre o nada, pois também há por aí muitos sujeitos arrogantes podem ser chamados de “nulófilos” — que gostam de afirmar que, para eles, nada é sagrado.

Ex nihilo nihil fit, diziam os antigos filósofos, e o rei Lear concordava: nada vem do nada. Essa máxima aparentemente atribuiria ao nada um poder incrível: o de gerar a si mesmo — o de ser, como Deus, causa sui. O filósofo Leibniz fez outro elogio ao nada ao observar que ele era “mais simples e mais fácil que algo”. (A dura experiência ensina a mesma lição: nada é simples, nada é fácil.) De fato, foi a suposta simplicidade do nada que levou Leibniz a perguntar por que existe algo e não apenas o nada. Afinal, se não houvesse nada, nada haveria a ser explicado — nem ninguém para exigir uma explicação.

(…)

Ao contrário de Leibniz e Schopenhauer, ao contrário de Wittgenstein, Heidegger, Dawkins, Hawking e Proust, ao contrário de tantos filósofos, cientistas e teólogos contemporâneos e quase qualquer pessoa comum capaz de reflexão, Grünbaum considera a existência do mundo absolutamente não surpreendente. E está convencido de que é racional não se sentir surpreendido.

Vejamos de novo a maneira como o mistério fundamental foi originalmente enunciado por Leibniz: Por que existe algo e não apenas o nada? Grünbaum dá a isso, com a devida grandiloquência — e talvez uma ponta de ironia —, o nome de Questão Existencial Primordial. Mas o que a legitima? Como acontece com qualquer outra questão do tipo por quê?, observa ele, ela repousa em pressupostos ocultos. Não se limita a partir do pressuposto de que deve haver alguma explicação para a existência do mundo. Também assume que o mundo precisa de uma explicação — a de que, na ausência de um grande motivo ou causa, o nada haveria de prevalecer.

Mas por que teria o nada de prevalecer? Os que manifestam perplexidade diante da existência de um mundo como o nosso fervilhante de vida, estrelas, consciência, matéria escura e todo o tipo de coisas que nem sequer descobrimos ainda — parecem ter um preconceito intelectual que favorece a ideia do Mundo Nulo. O nada é o estado de coisas natural, acreditam implicitamente, a alternativa ontológica por default. Só os desvios em relação ao nada é que são misteriosos e exigem uma explicação.

E de onde foi que tiraram essa crença no que Grünbaum chama, fazendo pouco, de Espontaneidade do Nada, que lhes parece tão óbvia que nem ao menos se dão o trabalho de defendê-la? Deem-se conta ou não, afirma ele, tiraram-na da religião. Até ateus como Dawkins involuntariamente foram impregnados por ela “com o leite de sua mãe”. A Espontaneidade do Nada é um preceito nitidamente cristão, alega Grünbaum. Foi inspirada pela doutrina da criação ex nihilo, que surgiu no segundo século depois de Cristo. Segundo o dogma cristão, Deus, sendo todo-poderoso, não precisava de materiais previamente existentes para moldar o mundo. Criou-o a partir do nada. (Presume se que o relato da criação no Gênesis, no qual Deus criou o mundo impondo a ordem numa espécie de caos aquático, possa ser descartado como licença mitopoética.)

Mas Deus, de acordo com o dogma cristão, não é apenas o criador do mundo. É também aquele que o sustém. Uma vez criado, o mundo é totalmente dependente dele para continuar existindo. Ele trabalha 24 horas por dia para mantê-lo num estado de ser. Se Deus deixasse de apoiá-lo existencialmente, mesmo que fosse por um só momento, o mundo haveria de “entrar em colapso e deixar de existir”,2 para usar uma expressão do arcebispo britânico William Temple no século XX. Ele não é como uma casa que continua de pé depois que o construtor a concluiu. É, sim, como um carro equilibrado de forma precária sobre um penhasco. Sem o poder divino para manter o equilíbrio, mergulharia no precipício do nada.

Os gregos antigos não compartilhavam essa ideia cristã da criação ex nihilo. E tampouco os antigos filósofos indianos. Não surpreende, assim, observa Grünbaum, que não se preocupassem em saber por que existe algo e não apenas o nada. Foram os filósofos da Igreja, como Agostinho e Tomás de Aquino, que insinuaram essa ideia no pensamento ocidental. A doutrina da dependência ontológica do mundo em relação a Deus — a que Grünbaum se refere como o Axioma da Dependência — moldou as intuições de racionalistas como Descartes e Leibniz, predispondo-os a acreditar que, não fosse a constante atividade divina na sustentação da existência do mundo, o nada haveria de prevalecer. O ser sem causa era portanto impensável para eles. Ainda hoje, quando perguntamos por que existe algo e não apenas o nada, estamos nos revelando, de modo deliberado ou não, herdeiros de uma forma de pensar que é vestígio dos primórdios do judeo-cristianismo.

A Questão Existencial Primordial escora-se portanto no pressuposto da Espontaneidade do Nada. A Espontaneidade do Nada repousa no Axioma da Dependência. E o Axioma da Dependência vem a ser uma fanfarronada teológica primitiva e sem fundamento.

E esse era apenas o início do arrazoado de Grünbaum. Ele não se limitava a observar que o que chama de Questão Existencial Primordial repousa em premissas dúbias. Queria demonstrar que essas premissas eram simplesmente falsas.

(…)

Ele é infinitamente poderoso, infinitamente sábio, infinitamente bom, infinitamente livre, eterno e assim por diante. Estabelecer que todos os parâmetros são iguais a infinito torna muito fácil definir alguma coisa. No caso de um ser finito, por outro lado, temos de dizer que ele é desse ou daquele tamanho, tem tal ou qual poder, sabe precisamente isso e nada mais, começou a existir em tal momento do passado etc. Em outras palavras, há uma longa e confusa série de números finitos a especificar.

Acontece que na ciência a infinitude é um excelente número, assim como seu oposto, zero. Nem a infinitude nem o zero precisam de qualquer explicação. Já os números finitos precisam de explicação. Se o número 2,7 ocorrer numa equação, alguém sempre haverá de perguntar: “Por que 2,7? Por que não 2,8?” A simplicidade do zero e da infinitude os exime dessas perguntas difíceis. Pode-se dizer que a mesma lógica se aplica a Deus. Se o criador cósmico pudesse fazer um universo apenas com determinada massa, não mais do que ela, surgiria a questão de saber por que seu poder sofria tal limitação. No caso de um Deus infinito, não é necessário explicar esses limites.

Jim Holt

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