Clareza e obscuridade

Goethe (…) cantava:

“Eu me declaro da linhagem dêsses
Que, da escuridão, aspiram à claridade”

E, na hora de morrer, na plenitude do dia, face à primavera iminente, lança um clamor final, um último desejo, a seta derradeira do velho arqueiro exemplar:

“Luz, mais luz”

A clareza não é vida, mas é a plenitude da vida.

Como conquistá-la sem auxílio do conceito? Clareza dentro da vida, luz derramada sobre as coisas é o conceito. Nada mais. Nada menos.

Cada novo conceito é um novo órgão que se abre em nós sobre uma porção do mundo, tácita antes e invisível. Quem vos dá uma idéia aumenta-vos a vida e dilata a realidade em torno de vós. Literalmente exata é a opinião platônica de que não enxergamos com os olhos e sim, através ou por intermédio dos olhos; enxergamos com os conceitos. Idéia em Platão quer dizer ponto de vista.

Pelo contrário, a superfetação do problemático, do obscuro na vida, faz da religião forma insuficiente de cultura. Frente ao problemático da vida, a cultura representa o tesouro dos princípios. Podemos disputar sobre quais sejam os princípios suficientes para resolver aquele problema; mas sejam quais forem, terão que ser princípios. E para algo começar as ser princípio tem que começar a não ser problema, por sua vez. Ora, os princípios religiosos são problemáticos em grau superior à própria vida que tratam de esclarecer e sustentar. Ao fim e ao cabo, a vida se nos apresenta como um problema; mas como um problema solúvel, ou, pelo menos, não insolúvel. A religião nos propõe que o expliquemos por meio de mistérios – quer dizer – de problemas formalmente insolúveis. O mistério nos leva do obscuro ao tenebroso. O mistério é a luxúria da obscuridade.

Ortega Y Gasset em Meditações do Quixote

A escuridão e a obscuridade cobriram o céu no ad hominem contra Simone Beauvoir na tentativa de adulteração do verbete referente a ela na Wikipedia.

Atacar a presumida vida pessoal do autor de uma obra em que faz afirmações articuladas num determinado contexto é uma das técnicas sórdidas  dos arautos da obscuridade. Tais truques foram e são aplicados cotidianamente e, ao mesmo tempo, desmistificados. Vencer um debate sem ter razão já foi destrinchado por Shopenhauer. Não se toca na argumentação pois há incompetência para isto misturada com má fé a impedir.

Como mostram os textos memoráveis da filósofa Márcia Tiburi os fascistas sempre foram os mestres da obscuridade.

Mas como conversar com um fascista?

Márcia Tiburi defende uma atitude de resistência que se preste ao esclarecimento. Julgo que tal propósito não está ao alcance de todos, principalmente pela base completamente irracional com que os fascistas semeiam suas atrocidades lógicas. Muitas vezes entrar na discussão do que, na maioria das vezes, é apenas provocação pode representar uma perda de tempo e energia. O fascista é um jogador de tênis no debate em comparação com aquele que deixa espaço para a investigação.

No post Polêmica, tênis, frescobol, Rubens Alves e Foucault procurei esclarecer a questão para mim mesmo. Corre-se o risco quase certo de que uma dúvida educada seja usada como um flanco a ser explorado pelo fascista. Este embate cotidiano tem que ser feito de forma mais variada e criativa do que fornecer palanque para os energúmenos. As varas do fascio estão sempre à mão para romper as resistências e calar as vozes. E para tornar a sua vida tão pequena quanto a deles. No entanto, acho que Márcia Tiburi o faz de uma forma que não deixa muito espaço para que a estupidez domine pois esta é desarmada pela extrema articulação da filósofa com sua atitude aberta mas sem concessões frívolas.

O texto do artigo “Parabéns, atingimos a burrice máxima“, de Eliane Brum no El Pais põe o dedo na chaga. Nada é mais caro ao fascista do que acusar os outros de fascismo e nazismo numa tática de camuflagem. Sua má consciência o impede de se ver como fascista mas não de se munir de táticas do fascismo e ao mesmo tempo criar uma confusão nas mentes para poder chocar tranquilamente o seu ovo de serpente. E quando chegar ao poder ficará incólume para revelar as suas intenções mais caras e implantar uma novilíngua totalitária de forma definitiva, não mais um esboço tartamudeado para melhor servir ao engano.

(Um relâmpago. Dionísio aparece na sua esmeraldina beleza)

DIONISIO: Sê sensata, Ariadne!
< Tens orelhas pequenas, tens as minhas orelhas:
acolhe nelas uma palavra sagaz! –
Não há que odiar primeiro, antes de amar? …
Eu sou teu labirinto…

Prá começar, podemos retomar a imagem do labirinto e das orelhas. As orelhas de Ariadne, assim como as de Dionísio, são pequenas, em forma de labirinto. “Tu tens orelhas pequenas, tu tens as minhas orelhas”. As orelhas cheias e curvas e recônditos são afoitas ao entendimento de uma sabedoria inaudita, diferentemente das orelhas do asno que são pontiagudas. Sabemos muito bem que em Assim Falava Zaratustra, que o espírito sofre três mutações: do asno ou camelo para o leão, do leão para a criança. Neste momento, nos deteremos na figura do asno e de suas orelhas.

No geral, ‘o asno representa o povo’ – porém não devemos ser como o asno precipitando a interpretação – o próprio Nietzsche se denomina como o anti-asno, assim também deve ser o seu leitor, munido de um espírito crítico, sob pena de vulgarizarmos a preciosa interpretação. O asno, segundo Salaquarda, não se mostraria como uma “figura secundária de mera ridicularização da plebe, mas como uma figura de importância insuspeitada.” Recorrendo à tradição oral das fábulas e contos de fada, Salaquarda, cita o dicionário dos Irmãos Grimm, onde o asno representa – “perseverança, tenacidade, capacidade para suportar, robustez, obstinação, esperteza e adesão, mas também mostra preguiça, rudeza, e insolência.” Assim, Salaquarda procura indicar que o asno “não representa diretamente o povo, mas sim uma síndrome complexa que apenas se aplica ao povo”, isto é, designa a tendência a compreender o que é dito ou escrito em seu significado mais trivial e imediato. “O asno, com suas grandes orelhas não tem uma escuta suficientemente refinada para penetrar, por exemplo, naqueles discursos cujo estilo se origina do estabelecimento de obstáculos seletivos para seus leitores”. Com seu I-A, diz Sim, mas na verdade gostaria de dizer não, carregando fardos que outros não suportariam. Suas orelhas pontudas fazem dificultar o ingresso nos círculos subterrâneos do labirinto.

EDIFÍCIOS E NUVENS:
FILOSOFIA E POESIA DE FRIEDRICH NIETZSCHE

Ângela Zamora

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s