Invalidação X Inventário Moral

Há algum tempo vi o post da Cláudia Riecken que achei muito pertinente para uma situação sutil que ocorre também em ambientes de trabalho.

Penso que há uma conexão forte com o post que escrevi: Polêmica, tênis, frescobol, Rubens Alves e Foucault. Pois uma das armas do invalidador pode ser a polêmica onde, segundo Foucault:

Perguntas e respostas fazem de um jogo – jogo agradável e ao mesmo tempo difícil – em que cada parte procura usar apenas os direitos que lhe são dados pelo outro e pela forma consentida do diálogo.

O polêmico, pelo contrário, procede atrelado a privilégios que detém antecipadamente e que não aceita nunca de pôr em discussão. Possui, por princípios, os direitos que o autorizam à guerra e que fazem desta luta uma empresa justa; diante dele não está um companheiro na busca da verdade, mas um adversário, um inimigo que errou, que é prejudicial e cuja existência constitui uma ameaça. Para ele, portanto, o jogo não consiste em reconhecer o outro como sujeito que tem direito à palavra, mas em anulá-lo como interlocutor de qualquer possível diálogo, e o seu objetivo final não será o de aproximar-se quanto possível de uma verdade difícil, mas o de fazer triunfar a justa causa de que se proclama, desde o inicio, o porta-voz. O polemico apoia-se em legitimidade da qual o seu adversário é, por definição, excluído.

Talvez um dia será necessário escrever a longa historia da polêmica como figura parasitária da discussão e o obstáculo à busca da verdade.

E Rubem Alves, para arrematar:

O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada – palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra – pois o que se deseja é que ninguém erre.

Abaixo alguns excertos do post da Riecken:

(…)

Invalidar é o mesmo que tirar a validade de algo ou de alguém, é diminuir o outro, desprezá-lo, mostrá-lo como errado, incompleto, tolo, menor.

(…) normalmente é a invalidação sarcástica e mental, não aberta, que traz o efeito mais devastador. Um soco no nariz é uma forma óbvia de invalidação, que, após certo tempo, é curada. Já um ataque à auto-estima, se feito no momento “certo” e da forma “certa”, pode se prolongar por toda a vida da pessoa atingida. Um soco no nariz pode muito bem receber um revide, e certamente será motivo de responsabilização do que o cometer, enquanto um ataque mental, subjetivo, geralmente passa despercebido e funciona contra a vítima: a reduz, a impede, a enfraquece, a submete. A ilegitimação (invalidação) só persiste entre as gerações porque, simplesmente, ela “funciona”.

(…)

É difícil reconhecer um invalidador, porque um verdadeiro, “do ramo”, é capaz de burlar o sistema de segurança de sua mente lógica, e você de repente se apanha sentindo-se mal sem saber o porquê.
O invalidador mantém controle sobre sua vítima. Ele finge reconhecer o valor de algo de que você se orgulha e, então, mais tarde, faz alguma insinuação negativa sobre isso. Ele pressente e percebe quais são suas expectativas de curto prazo e, nos seus momentos de maior vulnerabilidade, as flagela.

O invalidador quer que a vítima sucumba. Ele precisa controlar você, pois o percebe como superior a ele. Ele se sente humilhado pelo que é bom no outro. Ele toma acusações ou críticas, todas cercadas de “alguma verdade”, e as dispara contra você, “todo honestidade”, sendo “seu amigo”, só para “ajudar você”.

É importantíssimo distinguir um amigo verdadeiro de um invalidador: o amigo verdadeiro diz uma coisa negativa sobre você e recua, oferecendo espaço para que você considere aquele ponto e reflita sobre ele. A intenção de um amigo é realmente positiva. Já um invalidador não pára com as críticas até que você esteja do tamanho delas: sua intenção não é outra senão reduzir você. Ele vai ouvir você dizer algo sobre o que não gosta em si mesmo e usar essa informação em outro momento contra você. Ele pode escolher as melhores qualidades que você considera em si mesmo e, depois, quebrá-las ao meio.

Isso tudo se passa de maneira tão subliminar que você pode não perceber conscientemente — ao menos até agora. E atenção: se você confrontar o invalidador diretamente, vai ouvir algo como: “Oh, imagine! Eu amo você! Sou seu amigo! De onde você tirou essas idéias tão perversas?!”. E ele pode realmente adorar você e querer, de fato, ser seu amigão, mas apenas depois de estabelecidas as condições dele, em que você está sob controle.

O invalidador pode fazer você se envergonhar ou sentir-se culpado por acusá-lo de invalidar. Pode fazê-lo parecer barato ou leviano diante dos seus amigos por acusá-lo, e seguirá o invalidando enquanto pensar que você é superior. Há casos em que a pessoa invalidadora se desculpará e suspenderá a invalidação, até que você esteja desarmado, quando recomeça o mecanismo de invalidação.

(…) trata-se de um jogo sinistro, em que o invalidador condena você a estar errado se fizer, errado se não fizer. A estória do mestre oriental ilustra bem o caso. O mestre convida-o para um chá, e vocês se sentam à mesa. Logo que você está pronto para pegar sua xícara, o mestre tira uma vareta de madeira e diz: “Essa é sua lição de hoje. Se você pegar essa xícara de chá, eu vou bater em você com esta vareta. E se você não pegar essa xícara de chá, eu vou bater em você com esta vareta”.
As soluções apresentadas por centenas de pessoas para essa estória são bastante interessantes. Alguns ficam tão apegados ao processo de pensamento que não chegam a uma solução. Muitos pensam: “Eu tomaria o chá, já que vou apanhar de qualquer maneira”. Na verdade, as duas alternativas que de fato solucionam o problema são: 1. Tire a varinha do mestre! 2. Vá embora. Na primeira, mantém-se o relacionamento, o que pode ser desejado. Na segunda, não se apanha, mas se rompe o vínculo, o que, por vezes, será necessário.

(…)

As pessoas nascem com desejo de ouvir; mas, depois de muitos anos sendo colocadas para baixo, perdem esta aptidão ou este desejo. As pessoas também nascem desejando estar erradas vez por outra, como parte natural de quem está vivo, aprendendo; mas, depois que um invalidador aponta constantemente para o que nós fazemos de errado, podemos querer parar de estar errados sobre qualquer coisa.

Invalidadores abusam da boa vontade dos outros de ouvir, fazendo tantas críticas e cortes que a vítima se fecha e pára de ouvir completamente, para escapar do terrível sentimento de sempre parecer errada. Essa defesa permite à vítima bloquear um pouco a dor da invalidação, mas também pode fazê-la parar de ouvir qualquer outra pessoa. A vítima de um invalidador pode tentar parecer totalmente justa, honrada. Ela perde, então, seu desejo de ouvir. Ela perde seu desejo de estar errada.

(…)

Arruinar o dom de se comunicar é a pior coisa que uma pessoa pode fazer à outra.

Invalidação X Inventário Moral

A conclusão final do post é bastante cristã. Eu prefiro ficar com Nietzsche e seu otimismo ou mesmo com um Shopenhauer pessimista. O meu post Perdoar e esquecer sintetiza minha nietzschiana opinião:

(…) o não-ressentido, o nobre que tem no sentido da “aretê” como excelência a sua expressão, não perdoa mas esquece! Continua excelente na sua resposta imediata e oportunista já que não se estende muito além da situação causadora do agravo. Não importa se saiu vencedor no embate. E se a ofensa caracteriza-se como um denodo à sua honra e respeito de que se acha credor não há que perdoar o que nunca devia ter ocorrido. O que é uma afronta por si só é imperdoável. No entanto, de forma aparentemente contraditória, aquele que já é um homem não-reativo, esquece. Esquece a ofensa. Esquece sem esforço, naturalmente em seu espírito verdadeiramente magnânimo, porque qualquer esforço representa a memória mesma. É capaz de lembrar e separar com altivez o “joio do trigo” na galeria dos que lhe faltaram com o devido respeito sem mesmo lembrar dos detalhes da ofensa, o que reputa inútil pois não pode mais configurar seu agir. Procurando na biologia, e não na moral criada pelos homens, a sabedoria para a vida do homem não reativo acerta seu passo com aquilo mesmo que determina a vida. Como um animal saudável, que em vez de guardar a memória do que ocorreu quando a mão que o alimentava ou afagava de repente o atacou, guarda antes a identidade do dono da mão.

Zaratustra revela ainda o ressentido no convalescente acometido pelo homem pequeno que sempre retorna:

O CONVALESCENTE

( . . . )

O grande fastio pelo homem – era ele que me sufocava e havia rastejado para dentro de minha garganta: e aquilo que o profeta profetizou:

“Tudo é igual, nada vale a pena, o saber sufoca”.

Um longo crepúsculo coxeava diante de mim, uma tristeza mortalmente cansada, mortalmente bêbada, que falava com a boca bocejante.

“Eternamente ele retoma, o homem de que estás cansado, o homem pequeno” – assim bocejava minha tristeza e arrastava o pé e não conseguia adormecer.

Em inferno mudava-se para mim a terra dos homens, seu peito afundava, tudo o que vive se tornava para mim mofo humano e ossos e passado podre.

Meu suspirar sentava-se sobre todos os túmulos humanos e não podia mais levantar-se; meu suspirar e questionar coaxava e sufocava e roía e lamentava dia e noite:

– “Ai, o homem retoma eternamente! O homem pequeno retoma eternamente!”

Nus eu havia visto um dia a ambos, o maior dos homens e o menor dos homens: demasiado semelhantes um ao outro – demasiado humano também o maior deles!

Demasiado pequeno o maior! – esse foi meu fastio pelo homem!

Eterno retorno também do menor! – esse foi meu fastio por toda existência!

Ai, nojo! Nojo! Nojo! – Assim falava Zaratustra e suspirava e se arrepiava; pois lembrava-se de sua doença. Mas então seus animais não o deixaram falar mais.

“Não fales mais, ó convalescente!” – assim lhe responderam seus animais, mas sai para onde o mundo espera por ti igual a um jardim.

“Sai para as rosas e abelhas e revoadas de pombas!

“Mas sobretudo para os pássaros canoros: para que com eles aprendas a cantar.

“Cantar, sim, é para convalescentes; o sadio pode falar. E mesmo quando o sadio quer canções, quer outras canções do que o convalescente.”

“Ó histriões e tocadores de realejo, calai-vos!” – respondeu Zaratustra, e sorriu de seu animais.

“Como sabeis bem que consolo inventei para mim próprio em sete dias!

‘Que eu tenho de cantar outra vez esse foi o comolo que inventei para mim,. e essa convalescença: também disso quereis fazer outra vez um refrão?”

– “Não fales mais”, responderam-lhe mais uma vez seus animais:

“é preferível ainda,  convalescente, que prepares primeiro para ti uma lira, uma nova lira!

“Pois vê, ó Zaratustra! Para tuas novas canções é preciso novas liras!

”Canta e exulta, ó Zaratustra, cura com novas canções tua alma: para que suportes teu grande destino, que ainda não foi destino de nenhum homem!

“Pois teus animais bem sabem, ó Zaratustra, quem tu és e tens de te tornar: vê, tu és o mestre do eterno retorno – e esse é o teu destino!

“Que tu sejas o primeiro a ter de ensinar esse ensinamento – como não haveria esse grande destino de ser também teu maior perigo e doença!

“Vê, nós sabemos o que tu ensinas: que todas as coisas retornam eternamente, e nós próprios com elas, e que já estivemos aqui eternas vezes, e todas as coisas conosco.

“Tu ensinas que um grande ano do vir-a-ser, uma monstruosidade de grande ano: este, iguauma ampulheta, tem de se desvirar sempre de novo, para de novo transcorrer e escorrer: de modo que todos esses anos são iguais a si próprios, nas maiores coisas e também nas menores, de modo que nós proprios somos em cada grande ano, e iguais.a nós próprios, nas maiores coisas e também nas menores.

( … )

Nietzsche, Obras Incompletas

Os pensadores

O invalidador é um ressentido e nilista passivo como definido em Nietzsche e brilhantemente exposto por Roberto Machado em A Alegria e o Trágico Em Nietzsche. O invalidador é o “homem pequeno” e sempre volta e quer voltar em si mesmo e se deleita quando se espelha nos outros. Quando consegue semear seu “deserto”.

Veja o vídeo também abaixo:

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