61 anos

Meu inimagináveis 61 anos ocorrem hoje. Muitos sonhos de grandeza ainda me percorrem. Mas de uma grandeza pequena e individualística, sem coro. Saúde, aventura, vida, tudo ainda parece possível. Talvez… Mas para comemorar esta idade poderia brincar, como já fizeram comigo, e dizer que tenho 16 anos. E diante da perplexidade de quem ouve sugerir: inverta! Mas para melhor comemorar gostaria de citar alguns textos e impressões que me são caros por refletirem alguns valores interessantes:

Se as pessoas insistem que honra é mais cara que a própria vida, o que elas querem dizer é que a existência e o bem-estar são insignificantes se comparados com as opiniões dos outros. É claro que isto pode ser uma forma exagerada de exprimir a verdade prosaica de que a reputação – a opinião que os outros têm de nós – é indispensável se desejamos fazer algum progresso no mundo. Nada na vida dá ao homem tanta coragem como a renovada convicção de que os outros o olham simpaticamente. Isso significa que todos se aliam para dar-lhe a ajuda e proteção que constituem um bastião infinitamente mais vigoroso contra as incertezas da vida do que qualquer outra coisa. Os fundamentos últimos da honra residem na convicção de que o caráter moral é inalterado: uma única má-ação implica no reconhecimento de que futuras ações do mesmo gênero, sob as mesmas circunstâncias, serão igualmente ruins. Fama é algo que deve ser conquistado; honra é apenas algo que não deve ser perdido. A ausência de fama é a obscuridade que é apenas uma negação, mas a quebra da honra é uma vergonha, que é algo concreto e positivo. A honra concerne apenas àquelas qualidades que se espera encontrar em qualquer um em circunstâncias similares. A fama concerne apenas às qualidades que não se podem exigir em todos os homens. Qualquer um pode atribuir-se a honradez. A fama só pode ser atribuída por outros. Enquanto nossa honorabilidade se estende tão longe quanto o conhecimento que as pessoas têm de nós, a fama se antecipa correndo e faz-nos conhecidos entre gente que não nos conhece. Qualquer um pode considerar-se apto à honra, poucos porém podem considerar-se capacitados para a fama obtida somente diante de conquistas extraordinárias. Nenhuma diferença de classe, posição ou nascimento é tão grande quanto o abismo que separa os incontáveis milhões de criaturas que usam suas cabeças como instrumentos de seus estômagos e aqueles poucos e raros indivíduos que têm a coragem de dizer: “não!” Comparados com os respectivos períodos de vida, os homens de grande intelecto assemelham-se a altos edifícios construídos num pequeno lote de terreno – o tamanho da construção não poder ser avaliado por ninguém que esteja no terreno. Por razões análogas, a grandeza dos gênios ou heróis não pode ser estimada enquanto vivem. Passado um século, o mundo reconhece os valores, mas é tarde demais. Todo herói é um Sansão. O homem forte sucumbe à intriga e às artimanhas dos fracos e se no fim ele perde a paciência, esmaga os miúdos e se soterra. Ou então ele é como Gulliver em Liliput – um poderoso gigante dominado por um enxame de homens minúsculos. É natural que grandes mentes – os verdadeiros mestres da humanidade – menosprezem a companhia de grupos. Como o professor que não se inclina a participar da zoada dos alunos. A missão destas grandes almas é guiar seus semelhantes do mar de erros ao porto da verdade, tirá-los do abismo da vulgaridade para a luz do refinamento. Os seres de grande intelecto vivem no mundo sem contudo pertencer a ele. Desde cedo percebem uma diferença entre eles e o resto da humanidade, mas é só com o passar dos anos que compreendem suas posições: seu isolamento intelectual é uma necessidade criadora e sua vida reclusa uma imposição para salvá-la do desgaste.

Arthur Schopenhauer

E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: “Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez, e tu com ela, poeirinha da poeira!”. Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasse assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: “Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!” Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: “Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?” pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?

Nietzsche

Mas este meu gosto por citações faz com que eu me surpreenda com achados literários conectados em autores aparentemente insensíveis entre si. Em Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski, a frase do diabo “Satanas sum et nihil humani a me alienum, puto” (Sou Satanas e nada do que é humano reputo alheio a mim.) lembra imediatamente uma frase de Marx que diz Nihil humani a me alienum puto” (Nada do que é humano me é estranho). Vi há um tempo esta mesma frase no prédio do Corpo de Bombeiros próximo ao Corte do Cantagalo, no Rio. Já retiraram. Devem ter descoberto a citação. Mas “Nada do que é humano me é estranho”, parece remontar a  Terêncio, que é mais antigo. E Nietzsche, que admirava Dostoiévski e cultivava os gregos cunha o nome de um de seus livros como “Humano, demasiado humano”. Para fazer mais dessas associações precisaria de uma outra vida com bastante tempo para conectar, sinapticamente, estas referências tão ricas em significados e imaginação.

E novamente, nos karamazov o diabo fala “Pensas sempre na nossa terra atual! A terra reproduziu-se talvez 1 milhão de vezes; gelou-se, fendeu-se, desagregou-se, depois decompôs-se em seus elementos, e de novo as águas recobriram a terra. Em seguida, foi novamente um cometa, depois um sol donde saiu o globo. Esse ciclo se repete talvez uma infinidade de vezes, sob a mesma forma, até o mínimo detalhe. É mortalmente aborrecedor…” e parece que Nietzsche deve ter lido isto.

As associações são intermináveis embora a minha visão particular é que as mantém coesas sem esperança de consenso, é claro. E nem chega a me interessar. O consenso.


Ganhei os livros:

  • A rainha do castelo de ar, Stieg Larson
  • As armas secretas, Julio Cortázar
  • A caixa preta, Amós Oz

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4 Respostas para “61 anos

  1. Michele Viviane Vasconcelos

    Também aprecio muito tais reflexões. Principalmente Nietzsche, que pra mim é sempre uma nova descoberta em cada releitura.
    O parabenizo por seus 16 anos, pois, pelo conteúdo citado, e pelo blog, realmente só pode ter toda a vivacidade de um jovem que nasceu sabendo dizer não quando necessário, um jovem questionador e apreciador do saber.
    Abs!

  2. Obrigado Michele pelo gentis comentários que são como um presente de aniversário.

    E é raro, pelo menos na minha experiência, saber que uma mulher aprecia Nietzsche.

  3. Michele Viviane Vasconcelos

    Se pensarmos no comportamento e valores das mulheres e homens da época em que Nietzsche escreveu sua obra, e, em suas experiências afetivas, há de se compreender muita coisa.
    Vejo Nietzsche como o melhor caminho pra quem quer se livrar das amarras impostas pelos homens em cada época e acumuladas hoje.
    Quando Nietzsche se refere à mulher, por diversas vezes ele deixa claro que há força na sua “fragilidade”. Por outro lado, pobre do homem inconsequente, pois, há mulheres e mulheres.
    Como em “Humano, Demasiado Humano” Máscaras: “Onde quer que se procure por elas, há mulheres que não têm interior e não são senão máscaras. Deve-se lamentar o homem que se abandona a esses seres quase fantasmas, necessariamente pouco satisfatórios, mas que são precisamente capazes de despertar mais intensamente o desejo do homem: ele procura sua alma, e não cessa de procurá-la.”
    Quando leio Nietzsche, tento alcançar o Além do bem e do mal, e, pra mim, ele é pura poesia. Nesse momento, sou assexuada.
    Nietzsche é para todos. E para ninguém.
    Abs

  4. Viviane, também não acho que Nietzsche seja misógino. Ele trabalha com tipos, categorias de pessoas ou comportamentos, nas suas análises. Sempre que o vejo criticar a mulher interpreto que está comentando sobre o espírito da fraqueza que culturalmente a maioria das mulheres procura encarnar. Está falando de um tipo. O tipo “fraco”. Mas algumas mulheres, assim como alguns homens, podem encarnar o tipo “forte” que dizem sim à vida. Perdoe-me a demora. Utilius tarde quam nunquam.

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