Mar fosforescente

Como Hermes é o eterno viajante, sempre na estrada entre o aquém e o além, ele é o deus do périplo, da viagem além do último horizonte, do existir como travessia contínua. Sob sua tutela, “viver é muito perigoso” (ROSA, 1970), porque se concebe prenhe de experiências, que conduzem o homem a atravessar o derradeiro limite do humano. Périplo, perigo, experiência são palavras que atuam dentro do mesmo campo semântico, porque constelam-se ao redor do radical per –:

De fato, perigoso e experiência têm o mesmo radical: per-. De per- se formou o verbo grego perao, que significa originariamente: atravessar, e o substantivo peras: limite. O viver é perigoso porque se dá como experiência (CASTRO, 2002, 67).

Fonte: O UNIVERSO ROSIANO DAS TERCEIRAS ESTÓRIAS(PARTE 1)

Estava escuro mas a água brilhava. Eu estava surpreendido. Nunca tinha testemunhado algo assim. Esperava da noite no mar um negror de grande abismo. Imaginava também a água fria, muito fria. Esquecia que a água guarda o calor do dia. Fiquei pensando o que fazia a água brilhar assim. Algum microorganismo? Plâncton? Algas? Fui para dentro da água para usufruir da sua tepidez consoladora. O ar da noite estava mais frio. Temi um pouco ser mordido por grandes peixes. Havia tubarões por ali, eu sabia. Mas a gratificação daquela água uterina foi mais forte. A medida que a noite avançava na foz do rio me vi lentamente arrastado pela maré para fora. As luzes da cidade próxima, que eu controlava a posição para saber para onde me conduziam as águas, foram se afastando e depois conseguia ver as luzes que imaginei ser de uma cidade litorânea ao norte, a cerca de mais de 80 km. Mas provavelmente eram de um porto off-shore mais próximo. Achava que as correntezas iam me levar para o sul e eu ia acabar chegando na foz de um outro rio. Mas até lá não podia adivinhar em que estado eu estaria. Estava com muito medo de uma crise renal. Tinha tido uma há alguns dias atrás e que só passou durante uma hospitalização. Durante o período que passei no mar agarrado na prancha encima dela ou dentro da água não senti o medo que esperava ter numa situação dessas. Um demônio otimista segredava-me esperanças de que haveria parcas consequências. Arrependia-me de ter me metido numa encrenca que poderia ter sido evitada se eu não fosse tão afoito e impulsivo quando me decidi por velejar naquelas condições e horário – quando o dia estava terminando e brevemente ficaria escuro. Mas logo não pensei muito em arrependimentos. Para a frente é que eu devia pensar. Uma decisão sobre jogar fora o mastro e a vela que me atrapalhavam usar a prancha de forma a remar e dar um rumo preciso a mesma foi tomada em favor de preservar o material. Erradamente. É voz corrente, e cheia de razão, que devemos sacrificar o material impiedosamente em favor de facilitar um salvamento. Mas foi assim. E logo comecei a pensar nos meus que deviam estar preocupados comigo após a demora em voltar e diante do escurecer. Queria voltar logo não só para me livrar da situação de incerteza em que estava mas para ouvir as broncas que tomaria e ver o alívio no rosto daqueles que amava. O rosto da minha filha mais nova aparecia na minha imaginação enorme como se estivesse flutuando contra o fundo das nuvens enegrecidas pela falta de luz. Soube depois que meu primogênito tinha ido dormir cedo. Imaginei que era para aliviar o seu sofrimento e esquecer a situação de aflição até o dia seguinte. Uma forma de acelerar o tempo. Adiantar a cena de um filme ruim até a tragédia final ou uma redenção. Minha filha mais velha só se lembra da mãe saindo desarvorada, com os filhos no carro, me procurando e por notícias e indo até o iate clube. Em algum lugar desta peregrinação maldita uma mente malévola ao ser perguntada sobre ter me visto, numa tirada de humor negro, disse com sua boca uma espécie de sortilégio: “vi sim, passou cheio de caranguejos”.

As coisas estavam mais calmas agora mas logo que tudo começou a aflição tinha sido intensa. Parti para o rio mais tarde que o habitual para velejar numa prancha a vela. Devia ser um imprudente final de tarde precedendo o poente. O vento estava ótimo. E forte. Foi uma das melhores velejadas que já tinha dado. A prancha corria e a vela estava quase paralela a água com minhas costas e o corpo sustentado pelo trapézio quase rentes à água que corria célere em direção à popa. Quando vi as ondas da barra do rio em frente me apavorei porque sabia que se as atingisse cairia irremediavelmente. Não conseguiria me levantar e velejar de novo no meio da rebentação da ondas que faziam uma festa de espuma e violência por cima dos bancos de areia. A prancha era grande e inadequada para a situação. Tentei dar o bordo – mudar a direção do velejo. Já estava praticamente encima da ondas. A velocidade com que ia não deixou tempo para uma manobra. Cai mais pelo medo de cair e das tentativas de evitar a queda. O vento estava inclementemente forte. A combinação das ondas e do vento de repente me colocaram numa situação horrível. Ao cair fique debaixo da vela que me prendia debaixo da água empurrada pelo vento e pelo balanço das ondas. Prendi a respiração o mais que pude e mergulhei para nadar e sair debaixo daquela armadilha. Quando consegui subi na prancha e comecei as minhas tentativas de colocá-la para velejar de novo. Como descobri depois isto seria muito difícil pois o mastro tinha se entortado não sei como. Eu subi na prancha reiteradas vezes e em vão procurava levantar o mastro para enfunar a vela e conseguir sair dali velejando. No máximo consegui velejar um pouco mas na direção do mar alto. Logo uma onda me desequilibrava e o vento forte dificultava obter o equilíbrio. Eu aproveitava a queda para tentar mudar a direção da proa para ir em direção ao montante da foz. Fui ficando tremendamente cansado e com medo de cair longe da prancha e não conseguir nadar para perto de novo. Antes de escurecer totalmente ainda consegui ficar em pé na prancha para tentar ser visto da terra. Numa praia próxima jogavam uma pelada. Balancei os braços mas acho que o futebol tomava toda a atenção. Ademais estava já com pouca luz. Num momento como este tomamos consciência da nossa irrelevância. O mundo segue incólume diante de todas as tragédias. Principalmente onde impera a alegria. E está certo o mundo em ser assim. Tragédia é apenas uma coisa subjetiva e apenas interessa de forma aguda àquele que a vive ou imagina viver. Procurei me interessar eu mesmo e exercitar todos os meus recursos para sair dali ou soçobrar lutando. Agora parece literatura, e é, mas lá era um puro instinto, indescritível.

Mesmo sem conseguir ficar em pé na prancha tentei usar a vela e um pouco o vento que entrava por baixo dela. Posicionei um pouco a vela, de dentro da água mesmo, para ver se conseguia progredir em direção canal que passava perto de uma praia do lado contrário de onde tinha havido o futebol. Este canal era usado como entrada e saída dos rebocadores e barcos que queriam vencer a barra do rio Sergipe. Uma das barras mais difíceis e, que por isso, engendrou um prático, Zé Peixe, sui generis. Era filho da necessidade o seu hábito de nadar do navio até à praia. Se a maré era contra o seu nado sabiamente trepava em uma bóia e esperava. Com isso conhecia bem o movimento dos bancos de areia e da correnteza. Quando fizeram uma reportagem com ele, não o compreenderam. Consideraram no um rústico e nem viram a beleza do seu salto, um velho já, do navio para o oceano – os práticos costumam ir e voltar de barco do navio que tem que pilotar. Uma ignorância citadina e preconceituosa contaminada de cosmopolitismo via com olhos míopes a ação de um dos poucos heróis que restavam na nossa maquinal e insossa vivência civilizada de cultura vicária e indigente. Mas não parecia estar adiantando muito a minha manobra com a vela. As luzes continuavam se afastando. Lentamente. Esperei com paciência e o quadro se reverteu. A maré agora enchia. Comecei a me aproximar e com grande alegria senti o banco de areia que ladeia o canal esbarrar nas minhas nádegas – eu permanecia dentro da água o tempo todo. Fiquei em pé com água um pouco acima dos tornozelos. Sentei na prancha e depois, deitado, segurei a retranca posicionando a vela para velejar em popa rasa. Mais adiante consegui até ficar em pé e velejar com o mastro torto mesmo e , assim, consegui chegar na praia do outro lado do canal. Antes disto vi um carro acendendo os faróis em direção ao mar por um tempo um pouco longo. Alguém devia estar me procurando, pensei. Se fosse um carro manobrando o facho de luz não teria ficado parado tanto tempo. Quando cheguei na praia procurei um orelhão para telefonar a cobrar para casa. Passei também num bar e pedi um grogue de 51. Falei que pagava depois mas o dono do bar dispensou. Chegaram então a irmã da minha mulher e o marido para me buscar. Moravam no Rio mas estavam de férias em Aracaju ou então foi no período que moraram lá. Eram eles que tinham acendido os faróis do carro para ver se viam alguma coisa no mar. Colocando o windsurf no rack do carro inspecionei as avarias. O mastro estava entortado e a bolina quebrada. A irmã de minha esposa perguntou num tom jocoso: “E agora, vai continuar velejando?”. “Assim que consertar o windsurf”, respondi.

Tudo isto ocorreu entre 1990 e 1996. Parece que foi num 31 de março.

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